Archive for the 'cotidiano' Category

baby, há quanto tempo

Bem no dia em que eu soube que teria uma viagem a trabalho para a mesma cidade aonde você mora hoje, na rádio que eu ouvia displicentemente tocou sua música brasileira favorita. Nos meus ouvidos, na hora da mensagem. E depois a música que eu amo e que fala de uma garota bonita, que eu sempre sonhei que alguém cantaria para mim e toca no final de um filme muito amado. No fim a viagem não aconteceu, e tudo bem. Já me acostumei a remendar esse coração tão partido de expectativas frustradas.

Você, que sempre me dizia o quanto eu era incrível. Seus olhos de mar verde. Sem querer achei suas fotos outro dia no celular, enquanto procurava outra coisa, e meu coração se encheu de amor. Depois que você fui embora eu tive que aprender a me achar incrível sozinha. E a cada dia é uma nova descoberta, sem ter você para compartilhar meu novo autoamor encontrado ou um amor alheio oferecido e recusado. É preciso aceitar os outros amores, eu penso. Já que você tentava me ensinar, sem nada dizer, a ser mais aberta e mais leve, mais presente no mundo. A não temer minha força e minha fragilidade.

Num tal feriado de ação de graças, eu agradeço você um dia ter entrado na minha vida para trocar tudo de lugar. Há três dias chove sem parar. 

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um mês com mais semanas do que dias

Descobri o peso de ser adulta num ano em que nos encontros com meus amigos, as conversas não são mais sobre o atual paquera, o novo filme do woody allen, a próxima viagem, o livro do saramago ou a exposição do tomie ohtake: agora os assuntos giram em torno de relacionamentos abusivos nos casais tão próximos, divórcio por conta de problemas financeiros, dinheiro guardado para fazer fertilização in vitro, diagnósticos de câncer na família, abortos espontâneos, desemprego e empréstimos no banco, acidentes de carro. Eu não sei como chegamos até aqui, só sei que tudo isso me deixa sem ar muitas vezes, como se tivesse carregando o mundo em minha costas e uma mão na boca me impedisse de falar ou respirar. Não queria que fosse assim.

Tem uma esquina do mundo onde os sorrisos e choros se encontram e ela agora é a quina da minha cama num domingo cinzento da 42a semana de julho. Eu não procuro os amores líquidos e eles não mais me encontram. Me sinto só. Assisto a histórias sobre mil coisas e mergulho na compreensão de um mundo que não era meu até ontem mas agora é, um pouco.

E, numa noite de domingo cansado, poder sair para jantar com a minha família para comemorar uma história que começou há 42 anos, ter um flerte correspondido, comer mousse de chocolate em colheradas fartas sem contar calorias e me permitir rir de forma sincera pela primeira vez em muitos dias é como abrir uma janela de frente pro mar, e poder enfim respirar.

Pena que hoje já é segunda-feira, de novo. E ainda é julho.

amores fragmentados

Uma paixão-relâmpago que aconteceu pontualmente em alguns momentos do ano passado retomada com vontade num sábado embriagado, e que se desenrolou exatamente como era para ter sido: sem ser. Beijos trocados com muito afeto e pouca afinidade numa noite fria de quarta-feira em que saí para comprar chá, e a mensagem com declaração de amor que eu nunca mais respondi – eu não sentia o mesmo. Um romance-que-poderia-ter-sido-e-não-foi há mais de dez anos me esperando por acaso no terminal do desembarque do aeroporto do outro lado do atlântico. Tanto aconteceu na minha vida desde aquela época, e na dele. E mesmo assim nos reconectamos, e trocamos impressões sobre diversos assuntos enquanto caminhávamos entre as obras do museu do prado, ou divagando pelas ruas barcelonenses num domingo à noite procurando a melhor pizza da cidade enquanto acontecia uma final de futebol na tevê. E é naquela qualquer coisa de triste dos olhos dele que se encontraram com o que havia de qualquer coisa de triste nos meus que nos sentimos à vontade para desabafar nossas vulnerabilidades; e eu passei um bom tempo das semanas seguintes pensando nas voltas que o mundo dá e como, inesperadamente, podemos reencontrar um pedaço nosso que se partiu há tanto tempo. No meu celular piscam mensagens de amores líquidos novos e antigos e aquela angústia que não cessa num vazio que não cansa. Eu ainda não sei recusar um convite porque tenho uma vontade que acredito ser genuína de fazer as coisas, mas já deveria ter aprendido que não é – já que sempre desmarco na última hora e deixo as pessoas ao redor desapontadas. Nota mental: eu deveria ser mais adulta. Machuco os outros sem me dar conta, e numa terça à noite chuvosa de junho eu cancelei três programas porque preferi ficar em casa sozinha lendo. Não tem comida para o jantar. 

aeronaves seguem pousando sem você desembarcar

Está fazendo um ano desde aquele dia de abril em que eu tive uma reunião perto da sua casa, e nós vivemos uma tarde de amor apaixonado como a gente acha que só existem nos filmes – você, meu romance da vida real. Era uma segunda quente e mesmo assim você me serviu café, e sentou no sofá da sala com seu violão, caetaneando o que há de bom. Eu fui de lá direto para a aula de balé e depois não nos desgrudamos mais até eu me despedir de você no aeroporto, na ala internacional cheia de espaço e mesmo assim tão pequena para um abraço que quer guardar o mundo e parar o tempo.

