Arquivo para junho \29\UTC 2016

vida aberta, um farol fechado e uma pausa para refletir

– A vida ta aberta pra gente!

É essa frase otimista, de um dos meus melhores amigos, que sempre me vem à mente quando pego uma sequência de faróis com a luz verde. E foi assim num sábado fresco de sol, início do inverno em em São Paulo, quando peguei o fusquinha para ir ao tatuapé ver minha família – todos os sinais abertos, e eu pensando que minha vida estava assim: com caminhos se abrindo. Porém, após uns cinco minutos dirigindo, percebi que o espelhinho do lado do passageiro estava para dentro, porque alguém provavelmente havia empurrado. Só que eu não pegava nenhum sinal fechado para arrumar, e não podia me distrair no meio da Radial Leste para fazê-lo – nem podia trocar de faixa, com receio de acertar um motoboy. Até que, em algum momento, o farol fechou – e foi um alívio! Finalmente consegui acertar o espelhinho e respirar tranquila, checar a maquiagem no retrovisor e voltar ao volante.

E foi então que eu percebi a mensagem que o universo estava tentando me passar: que às vezes precisamos mesmo dessas pausas para ajeitar as coisas, para endireitar o que precisa ser arrumado, para dar um respiro – e só então voltar para uma vida fluida, de vias se abrindo. Uma vida atropelada não tem espaço para a reflexão.

Após alguns meses lutando contra essa ansiedade doida de não conseguir uma recolocação profissional, foi essa epifania mundana que aquietou um pouco meu coração aflito. Para qualquer pessoa, isso pode parecer uma grande bobagem. Mas para mim, que voltei a pegar no volante após um longo inverno, não foi apenas um farol fechado: foi um momento iluminado.

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sem ver, o coração não sente

Passados o contentamento e o vazio, eu fiquei empilhando nossos momentos e os seus livros no canto do quarto tentando reconstruir uma história. Não funcionou.

Quanto mais o tempo passa, mais longe tudo vai ficando. As memórias, meus braços longe do seu abraço, você do outro lado do Atlântico. Nosso primeiro beijo na sua cozinha. A gente tomando café na sua sacada, fitando o rio Pinheiros. Você tocando Caetano no violão para mim, no sofá. Eu sentada na ponta da cama, do outro lado do corredor, observando.

(…) Nosso segundo encontro. Você me olhando nos olhos e dizendo que “a gente tem uma conexão, né?“. Você de camisa branca entreaberta, apoiado na bancada na cozinha, comendo meu risoto requentado, me incentivando a ir atrás dos meus sonhos. Você se despedindo na catraca me contando que meu café da manhã “ia ficar na memória“.

(…) Nosso último almoço juntos, comendo feijoada e conversando sobre política e legalização do aborto. Seu sorriso iluminado pela luz oblíqua do sol que atravessava a calçada, enquanto eu te fazia cócegas porque você estava estava me pentelhando. Aquele seu sorriso, daquele jeito, naquele dia – é tudo o que consigo ver quando fecho os olhos para dormir, há seis semanas.

(…) Os dias passam e as lembranças vão ficando mais distantes e difusas. E eu tentando me agarrar a elas com força, como uma criança segura balões de gás que estão prestes a escapar para o infinito. Eu não quero que nossa história suma no horizonte.

As mensagens não respondidas. Os emails não lidos, as notícias não comentadas, os abraços não dados, os beijos perdidos. Há um vazio nessa casa e ele não é mais só meu. Mas talvez seja melhor assim: um oceano no meio – longe dos olhos, longe do coração. Foi o que disseram.

a frente fria trazida pela chuva

Dispensando o balé por causa de uma enxaqueca fortíssima, sentada na janela do metrô voltando pra casa e divagando sobre todas as vidas que um dia imaginei para mim e nunca aconteceram. Desbravar a Alemanha com Stefan. Casada com Rafael e ter minha então melhor amiga como cunhada. Reencontrar Bruno já “adulta” e bem resolvida e rirmos das nossas bobagens adolescentes. Finalmente viver um romance com Ben quando ele se mudou para Paris. Uma volta de vespa com Marco em Veneza. Discutir filosofia num café em Santiago com Ignacio. Você batendo à minha porta arrependido, me pedindo para voltar – você nunca mais voltou. 

