Archive for the 'cotidiano' Category

amores fragmentados

Uma paixão-relâmpago que aconteceu pontualmente em alguns momentos do ano passado retomada com vontade num sábado embriagado, e que se desenrolou exatamente como era para ter sido: sem ser. Beijos trocados com muito afeto e pouca afinidade numa noite fria de quarta-feira em que saí para comprar chá, e a mensagem com declaração de amor que eu nunca mais respondi – eu não sentia o mesmo. Um romance-que-poderia-ter-sido-e-não-foi há mais de dez anos me esperando por acaso no terminal do desembarque do aeroporto do outro lado do atlântico. Tanto aconteceu na minha vida desde aquela época, e na dele. E mesmo assim nos reconectamos, e trocamos impressões sobre diversos assuntos enquanto caminhávamos entre as obras do museu do prado, ou divagando pelas ruas barcelonenses num domingo à noite procurando a melhor pizza da cidade enquanto acontecia uma final de futebol na tevê. E é naquela qualquer coisa de triste dos olhos dele que se encontraram com o que havia de qualquer coisa de triste nos meus que nos sentimos à vontade para desabafar nossas vulnerabilidades; e eu passei um bom tempo das semanas seguintes pensando nas voltas que o mundo dá e como, inesperadamente, podemos reencontrar um pedaço nosso que se partiu há tanto tempo. No meu celular piscam mensagens de amores líquidos novos e antigos e aquela angústia que não cessa num vazio que não cansa. Eu ainda não sei recusar um convite porque tenho uma vontade que acredito ser genuína de fazer as coisas, mas já deveria ter aprendido que não é – já que sempre desmarco na última hora e deixo as pessoas ao redor desapontadas. Nota mental: eu deveria ser mais adulta. Machuco os outros sem me dar conta, e numa terça à noite chuvosa de junho eu cancelei três programas porque preferi ficar em casa sozinha lendo. Não tem comida para o jantar. 

aeronaves seguem pousando sem você desembarcar

Está fazendo um ano desde aquele dia de abril em que eu tive uma reunião perto da sua casa, e nós vivemos uma tarde de amor apaixonado como a gente acha que só existem nos filmes – você, meu romance da vida real. Era uma segunda quente e mesmo assim você me serviu café, e sentou no sofá da sala com seu violão, caetaneando o que há de bom. Eu fui de lá direto para a aula de balé e depois não nos desgrudamos mais até eu me despedir de você no aeroporto, na ala internacional cheia de espaço e mesmo assim tão pequena para um abraço que quer guardar o mundo e parar o tempo.

Isso quer dizer que daqui a algumas semanas, vai completar um ano desde que nos vimos pela última vez. Desde que você partiu, deixando o coração pleno e o apartamento vazio. Mas, neste tempo que se passou, o silêncio, antes ensurdecedor, se tornou acolhedor. Mantenho a postura altiva como alguém que sempre tem certeza de suas decisões, mesmo quando não tem. Continuo comprando flores e assando bolos e fazendo chá, aquecendo os espaços todos agora já, aos poucos, sendo novamente ocupados.

Se esta história tivesse sido vivida há cem anos e não um, de tempos em tempos chegaria uma carta sua amarelada escrita à mão, na sua letra firme e apertadinha; com novidades de outras terras, cheiro de leveza e barulho de sorriso. Mas hoje o carteiro só bate aqui para deixar encomendas.

there will never be another you

Eu estava voltando de mais uma viagem inspiradora, o coração cheio de sonhos e o céu cheio de azul. Era julho. No banco de trás do carro, encarando as montanhas que passavam borradas a 100km por hora. Então tocou aquela música. A música que você colocou para tocar no nosso terceiro encontro, enquanto eu cozinhava nosso jantar. Que me deixou tão surpresa – após bater a cabeça por tanto tempo com tantos amores errados e líquidos e reprimidos; como poderia alguém assim, sem a menor cerimônia, colocar para tocar um “estou tão apaixonado por você, que tudo o que você quiser fazer, está bom para mim. vamos ficar juntos“? E essa música então apareceu, do nada, num momento aleatório de uma viagem de carro, em algum quilômetro perdido no meio da Dutra. E eu comecei a chorar. Sem nem pensar, sem tentar controlar. Eu comecei a chorar porque pensei em você e você não está mais aqui. Eu comecei a chorar porque quando você apareceu, você mudou tudo. Porque eu penso no seu sorriso, nos seus olhos cor de mar-verde, em como eu me sentia ao seu lado. E você não está mais aqui. Foi a primeira vez que chorei desde que você partiu.

