Arquivo para abril \28\UTC 2012

errando e aprendendo

Outro dia estava vendo uma reportagem na tevê sobre uma escritora americana, autora de um livro sobre nosso medo de errar. No dia seguinte vi o post-it do dia no “things we forget” também nos pedindo para perdermos o tal medo de errar. Virou uma epidemia essa busca ilusória por uma perfeição que não existe?! Acho que sim – segundo a matéria, esse seria um mal moderno.

No mesmo vídeo a autora fala de como nós mulheres nos martirizamos mais pelos nossos erros e tropeços do que os homens. Essas cobranças para sermos sempre filha-mãe-profissional-companheira-amante-dona-de-casa-gostosa, tudo em escalas absurdas e inatingíveis de perfeição, nos deixou reféns de um modelo impossível de alcançar. E é tão duro fugir disso né? É preciso muito autoconhecimento e um bocado de generosidade para não nos punirmos por não sermos sempre impecáveis em tudo que fazemos… e errar é tão bom! É bom porque é ruim mesmo, porque dá um chacoalhão. Mas, na maioria das vezes, um chacoalhão bem dado é tudo o que a gente precisa para acordar e seguir adiante, dar um clique.

Então, vamos errar com mais elegância e aprender com mais vontade. Sem autopiedade ou engano, sem fingir que não existiu ou que foi fatalidade. Errar é humano, já diz o ditado. E que bom que somos todos humanos e que tudo serve de lição. A perfeição é muito chata e quadradinha; e errar (que bom!), faz parte de um aprendizado maior, de nos tornarmos alguém melhor num futuro bem próximo. Porque não só os acertos que nos tornam quem a gente é, mas muitos erros também. Ainda bem.

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time after time

Há exatos dois anos eu aterrissava com meu irmão numa Londres tumultuada pela maratona e pelo caos aéreo acontecido na semana anterior. No dia de São Jorge havíamos embarcado cheios de expetativas e borboletas na barriga, e o santo guerreiro providenciou surpresas sobrenaturais para que tudo corresse da melhor forma possível.

Adoro como essas datas redondas (aniversário, ano novo) sempre nos trazem reflexões. Ontem me dei conta de que dois anos se passaram de um dia em que, aos 25 anos, pus todo meu coração em uma mala, disposta a deixar tudo para trás, ansiando ganhar o mundo. E como, quando as coisas não saíram conforme o planejado, eu tive coragem suficiente para fazer as malas de novo e voltar, sem orgulho ou falso engano. Uma longa viagem de fora, para olhar para dentro e perceber que eu não precisava viajar milhas e milhas para ganhar o mundo – que tolice. “O mundo todo reside dentro, em mim.”

Neste último ano e meio desde que voltei, tenho trabalhado com dedicação espartana para ganhar o mundo daqui mesmo – do meu quintal. E ontem, ao colocar mil contas no papel, e ver mais um grande sonho começar a se concretizar bem diante dos meus olhos (e talvez antes do imaginado), a grande surpresa: não é que tem funcionado?!

coração ligado, beat acelerado

“(…) Depressa e Devagar não se limitam a definir uma alternativa. Remetem também a maneiras de ser, ou filosofias de vida. (…) Por isto é que a filosofia Devagar pode ser resumida numa única palavra: equilíbrio. Seja rápido quando fizer sentido ser rápido, e vá devagar quando for necessário. Procure viver aquilo que os músicos chamam de tempo giusto – o andamento certo.”
(Carl Honoré, em “Devagar”)

Coisas incríveis acontecem quando a gente decide desacelerar um pouco o ritmo. Abril tem sido tempo de agenda frenética e mil compromissos atropelados, e mesmo assim eu me vejo parando tudo para fugir para o litoral e olhar o mar sem pressa; para ter um encontro de cinco horas que voou feito cinco minutos e levou mais de um ano para se concretizar; para contemplar por uns longos minutos uma foto que me diz algo mesmo sem parecer dizer nada. A vida tem sido generosa comigo, e enquanto eu dou um passo para trás para recuperar o fôlego e ganhar perspectiva, eu me considero uma pessoa afortunada e bem acompanhada, nas dimensões que isso é capaz de ter no momento.

