Arquivo para maio \27\UTC 2016

nas vezes em que percebi que você não estava mais aqui

Pus para tocar sua canção brasileira favorita.
Fiz o chá que você mais gosta.
Coloquei o perfume que estava usando no nosso primeiro encontro.
Pintei grafismos num vaso de barro.
Abri a casa toda e escolhi seu canto na varanda para olhar a rua enquanto tomava um café.
Escrevi, revisei, reli e reescrevi montes de textos.
Comi mousse de maracujá, pudim de leite e romeu-e-julieta.

Montei uma playlist de outono.
Escolhi outra xícara para o dia-a-dia porque você havia quebrado a que eu trouxe de Inhotim enquanto lavava a louça.
Conversei por muitas horas com meus amigos.
Assisti os filmes que você recomendou.
Troquei as plantas de lugar.
Dormi do seu lado da cama.
Ouvi a música que você tocou para mim enquanto eu cozinhava nosso jantar.
Comprei o pão que você havia escolhido na padaria.
Li os livros que você me deu.
Arrumei o escritório.

Deixei seus cigarros no cinzeiro no parapeito da janela porque é como se você ainda estivesse aqui. Mas você não está. Você ainda não voltou.

Choveu sem parar apesar de ser maio.

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“c’est la vie”

Quando derrubei a xícara do jogo de meia-dúzia que minha mãe havia ganhado de presente de casamento e me deu para trazer boa-sorte à casa nova, eu fiquei paralisada por infinitos segundos em frente ao armário de louças, fitando os cacos espalhados pelo chão como quem de repente reconhece que certas situações já não têm mais conserto. Você, que trabalhava no computador a poucos metros de distância, viu meu susto e pulou correndo para recolher os pedaços, antes que meus pés (sempre) descalços pisassem em algum resto cortante. Eu achei isso tão, mas tão bonito. Não foi nada, mas foi tudo. Foi como se eu enxergasse em você alguém que, por instinto, viria sempre correndo impedir que eu me machucasse.

Como quando você me entrelaça pela cintura ou delicadamente me puxa pelo braço ao atravessarmos a rua, para que nenhum carro chegue muito perto. Ou como você sempre quer, por educação ou romantismo, me acompanhar até a estação quando preciso ir embora; e me dá um beijo de despedida na catraca, quando chegamos ao limite de onde podemos seguir juntos. Ou quando você fez questão de carregar meus patins quando fui encontrar um amigo, porque sabia que eu iria passar a tarde patinando sob um sol de 35 graus no asfalto e você quis aliviar um pouco meu peso. É isso: desde que você apareceu, com seus olhos cor de mar-verde e seu riso fácil, você aliviou todo o peso. Você evitou que eu machucasse. Porque dez dias após nosso primeiro encontro, você me pediu para se mudar temporariamente para a minha casa, e eu peguei amor. Você chegou numa tarde de segunda-feira com sete volumes de bagagem e me deu de presente seu livro favorito. E todas as noites dormimos de mãos dadas, e todas as manhãs tiveram café demorado e sorriso apaixonado.

Agora a casa está cheia de ausências e silêncios.

let’s just kiss and say goodbye

– Vou te dar uma cópia da chave para você ficar mais à vontade.
Cinco dias após nosso encontro que mudou tudo, você me pediu para vir para ficar. E eu disse sim. Óbvio-que-sim. Com-certeza sim. Sem-sombra-de-dúvida sim. Decisivo sim. Conclusivo sim. Jamais-diria-não sim. Quero-acordar-todos-os-dias-ao-seu-lado sim. Você-me-abre-seus-braços-e-a-gente-faz-um-país sim. Sim, sim. Pode-vir-claro sim. Sim.
(…)

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Foi a frase do poeta que habitava sua mesa de cabeceira e que deu nome ao meu irmão que não saiu da minha cabeça desde que nos conhecemos; ao pensar em quanto desencontro tem de haver para que os encontros possam, em algum momento, exercer sua mágica. Quando dividimos a mesma festa por duas vezes e não nos conhecemos. Quando nos trombamos virtualmente e nos perdemos. E quando finalmente nos encontramos, depois desses quase dois anos de desencontros, foi uma história de amor. “Demorou muito para isso acontecer né? Mas depois; nossa, foi rápido…!” você concluiu, com aquele seu sorriso acolhedor que toma todo o rosto e faz seus olhos verdes ficarem ainda mais iluminados.

Quando você me confessa que já desistiu de tentar entender, eu ainda penso muito sobre o tempo das coisas e como as histórias se desdobram; em como muitas vezes tudo parece acontecer de tal forma orquestrada que nós finalmente percebemos não ter controle algum mesmo de nada; sobre estarmos nessa jornada apenas seguindo nesse balé e tentando ficar na ponta dos pés. 