(…)

Algumas horas mais tarde, peguei o fusca para voltar para minha casa. Era primeira vez que eu dirigia uma longa distância à noite em muito, muito tempo. Porque por anos eu tive medo de dirigir e o fazia o mínimo possível. E eu estava lá, na Radial Leste, admirando meu skyline favorito da cidade com suas mil luzes acesas, a torre da Gazeta. Pensando em como minha confiança no volante mudou drasticamente em apenas algumas semanas, sem saber ao certo porquê. E me deu um estalo: foi você. Você que chegou dizendo o quanto eu era fantástica, que achava tudo no meu mundo incrível, que me incentivou a ir atrás dos meus sonhos. Eu nunca havia visto isso tão claramente antes, mas quando eu digo que foi você que mudou tudo, eu quis dizer: tudo. Foi por sua causa que eu tirei o carro da garagem. Que me arrisquei num trabalho com um amigo. Que lancei um projeto pessoal. Você, você, você. Foi por causa da sua influência, da sua maneira de enxergar as coisas. Em algumas semanas, você virou meu mundo de ponta-cabeça – e nem estou falando apenas do romance: estou falando também de olhar o mundo de cabeça pra baixo mesmo, como a carta do enforcado no tarô, de mudar a perspectiva de tudo. Foi seu amor acolhedor, generoso e gentil que fez o que os amores fazem de mais incrível: nos transformar em pessoas melhores. Que sorte a minha.

dois mil e dezesseis, sete

2016. O ano de abalos sísmicos e grandes mudanças – internas, externas no meu universo particular, externas a nível nacional e global. Um ano em que eu levei muitos tombos, mas aprendi que é quando a gente cai que conseguimos mudar a perspectiva e ver o mundo de outro ângulo. Foi o ano em que a vida deu várias invertidas, eu virei do avesso e descobri que poderia haver outros lados certos. Ano de aprender a respeitar o tempo das coisas, de tentar entender meu papel no mundo, de fortalecer o círculo de afetos, aprofundar conexões, estabelecer novos vínculos e ler os sinais do universo. No meu mundo, tudo pode ser mágica e a esperança é sempre equilibrista. Outono veio com renovação, inverno com gestação, primavera com flor em botão e, agora, chuva de verão. Compreendendo que a gente está aonde deveria estar, que o presente é o único que nos pertence e que temos mil e uma possibilidades o tempo todo para fazer melhor e diferente.

Para 2017, eu espero cair menos – mas, se cair, continuar a entender que sempre é possível levantar, me reerguer e aprender, apreender. Que as surpresas sejam boas, os sorrisos sejam sinceros, o amor seja recíproco e os abraços, apertados. Que a gente renove as esperanças e tenha ainda mais força para mudar, crescer, agregar, florescer. Mantendo a ternura mesmo ao endurecer. Estou confiante quanto a 2017 e espero que ele venha bem lindo e leve, já que a vida é tão breve. Um sopro de novos começos e aguardadas estreias. Um amanhã cheio de futuro.

 

como um sol no quintal

Nosso primeiro encontro não foi nem por acaso nem por propósito – foi por uma casualidade profissional que nossas vidas se cruzaram e desde o começo você foi interessado e eu fui aberta e uma conexão foi criada de alguma maneira, e lá ficamos. Parecia confortável aquele lugar, aquela situação. Seu sorriso esfuziante e sua maneira animada de encarar o mundo e seu desdobrar de possibilidades. Praticamente desde o primeiro momento nós escolhemos um canto que se parecia muito com o qual um casal ocuparia, e o ocupamos. Nosso balé de representar papéis como se já nos conhecêssemos há tempos estava funcionando bem para ambas as partes envolvidas e lá nos repousamos. Na discussão de grupo pós-expediente. Na mesa da taberna com a taça de vinho e o casal francês de meia idade que se sentou conosco. Você, tão francês ali. Me mostrando no mapa do celular onde mora em Paris, e a tecnologia que hoje em dia nos permite tantas coisas me permitindo te mostrar a casa onde cresci e a janela do quarto onde hoje durmo – a porta da varanda estava aberta, naquele momento eternizado pelo google street view. Gosto de janelas abertas.

