Arquivo de março \28\UTC 2013

parábola de hoje

Moramos há treze anos na mesma casa, e há todo esse tempo eu realizo o mesmo trajeto para ir até o metrô. Até que, há alguns meses, me deu a louca e resolvi experimentar rotas diferentes, assim do nada. E é como se um mundo de novas descobertas se descortinasse diante de meus olhos, recheado de possibilidades diárias. Uma ruazinha de diferente a cada dia – novos tipos de calçada e paralelepípedo, novos portões, novas pessoas saindo de casa pela manhã, novos cheiros no ar, um jeito diferente de refletir a luz, uma pracinha de surpresa ao virar uma esquina, uma janela com cortininha feita a mão (e um bolo imaginário sendo assado na cozinha), um animalzinho de estimação fazendo preguiça no quintal.

Porém, ainda me aborrece que as opções, ainda que numerosas, sejam limitadas. Tenho uma grande capacidade de enjoar de coisas que não sejam carregadas de um romantismo pré-fabricado (ao qual me apego mais do que deveria). E fico inventando essas histórias para colorir uma rotina cheia de prazos, pressões e pragmatismos. Mas até usar tanto lápis de cor às vezes cansa. E percebo que fica cada vez mais difícil me apegar antes de cansar.

***

Incrível como isso se aplica em tantas situações da minha vida.

pastel de palmito, p’ra viagem

Tem uma cena que adoro de um filme muito singelo, em que a protagonista entra num café e um rapaz, que está de olho nela, fica divagando sobre o que ela vai pedir, e como esta escolha, aparentemente tão mundana, diz muito sobre a pessoa que está fazendo o pedido. Eu sempre proclamo aos quatro ventos que é muito importante pesarmos muito bem nossas escolhas, mesmo as mais prosaicas do dia a dia, porque da roupa que a gente veste até a fonte que vamos utilizar para escrever um texto, tudo diz muito de quem a gente é e da mensagem que queremos passar pro mundo.

Pois bem. Almoço todas as quintas na feira de rua perto do escritório, e ontem, num momento de pura epifania, me dei conta de que nunca, absolutamente nunca, eu pedi um pastel de queijo ou de carne. Não que eu não goste de queijo ou de carne, é que eu simplesmente nunca vou pelo mais simples ou óbvio. E isso me trouxe uma reflexão tão grande sobre algo que vem me martelando há dias, que eu mal cabia em mim, acreditando ter finalmente encontrado uma resposta que há tempos eu procurava. E ela estava num pastel de palmito.

arruda e sal grosso para tirar desgosto

Desde ontem, uma energia muito pesada no ar. Notícias-bomba caindo no colo, algum movimento astrológico avesso ou vibrações do mal rondando. Caminhos tão tortos e truncados, que até coisas aparentemente banais, como o fim do google reader, dão vontade de chorar e pedir colo de mãe. Olho para todas as pendências, burocracias e chatices a resolver, e a única frase que ecoa na mente é “eu não quero ter de lidar com isso agora”. (Nem depois, na verdade). Chamar o técnico para arrumar ar condicionado, montar perfil corporativo, fazer cartões de visita, quebrar o porquinho para comprar um smartphone novo, fazer faxina e supermercado, marcar neurologista. Nem sempre dá para deixar tudo para mais tarde, então o melhor a fazer é buscar inspiração, fazer meditação e respirar fundo. Dias melhores virão.

mafaldinha

um despertador, um cobertor, um grande amor

Semana passada reencontrei uma amiga que não via há tempos. Como sempre nas nossas ótimas conversas, estávamos falando sobre expectativas para o futuro, planos, pretendentes e afins. E ela me disse que, numa de suas crises caso-ou-compro-uma-bicicleta, sua professora de yoga a mandou olhar para dentro e respirar fundo – que ela era uma mulher moderna, e que não era dela se casar cedo e ter filhos. Que era melhor ela deixar as coisas acontecerem do jeito que se apresentavam a ela, sem angústias. Ela disse que isso tirou um peso enorme de suas costas, e que desde então ela tem se comportado diferente no mundo – que também tem lhe respondido de outra forma, muito mais serena e cheia de leveza.

Fiquei pensando muito tempo nisso, depois. A tal lei da atração diz que o que a gente pede pro universo, ele entrega. “Então por que não é todo mundo estupidamente feliz?”, muitos perguntam. Dizem que é porque a maioria de nós não sabe definir exatamente o que quer – e eu me incluo neste grupo, sem dúvida.

Desde adolescente, sempre tive muito definido o que queria para a minha vida. Mas o tempo foi passando e os sonhos, mudando. Me apaixonei, e troquei a vontade de viajar o mundo sozinha e conhecer muita gente por um casamento num domingo pela manhã, um casal de filhos e um volvo na garagem. E estava feliz com isso. Nunca soube ao certo até que ponto esses sonhos eram meus ou nossos, mas vai ver que eram meus mesmo, e estavam guardados no fundo de um canto no meu infinito particular, esperando a hora de desabrochar. Não sei. O que sei é que nos últimos anos tenho enfrentado uma batalha interna muito dura para descobrir de fato quem sou, para onde vou, o que quero daqui em diante. E se comparar com as pessoas ao redor é a maior bobagem e fonte de sofrimento, da qual pouco consigo fugir, e que me enche a cabeça de minhocas – ver outras pessoas aparentemente tão bem resolvidas e felizes em suas escolhas me traz um monte de perguntas idiotas e sem resposta, “deveria eu estar assim? fazendo isso? teria eu esse sorriso no rosto agora?”