Mas a contradição vem na forma de uma serenidade tranquila por fora e uma festa de arromba bombando aqui dentro: a única parte de mim que teima em continuar em ritmo de bateria de escola de samba é o coração, que tem batido feito louco. Mas esse eu até perdoo – sintomas de romantismo irrefreável e ingênuo, de sensibilidade latente e persistente. Deixa estar.

accepting your goodness

Este título é um capítulo de um livro que li há cerca de um ano sobre o poder da mentalização. Ele falava sobre como é difícil aceitarmos as coisas boas que nos acontecem, porque no fundo a gente não se sente merecedor, uma dúvida de “por que eu?”, quando a gente sabe que há tanta dor no mundo. Mas há muito amor e bondade também, e é um exercício saber aceitar as coisas boas sem questionamentos, desconfianças ou inseguranças. Apenas aceitar.

Hoje, num e-mail cotidiano, alguém disse que “aceitar o bom é mais difícil do que dividir a desgraça – simplesmente aceitem”. Isso ficou martelando na minha cabeça, como a frase que tinha saído no tarot, “sinta-se merecedora e terás o melhor que imaginas para você”.

Se a gente é capaz de distribuir tanto amor e cuidado por aí, por que não recebê-lo de volta, como e quando vier, para quem quiser? Esta é mais uma lição que está na minha pautinha de resoluções para 2012, ano de grandes e produtivos aprendizados. De coração e braços abertos.

Mafaldinha querendo deixar a felicidade entrar (sugestão da Isa, via Fernanda Morais, duas leitoras queridas :* )

eu só quero chocolate

“Mama always said life was like a box of chocolates. You never know what you’re gonna get.”
(Forrest Gump)

Inevitável recorrer a essa frase de novo – típico post pós-páscoa: se a mãe de Forrest dizia que a vida era essa caixa de bombons e que a gente nunca sabia o que iria pegar, devo dizer que os recheios têm me trazido boas surpresas. Melhor ainda quando a gente não espera nada.

parei na contramão

Uma vez li uma frase que dizia que, mais do que saber do que a gente gosta, é saber bem do que a gente não gosta que ajuda a construir quem a gente é.

Há dez dias meu pai machucou o joelho, e agora estou de motorista, o levando todos os dias ao metrô, por ser quem tem horários mais flexíveis. Minha família ama dirigir, especialmente minha mãe e meu irmão. Minha mãe já está até triste porque em alguns anos vai ter que parar de pegar no volante, coisa que faz há 45 anos (!). Pois bem. Eu, que sempre fui mais acomodada em pegar caronas e usar transporte público, achava que não tinha pego gosto ainda pela prática apenas porque a fazia pouco e tinha preguiça. Mas agora, que estou sendo obrigada a dirigir mais, percebi que não é falta de prática – é falta de gosto mesmo. E foi tão libertador! Mesmo aceitando que tenho uma certa anomalia genética quando comparada com meus próximos, já que não herdei o tal gene-ayrton-senna-do-brasil; ainda assim fiquei bem mais tranquila quando assumi para mim mesma que não gosto de dirigir. Não preciso mais forçar a barra e fingir que tudo bem, que só preciso “pegar mais o carro”.

Gente, eu não gosto de dirigir. E tudo bem, qual o problema? Que mal há nisso?! Ninguém nasceu em cima de quatro rodas! Acho o trânsito um ambiente nocivo e hostil, um mal moderno. Deixa as pessoas estressadas, mal humoradas, violentas e chatas. Além de monotemáticas – só sabem falar de engarrafamento. E é algo que não quero para mim. Ser pedestre é uma opção de vida.

Ah, como é bom se conhecer melhor e se descobrir um pouquinho mais a cada dia – e viver em paz com isso. Ando num momento bem in love.

eu só quero sossego

Minha mãe: A queijadinha tava boa né? Com a casca fininha…

Eu: Mas há quinze anos ela é igual!

Meu irmão: E é sempre boa.

***

Estamos curtindo: o conforto que só as boas e velhas familiaridades podem trazer. Aquilo que vem sem grandes invencionices, truques ou surpresas. Uma segurança aconchegante de algo que jamais muda: família reunida, fim de semana em lugar conhecido e amado, minha casa onde sei encontrar tudo de olhos fechados, as ruas pouco burocráticas do bairro onde cresci.

Em poucos meses virá mudança das grandes: de endereço, de situações acadêmicas e burocráticas, de postura dentro da família, de atitude perante o mundo. E, apesar de estar lutando muito para ver tudo isso vingar logo menos, o que tenho é um baita frio na barriga. Por isso, sentir-me amparada em lugares onde conheço tudo de cor tem sido um grande alívio. Como uma xícara gorda e morninha de chocolate suíço do qual abusei sem dó nem piedade durante todo o fim de semana. Porque brinde de aconchego tem sabor de chocolate quente descendo macio pela garganta. E guardemos a champanhe para comemorar as mudanças vindouras.  


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