Daí em diante, os poucos dias que vieram foram uma sucessão de momentos muito rápidos de cumplicidade e planos feitos. De morar numa casinha em Annecy com vista pro lago. De passar o ano-novo em São Paulo. De ambos nos mudarmos para Lisboa no ano que vem e escolhermos um predinho desses sem elevador que tenha janelas grandes e sol batendo na sala pelas manhãs. Você, uma das pessoas mais fantásticas que já conheci, que me deixou encantada naquele restaurante mexicano quando me falava das suas ideias tão diferentes de tudo que já ouvi com a maior naturalidade do mundo, como alguém contando que vai trocar a marca de amaciante de roupas; como se fosse assim tão normal as pessoas pensarem diferente do que todo mundo nos diz para pensar igual. Você, que veio de uma história de vida difícil e hoje é bem-sucedido mas não perde o brilho no olho, como se fosse uma criança que acabou de descobrir que estão distribuindo balas na cantina. Você “entrou em mim como um sol no quintal“, como naquela música cafona de amor (todas as músicas de amor são cafonas). Me dando de presente o caderninho com a frase de Pessoa sobre ter em mim “todos os sonhos do mundo“. Me levando para almoçar no meio do expediente, para dar um respiro da bagunça. Me trazendo waffles com chocolate no meio de um dia tão tumultuado e exaustivo de trabalho, para recarregar minhas energias. Você, ali piscando no meu whatsapp com mensagens doces, deixando meu coração quentinho.

Na nossa última noite na mesma cidade, fomos jantar com meus amigos. E no meio de uma mesa com outras pessoas e todos conversando amenidades, nossos anfitriões acolhedores nos explicando as comidas portuguesas com tanto carinho; nossas mãos estavam dadas embaixo da mesa. Nossas mãos se procurando atrapalhadas e se tocando. Enquanto você conversava com uma pessoa ao seu lado, e eu conversava com outra ao meu lado, nossas mãos estavam juntas do mesmo lado e estávamos conectados sem dizer palavra alguma um ao outro. Era isso que importava – a gente estava juntos, de alguma forma.

Do que se seguiu depois, pouco lembro ou quero lembrar. Sei que teve festa, duas novas amigas romenas, música alta ao vivo, drinques com fogo, um casal australiano que fez com que eu me sentisse extremamente querida e acolhida, você me dizendo o quanto era frustrante morarmos longe, meu álbum favorito do Michael Jackson tocando num casarão antigo cheio de gente, nossa despedida na praça de Camões em frente à estátua de Fernando Pessoa e eu chorando copiosamente porque sempre estou me despedindo das pessoas que eu gosto e você não quis que isso fosse especial como poderia ter sido, por medo de se machucar. O medo, sempre ele. Você falou que nós é que “fazemos as coisas acontecerem” e que tem certeza de que a gente vai se ver de novo; e meu último abraço foi contido porque eu sei que não vai. No que você puxou meus braços ali encolhidos, e nos abraçamos de verdade, e eu não quis mais olhar para trás. Eu não olhei. Cinco e meia da manhã e eu subindo a rua da Misericórdia aos prantos. Rua.da.misericórdia. Não consegui não achar graça dessa ironia, mesmo com o coração em pedaços, porque no livro que ganhei de presente da minha amiga portuguesa Eça de Queirós dizia que a vida “pode às vezes ter o capricho de ser mais romanesca do que pede a verossimilhança artística“. 

Uma semana depois, antes de aterrissar em Paris, do alto eu pude ver a torre Eiffel iluminada e o Sena cortando a cidade. Pensando que você deveria estar lá, em algum lugar. E a gente não ia se encontrar. 

‘que dia mais feliz!’