Desde que minha amiga argentina me trouxe um pote de doce de leite e me apresentou um mundo sem neuras, há uma semana, o que não sai da minha cabeça é este exercício de sentar, respirar e olhar: aonde você quer chegar? E como fazer para alcançar?

“Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta.”
(Carl Jung)

suburbano coração

O meu grande plano para 2013 é algo que venho acalentando há tempos, mas parece que só agora vai vingar de vez – morar sozinha. Como toda grande mudança, no sentido figurado e no literal, esta também traz muito frio na barriga. Não somente porque representa o grande passo de entrada no mundo adulto, mas porque ela também significa deixar para trás o bairro onde cresci, e que me traz tantas lembranças em cada caminhada. O Tatuapé foi crescendo comigo nesses vinte e um anos que moro ali, e deixou de ser um bairro residencial e provinciano para se tornar um “polo de modernização” na zona leste. Uma bobagem marketeira. A mentalidade dos moradores continua a mesma, eu ainda pago fiado na venda, vivo cruzando com gente que se lembra do meu avô, e consigo encontrar minhas amigas em qualquer horário ou dia da semana porque em cinco minutos a gente chega na casa uma da outra. Mesmo com os preços obscenos praticados por toda cidade, no Tatuapé eles ainda são mais em conta e camaradas, e cada atividade tem o conforto de ser feita “no bairro”. Nossas ruas ainda têm paralelepípedo. 

Ontem, voltando do almoço de domingo com minha madrinha, para visitarmos a nova casa da minha prima no bairro vizinho, ela foi me narrando a história das ruas – ou, melhor dizer, a “nossa” história encontrada nas ruas. “Foi aqui que seu padrinho deixou o carro aquele dia”, “eu e sua mãe adoramos essa casa!”, “foi aqui que eu e o Vi tiramos nosso RG – sabia que temos só um número de diferença, e a gente sabe o número um do outro de cor?”. Essas histórias também são minhas, e elas se confundem com as do bairro – eu que visito minha tia-avó num dia de semana para tomar café da tarde e ganhar galhinhos de arruda de seu jardim; que amo os domingos pela manhã porque vamos à casa da minha madrinha ver meus priminhos e tomar café com bolo antes do almoço; que tento comprar o máximo de coisas perto de casa para “ajudar no comércio local”. E agora, ao visualizar uma mudança não muito distante no horizonte, me dá um aperto no peito de delegar uma parte tão grande de quem sou ao passado, e olhar apenas para o futuro. A rua em que fui atropelada com minha avó, a esquina onde eu e o Bruno demos nosso primeiro beijo, a escola de inglês de muitas tardes no colegial, a igreja da primeira comunhão. Está chegando a hora de escrever novas histórias, e desenhar um novo caminho. Escolher um outro bairro para chamar de lar.

diário de um coração partido, parte 6 – uma segunda chance

Desde que publiquei este texto, um ano e meio se passou e mais um monte de “certo alguém” cruzaram meu caminho. E toda vez eu acabo saindo meio bem, meio machucada, meio pronta pra outra. Mas sempre, sempre com os olhos brilhando quando reconheço outra oportunidade – porque o mundo tá cheio de gente que não vale a pena, mas poxa, quanta gente bacana ainda existe também! E mesmo que doa (bastante), devemos aprender a encarar cada obstáculo como uma pedra a ser retirada do caminho, que traz mais força para continuar a jornada – por mais autoajuda de botequim que isso possa soar. Como o princípio do contentamento, que minha professora de yoga estava contando, que prega que o importante não é o te que acontece, mas como você reage isso (já tinha falado um pouco sobre este assunto antes, também).

Coração partido pode trazer gravidade ou leveza. A escolha cabe somente a nós.

***

Meu professor, na aula de ballet:
“o segredo é segurar tudo com muita força por dentro, e por fora só demonstrar leveza”

História da minha vida.

fui tocar a playlist de 'second chance' e o fundo de tela era um tutu de bailarina, ♥

fui tocar a playlist de ‘second chance’ e o fundo de tela era um tutu de bailarina, ♥

diário de um coração partido, parte 5 – os recomeços

Quando algo se finda, outra coisa começa. Ou recomeça, depende daonde parou. Em fases de coração partido, quando a gente se encontra sem chão e acha que tudo que tinha de referência virou pó, porque estava atrelado a outro alguém (ou outro sonho, outra companhia); o que mais funciona para mim é retomar quem acreditamos ser na essência, e que às vezes acaba se perdendo ao longo do caminho, por razões alheias à nossa vontade. Voltei para as aulas de ballet e para a yoga esta semana; e foi muito bom perceber que, embora certas vezes a gente acabe se esquecendo de quem a gente é, o corpo ainda tem uma (boa) memória. E meus pés foram seguindo os passos de plié quase sozinhos, como se fossem uma parte do meu corpo que independe da minha vontade para funcionar.

Também voltei a trabalhar em período integral, buscando na disciplina de horários organizados um conforto que me apoie enquanto o coração anda tentando se encontrar. Minha agenda está pedindo descanso – tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Quando tenho a mente vazia e vontade de colocar a vida nos trilhos, saio feito polvo agarrando tudo que encontro, mil tentáculos atrevidos puxando as coisas pra perto. A gente conserta de fora para ver se arruma aqui dentro. A melhor cola que conheço para momentos de cansaço é ocupar o corpo – a mente acaba indo junto, no embalo. 


‘… we all make mistakes
yeah, but it’s never too late to start again
take another breath
and say another pray’

(trecho de ‘Fly away from here’, do Aerosmith, que tocou outro dia bem quando liguei o rádio no carro e olhava pro skyline da cidade todo iluminado. que momento bonito e tão cheio de sentido)


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