Arquivo de agosto \31\UTC 2016

apesar de você

Uma quarta-feira que amanheceu cinza e chuvosa no 89º dia de agosto, este mês que não tem fim. Em que uma decisão política deixou meu coração mais partido que o último fora que eu tomei. Em que meus dois cortes, no dedão e no indicador, estão ainda cicatrizando após o encontro com a navalha afiada da faca nova que eu usava para cortar legumes. Sangrou demais. Eu tenho sangrado demais. Um dia de montanha-russa emocional, de altos muitos altos e baixos muito baixos. Em que os altos foram repletos de amor em reação à minha última (e mais querida) cartinha. E os baixos foram de frustração de ver alguém em quem eu confiava se aproveitando de um momento meu de fragilidade para ter uma atitude oportunista e trair minha confiança. O mundo é bão, Sebastião. O mundo é cão, Sebastião. O mundo é seu.

Troco emails com uma amiga sobre nos reconhecermos adultas e nos sentirmos finalmente responsáveis pela nossa trajetória. Estou animada e ansiosa com perspectivas profissionais, tentando confiar o futuro ao futuro, mas descontando tudo no chocolate e numa autoestima machucada. Percebi que vou perder uma batalha, mas no fim do dia quero apenas acreditar que fiz o que era certo e fui verdadeira com meus valores. “Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”, que minha amiga compartilhou, fica retumbando na minha cabeça, para lembrar que é bom ser do bem; e melhor perder se isso significa não prejudicar ninguém. Tanto mundo no mundo para nos desafiar, tanta razão para desacreditar. E tanto motivo para continuar, também. Sempre há. Amém.

vida invertida

Era um dia como todos os outros, um dia como nenhum outro. Um sábado de sol, eu visitando a minha família. Aqueles dias em que tudo parece fluir, todas as atividades estavam seguindo sem maiores complicações – fazer as unhas, cozinhar o almoço, passar na loja de construção para comprar varal e vela para o filtro de barro. Dançar Fagner na cozinha com meus pais após o café. Buscar meu irmão para jantar com a gente, pedir pizza e não poder beber vinho porque eu iria dirigir de volta pra casa mas tudo bem, ta tudo certo. Atualizar os fatos da vida, comer portuguesa sem ervilhas. Na Radial Leste meio livre de um sábado à noite, cantar sozinha no volante voltando pra casa, acappella, porque meu carro tem mais de 40 anos mas não tem rádio. Cruzar todos os sinais abertos na Consolação. Absolutamente todos, um fato inédito. Me sentindo muito feliz e confiante e… pá. Não consegui frear a tempo e em câmera lenta tudo veio pra frente – o banco de trás, o suporte de apoio, a sacola cheia de roupas que eu havia lavado na casa da minha mãe porque ainda não consegui comprar uma máquina. O barulho. A dois quarteirões de casa, os jovens todos muito jovens no bar da esquina. Um outro carro, um pai dirigindo, uma mãe no banco de trás acalmando uma filha muito assustada e chorando. O barulho. Ninguém se machucou, troca telefone, placa, sim eu não tenho seguro mas vou pagar fica tranquilo não consegui frear a tempo foi minha culpa me desculpa. Parei no estacionamento, meu para-choque todo amassado, tinta descascada, capô amassado. Falei com minha mãe, meu irmão me ligou para me acalmar, eu chorando de soluçar, indo até o mercado da esquina comprar páprica para o brunch que faria no dia seguinte para a minha amiga. Muito assustada, querendo alguém para me abraçar e dizer que vai ficar tudo bem, ta tudo certo. Mas eu moro sozinha – não havia mais ninguém além de mim, naquele apartamento muitas vezes muito grande para uma pessoa só. Uma só pessoa.

Dez da noite e eu na padaria com os olhos vermelhos e inchados pedindo 100g de presunto e o atendente que sempre me dá uma fatia de cortesia teve a sensibilidade de me ver fragilizada e não falou nada nem me ofereceu e eu silenciosamente agradeci que ele não tenha perguntado o que houve. Voltei pra casa e tomei uma dose de uísque, duas. Ninguém se machucou. Terei que gastar um dinheiro que não poderia gastar agora estando desempregada mas ninguém se machucou. Poderia ter sido pior. Sempre pode. Eu estava num dia ótimo e passei o resto da semana indo a reuniões meio anestesiada e fragilizada porque ninguém se machucou mas eu poderia ter morrido ou matado alguém. O sol só voltou a sair no outro sábado.


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