Arquivo para fevereiro \28\UTC 2013

diário de um coração partido, parte 3 – o amor clássico

Nos conhecemos numa cena quase de filme. Você, revirando a mochila atrás das chaves. Eu tinha chaves em punho, sorriso e porta abertos num piscar de olhos. Parecia que tudo tinha uma razão de ser, de eu estar lá naquela cidade, naquele momento, escorregando na neve e te trazendo as chaves que você não conseguia encontrar, para uma porta que você não sabe ainda como abrir. Como na canção do poetinha, nossas vidas se entrelaçaram num mundo de encontros e desencontros que eu não soube decifrar, apesar de muito tentar entender. Eu não sei falar a sua língua ainda – não a sua língua falada, que esta eu sei muito bem e até te deixou impressionado; mas a língua do seu silêncio. Essa eu ainda não sei traduzir.

É você quem faz meu coração palpitar nos últimos tempos, com uma imagem, uma mensagem, um email. Fico atualizando maluca as páginas de uma world wide web qualquer, vendo se você me quer. Quanta ansiedade…! Recobro o prumo – eu, moça criada e sabida, quase balzaquiana, ainda me deixando levar por um sorriso tímido, uma poesia shakesperiana, uma música da Barbara Mason, uma conversa sobre Woody Allen e Jack Kerouac e império britânico. Mil suspiros num coração aflito que busca respostas além-mar – não sei o que irei encontrar.

Logo menos chega junho e verão no hemisfério norte. Devo estar de malas prontas, livros embrulhados e buscando algum significado nas entrelinhas de algo que ainda não consegui interpretar. Posso estar completamente enganada, e quem não haveria de estar? Eu ganhei uma companhia de última hora, um abraço e talvez, apenas talvez, um próximo amor promissor. Enquanto as estradas não se encontram, alguns pedacinhos de coração se partem. Queria um amor de comédia romântica e cá estou, a rir dos desencontros de meu último encontro. Dá até para emendar com fita crepe esse – a gente sabe que dores de amor são provisórias. Onde há amor, há dor, em algum momento. Simples assim.

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diário de um coração partido, parte 2 – o amor fraterno

Uma pessoa muito próxima passou por uma grande mudança nos últimos meses. E, apesar de sempre ter dado muita força para tal, não fiz parte disso. Fiquei sabendo na última hora, no susto, quase sem querer. Fiquei muito chateada, porque esta pessoa sempre foi grande parte do que sou. De referências, trocas, confidências e cumplicidade. E a maior mágoa que tive não foi de não ter sido avisada, mas de não ter sido convidada a fazer parte disso tudo desde o início. Mil perguntas teria feito, tantas coisas queria saber, um monte de curiosidade a saciar, quantas coisas a planejar…! Ciúme de quem foi jogado para escanteio, orgulho ferido, coração partido. Quase uma soma aritmética que resulta num número negativo. Acho uma pena, mas entendo que a gente escolhe quem faz parte do nosso mundo em cada momento da vida. E me dei conta de que fiz isso também, com outros amigos que possivelmente me julgavam próxima e ficaram magoados comigo. São tantas coisas a se aprender, cuidados a tomar, carinhos a preservar; que nossa agenda não permite atenção total e a gente vai, consciente ou inconscientemente, cortando umas arestas. E, por mais duro que seja se notar a aresta cortada, é preciso um distanciamento para se enxergar como portador das tesouras também, quando convém. E aceitar que faz parte do movimento natural da vida – pessoas vêm e vão, em ciclos. Renovamos o estoque de band-aids e bola pra frente.

diário de um coração partido, parte 1 – o amor não-romântico

O coração partido nem sempre precisa ser em relação a um romance ou um lance. Ele pode vir na nossa vida profissional também. Todos conhecemos um ditado famoso que prega que, se você fizer o que ama, não precisará trabalhar um dia de sua vida. Pois bem. Então é mais um amor que a gente quer encontrar o restante de nossa existência, e muitas vezes não é correspondido. Às vezes a gente dá sorte, como ganhar na loteria, e bum! 8+ horas por dia fazendo o que se ama, e com remuneração! Um sonho. Mas acontece que os sonhos, diferentemente da vida dos vampiros, não são imortais, e muitas vezes têm um fim. Acabou de acontecer comigo. Recolho os cacos pelos cantos da casa. Já imersa em um novo emprego há pouco mais de um mês, estava pressentindo a hora da partida, como a gente sempre sente as vibrações de um tsunami chegando. Ontem, durante o jantar, chegamos à conclusão de que todos em casa tomaram um pé na bunda profissional nos últimos tempos. E estamos todos de pé, sacudindo a poeira, cabeça erguida e mangas arregaçadas.
Uma das muitas lembranças que tenho da minha infância é colar os dedos por acidente com super-bonder ao tentar consertar uma coisa quebrada.
Nunca faltou super-bonder na nossa despensa. Nunca.






*update: acho que não fui bem clara, mas não foi no emprego novo que isso aconteceu, porque estou nele há pouco mais de um mês, e bem feliz, como disse. foi num projeto paralelo que toco há quase quatro anos e que era meu xodó, que me trouxe algumas das melhores coisas que aconteceram comigo nos últimos tempos e do qual fui afastada recentemente

pequeno dicionário amoroso

Um relacionamento entre duas pessoas é sempre complicado. Envolve expectativas, valores, referências e histórias de vida. Porém, quando a situação envolve nacionalidades distintas, as coisas podem ficar ainda mais complexas, já que o relacionamento traz também toda uma bagagem cultural diferente; e atitudes que podem ser normais em uma cultura, em outra podem ser vistas com estranheza.