Hoje foi um dia feliz porque eu aproveitei que caiu a energia em casa para fazer um serviço que não requeria internet e consertei sozinha o sifão do tanque, após uma aula de hidráulica básica que tive num grupo feminino. Hoje foi um dia feliz porque, apesar de ter tirado o dia para trabalhar de casa, eu usei o fato de que fiquei sem luz para me juntar a uma amiga em seu escritório, e aproveitamos o dia juntas para colocar o papo em dia no almoço e matarmos a saudade de quando éramos inseparáveis colegas de equipe. Hoje foi um dia feliz porque, apesar de ter feito alguns trajetos a pé, choveu apenas num horário em que eu estava abrigada. Hoje foi um dia feliz porque eu consegui fazer uma sessão de drenagem linfática numa semana pré-menstrual em que estou super inchada e dolorida. Hoje foi um dia feliz porque, após várias horas tentando, no fim da tarde eu consegui comprar os ingressos que queria para levar minha mãe ao cinema francês no domingo. Hoje foi um dia feliz porque quando eu voltei pra casa à noite, já tinha luz; e eu pude testar a máquina de lavar que eu mesma comprei após oito meses lavando minhas roupas na casa dos meus pais. Hoje foi um dia feliz porque eu fucei os cacarecos de cozinha que uma amiga me deu de presente quando saí da casa dos meus pais e ficavam relegados numa gaveta porque eu nunca tinha usado e encontrei o cortador de legumes que eu estava pensando em comprar. E foi neste exato momento, quando eu o testei e ele cortou a abobrinha exatamente do jeito que eu queria, que eu quase chorei de alegria, e saí pulando pela casa gritando “que dia mais feliz!” 

Hoje foi um dia feliz porque no meio de tantos encontros e desencontros e planos frustrados dos últimos meses e de 2016 todinho, eu consegui transformar coisas que deram errado num motivo para sorrir. Um sifão quebrado, um dia sem luz, uma máquina inutilizada, um utensílio esquecido, corpo inchado, tarde de chuva. Hoje foi um dia feliz porque eu me dei conta, de forma profunda e libertadora, que cabe a mim ressignificar tudo o que me acontece. E ainda tenho uma noite todinha para comer um jantarzinho feito com cuidado, assistir comédia romântica e tomar banho quentinho. Que dia mais feliz!

esperando o melhor, mas sempre preparada para o pior

Assando uma torta de limão quase de madrugada, e o cheiro de manteiga da massa tomando conta da casa. No quinto dia de outubro em que há três anos eu realizava o sonho de me mudar para este apartamento, este ano foi o dia em que eu tive que pedir dinheiro emprestado, após ter uma crise de choro porque me dei conta de que a empresa pra qual eu presto serviço freelancer não tem previsão de me pagar os dois meses que estão atrasados e o que eu tinha disponível não seria mais suficiente para pagar o aluguel e a fatura do cartão de crédito. Em que eu fico questionando se devo mesmo viajar para reencontrar um amor antigo porque a recepção dele não foi tão calorosa quanto eu esperava; após ter tirado o tarô em que saíram as cartas mais auspiciosas possíveis me dizendo que sim, esse era o caminho, “união bem-sucedida” e “recuperando a fé no amor”.

Eu acreditei em tudo. Eu sempre acredito em tudo. Eu sempre serei a pessoa que vai pegar o avião, tomar o ônibus, entrar no trem, para reencontrar alguém. Talvez eu tenha crescido assistindo comédias românticas além da conta e acredite nesse tipo de gesto apaixonado na vida real; portanto eu sempre vou dar essa chance ao amor, porque jamais quero ser uma Nathalia mais velha amargurada e arrependida por ‘não ter tentado’. Mas é essa mesma crença otimista que vezenquando me desestrutura por reconhecer que doo muito e muitas vezes recebo apenas migalhas. E o que retumba na minha cabeça em looping é uma frase que vi num seriado, sobre como a gente tem que “esperar o melhor, mas se preparar para o pior“. Então eu estou sim esperando que as previsões do tarô se confirmem e o melhor aconteça e esse romance interrompido tenha sua merecida segunda chance; mas, ao mesmo tempo, cá estou eu, pensando onde ficarei e o que farei com três dias numa cidade que nunca tive vontade de conhecer, que fala uma língua sobre a qual não tenho domínio algum e ainda num frio paralisante, no início do inverno alemão. Ser sonhadora às vezes é tão cansativo.


Blog Stats

  • 162,068 hits