Arquivo de janeiro \23\UTC 2012

it’s the end of the world as we know it

“(…) Fantasiar o fim do mundo é uma forma de nos fantasiarmos a nós como testemunhas desse fim do mundo.
E, além disso, é também uma forma conveniente de sacudirmos um pouco o tédio existencial da nossa condição pós-moderna, da mesma forma que os nossos antepassados medievais procuravam libertar-se da miséria material que os rodeava pela violência utópica.
Vaidade e tédio, eis a combinação dos nossos namoros apocalíticos. Que, às vezes, divertem.
A esse respeito, lembro-me bem do Réveillon de 1999, quando soaram as doze badaladas. A ansiedade estava ao alto: foram meses e meses com notícias tenebrosas de que um “bug” informático iria paralisar o mundo na chegada do ano 2000.
E, quando 2000 chegou, nada de nada. Ou, melhor dizendo, tudo de tudo: a mesma vida para viver; o mesmo trabalho para fazer; as mesmas contas para pagar; a mesma mulher, ou o mesmo homem, para suportar.
Na festinha onde me encontrava, lembro-me até da pergunta de um colega pasmo: “Era isso o bug?” Pergunta de desânimo, não de alívio.
Razão tinha o poeta. Viver sempre também cansa.”

(trecho de “Viver sempre também cansa“, João Pereira Coutinho)

Na semana que passei de férias na praia, aproveitei para colocar toda a leitura em dia. E muitas das coisas que me cercavam, nos dias pós-réveillon (o último?), eram reflexões do fim do mundo, sobre o tal calendário maia que diz que o mundo vai acabar em 21 de dezembro próximo. Fiquei pensando em muitas coisas, sobre o que eu gostaria de fazer e ainda não fiz, em como quero conduzir minha vida este ano, se de fato a gente consegue aplicar no dia a dia a máxima do carpe diem de “aproveitar cada dia como se fosse o último”, é-preciso-amar-as-pessoas-como-se-não-houvesse-amanhã.

Li muitos textos bem bons a respeito. Não defendendo a tal neurose generalizada, mas pontuando coisas interessantes nas nossas atitudes e comportamentos em relação a isso. Ou, se é para sermos práticos, então pelo menos no cotidiano tentar adotar a consciência de finitude e viver o agora. Porque todo mundo sabe que vai morrer um dia, mas “um dia” é tão vago. Se tem data de validade, a gente pelo menos fica um pouco mais esperto. E, se a previsão não se concretizar (o que é mais provável), pelo menos ter a certeza de ter feito muitas coisas boas neste meio tempo. Viver sempre igual cansa. Mas tentar viver o diferente pode ser um prazeroso exercício diário.

insistir ou desistir, eis a questão?

Minha mãe comprou um armário médio para o consultório há uns três anos, numa dessas lojas grandes de móveis e utilidades domésticas. E desde que ela comprou ele vivia dando problemas nas portas, desmontando etc. Eu mesma ajudei a desmontá-lo inteiro e remontá-lo do zero junto com meu pai, alguns meses atrás. Aí ela resolveu trocar de armário, comprou outro e trouxe o tal peso morto pra casa, crente de que poderia usá-lo na lavanderia.

Ontem acordei com ela me dizendo que eles não conseguiram montar o quebra-cabeça, me pedindo ajuda. E lá fui. Não tinha mais manual, montava de um jeito, de outro. Meia hora, uma hora, nada. Não era possível!! Já chorava de nervoso, me perguntando por que raios ela insistia nesse maldito desse móvel, que trazia mais problema que solução. Veio meu pai, meu irmão. Quando ela lembrou que tinha colocado uns pinos errados, tentamos de novo. Deu certo por alguns instantes, até o levantarmos na posição correta e ele se desmanchar de novo – assim como nossas esperanças remotas de fazer aquilo funcionar.

– Não é possível que um móvel vai dar um baile na gente, eu não admito!!

– Deixa isso pra lá, joga fora, a gente compra outro – nós três suplicávamos, em vão, para que ela abandonasse aquela ideia teimosa de que ele ainda poderia servir para qualquer coisa que não nos dar um ataque de nervos.

– Mas eu paguei muito caro por ele!
(e notem que minha mãe é a pessoa menos materialista que conheço, era só orgulho ferido mesmo)

***

E foi nessa luta que passamos mais um tempo, até ela jogar a toalha e desistir. E eu fiquei o resto do domingo pensando em como a gente é assim em tantas situações na vida. A gente passa muito tempo insistindo em algo que, para quem está de fora, não faz o menor sentido, é só desperdício de tempo e energia. E a gente se convencendo de que investiu muito naquilo, de que ainda vale a pena lutar, quando todos ao redor já perceberam que a batalha foi perdida, que é melhor doar as peças partidas para o moço que recolhe madeira e vai fazer bom proveito delas. Entregar nossos pedaços desiludidos para alguém que enxergue potencial, quando a gente só enxerga cansaço. Certa vez li que, em muitos casos, desistir é muito mais corajoso que continuar, o tal “saber a hora de parar”. Difícil né?

