Arquivo para março \06\UTC 2016

sobre você e um não-buquê

E quando você foi me buscar na estação eu fiquei tão feliz apenas de te ver de novo, o estômago cheio de borboletas e os braços cheios de abraços, e só isso bastou: você, ali. Havíamos nos conhecido um oceano atrás no mês anterior e lá estávamos, reunidos novamente. Mas depois eu fiquei pensando como seria ainda mais singelo se você tivesse chegado com um buquê de flores ou apenas uma flor nas mãos, porque eu cresci vendo filmes de comédia romântica e sou boboca a esse ponto. Mesmo você tendo feito tudo direito, e bonito. Me deu certo desapontamento porque eu tenho essa mania besta de às vezes esperar que minha vida seja um filme de amor.

***

Eu tinha que pegar o trem para cruzar o canal da mancha numa segunda-feira logo cedo para ir a uma reunião na capital vizinha e garoava e estava escuro em Paris numa manhã que se forçava para amanhecer e eu esqueci a passagem em cima do seu sofá. Sim, eu sei, um erro muito amador. Talvez alguém visse como um sinal inconsciente de que no fundo eu queria ficar lá, naquele lugar. No seu apartamento bagunçado de rapaz solteiro com um varal de roupas recém-lavadas no meio da sala e uma pequena varanda onde a gente ficou ouvindo Moby e encarando os prédios geometricamente alinhados que ficavam do outro lado da rua. Já eu não fui tão longe nesse romantismo: encarei apenas como um ato falho de alguém que tem ansiedade crônica e sempre dorme mal quando tem que acordar cedo para pegar um avião ou um trem ou um ônibus ou tem uma consulta médica ou um jejum muito longo para fazer exame de sangue.

Quando percebi que a passagem não estava comigo, já era metade do caminho e você, que depois de me dar um beijo de despedida tinha planejado voltar pra cama porque ainda era muito cedo, estava me esperando na estação para me entregar. Você disse que teria ido até onde eu deveria pegar o trem caso eu não tivesse percebido a tempo. Achei isso tão, mas tão bonito. Você não levou flores quando foi me buscar; mas levou minha passagem quando eu fui partir, numa segunda fria e garoenta em Paris em que você poderia ter dormido pelo menos mais uma hora antes de ir para o trabalho. Mas você se vestiu e foi até a estação, e ainda me esperou com um sorriso seguro e acolhedor. Foi aí que eu percebi: acho que no fundo eu queria mesmo ter ficado.

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“nem sentiu se era falso ou fevereiro”

Na minha lista de afazeres tem academia, chamar encanador, ligar para o dentista, agendar oftalmologista, lavar roupa, fazer supermercado, comprar um vaso, ir ao balé, falar com meu irmão. A cidade cinza passa feito um borrão na janela, enquanto o monitor do metrô mostra o horóscopo do dia e algumas notícias. É uma época produtiva para a vida profissional do sagitariano, disseram. Suspirei.

Quando tudo na minha cabeça são exames, cirurgia, redecorar minha casa, retomar contatos profissionais, lançar um projeto novo e encontrar conforto nos meus amigos; os amores passam líquidos e vazios pela minha vida, às margens. Já desisti de ter uma curiosidade genuína por esses romances-relâmpagos que vão tão velozes quanto vieram, que com muita vontade duram uma semana, se muito. Misturo as histórias, tomo cuidado para não trocar nomes e já nem me interessam os signos ou ascendentes. Tanto faz, tanto fez.

Numa quarta-feira melancólica de fim de verão eu estou no metrô com um livro nas mãos, pensando quando deixei de ser uma garota que sentia tudo para me tornar uma mulher que não sente nada. Nesses flashes que vira-e-mexe passam pela minha cabeça, fico questionando o que devo fazer quando me tornei a pessoa que eu sempre quis ser; mas na vida real ser essa mulher pode não ser tão legal. Chegou minha estação.


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