Isso quer dizer que daqui a algumas semanas, vai completar um ano desde que nos vimos pela última vez. Desde que você partiu, deixando o coração pleno e o apartamento vazio. Mas, neste tempo que se passou, o silêncio, antes ensurdecedor, se tornou acolhedor. Mantenho a postura altiva como alguém que sempre tem certeza de suas decisões, mesmo quando não tem. Continuo comprando flores e assando bolos e fazendo chá, aquecendo os espaços todos agora já, aos poucos, sendo novamente ocupados.

Se esta história tivesse sido vivida há cem anos e não um, de tempos em tempos chegaria uma carta sua amarelada escrita à mão, na sua letra firme e apertadinha; com novidades de outras terras, cheiro de leveza e barulho de sorriso. Mas hoje o carteiro só bate aqui para deixar encomendas.

there will never be another you

Eu estava voltando de mais uma viagem inspiradora, o coração cheio de sonhos e o céu cheio de azul. Era julho. No banco de trás do carro, encarando as montanhas que passavam borradas a 100km por hora. Então tocou aquela música. A música que você colocou para tocar no nosso terceiro encontro, enquanto eu cozinhava nosso jantar. Que me deixou tão surpresa – após bater a cabeça por tanto tempo com tantos amores errados e líquidos e reprimidos; como poderia alguém assim, sem a menor cerimônia, colocar para tocar um “estou tão apaixonado por você, que tudo o que você quiser fazer, está bom para mim. vamos ficar juntos“? E essa música então apareceu, do nada, num momento aleatório de uma viagem de carro, em algum quilômetro perdido no meio da Dutra. E eu comecei a chorar. Sem nem pensar, sem tentar controlar. Eu comecei a chorar porque pensei em você e você não está mais aqui. Eu comecei a chorar porque quando você apareceu, você mudou tudo. Porque eu penso no seu sorriso, nos seus olhos cor de mar-verde, em como eu me sentia ao seu lado. E você não está mais aqui. Foi a primeira vez que chorei desde que você partiu.

(…)

Algumas horas mais tarde, peguei o fusca para voltar para minha casa. Era primeira vez que eu dirigia uma longa distância à noite em muito, muito tempo. Porque por anos eu tive medo de dirigir e o fazia o mínimo possível. E eu estava lá, na Radial Leste, admirando meu skyline favorito da cidade com suas mil luzes acesas, a torre da Gazeta. Pensando em como minha confiança no volante mudou drasticamente em apenas algumas semanas, sem saber ao certo porquê. E me deu um estalo: foi você. Você que chegou dizendo o quanto eu era fantástica, que achava tudo no meu mundo incrível, que me incentivou a ir atrás dos meus sonhos. Eu nunca havia visto isso tão claramente antes, mas quando eu digo que foi você que mudou tudo, eu quis dizer: tudo. Foi por sua causa que eu tirei o carro da garagem. Que me arrisquei num trabalho com um amigo. Que lancei um projeto pessoal. Você, você, você. Foi por causa da sua influência, da sua maneira de enxergar as coisas. Em algumas semanas, você virou meu mundo de ponta-cabeça – e nem estou falando apenas do romance: estou falando também de olhar o mundo de cabeça pra baixo mesmo, como a carta do enforcado no tarô, de mudar a perspectiva de tudo. Foi seu amor acolhedor, generoso e gentil que fez o que os amores fazem de mais incrível: nos transformar em pessoas melhores. Que sorte a minha.

dois mil e dezesseis, sete

2016. O ano de abalos sísmicos e grandes mudanças – internas, externas no meu universo particular, externas a nível nacional e global. Um ano em que eu levei muitos tombos, mas aprendi que é quando a gente cai que conseguimos mudar a perspectiva e ver o mundo de outro ângulo. Foi o ano em que a vida deu várias invertidas, eu virei do avesso e descobri que poderia haver outros lados certos. Ano de aprender a respeitar o tempo das coisas, de tentar entender meu papel no mundo, de fortalecer o círculo de afetos, aprofundar conexões, estabelecer novos vínculos e ler os sinais do universo. No meu mundo, tudo pode ser mágica e a esperança é sempre equilibrista. Outono veio com renovação, inverno com gestação, primavera com flor em botão e, agora, chuva de verão. Compreendendo que a gente está aonde deveria estar, que o presente é o único que nos pertence e que temos mil e uma possibilidades o tempo todo para fazer melhor e diferente.

Para 2017, eu espero cair menos – mas, se cair, continuar a entender que sempre é possível levantar, me reerguer e aprender, apreender. Que as surpresas sejam boas, os sorrisos sejam sinceros, o amor seja recíproco e os abraços, apertados. Que a gente renove as esperanças e tenha ainda mais força para mudar, crescer, agregar, florescer. Mantendo a ternura mesmo ao endurecer. Estou confiante quanto a 2017 e espero que ele venha bem lindo e leve, já que a vida é tão breve. Um sopro de novos começos e aguardadas estreias. Um amanhã cheio de futuro.