Pois bem. Por aleatoriedades do acaso, alguns dos meus últimos envolvimentos românticos foram com estrangeiros e seus estrangeirismos. E, além de não entender patavina do que a maioria dos homens pensa ou faz em situações normais de mesma nacionalidade, nesse caso ainda tenho que lidar com outros tipos de questionamento, “será que na cultura dele isso é normal? será que para ele tudo bem?” Então, além de gastar a minha fluência em outra língua não-nativa e exibir meu vocabulário estudado com uma dedicação germânica por anos a fio; ainda tenho que circuitar meus neurônios em psicologia aplicada para entender se isso funciona na cultura em questão ou não.

Infelizmente, devo confessar que na maioria das vezes me dei mal, e só me sobrou um ponto de interrogação e um coração na mão. Paciência. Pelo menos eu tenho Roberto Carlos para curar uma boa dor-de-cotovelo. Porque olha, para mim, o maior enigma não é decifrar o que os gringos consideram ok num primeiro encontro; mas entender como eles aprenderam a amar sem nunca ter ouvido uma música do rei. 

veni, vidi, vici

Há pouco menos de seis anos, eu aterrissei na terra da rainha para realizar meu maior sonho. Meu coração tremia feito um besouro assustado, como se soubesse que eu estava prestes a viver a aventura da minha vida. 

Muitas voltas a vida dá. E, em janeiro, fui contratada por uma empresa baseada em Londres, para trabalhar em seu escritório em São Paulo. E tive que retornar à cidade tão amada para fazer um treinamento de duas semanas.

Não foi a primeira vez que voltei, desde que morei lá. Mas cada vez é diferente, e esta, por várias razões, foi especial. Cada rua que eu cruzava me trazia de volta a Nathalia que eu era aos 22, que trabalhou de babá e faxineira para poder se sustentar, que aprendeu a viver só e a trilhar o próprio caminho. A Nathalia que descobriu como ser gente grande num lugar que a fez sentir-se tão pequena. Reencontrei pedaços da cidade que nem mais lembrava que um dia existiram, e com eles inúmeras boas memórias voltaram, para me dar um abraço. (Como é bom se conhecer e se reconhecer num plano cartográfico, numa esquina dobrada a esmo, num bairro que não por acaso se chama Angel, e vem acalentar um coração partido numa noite chuvosa de sábado à noite.)

Com os olhos sempre sorrindo, não conseguia parar de pensar que, seis anos depois, cá estava eu, de volta, bancada por uma empresa local, com honras de convidada especial. Recebi mil agrados de boas-vindas, carinhos gratuitos e festinha de despedida antes de partir. Me apaixonei por um típico londrino, e vi muita neve e a cidade toda branquinha, feito cartão-postal entregue no Natal. Cada canto me sorria uma música que agora eu já sabia identificar e assobiar.

***

Certa vez um amigo me recitou um samba de Paulinho da Viola, que dizia: “voltar quase sempre é partir para um outro lugar“.

E ao conversar com os taxistas, tanto na ida quanto na volta do aeroporto, e ver minha cidade favorita correndo solta pelas janelas do carro, feito um quadro expressionista; eu não conseguia deixar para trás a sensação de que esta volta representava todo um novo destino. Figurado e literal.

há sempre um começo e um novo sim

“não vê como tudo que acontece é sempre um começo?
(…) há de se reconhecer, aos poucos, que aquilo a que chamamos destino sai de dentro dos homens em vez de entrar neles.”
(Rainer Maria Rilke, em “Cartas a um jovem poeta”)

Há alguns meses eu tinha dito que queria dormir e acordar apenas depois do carnaval. Como a vida adora nos pregar peças, esses foram os meses mais agitados dos últimos dois anos. Consegui um dos empregos mais cobiçados da minha área (mesmo sem estar procurando emprego), fui fazer o treinamento em Londres e reencontrar amigos antigos, arrumei (mais) uma paixonite platônica. Perdi minha avó adotiva, perdi um iphone com a vida dentro. Fortaleci amizades, estou ajudando a planejar dois casamentos queridos. Conheci gente nova, me distanciei de pessoas que não fazem mais sentido. Exercitei muito o desapego – no armário, nas lembranças, nas relações. E estou aprendendo, quase numa rotina diária, de que os melhores presentes que o destino nos traz são exatamente quando não temos expectativa alguma – e, aí sim, surge espaço para uma boa e inesperada surpresa.

Com algumas decepções que estou tendo de enfrentar, especialmente na última semana, estou aprendendo, na marra, da falta de perenidade do que nos cerca; e de que por isso, sempre por isso, tudo deve ser aproveitado ao máximo quando acontece.

A cartinha que minha madrinha me entregou antes de eu embarcar dizia: Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”. E essa frase, atribuída a Chico Xavier, apesar de manjadíssima fez todo o sentido do mundo pra mim. Fiquei emocionada.

Agora todos os dias são um novo começo, e trazem um novo fim. Respiro fundo e olho ao redor – que sorte tenho eu.


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