Arquivo para março \25\UTC 2015

um solitário

Eu estava com um livro de Clarice na mão divagando sobre felicidades clandestinas quando tirei os olhos das páginas e na estação da linha vermelha entrou um rapaz de vinte e muitos ou trinta e poucos e ele vestia uma roupa casual mas o que chamou a minha atenção foi o que ele tinha nas mãos porque eu achei que era um guardanapo amassado mas quando reparei: era um cravo. Um só. No exato momento em que eu pensava sobre meus amores partidos e sobre o capítulo da novela que eu estava perdendo, numa segunda-feira às nove e meia da noite, voltando pra casa depois da aula de balé: havia um rapaz com um cravo branco solitário nas mãos, com aquele frescor e formosura que só as flores recém-colhidas ainda têm.

E eu não sei quem iria ganhar aquele cravo, se era uma rosa despedaçada que brigou debaixo de uma sacada, ou apenas alguma moça enamorada. Mas achei tudo tão singelo.

vida que segue

Eu voltei pra terapia e pra acupuntura, Rebeca voltou pro escritório. Minha vida social está normal novamente, tenho mil planos de viagens e respiros, retiros. Amigos próximos de novo depois de meses de hiato. E teria muitas coisas para falar sobre divagações e elaborações de tudo que me cerca, sobre eu ser apenas eu e estar muito focada em ser este eu melhor, sobre disciplina e determinação, sobre Saturno estar em Sagitário pelos próximos três anos e pedir estabilidade e clareza de objetivos. Eu poderia contar sobre uns amores-relâmpagos, sobre promessas de ligar no dia seguinte que jamais aconteceram (mais minhas do que dos outros, aliás). Mas estou aqui, contemplando a terna fluidez do movimento do universo que faz a vida seguir seu curso.

Outro dia, meu horóscopo disse que algo maravilhoso estava para acontecer e que eu aproveitaria não somente o acontecimento em si, mas toda a jornada até lá. E eu, que adoro uma mentira sincera, estou aqui – aproveitando o caminho.

novo velho encontro

“Lily: Toda vez você chega com alguém e diz, ‘Ei pessoal, ela pode ser minha alma-gêmea’. Mas ela não é a única que ‘pode ser sua alma-gêmea’. O que há de errado com você?
Ted: Eu peço desculpas por todas as fotos em grupo que estraguei, mas quando você é solteiro, você sempre tem esperança de que a próxima pessoa que você conhece será sua alma-gêmea. Naquele momento, eu realmente achei que cada uma dessas garotas seria especial, porque eu tenho que manter minhas esperanças. Qual seria a alternativa?”

(trecho do episódio “Say Cheese”, de “How I met your mother”)

***

Esse é um episódio de um seriado, mas poderia ser um episódio nas três últimas temporadas da minha vida errante. Num encontro mágico no meio de um bloco de carnaval e mil borboletas na barriga (que voaram tão rápido como chegaram), em conhecer alguém diferente num país estrangeiro e não sentir borboleta alguma. Em conhecer um colombiano numa cena de filme de comédia romântica, e chegar em casa com brilho no olho. Ou chegar em casa cansada de mais um primeiro encontro que não foi legal, e ter altos e baixos e altos e baixos. Mas sempre acreditar que o melhor ainda está por vir – porque, convenhamos: qual seria a outra opção?


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