 

como um sol no quintal

Nosso primeiro encontro não foi nem por acaso nem por propósito – foi por uma casualidade profissional que nossas vidas se cruzaram e desde o começo você foi interessado e eu fui aberta e uma conexão foi criada de alguma maneira, e lá ficamos. Parecia confortável aquele lugar, aquela situação. Seu sorriso esfuziante e sua maneira animada de encarar o mundo e seu desdobrar de possibilidades. Praticamente desde o primeiro momento nós escolhemos um canto que se parecia muito com o qual um casal ocuparia, e o ocupamos. Nosso balé de representar papéis como se já nos conhecêssemos há tempos estava funcionando bem para ambas as partes envolvidas e lá nos repousamos. Na discussão de grupo pós-expediente. Na mesa da taberna com a taça de vinho e o casal francês de meia idade que se sentou conosco. Você, tão francês ali. Me mostrando no mapa do celular onde mora em Paris, e a tecnologia que hoje em dia nos permite tantas coisas me permitindo te mostrar a casa onde cresci e a janela do quarto onde hoje durmo – a porta da varanda estava aberta, naquele momento eternizado pelo google street view. Gosto de janelas abertas.

Daí em diante, os poucos dias que vieram foram uma sucessão de momentos muito rápidos de cumplicidade e planos feitos. De morar numa casinha em Annecy com vista pro lago. De passar o ano-novo em São Paulo. De ambos nos mudarmos para Lisboa no ano que vem e escolhermos um predinho desses sem elevador que tenha janelas grandes e sol batendo na sala pelas manhãs. Você, uma das pessoas mais fantásticas que já conheci, que me deixou encantada naquele restaurante mexicano quando me falava das suas ideias tão diferentes de tudo que já ouvi com a maior naturalidade do mundo, como alguém contando que vai trocar a marca de amaciante de roupas; como se fosse assim tão normal as pessoas pensarem diferente do que todo mundo nos diz para pensar igual. Você, que veio de uma história de vida difícil e hoje é bem-sucedido mas não perde o brilho no olho, como se fosse uma criança que acabou de descobrir que estão distribuindo balas na cantina. Você “entrou em mim como um sol no quintal“, como naquela música cafona de amor (todas as músicas de amor são cafonas). Me dando de presente o caderninho com a frase de Pessoa sobre ter em mim “todos os sonhos do mundo“. Me levando para almoçar no meio do expediente, para dar um respiro da bagunça. Me trazendo waffles com chocolate no meio de um dia tão tumultuado e exaustivo de trabalho, para recarregar minhas energias. Você, ali piscando no meu whatsapp com mensagens doces, deixando meu coração quentinho.

Na nossa última noite na mesma cidade, fomos jantar com meus amigos. E no meio de uma mesa com outras pessoas e todos conversando amenidades, nossos anfitriões acolhedores nos explicando as comidas portuguesas com tanto carinho; nossas mãos estavam dadas embaixo da mesa. Nossas mãos se procurando atrapalhadas e se tocando. Enquanto você conversava com uma pessoa ao seu lado, e eu conversava com outra ao meu lado, nossas mãos estavam juntas do mesmo lado e estávamos conectados sem dizer palavra alguma um ao outro. Era isso que importava – a gente estava juntos, de alguma forma.

Do que se seguiu depois, pouco lembro ou quero lembrar. Sei que teve festa, duas novas amigas romenas, música alta ao vivo, drinques com fogo, um casal australiano que fez com que eu me sentisse extremamente querida e acolhida, você me dizendo o quanto era frustrante morarmos longe, meu álbum favorito do Michael Jackson tocando num casarão antigo cheio de gente, nossa despedida na praça de Camões em frente à estátua de Fernando Pessoa e eu chorando copiosamente porque sempre estou me despedindo das pessoas que eu gosto e você não quis que isso fosse especial como poderia ter sido, por medo de se machucar. O medo, sempre ele. Você falou que nós é que “fazemos as coisas acontecerem” e que tem certeza de que a gente vai se ver de novo; e meu último abraço foi contido porque eu sei que não vai. No que você puxou meus braços ali encolhidos, e nos abraçamos de verdade, e eu não quis mais olhar para trás. Eu não olhei. Cinco e meia da manhã e eu subindo a rua da Misericórdia aos prantos. Rua.da.misericórdia. Não consegui não achar graça dessa ironia, mesmo com o coração em pedaços, porque no livro que ganhei de presente da minha amiga portuguesa Eça de Queirós dizia que a vida “pode às vezes ter o capricho de ser mais romanesca do que pede a verossimilhança artística“. 

Uma semana depois, antes de aterrissar em Paris, do alto eu pude ver a torre Eiffel iluminada e o Sena cortando a cidade. Pensando que você deveria estar lá, em algum lugar. E a gente não ia se encontrar. 


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