Arquivo de junho \21\UTC 2011

além do horizonte

Ontem acordei de um sonho muito significativo: eu estava numa praia paradisíaca, tipo Caribe. Havia mais pessoas, não me recordo se amigos ou família. E tinha também uma construção muito tosca, tipo os banquinhos do teleférico de Campos do Jordão, que subiam através de umas roldanas e levavam para um lugar muito alto, daonde dava para ver todo o horizonte e o mar azul-anis. Muitos insistiam para eu subir, que a vista era incrível, e eu disse que jamais subiria naquela parafernália tão precária. Eu tinha medo. Eu não vi o horizonte.

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Ao acordar, a primeira frase que veio à minha cabeça foi: “o medo está me impedindo de ver uma coisa muito bonita”.

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(Estranhei porque medo de altura nunca foi, nem de longe, uma de minhas fobias. Sempre adorei lugares altos, vento forte no rosto, paisagens ao longe. Mas ok Sr. Inconsciente, apesar da falha técnica, I got the message.)

ps: mas o melhor foi, ao acordar, pegar o jornal do dia e ler no meu horóscopo: “sonhos reveladores”. rá!

faça-se a luz

– (…) Ainda que exista nos olhos a visão, e quem a possui tente servir-se dela, e ainda que a cor esteja presente nas coisas, se não lhes adicionar uma terceira espécie, criada expressamente para o efeito, sabes que a vista nada verá, e as cores serão invisíveis.

– Que é isso a que te referes?

– É aquilo a que chamas luz.

(Platão, em “A República”)

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Estava lendo esse texto no fim de semana, e me lembrei de outra coisa que havia visto uns dias antes: na exposição “6 bilhões de outros“, no MASP (tá incrível!), há uma parte para os entrevistados deixarem uma mensagem, “qual recado você daria para as outras 6 bilhões de pessoas no mundo?”

No que um dos homens disse: “Eu falaria para elas que a luz é mais forte que a escuridão. Para elas sempre deixarem a luz entrar, porque ela vence. Quando você abre uma porta, não é a escuridão que sai: é a luz que entra.”

Não foi exatamente com essas palavras que ele disse tudo isso, mas a mensagem que está martelando na minha cabeça há dez dias é essa: não deixar a escuridão ganhar o jogo, e sim abrir espaço para que a luz faça a sua parte, iluminando tudo ao redor e nos dando o maior poder de todos: voltar a enxergar.

a vida como ela é

Na meditação no sábado, nosso instrutor nos falou sobre a “compreensão hábil”, um dos conceitos budistas que, em miúdos, se refere a “enxergar a vida como ela é”. E isso me tocou profundamente porque veio ao encontro de algo que estava lendo algumas horas antes: este post aqui, sobre as quatro leis da espiritualidade. E, unindo a principal ideia das quatro leis juntas, consegui entender muito melhor uma situação pela qual eu estava passando, e que me fazia sofrer.

Conheci um rapaz em abril, de quem eu gostei e que me machucou. E, ao ler tudo isso, e tentar entender que ele era a pessoa certa para aquele momento da minha vida, que o que aconteceu era a única coisa que poderia ter acontecido etc, tive uma sensação de compreensão muito grande, de que foi do jeito que era para ter sido, ponto. E parar de tentar transformar em algo muito maior, e criar caminhos e histórias e explicações que só desgastam. Consegui um pouco de paz quando, ao olhar para a situação como ela de fato foi, eu pude perceber a lição que isso me trouxe, e que continua comigo. Mesmo que ele não.

Então a dica da semana (e da vida!) é essa: parar de fantasiar demais, e tentar enxergar mais preto-no-branco, as coisas como elas são de verdade. Menos sofrimento, mais compreensão. E ainda mais amor pelo que virá adiante, puro e sem rótulos. Mais honesto.

“Pense que eu cheguei de leve, machuquei você de leve, e me retirei com pés de lã. Sei que o seu caminho amanhã, será tudo de bom, mas não me leve…”
(Chico Buarque, enviado pela querida :* Bianca Garcia)
 

verdade maior

“(…) Nosso Don sai em busca desse filho, ou seja, das muitas mulheres que amou ao longo da vida. Quem são elas? Isso não tem importância, pois elas já não são quem foram. Esse é, talvez, o ensinamento essencial de Jim Jarmusch: com dor ou sem dor, as pessoas mudam.”
(Inácio Araújo, em crítica ao filme “Flores Partidas”, na Folha de segunda)

Outro dia estava assistindo uma entrevista da Regina Navarro Lins (sexóloga e psicanalista) na Marília Gabriela, quando a entrevistadora diz que vai fazer uma pergunta malcriada: “Como você, que estuda tanto sobre relacionamentos, está no seu 3º casamento?”. No que a entrevistada responde: “Porque a Regina que eu era aos 20 não é a mesma Regina que eu fui aos 40 e nem a que eu sou hoje aos 60. As pessoas mudam, e os relacionamentos também. Não é que meus outros casamentos não tenham dado certo – eles deram certo o tempo que tinham que dar”.

Fiquei pensando muito nisso depois, em como as pessoas mudam, e em como nenhum relacionamento é estático. Em conversa tão querida semana passada, estava falando disso com uma amiga – em como há pessoas que podemos ficar anos sem ver, e a sintonia é sempre mesma; e em como com outras é mais uma coisa de ocasião (estudos, trabalho etc) e, passado o que nos unia, vai embora também a conexão. E sempre fico muito frustrada quando reencontro essas pessoas, que em algum momento significaram o mundo para mim, e hoje não reconheço nem o olhar numa foto, como se fosse um completo estranho. Sensação que já experienciei até comigo mesma, ao olhar fotos antigas, e deu saudade de mim, como se fosse uma amiga que tivesse partido. O que, em partes, não deixa de ser também.

Nossa essência permanece a mesma, mas há tantas, tantas nuances que se transformam. Histórias, experiências, amores, dores, vivências. E isso muda nossa maneira de enxergar o mundo, de se relacionar com as pessoas, de lidar com o que está ao redor. O que, em grande parte, caracteriza muitos dos nossos relacionamentos. Algo que adorávamos há cinco anos e hoje já não faz o menor sentido.

Mas minha amiga me tranquilizou, dizendo que esse dinamismo todo contribui para outra coisa também: para, em outros momentos, reencontrarmos essa conexão. De outras maneiras, sermos outras pessoas daqui a um tempo, que reatam laços e voltam a encontrar o que as uniu no passado. Que João Guimarães já afirmou, que a gente afina e desafina, se encontra e desencontra e reencontra nesse mundão-de-meudeus. Verdade maior. E isso me alegra de montão, João. Me alegra de montão.


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