Arquivo para novembro \29\UTC 2011

momento de limpeza

Meu infermo astral está aqui e, com ele, aquela vontade de limpar a casa, renovar, renascer. Porque dizem que nosso ano pessoal não começa no dia 1º de janeiro, mas no dia do nosso aniversário né? Então dia desses fiz uma coisa em teoria super banal, mas que parece ter tirado um peso enorme dos meus ombros: limpei a minha caixa de entrada de sms do celular. Ela tem um tamanho absurdo e havia mais de 1600 mensagens lá (!!!). É que foi cabendo, cabendo, cabendo… então nunca me dei ao trabalho de apagar nenhuma. Mas, com o tempo, a conexão com ela foi ficando lenta, meu celular travava mas, até aparecer a mensagem de “não há mais espaço na sua caixa de entrada”, eu não tinha tirado esse tempinho para fuçar por lá. Acontece que, exatamente por ela já estar debilitada, eu tive que ia apagando em blocos de 50, o que me forçou a rever boa parte delas. Algumas eram tão bonitas que eu até salvei em outra parte. Mas a grande maioria se fué.

E então eu pude olhar para tudo que aconteceu na minha vida neste último ano e pouquinho, desde que estou com esse aparelho. Tantas pessoas que surgiram e sumiram com a mesma rapidez. Poucos e bons amigos de sempre, novos que vieram para ficar, outros que foram se esvaindo na nossa agenda maluca e cotidiana. Algumas promessas que o apito de “nova mensagem” trouxe e faziam meu coração palpitar, e hoje são vaga lembrança. Compromissos, encontros, risadas, confidências, cumplicidades.

Até pouco tempo atrás, eu achava que 2011 tinha sido um ano medíocre. Pouca coisa mudou efetivamente na minha vida desde então, mas eu mudei a perspectiva e, agora que seu fim se aproxima, eu tenho é achado que foi um ano bem bom. Às vezes mudanças são muito bem-vindas – nem que seja apenas uma mudança no olhar. E uma renovada caixa de entrada no celular.

feliz como leila diniz

Uma das leituras de férias foi a biografia de Leila Diniz. Já tinha comprado há um tempo, mas a entrevista de Mirian Goldenberg me inspirou a passá-la na frente da montanha de livros esperando atenção. Como disse antes de viajar, estava querendo me levar menos a sério. E ninguém melhor que Leila Diniz para nos ensinar um pouco sobre dar uma caminhada no lado selvagem da vida. Porque olha, estou para conhecer alguém que parecesse levar a vida de forma mais leve que ela, sem grandes pré-conceitos, paradigmas ou prisões. E exatamente por isso que ela quebrou todos esses, para levar a vida em que acreditava: feliz.

Sua atitude libertária abriu caminho para que todas nós, “mulheres do século XXI”, pudéssemos exprimir nossos desejos, vontades e anseios. Deixo aqui um pedaço de uma carta dela que está no livro e que me inspirou produndamente. Como a Mirian, também sonho com “a liberdade de Simone de Beauvoir e a felicidade de Leila Diniz”. Mais a felicidade que a liberdade, até. Porque, entre ser feliz ou ter razão, acho que só os loucos escolheriam a segunda opção. E aí perdem todo o sentido de razão, não é mesmo?

“(…) Sei que me arrisco a ficar sozinha e mesmo a um isolamento maior e absoluto, mas eu pago pra ver. Não é só atitude, é necessidade, é ser. Não vou deixar de procurar em mim, saber das minhas coisas, meu caminho, minhas verdades e ser como sou. Fiz essa escolha, essa opção na vida e acho que ela vale as consequências. Não vou parar pra me acomodar às coisas mais “bonitinhas e limpas”, às situações protetoras (que são também limitadoras e podadoras), prefiro ficar aí. No meio da briga, no meio da zona, nua. Parando em tudo aquilo que me interessar.
Somando, subtraindo, dividindo, multiplicando, tanto faz, tudo isso. Me interessa o saldo. E esse fica dentro de mim. É minha base, meu alimento, meu estofo, é disso que eu vivo. E se vivo assim é porque para mim é esencial esse tipo de busca, de vida. Não posso sair, nem me proteger erradamente, nem me acomodar, não me importa também o fim, aonde que eu vou chegar. Importa ir. Sei que me arrisco à solidão, se é isso que me perguntam, mas eu sei viver assim.”

eu quero uma casa no campo

Muitos dos lugares que visitamos durante a viagem de férias eram lugarejos mínimos, com casinhas pequeninas e singelas, de portão baixo e ares brejeiros. Ruas de paralelepípedo, cheiro de bolo nas calçadas e uma paz que quase dava para tocar com os dedos.

Eu quero essa vida pacata para mim um dia, confessei num suspiro.

Então casa com um pescador, respondeu minha mãe de imediato, sempre pragmática.