(…)

Quando decidi te acompanhar ao aeroporto, eu pensei que iria ficar muito triste. Que iria me segurar para não demonstrar emoções demais para um aquariano reservado, que iria conter as lágrimas no canto e ficar com os olhos muito úmidos e ensaiar algumas palavras bonitas para te acompanhar na viagem. Mas não foi nada disso: eu segurei seu violão e nos beijamos timidamente. E depois um beijo mais longo e cheio de sentimento, que disse tudo o que não conseguimos dizer. Eu não chorei. Nem você. Na verdade, eu saí de lá sorrindo, com o peito cheio de contentamento, feliz de ter tido a chance de viver essa história tão bonita e significativa. Pensando em todo o furacão que 2016 me trouxe desde janeiro; mas foi esse mesmo 2016 que me trouxe você – num abril-abrindo-horizontes, que veio como um bálsamo curando todos os machucados, como um sopro de mãe aliviando todas as feridas. Você. Infinitamente você. Divertidamente você. Apaixonadamente você. Certamente você. Que traz ainda mais sentido para o já batido tudo-vale-a-pena-se-a-alma-não-é-pequena: uma grande história de amor na qual os dois resolveram apostar, sem receio do que viria a seguir, sem medo de se machucar.

E eu lá, saindo do aeroporto num fim de tarde fresco e cinzento, vendo a cidade passar borrada pela janela do ônibus, pensando em tudo isso; e sorrindo. Que bom, que bom. Que bom.

baby, eu sei que é assim

O décimo segundo dia de maio amanheceu com a luz branca de um céu nublado invadindo todo o quarto. Os pneus deslizavam pela rua fazendo um som molhado, apesar do silêncio que denotava ausência de chuva. Silêncio, ausência. Silêncio. Ausência. “Quase uma aliteração”, pensei. Semelhantes na fonética e no sentido.

Acho que choveu, constatei baixinho após seu “Bonjour !” sempre animado ao abrir os olhos.

Levantei e abri a sacada. Agora era meu coração que chovia certa angústia, relembrando as manchetes tristes do noticiário, falando de manobras políticas, golpe de Estado, retrocesso. E pensando que foi o último dia que acordamos juntos, após essa breve e intensa história que o mês de abril me trouxe de presente, compactada em 25 dias e incontáveis momentos. Infinito-o-quanto-durou, que veio como era pra ser. “Porque foste em minh’alma como um amanhecer, porque foste o que tinha de ser”, enchendo todos os silêncios de música e todas as ausências de riso solto. Um romance para trazer um pouco de mágica a um coração apático e errático, cansado de vazio.

(…)

Você trouxe pão fresquinho e eu fiz café enquanto lavava a louça do jantar de ontem. Quando fomos para a rua, o céu coalhado de nuvens já ensaiava uns cantos azuis, e um sol tímido tentava dar as caras. Enquanto caminhávamos buscando as galerias de arte do bairro; eu cantarolava “Time after time” e você balbuciava “Chega de saudade“, ambos tropeçando nas letras que não eram das nossas línguas nativas. Você – que um dia antes só sabia dizer que não queria ir embora -, hoje já parecia conformado, me escrevendo dedicatórias divertidas nos livros espalhados pela casa, com nossas piadas internas sobre sufixos de grau e banalização da gratidão.

Quando voltamos, eu te fiz a sobremesa brasileira com nome de casal injustiçado e foi esse romeu-e-julieta que adoçou a nossa tarde pré-aeroporto, lendo notícias do planalto em quatro línguas diferentes – e mesmo assim não entendemos nada. Essa vida é mesmo muito engraçada.

 

visita inesperada

Fazia três dias que minha casa estava vazia, pedindo um respiro após tanto desgaste, clamando por outros móveis e energia, esperando uma cara nova. Desmarquei compromissos para um encontro dos mais importantes (renovar meu refúgio), e passei a quinta-feira quase inteira fazendo faxina e limpando cada canto, espalhando sal grosso e acendendo incenso. No fim do dia, na lavanderia, ao puxar um pano seco de um balde, um inseto verde levantou voo furioso e de sopetão. Me assustei, pensando ser uma mosca varejeira – das quais não gosto e concluo serem mau agouro (são?). Meio contrariada de saber que um inseto estava estragando todo o meu profundo processo de limpeza (literal e metafórico), fui para a cozinha preparar o jantar, porção individual. No que reparei no tal inseto, na parede em cima da geladeira. E não era uma mosca: era uma esperança. Igual a um dos meus contos favoritos de Clarice.

Você pode ficar aí, eu disse sorrindo.

“Você faz o favor de facilitar o caminho da esperança”, fiquei recitando mentalmente. Não demorou muito para que eu voltasse a cantarolar as músicas que eu cantava antes, enquanto estava empunhando a vassoura pela sala. Esse inseto sim eu sabia ser sinal de bom presságio, de promissores acontecimentos vindouros e futuro auspicioso. Ficamos lá na cozinha um bom tempo: eu, a esperança e músicas animadas tocando de fundo.

Dez dias depois, algo mágico aconteceu. E acho que tem muito a ver com esta visita.


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