Arquivo de julho \31\UTC 2009

terça choveu granizo

Era alta madrugada e os mini-meteoritos teimavam em cair furiosamente na sacada, fazendo barulho contra as portas e janelas, assustando um sono profundo de meio de noite. Foi então que me dei conta da fragilidade da vida, que se estivesse na rua não haveria guarda-chuva algum para me proteger. E no dia-a-dia é outro tipo de pedrinha que tem me assustado, acompanhada de futuro incerto. Não é tão grande, mas vem cheia de pressão também, de quem quer bem e quer saber além, buscando respostas que eu não, não tenho agora, ainda.

Tenho medo de dúvida, que às vezes vem com mais força que granizo. E contra a qual não há guarda-chuva, nem se quisesse. Complicado virar adulto, né?

lá em casa

Meu pai passou o mês de julho de férias, que terminam amanhã. E mesmo podendo acordar tarde (que é o que mais amo fazer quando estou de folga), ele levantou religiosamente às seis to-dos-os-dias só para poder tomar café da manhã com a minha mãe, antes de ela ir trabalhar. Acho tão lindo.

E segunda eles completaram 34 anos juntos. Se isso não é amor, então eu não sei o que é.

sanduíche e sonho

Lembro que era 2002. Eu e Ale, então com nossos 17 ou 18 anos, tínhamos acabado de assistir ao nosso primeiro filme na Mostra de Cinema. Sentamos numa lanchonete na Paulista para tomar um suco e dar uma refrescada no calor que já teimava em surgir na primavera, quando um homem-sanduíche se aproximou. Muito comuns na avenidona citada e no centro, sempre carregam placas de ‘compro/vendo ouro’, ‘troco cartucho’ e coisas do tipo. Mas carregam também, sempre, um olhar triste e melancólico, vago, perdido – mesmo que muitos ao redor não notem, ou finjam não notar.

E foi presa nesse olhar que eu comentei com ela: ‘eu vejo esses senhores, vestidos de placa, e penso como deve ser duro sustentar uma família assim. Não que não seja digno, muito pelo contrário, mas que triste chegar em casa, abraçar os filhos e pensar que se passou o dia todo invisível atrás de um anúncio.’

No que a Ale respondeu: ‘eu não penso nisso, sabia? Eu penso em como eles eram quando jovens… que sonhos tinham? Eram como a gente? Será que um dia passou pela cabeça deles que seu sustento viria assim?’ Não foi exatamente com essas palavras, porque lá se vão sete anos, mas foi algo assim.

E agora, toda vez que vejo um deles eu penso nos sonhos. Hoje foi assim. Saí do cinema e havia um senhor enrugado e cabisbaixo, escondido atrás de um pedido de cartucho da vida. E eu pensei em como ele era quando jovem. Que caminhos ele percorreu para chegar até aqui? E seus sonhos, quais eram? todos se foram ou algum ficou? algum realizou?

Espero que sim. Ou que pelo menos seus filhos tenham sido criados com algum grãozinho de esperança. Não de sanduíche, mas de sonho. E de sonhar.

teoricamente

mafalda

mas aos poucos eu chego lá! :)

pies, para que los quiero*

Era um feriado de céu azul brigadeiro na cidade grande, com pequenas nuvens. Estávamos de mãos dadas pelo parque, procurando o planetário, quando ele parou e olhou para o céu. Passava um avião. Eu olhei para o brilho de seus olhos, mirei para cima. Ele estava encantado, não entende até hoje como uma geringonça tão grande e pesada consegue ganhar os ares desta forma – toda vez que viajamos nos perguntamos isso (por mais que a matemática e a física expliquem, nosso coração infantil não quer ver lógica, quer ver situação).

E então me veio à memória um outro momento de encantamento com aviões: quando eu era criança, minha casa ficava na rota do aeroporto de guarulhos, e eles passavam bem em cima do nosso quintal, mas láaa no alto. E eu podia passar horas, de dia ou à noite, olhando-os, imaginando, ‘será que quem está lá dentro está olhando para baixo? será que eles imaginam que há uma garotinha no quintal, tentando adivinhar quem está lá? será uma executiva fechando grandes negócios? um pai de família? para onde vão? ou de onde vêm?…’ E eu ficava lá, criando histórias – quem estava indo, para onde, porquê.

Talvez tenha vindo daí minha fascinação por viagens e aviões, também. Porque hoje sou eu na janela, fitando lá embaixo. Haverá uma garotinha num quintal olhando para cima? E se houver, estará pensando em mim?

cielo 

*¿ si tengo alas pa’ volar?
(frida kahlo)

livre para voar

Por já ter morado (e viajado) na Europa, bem sei o que é ser imigrante em país distinto. E também bem conheço a fama dos brasileiros de aproveitadores, malandros, quererem levar vantagem em tudo. Já tive que aguentar cara feia e torcida de sobrancelha em vários casos – que não se derreteram apesar de eu estar vestindo meu melhor sorriso e falando a língua local -, somente pelo fato de meu passaporte ser verdinho.

Sou neta de espanhóis, sendo três dos meus avós nascidos lá (o outro, materno, era filho de portugueses), e vindos para cá no pós-guerra. Meu pai tem a cidadania espanhola, e me partia o coração saber que, devido às leis do país, eu só poderia ter requerido a minha antes dos 18, quando nem sabia quão importante era viajar pelo mundo com passe livre. E agora, só morando lá por um tempo.

Mas, no começo do ano, mudaram algumas leis. E uma pontinha do sonho teve um respiro de esperança de se tornar realidade. Fui atrás de mil documentos, fiz pedidos e declarações, ainda descrente de que poderia dar mesmo certo. Mas minha estrelinha continuou a brilhar forte, e hoje, menos de cinco meses após o processo iniciado, fui buscar meu novo passaporte de cidadã européia, tinindo de novo e lindo.

Não renuncio ao meu país, de maneira alguma. Sou brasileira de nascença e de coração. Mas tenho sangue espanhol também, que corre pelas veias, que me deu cabelos e olhos castanhos, proporções curvilíneas, drama-exagerado-almodovariano de fatos e voz aguda para discussões em família. E esse sangue, tão meu e familiar, hoje me deu mais um sonho realizado, e passe livre para voar, voar. Feito as borboletas que vivem saracoteando no estômago, ou feito o poema que melhor amigo recitou para mim num momento de angústia: “vai tua vida, pássaro contente, vai tua vida que estaria contigo”. Tou indo, nêgo, tou indo.

 

chanson d’amour

sing

For the love you bring, won’t mean a thing
Unless you sing, sing sing sing.

Feliz, feliz.
:)))


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