Arquivo para março \31\UTC 2010

¿donde estás, corazón?

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chegadas e partidas

Quando eu estudava língua portuguesa, no longínquo 1º grau, eu adorava o “pretérito mais-que-perfeito”, simplesmente porque eu achava lindo dizer “mais-que-perfeito”, ainda que me incomodasse a ideia de que algo mais-que-perfeito ficasse restrito ao passado, enquanto o futuro, que deveria conter tudo de mais lindo e mais-que-perfeito que ainda está por vir, ficasse apenas com terminações menos robustas, como apenas futuro, futuro do presente, futuro composto ou o pior de todos: “futuro do pretérito”, ou “tudo aquilo que poderia ter sido e não foi”.

Nos últimos tempos, tenho a remexer meu pretérito nem-tão-perfeito e meu futuro-mistério-que-está-por-vir mais partidas* do que chegadas. A partida de amiga querida que foi experimentar novas oportunidades, a départ de alma-gêmea que iria me esperar na “terra prometida”, take off de um pedaço de coração que foi testar vida em outro canto, e até a minha própria partida – da agência, da cidade, do país, e da vida que conheci como tão minha até então.

Continuo achando a perfeição muito chata, careta e quadrada. Mas quando ela vem junto de uma promessa de futuro ainda não experimentado, chego a achar que ela tem lá seu valor. Futuro mais-que-perfeito, pode vir quente que eu estou fervendo.

 

*vai passar: “e o xau não doeu nada. porque a gente sabe quando a pessoa vai junto com você na sua vida mesmo quando ela vai embora.”
(adelaide ivánova, aqui)

para quem se comporta: brinde

qualquer piscina ou mar de amaralina

“(…) A carta é uma pequena joia e revela um momento iluminado da vida dele, pleno de possibilidades, como se ele fosse um nadador, enchendo os pulmões de ar antes de pular numa piscina, como dizia Bethânia naquela canção que ele amava: ‘no ar, antes de mergulhar’.”
(Paula Dip, sobre seu amigo Caio Fernando, no querido “Para sempre teu, Caio F.”)

Estou exatamente assim: enchendo os pulmões, no ar, antes de mergulhar. Sem ver se dá pé. Este é um dos poucos momentos da minha trajetória em que posso dizer com certeza que estou abandonando todo o racional para seguir minha intuição. Como Caio, o caminho que tiver mais coração – eu sigo. Pela primeira vez minha vida profissional está dando sinais de engrandencimento significativo e, contrariando a lógica paterna de que “talvez seja melhor ficar”, faço as malas e coloco tudo que convém. De peito, alma e coração abertos. Talvez eu volte, talvez não também, quem sabe? Perigo encontrar um bom emprego, um grande amor, uma vida além-mar, outro mundo para chamar de meu. Como Bethânia, estou “cantando muito alto, sem medo de tudo, de nada, sem medo de errar”. Estou partindo.

oh my life is changing everyday in every possible way

eu encontrei em mim uma força que eu nem sabia que tinha: a força para recomeçar tudo de novo, do zero. para deixar o passado onde ele deve ficar: para trás. e não virar mais para olhar, para pensar no que poderia ter sido e não foi, e não é. de agora em diante, só tenho olhos para o horizonte, para frente. para seguir adiante.

hoje minha vida tem futuro.

“deixa o copo encher até a borda…

que eu quero um dia de sol n’um copo d’água”

 

ontem estava com uma amiga no trânsito e, ao percebermos que as faixas ao lado sempre parecem andar mais do que a nossa (néam?!), ela comentou sobre o livro que ela está lendo e que fala sobre o acaso e as aleatoriedades da vida. e ela disse que o autor comentava que*, se a nossa fila no supermercado, por exemplo, andar normal por 15 vezes, e em apenas UMA ela travar porque uma senhorinha está reclamando do preço do abacaxi, pronto, é o suficiente para nossa mente focar nessa única vez e, daí em diante, a gente dizer que nossa fila “sempre trava”.

fiquei pensando na nossa tendência masoquista de sempre focar nas coisas ruins. então taí, temos saúde (que é o que deveria ser mais importante siempre), uma família carinhosa, bons estudos, o que comer, o que vestir, onde dormir, e amor. e ai, porque isso não está tão bom quanto deveria, porque poderia ser assim, deveria ser assado, mimimi.

a gente é tão ingrato às vezes, né?

não tou dizendo que seus problemas não são legítimos, porque são. cada um sabe onde lhe aperta o sapato. só acho que às vezes poderíamos olhar mais para os “sim” do que para os “não”, contemplar o céu azul lá fora e pensar, “poxa, estou vivo, que bom”. eu pensei.

 

*não li o livro, então estou repassando o que me contaram, apenas

sobre gavetas

Outro dia me peguei pensando em ciclos, ou nas tais “gavetas da vida”, como gosto de chamar. Comigo funciona assim: quando eu gosto de algo, eu gosto muito, gosto tipo não-sei-viver-sem-isso, até enjoar. Culpa do ascendente geminiano, talvez. Mas aí algo acontece e essa coisa passa a não fazer mais parte da minha vida por algum motivo aleatório, e então ela é delegada à tal gaveta, e eu às vezes até me esqueço que um dia ela já esteve presente na minha vida. Ela fica lá, esperando a próxima oportunidade para aparecer.

Foi assim com meus cursos de línguas. Espanhol, francês, francês, espanhol. Em dias alternados. Por um ano e meio. Então tive que parar por falta de grana, e mal consigo lembrar como era estudar tanto, falar com vocabulários diferentes, mudar o “acento”, o jeito de conjugar. Gaveta poliglota, projeto futuro.

Em paralelo teve a yoga, que eu amava de paixão e ansiava por cada aula. Comemorava cada evolução, acordava mais cedo com prazer, pulava da cama para ficar de ponta cabeça no mat e praticar respiração. Então parei por falta de tempo e… me arrependo, mas não consigo encaixar no meu atual momento de vida. Gaveta zen, projeto futuro.

Ano passado teve a academia, porque resolvi experimentar pilates e boxe. E por um ano eu chegava correndo em casa para me trocar e não faltar às aulas, fiz novos colegas, adorava bater papo com os professores (tão queridos!), dar uns socos no saco de bater e deixar o abdomem durinho ao respirar. Aí faltou tempo E dinheiro. Gaveta atleta, projeto futuro.

Então veio o amor… e o fim dele. Não do amor, mas de um relacionamento, de planos na 1ª pessoa do plural, de sonhos em conjunto. E essa gaveta foi a mais difícil de fechar, porém é a única que não me vejo abrindo agora. Tão estranho não me enxergar mais apaixonada por uma pessoa, por uma ideia de vida comum. É como se uma parte de mim tivesse morrido junto. Ou adormecido, talvez.

E às vezes me pergunto como será da próxima vez. Vai ser uma gaveta toda que irei abrir? Cogitei ser apenas uma caixa de sapatos, com espaço mais limitado. Aí achei tão impessoal… Melhor pensar numa caixinha de jóias: pequena, mas preciosa. Às vezes é bom ter cautela.


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