Arquivo para julho \31\UTC 2017

um mês com mais semanas do que dias

Descobri o peso de ser adulta num ano em que nos encontros com meus amigos, as conversas não são mais sobre o atual paquera, o novo filme do woody allen, a próxima viagem, o livro do saramago ou a exposição do tomie ohtake: agora os assuntos giram em torno de relacionamentos abusivos nos casais tão próximos, divórcio por conta de problemas financeiros, dinheiro guardado para fazer fertilização in vitro, diagnósticos de câncer na família, abortos espontâneos, desemprego e empréstimos no banco, acidentes de carro. Eu não sei como chegamos até aqui, só sei que tudo isso me deixa sem ar muitas vezes, como se tivesse carregando o mundo em minha costas e uma mão na boca me impedisse de falar ou respirar. Não queria que fosse assim.

Tem uma esquina do mundo onde os sorrisos e choros se encontram e ela agora é a quina da minha cama num domingo cinzento da 42a semana de julho. Eu não procuro os amores líquidos e eles não mais me encontram. Me sinto só. Assisto a histórias sobre mil coisas e mergulho na compreensão de um mundo que não era meu até ontem mas agora é, um pouco.

E, numa noite de domingo cansado, poder sair para jantar com a minha família para comemorar uma história que começou há 42 anos, ter um flerte correspondido, comer mousse de chocolate em colheradas fartas sem contar calorias e me permitir rir de forma sincera pela primeira vez em muitos dias é como abrir uma janela de frente pro mar, e poder enfim respirar.

Pena que hoje já é segunda-feira, de novo. E ainda é julho.

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o limbo dos souvenirs de amores partidos

E dentre as muitas coisas que perdemos com o fim de um relacionamento, tem as músicas e os lugares e os poemas e os romances todos que podiam até ser muito meus antes de te conhecer; mas eu emprestei pra gente usar na primeira pessoa do plural e eles se metamorfosearam em qualquer outra coisa que não é mais só minha nem só sua; e depois que a gente termina também não é mais nossa, e cai no limbo de todos os souvenirs de relacionamentos já fin(d)ados.

Meu restaurante francês que era favorito até meu melhor amigo trombar com meu amor passado acompanhado de sua nova namorada. Uma música que eu amava e hoje lembra saudade porque quando eu era metade de um casal ela fazia sorrir e fazia sentido, o-mundo-anda-tão-complicado-que-hoje-eu-quero-fazer-tudo-por-você. Uma sobremesa que hoje já não é mais tão especial porque não tem alguém do outro lado para pedir “uma só mas com duas colheres para dividir”. Um perfume que nunca mais será apenas um perfume qualquer de um estranho que me cruzou na rua – ele será sempre um cheiro de memória de um amor muito amado que vestia apressado a camiseta após o banho pela manhã, inebriando o quarto inteiro. As músicas agora sem dono, o perfume contaminado com o som de um sorriso, uma sobremesa nunca mais provada. Para onde devem ir todos os objetos inanimados quando o amor não é mais amado?

cheiro de novo

A gente namorou num mundo pré-netflix smartphone whatsapp facebook tinder, no que hoje parece ter sido a era paleolítica – e eu aqui me perguntando, o que teria sido diferente? Se ao invés de ter me apaixonado platonicamente cruzando o corredor da faculdade a gente tivesse se visto numa foto para apertar coração ou não, a gente teria se amado então? 

Assombrada por fantasmas dentro da minha própria casa, da roupa seca estendida no varal há dez dias porque ainda não encontrei cinco minutos de vontade para recolher. Ou do lixo para retirar, acumulando ali num canto descuidado da cozinha. Ou da bagunça na mesa de jantar, com caixas e livros e recibos e pedidos de exame médico – aqui dentro as coisas não estão muito diferentes disso.

Bem no dia em que eu me esqueci de passar perfume, reencontrei alguém que não via há tantos anos. E fiquei chateada quando me dei conta disso, porque de alguma forma eu queria que ele tivesse sentido que até meu cheiro mudou desde aquela época. Até meu cheiro. Haja desencontro.


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