Arquivo para setembro \19\UTC 2012

pretérito presente

“Alegam os poetas que, ao adentrar alguma casa ou algum jardim onde moramos quando jovens, reencontramos por um instante aquilo que já fomos.”
(trecho de “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust)

Outro dia estava procurando uma casinha para fazer aula de tricô. Sabia que era na esquina da travessa aonde fica a igreja em que fiz minha primeira comunhão – a rua, de paralelepípedos, estava coberta de flores de uma primavera ansiosa que chegou antes da hora. Encontrei o tal lugar e, por já estar lá, resolvi entrar na igreja. Em poucos segundos uma emoção muito forte tomou conta de mim, de fazer o corpo tremer, o estômago doer, os olhos marejarem. É uma igreja tão simples, minimalista; nada barroca. Nem bonita. Mas eu me vi lá, em 1995, indo todos os domingos. Me vi no altar, no tão esperado dia da primeira comunhão. Me vi com todos os familiares empenados para tirar a famosa fotografia para o álbum de recordações – quatro deles não estão mais aqui.

E, numa visita tão prosaica, em um lugar que eu não ia há uns bons quinze anos, um filme da minha vida passou em frente aos meus olhos, bem clichê. Da menina de dez anos na 4ª série primária, tão cheia de sonhos, que queria ganhar o mundo. Na mulher que sou hoje, por causa de tudo isso que me aconteceu, de bom e de ruim. Os erros, os acertos, os tropeços. De todos os lugares que visitei, pessoas que conheci, afetos que acumulei. Tanta história, tanta coisa, tanta gente. Foi um encontro tão singelo, numa segunda-feira abafada de agosto. Foi quase uma revelação.

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eu rabisco o sol que a chuva apagou

Quando eu era criança, sempre achava que ia sair um pintinho dos ovos que minha mãe comprava. Mesmo ela insistindo que isso era impossível – para mim, se eu pudesse crer de verdade, tudo seria possível. Eu acreditava nisso com uma força desmedida – algo que mais tarde, descobri ser fé. Lembrei-me disso quando estava no centro outro dia e um desses artistas de rua quebrou um ovo na cabeça de um ajudante, e não saiu nada. Um ovo vazio de vida. “Que triste”, suspirei.

Foi essa mania besta de acreditar com força em sonhos estupidamente grandes que me trouxe até aqui. E essa mania de deixar os pés sempre meio distantes do chão muitas vezes me traz mais dor de cabeça que realização. Minha família tem um hábito irritante de sempre ficar me puxando de volta, como pipa quando a gente solta demais a linha e depois tenta recuperar. Talvez seja equilíbrio, não sei. Eles teimam em ser mundanos e fazer contas na ponta do lápis, e eu retrucando que vai acontecer, basta acreditar. Mas é esta mesma fé desenfreada e ingênua que tem me feito falta nos últimos tempos, de mais trevas que luz. É hora de recuperar aquela estrela*.


Roslyn: Como você encontra seu caminho de volta no escuro? 
Gay: É só seguir aquela estrela. Ela vai nos levar de volta pra casa. 

(trecho de conversa entre os personagens de Marilyn Monroe e Clark Gable, em “Os Desajustados“)


*justo eu, que coloquei uma na nuca aos dezoito anos para nunca mais perdê-la de vista…!


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