Arquivo para março \28\UTC 2017

vênus retrógrado traz amor do passado

Reunião pelo Skype com meu chefe na Inglaterra, um colega na Alemanha e eu aqui no Brasil, todos remotamente sorridentes de seus respectivos cantos do mundo em três fuso-horários diferentes – de todas as invencionices dos Jetsons, aquele “telefone” que na verdade era uma tela em que dava pra ver a outra pessoa sempre foi minha favorita. Como foi que chegamos até aqui?, pensei. Nós já somos o futuro.

Terapia pra discutir o fato de sofrer sexismo de potenciais clientes e um assédio grave na época em que eu ainda era estagiária. Almoço sozinha no meu restaurante japonês favorito. Discutir fundos de investimento com meu novo gerente do banco e ter à mão comprovante de residência no meu nome, declaração de imposto de renda e patrimônio (um fusca 1975). Como foi que chegamos até aqui?

Quando tanto já aconteceu, mas de alguma forma parece que fui pinçada dos meus 25 para os 32 e me reconheci adulta numa quinta-feira morna de março. Com a idade das minhas heroínas de outrora (os 32 de Carrie na primeira temporada de ‘sex and the city’, os 32 de Bridget Jones no primeiro filme). Com a vida que sempre sonhei para mim, e ainda assim me sentindo vazia às vezes. Como foi que chegamos até aqui?

Há dois anos meu horóscopo está me alertando sobre um tal ‘amor do passado’ que pode voltar a qualquer momento, e eu sempre ansiosa pensando se ele vai me trombar na esquina quando vou pra padaria descabelada e de óculos, com o pijama escondido debaixo do casaco – mas torcendo para que ele me veja num dia em que eu me sinta bonita, e esteja de vestido rodado e blazer num encontro com um moço de olhos verdes e sorriso gentil. Mas nós nunca mais nos trombamos. E na maioria das vezes eu estou descabelada correndo pela calçada atrasada. Como foi que chegamos até aqui?

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o dia em que eu matei minha planta da felicidade mesmo estando tão feliz

Foi seu aniversário num dia dez, e o Facebook não me lembrou mas eu lembrava porque jamais conseguiria esquecer. Mandei mensagem e você disse ter ficado feliz com a lembrança, que deixou seu “coração quentinho”. Mesmo distante, você ainda me faz sorrir com a menor das coisas, a maior das coisas. Outro dia li uma matéria numa revista feminina sobre amores breves que mudaram tudo e não tinha como não pensar em você, que foi tudo isso exatamente por ter sido ‘apenas’ isso: foi a brevidade que catalizou tudo, e foi tão especial exatamente porque só veio para chacoalhar o que precisava ser transformado. Se fosse ‘pra sempre’, talvez se afundasse mais pra frente em briguinhas bobas por ciúmes, em discussões por conta da toalha em cima da cama ou da conta de luz paga com atraso. Que bom que foi assim, tão certo e tão certeiro. Que bom.

Quando eu recebi a notícia do emprego novo, aguardada há mais de um ano, eu fiquei em estado de êxtase, meio paralisada. Depois uma música tocou na playlist e ela falava sobre se sentir no topo do mundo, e eu fiquei chorando compulsivamente de soluçar por um tempo que pareceu de horas mas deve ter sido de minutos. Foi uma viagem tão longa até aqui. 

Aí chegou carnaval e purpurina em todos os cantos, e beijei outros beijos e provei outros gostos, e uns foram bons e outros nem tanto, mas é vida que segue, com brilho no olho e no corpo e amanhã tudo voltando ao normal. E no último dia, voltando pra casa, choveu demais, daquelas chuvas torrenciais. E eu me deixei molhar. Eu quis me molhar. Era fim de tarde e eu era a única pessoa descendo a Rebouças a pé debaixo de tempestade, encharcando minha saia de tule e chutando a água das calçadas. Dançando na chuva, lavando a alma. Feliz, feliz. Cheguei em casa ensopada das águas de março que vieram para fechar o verão. E as promessas de vida, tão plenas e vivas, continuam aqui: no coração.

there will never be another you

Eu estava voltando de mais uma viagem inspiradora, o coração cheio de sonhos e o céu cheio de azul. Era julho. No banco de trás do carro, encarando as montanhas que passavam borradas a 100km por hora. Então tocou aquela música. A música que você colocou para tocar no nosso terceiro encontro, enquanto eu cozinhava nosso jantar. Que me deixou tão surpresa – após bater a cabeça por tanto tempo com tantos amores errados e líquidos e reprimidos; como poderia alguém assim, sem a menor cerimônia, colocar para tocar um “estou tão apaixonado por você, que tudo o que você quiser fazer, está bom para mim. vamos ficar juntos“? E essa música então apareceu, do nada, num momento aleatório de uma viagem de carro, em algum quilômetro perdido no meio da Dutra. E eu comecei a chorar. Sem nem pensar, sem tentar controlar. Eu comecei a chorar porque pensei em você e você não está mais aqui. Eu comecei a chorar porque quando você apareceu, você mudou tudo. Porque eu penso no seu sorriso, nos seus olhos cor de mar-verde, em como eu me sentia ao seu lado. E você não está mais aqui. Foi a primeira vez que chorei desde que você partiu.

(…)

Algumas horas mais tarde, peguei o fusca para voltar para minha casa. Era primeira vez que eu dirigia uma longa distância à noite em muito, muito tempo. Porque por anos eu tive medo de dirigir e o fazia o mínimo possível. E eu estava lá, na Radial Leste, admirando meu skyline favorito da cidade com suas mil luzes acesas, a torre da Gazeta. Pensando em como minha confiança no volante mudou drasticamente em apenas algumas semanas, sem saber ao certo porquê. E me deu um estalo: foi você. Você que chegou dizendo o quanto eu era fantástica, que achava tudo no meu mundo incrível, que me incentivou a ir atrás dos meus sonhos. Eu nunca havia visto isso tão claramente antes, mas quando eu digo que foi você que mudou tudo, eu quis dizer: tudo. Foi por sua causa que eu tirei o carro da garagem. Que me arrisquei num trabalho com um amigo. Que lancei um projeto pessoal. Você, você, você. Foi por causa da sua influência, da sua maneira de enxergar as coisas. Em algumas semanas, você virou meu mundo de ponta-cabeça – e nem estou falando apenas do romance: estou falando também de olhar o mundo de cabeça pra baixo mesmo, como a carta do enforcado no tarô, de mudar a perspectiva de tudo. Foi seu amor acolhedor, generoso e gentil que fez o que os amores fazem de mais incrível: nos transformar em pessoas melhores. Que sorte a minha.


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