Arquivo de agosto \29\UTC 2010

all or nothing

Era a primeira vez que eu jogava e ainda estava meio perdida. Minha família havia acabado de me ensinar por cima alguns detalhes – como toda boa família espanhola, com fala rápida em castelhano coloquial, regado a uns bons tragos, de bebida e cigarro. Então houve a chance de apostar tudo o que eu tinha, e eu o fiz. E ganhei. Meu irmão ficou orgulhoso, a amiga da minha prima riu e disse ser “sorte de principiante”. Houve outras partidas depois, eu perdi também, e voltei a ganhar e a perder. Muitas outras vezes.

Mas, no jogo, tudo que ficou entre as perdas e ganhos foram as fichas de pôquer e as histórias para contar. Na vida, um pouco mais, um pouco menos. No último mês, em várias situações me deparei com esse tipo de escolha. E percebi que, na maioria dos casos, eu não tinha nada a perder, tipo Bob Dylan, when-you-got-nothing-you-got-nothing-to-lose. Ou: tudo o que iria para o ralo eram convenções baratas acumuladas em longos anos de estrada, valores e crenças que já não faziam mais sentido e que, ao invés de ajudar, estavam atrapalhando meu crescimento, meu next step. Então apostei tudo.

Sempre fui caretinha, cdf e pontual. Tirava as notas mais altas, não atrasava para compromissos, não colava na prova. E nunca, nunca fui de arriscar grandes coisas sem saber onde estava pisando. Meu irmão ficou surpreso com minha nova persona, mas devo confessar que a pessoa mais espantada nessa história toda era eu: arriscando em diferentes situações, sabendo que, no fundo, eu não tinha nada a perder, me deu uma sensação de liberdade nunca antes experimentada, de poder fazer tudo que me desse na telha, sem pensar nas consequências.

No fim, não saí mais rica de dinheiro, mas sim das tais experiências de vida, muitas, que ainda estou digerindo e trazendo para o meu cotidiano. E aprendi a fazer “poker face” e a blefar também, porque toda aposta vale a pena quando o que está em jogo é a felicidade. Mesmo que ela venha em fichas de plástico de 100€ made in china.

tomorrow never knows

(…)

– e agora eu tenho que pensar que aimeudeus o que eu vou fazer da minha vida daqui pra frente, arrumar um outro emprego, pagar dívidas, juntar grana de novo, procurar um apê, casar ou comprar uma bicicleta, socorro!…

– mas Ná, olha que excitante! você não sabe o que vai acontecer amanhã! é tudo novo e inesperado, surpresa, tudo pode acontecer, começar… enquanto eu tenho que estar no escritório todos os dias às 8h para atender clientes chatos reclamando de produtos, sua nova vida está apenas começando. 

***

adoro como minha amiga sempre muda minha perspectiva míope e me enche de esperança de novas possibilidades, <3

depois de paris

Aos 12 anos de idade: assisti pela primeira vez ao remake de “Sabrina” (com Harrison Ford), quando meu pai tinha a locadora. A moça tímida e um tanto quanto desajeitada, filha do caseiro de uma grande mansão e apaixonada pelo filho milionário do dono, vai estudar fotografia em Paris por um ano. Tem um caso com um parisiense e volta irreconhecível: toda mudada, culta, linda, elegante. E conquista o partidão. Voilà.

Aos 17: eu era fã de “Dawson’s Creek” e meus amigos me achavam parecida com Joey Potter, pela timidez e o jeito de mexer no cabelo (Katie Holmes, antes de ser Sra. Cruise-mãe-da-baby-Suri). Eu me identificava com sua vontade de deixar sua cidade e ganhar o mundo. No penúltimo episódio da série, alguns anos se passaram e ela aparece em alguma boulangerie em Paris, comprando baguetes em francês, toda linda de trench roxo e mirando a tour eiffel. Jamais esqueci esta cena, e a vontade que eu tinha de vivê-la eu mesma.

Aos 22: primeira vez que assisti “Funny Face”. Audrey (a primeira Sabrina!) é a moça culta que trabalha em uma biblioteca e nega sua beleza em nome da vida intelectualóide. Até ir para Paris e virar o rosto de uma revista de moda, de patinho feio a cisne com apenas um “oh lá lá”. Um musical fofito e um dos meus chick flicks favoritos, especialmente a parte em que eles cantam “Bonjour, Paris!”.