O pior é que conheço poucas pessoas mais urbanas do que eu, e sei que duraria pouquíssimo numa vidinha assim sem grandes ambições. Mas, por alguns momentos, aquilo era tudo que sonhei pra mim. Como Elis, que queria a paz de uma-casa-no-campo-para-plantar-amigos-discos-livros-e-nada-mais. A gente sempre quer a vida que não tem né?

abismos e pontes

Estou de volta, cheia de gás, inspirações e expirações. Pegamos muita chuva e tempo feio, mas também dias de sol, paisagens bonitas, outro canto de vida e pessoas queridas. Também consegui colocar boa parte das leituras em dia, e uma que quero dividir com vocês é uma entrevista da antropóloga Mirian Goldenberg, na Revista TPM do mês passado. Eu a li logo no comecinho da viagem e fiquei espantada de ver como, mesmo havendo um abismo etário de quase 30 anos entre nós, o que mais encontro são pontes: compartilhamos muitas angústias em comum, algumas delas até já divididas com vocês aqui, como a vontade de não se levar mais tão a sério e o desejo de ser como outras mulheres, que parecem mais tranquilas e satisfeitas.

Acho curioso pensar que, mesmo com vidas tão distintas, de origens, culturas, rotinas e referências diferentes, o que mais encontro nas pessoas que conheço é coisas em comum – sonhos,  aflições, medos e planos. E nas minhas andanças por aí, ao trombar com alguém que vem de um mundo completamente diferente do meu, ainda me impressiono com essa fagulha de compartilhamento, de encontrar um resquício em comum, um mesmo brilho olho ou dor que seja. E reconhecer nisso uma das coisas mais belas da vida.

take a walk on the wild side

“O domínio do possível é estendido quando não se tem medo que a luz se acenda.”
(no texto “Soberanias”, de Márcia Áran, que tem essa frase extraída de uma novela de Boris Vian, em que ele narra a experimentação coletiva de uma cidade que foi tomada por uma neblina, e os habitantes têm de reaprender a viver na nebulosidade – e, graças a isso, se dão mais liberdade para extravasar vergonhas e medos, e tentar novos caminhos. Tipo “Ensaio sobre a cegueira”, do Saramago)

Fiquei pensando muito nisso, em como estender o meu tal “domínio do possível”, frear medos e me permitir novas descobertas. E isso é tão, mas tão difícil. E olha que tenho uma psicóloga em casa full time, sempre tentando me jogar pra vida. Cheguei em uma idade de tantos questionamentos… de rever antigos valores e morais, me perguntar por quê eles se instalaram, se ainda têm sua utilidade na minha vida atualmente, ou se só são apegos bobos que estão me impedindo de dar um passo adiante, seguir além, para o alto e avante.

Lembro que, quando fazia terapia, tinha certas coisas que eu falava à minha terapeuta que não queria fazer porque eu “me sentia violentada”. Ela dizia que era uma grande besteira minha, que daqui a um tempo eu iria olhar pra trás e me arrepender de ter envelhecido antes da hora, de não ter tentado. Tão triste, se arrepender de não ter feito. Taí amargura que não quero carregar comigo. Mas também tão difícil quebrar nossos próprios tabus e limites, se forçar a derrubar certos muros e superar atrasos de vida.

Dizem que a gente pode passar a vida toda fazendo análise e não terá tido autoconhecimento suficiente para dominar um monte de coisas que nos cercam. Mas um dia a gente chega lá. Com fé, que não costuma falhar.

***

(Estou indo viajar amanhã cedo, passar quase dez dias fora com a minha mãe e meu irmão, e pretendo ter como única preocupação saber se a temperatura da água está boa para um mergulho – no sentido literal e no figurado. O conselho que minhas amigas me dão? “Não se leve tão a sério”. Parece que tudo comigo é sempre mais careta e correto do que com os outros, sempre um peso nos ombros, uma gravidade. Talvez seja mesmo o momento de sair um pouco da caixa e respirar novos acontecimentos) 

um copo de mar

“Bons ventos no cenário astral empurram seu navio para o mar aberto. Vá mais longe, hoje os sinais estão todos verdes pra você. Persuasão em dose dupla, amor que brota firme e uma boa consciência de seu papel no mundo, aqui e agora.”
(horóscopo sagitariano de hoje)

Um dia azul lá fora e cinza aqui dentro. Um colo cheio de perguntas, uma palma de angústias e solitudes. E vem um horóscopo generoso, trazendo um farol na tempestade, e alguma esperança também. Como aquele amigo que sempre tem um sorriso na cartola e boas notícias nas mãos. É hora de fazer como na canção dos Hermanos: apontar pra fé e remar. Com força, sem cambalear. 2011 tá acabando, já.

be the love generation

“Existem em nossas sociedades muitas mortes, mortes físicas, mortes psíquicas, mas é o amor – seja como amor total, seja como ternura, amizade, camaradagem, solidariedade, fraternidade – que deve nos animar. É preciso pensar não apenas na liberdade e na igualdade. A fraternidade é também alguma coisa de essencial. (…) e me parece que as pessoas mais mortíferas, sempre mais numerosas, já começam a desencantar um pouco.

(…) A revolução não pode ser feita em um dia, mas se faz todos os dias nas relações cotidianas que mantemos, como já pensava W. Reich. E aí está a entrada para um convívio verdadeiro, a edificação de uma democracia que mereça esse nome, na qual o amor e a alegria estejam e continuem a estar presentes. Resta, pois, trabalhar nesse projeto, tentando afastar as tendências mortíferas (sempre reconhecendo-as, pois a pulsão de morte é sempre operante), e fazer triunfar, tanto quanto possível, o prazer e o amor mútuo. Isso pode parecer utópico, mas como eu já disse tempos atrás: ‘As sociedades que não sonham são sociedades que morrem’.”
(ainda no mesmo texto)


Quero grifar tudo e colar no meu espelho, beijos!


Blog Stats

  • 163,055 hits