daqui pra frente tudo vai ser diferente

Outro dia estava conversando com uma amiga que é uma baita inspiração para mim. (Ela é três anos mais velha e, desde que nos conhecemos, eu olhei para ela e pensei “é assim que quero ser daqui a três anos”, tipo um farol. E às vezes tenho a sensação de que ela não tem noção de quão incrível ela é.) Aí, nessa tal conversa, ela me contou que estava saindo com um cara, e falamos de inseguranças femininas, flacidez, celulite, ai-tou-gorda, essas coisas. Então eu parei tudo e disse pra ela, “gata, se esse cara não ficar contigo porque você tem celulite, me desculpa, mas ele é um babaca que não te merece”. Porque imperfeições físicas, que todas nós temos graças-a-deus, eram a última coisa que eu conseguia enxergar nela.

Aí fiquei pensando em como a gente tem um olhar tão generoso para os outros, e tão crítico para nós mesmos. Eu olho para as pessoas queridas ao meu redor e só consigo enxergar coisas boas. Vejo muitos defeitos também (ainda bem!), mas eles me parecem tão pequenos perto da imensidão de coisas incríveis que essas pessoas carregam consigo. Coisas tão bonitas que me fazem trazê-las pra perto, querer ter comigo o tempo todo, para inspirar, acolher, tomar emprestado. Mas a gente se olha no espelho e só enxerga defeitos, e comecei a reparar em quão triste é isso tudo.

carrie

Por isso, uma das minhas resoluções para 2012 é olhar para mim com muito amor, com o mesmo carinho com que olho as outras pessoas. Ser inspiração para mim mesma. Querer melhorar sim, claro, porque evoluir faz parte da natureza. Mas parar de ser tão cricri e enxergar esse montão de coisas boas que a gente tem, que faz da gente tão única. Como já disseram tão bem as Oficinas.

Semana passada minha mãe me deu um cofrinho em forma de coração, promoção de um supermercado, para a gente escrever uma coisa boa que aconteceu no dia e colocar lá religiosamente, todos-os-dias, como se fossem pequenas moedas. Tipo uma poupança de boas lembranças, para ler no final do ano e só ver o que ficou de saldo positivo; nem que seja apenas o aprendizado que uma situação ruim nos trouxe, para servir de lição. Se cercar de coisas boas e felizes, no caminho do bem – tem tesouro maior que esse?

confiando o futuro ao futuro

Meu acupunturista é um japa figura que há um ano alegra minhas manhãs de segunda-feira, sempre cheio de boas energias, me dizendo que tudo vai dar certo, que eu não terei mais dores nos joelhos e nas costas (#oivelhice), que vou parar de ser ansiosa e vou emagrecer, trabalhar bastante só que zen, arrumar um namorado bacana; essas inspirações motivacionais que a gente tanto ama e precisa ouvir (principalmente às segundas logo cedo).

Mas hoje ele estava diferente. Ele disse que foi trabalhar feliz, e nem sabia porquê. Que há muito tempo tava indo trabalhar cansado e desmotivado, mas hoje algo mudou na sua disposição, na sua energia. Ele responsabilizou o ano do dragão no horóscopo chinês. Disse que 2012 será o ano das grandes realizações, que os bons e justos finalmente irão colher tudo o que plantaram, ano de fortuna e felicidade. E tinha uma serenidade muito bonita no seu discurso, uma certeza bem convincente.

Também ando meio assim, carregando comigo essa tal segurança, com um brilho no canto do olho como se fosse portadora de um segredo que ninguém sabe ainda. De que 2012 vai ser bom e feliz. Sou só eu?

meu copo de mar

Este pingente da foto foi meu único acessório na noite de ano-novo. Presente de aniversário da comadre, uma das lembranças mais delicadas e singelas que já recebi na vida. Vinha acompanhado de uma linda historinha sobre as amizades que mesmo indo e vindo (como os barcos), jamais se perdem. E eu, que apertei forte o meu barquinho quando ouvi as doze badaladas do dia 31, tinha somente um pensamento em mente: tudo o que mais quero para 2012 é novos horizontes. Minha jangada vai sair pro mar.

366 oportunidades

Há exatos quatro anos, em janeiro de 2008 (também ano bissexto), eu postei esta tirinha do Liniers. E 2008 foi o melhor ano dos últimos tempos, repleto de realizações, conquistas e grandes colheitas, de tudo que eu havia plantado nos anos anteriores. E acho que é isso que eu espero de 2012, este ano redondo e tão aguardado: colher muitos frutos. 366 vezes. 

dois mil e doce

Um ano novo feito anis: leve e açucarado ;)

Vamos todos tentar ser pessoas melhores?

O mundo agradece.


*a foto linda foi presente da fiel leitora Laylah Raeder :*


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