Acho que deu para perceber que Paris sempre habitou meu imaginário pessoal como o lugar das grandes mudanças, né? Era como se, no fundo, eu sempre tivesse achado que Paris era o lugar para moças desabrocharem. Por isso resolvi ir na primavera.

***

Mas, como dizem que quanto maior a expectativa, maiores as chances de frustração, nem tudo foi exatamente como o planejado, com as personagens com as quais eu sonhava. No fim acabei mesmo como a Carrie, sofrendo de saudade das minhas amigas e família, com muito tempo livre em mãos em uma cidade por vezes dura e difícil.

Porém, o destino sempre nos surpreende, e apesar de não ter tido um grand finale com Mr. Big, minha história também teve direito a um príncipe de última hora me resgatando no final e tudo, tipo filme mesmo, :)

Por isso não me canso de dizer que o mais importante é ter o coração aberto e olhos atentos ao redor. Você nunca sabe o que te espera just around the corner.

Bonjour, nova Nathalia, seja bem-vinda!

 

meu lugar

“(…) tudo estava igual
como era antes
quase nada se modificou
acho que só eu mesmo mudei
e voltei!

eu voltei!
agora pra ficar
porque aqui,
aqui é meu lugar
eu voltei pr’as coisas
que eu deixei
eu voltei!…”

***

– nossa pai, a casa parece tão menor do que quando eu parti, e faz apenas quatro meses… acho que fui eu que cresci.

– é, acho que foi.

 


i got sunshine, in a bag

Estou vivendo o mês mais intenso da minha vida, em tantos sentidos. Tudo acontece de forma tão superlativa e exagerada, ando à flor da pele, querendo aproveitar cada segundo, dormindo muito pouco, exausta fisicamente mas tão, tão leve.

Passei por uma tempestade absurda nos meus últimos dias na Itália. De chuva mesmo, não de tristeza, como em outros tempos. Mas foi na estrada de volta que, após toda a aguaceira, surgiu o arco-íris mais lindo que já vi. Como em outra volta pra casa, como se os arcos multicoloridos gostassem de aparecer para me desejar sorte, dizer que vai ficar tudo bem.

Carrego meu próprio sol na bolsa e com ele não tem tempo ruim, não. Porque ele prefere um desafio de transformar todo um mar numa profusão de cores e poesia. Eu também.

step outside the summertime’s in bloom

“Acho espantoso viver, acumular memórias, afetos.”
(Caio Fernando Abreu)

Tou numa fase tão tão feliz e plena. Chega a dar frio na barriga, tipo dois passos antes de pular, sem olhar antes para ver se tem rede de proteção. Embora eu não ligue se não tiver – certos tombos nos ensinam tanto nesta vida, né? Mas com certeza a melhor parte é levantar: sacudir a poeira e dar a volta por cima sempre foi a minha parte favorita da história.

there she goes, there she goes again

– Eu pareço um cão perseguindo o próprio rabo – eu passei os últimos oito anos da minha vida atrás disso, pulando de país em país, seguindo essa angústia…

– Eu também… Desde que me conheço por gente, meu sonho era “morar fora”. Eu tive que cruzar um oceano para curar um coração partido. E, assim como você, pela primeira vez estou voltando para casa por vontade própria, porque eu escolhi ser assim, porque minha missão foi cumprida.

– Mas a questão é que você não precisava ter cruzado o Atlântico, como eu não precisava ter ido para Berlim ou para todos esses outros lugares… as viagens catalisam a metamorfose e aceleram todo o processo, mas nosso rabo estava lá o tempo todo.

(conversa com big sis em reencontro mais-que-querido na segunda, aguardado há tempos)

***

Londres é meu ponto de parada, de abastecer as energias, rever amigos queridos, correr maluca contra o relógio para fazer tudo que se quer nesta cidade que, para mim, representa tudo que precisa mudar para continuar igual.

Amanhã embarco numa viagem de grandes descobertas, e nas próximas duas semanas todos os meus destinos têm alguém me esperando. Tipo marinheiro, “um amor em cada porto”. Mal posso esperar, :)


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