Eu, que gosto de vestir cores claras no inverno, deixo meus sapatos espalhados pela casa toda e sempre dou dinheiro para músicos de rua. Que tenho a base de um vestido de noiva no meu sofá há uma semana esperando uma reforma e almoço brownie num dia frio porque quero um consolo em forma de bolo. Eu, que fico postergando o texto que preciso escrever para o trabalho enquanto tomo chá e leio blogs de moda, salvando imagens no pinterest e ouvindo divas do jazz. Trapaceio na terapia, visto polainas enquanto assisto ao novo seriado favorito porque a mocinha me lembra muito eu mesma e me faz gostar um pouco mais de mim – e em momentos de crise, isso é tão, mas tão necessário. Tento me enxergar como os outros me veem mas sempre há uma insegurança gritante aqui dentro, como se eu nunca fosse merecedora ou capaz. Uma tendência forte à preguiça e à indisciplina, um não-querer levantar cedo, atender o telefone ou responder mensagens. A vista da minha janela é recortada por São Paulo e seus prédios desordenados, o pôr-do-sol desenhado no meio dos edifícios. Enquanto caminho sem destino, vejo as ciclovias desbotando, a tinta das paredes descascando. Leio sobre saturno em sagitário trazendo estabilidade, mas minha mente sonhadora só sabe pensar nos aneis. Mãos sempre tão frias – dizem que é sinal de “coração quente”. Com essa minha mania besta de insistir no romantismo: só pode ser.

o ontem é apenas uma parte do hoje

Dos meus dedos que se espalham entre seus muitos cabelos muito finos. No seu jeito de rir com o rosto todo – a boca, os olhos, tudo. De fazer palhaçada enquanto raspa a barba em frente ao espelho, e eu peço para você deixar apenas o bigode e fazemos uma sessão de fotos de comédia pastelão entrecortada por uma crise de riso. Quando estou passando distraidamente pelas fotos do meu celular e trombo com essa, vejo que você saiu na frente do meu quadrinho de “enjoy today everyday“, e você foi exatamente isso na minha vida: a lição para aproveitar o hoje, um dia de cada vez, sem medo de futuro. Sua maneira de balbuciar baixinho as músicas de Bowie enquanto lê as notícias do dia no computador, ou assobiar um pouco de Gil enquanto roda pela casa procurando seus óculos. No seu jeito de dizer que a vida é boa e cheia de surpresas, quase ingênuo.

Você, que tem a memória falha de um peixinho dourado; mas uma alegria doce de quem guarda espaço para as coisas que realmente importam. Eu, a que ainda tenha um pouco mais de memória nesse duo, me sinto agora responsável pelo legado das boas lembranças desse breve romance. E que bom ser a guardiã desse encontro; e poder guardar nossos pequenos-grandes momentos com todo carinho e cuidado que eles merecem. Como quando eu contorno com os dedos as finas linhas de rugas de expressão que estão começando a se formar na sua testa, como se eu quisesse preservar para sempre aquele relevo no meu toque. Quando estamos na varanda tomando café num fim de tarde de outono olhando o movimento da rua e você abaixa a cabeça para beijar meu antebraço, e eu encontro seu primeiro fio de cabelo grisalho, atrás da orelha. O som da sua risada. Você acordando assustado no meio da noite porque seu braço adormeceu enquanto você segurava a minha mão. Sua letra nos meus livros. Seu português com sotaque francês. Sua maneira de dizer que gostava de mim sem dizer nada em língua alguma, apenas com gestos atenciosos. Você sendo você.

Se eu soubesse que você seria meu abril, teria sobrevivido a mais três marços. 

mas as pessoas na sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer

Atrás da casa dos meus pais tem um bufê infantil. Sempre teve muita festa lá, principalmente de sexta a domingo, de dia, à noite. Quando eu morava lá, achava um pouco irritante não conseguir tirar um cochilo no sábado à tarde sem vir acompanhado de parabéns-a-vocêee, e toda uma sequência de músicas e brincadeiras que eu sabia de cor. Mas uma coisa me confortava: eu podia estar curando uma ressaca ou um coração partido, curtindo um novo emprego ou paixão, planejando uma viagem ou estudando para uma prova, superando um luto ou comemorando uma conquista; não importa – sempre haveria alguém fazendo aniversário, celebrando. Era uma lembrança pontual dos ciclos da vida, da sabedoria budista de que tudo é impermanente, “isso também vai passar”.

Outro dia estava visitando e, enquanto estendia as roupas no varal para ajudar a minha mãe, cantarolando “lua de cristal” (sim); ouvi o famigerado “parabéns a você”, e tudo isso me voltou: a impermanência das coisas, os ciclos. Aquela garota que ficava sentada por horas naquele local fitando o céu e sonhando com uma vida cheia de promessas de futuro, com sede de mundo. E não saber o que está por vir, por alguns instantes, deixou de ser assustador: foi reconfortante. 


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