Arquivo para setembro \28\UTC 2010

pérolas, singulares

Faz mais de quatro anos já que Lissa apareceu na minha vida. Cronologicamente, é das minhas amizades mais recentes. Mas em sentimento, parece que foi da vida toda. Lissa é gêmea na maneira de enxergar o mundo, nas vontades, nos planos, nas pequenas belezas cotidianas, no amor que rega tudo ao redor.

Ela no Rio, eu em São Paulo. E, o que poderia se tornar um contratempo – a distância -, no fim acabou sendo apenas um sabor a mais na nossa amizade: eu ganhei mais uma cidade para chamar de minha.

Há um tempo a gente vem ensaiando uma parceria, que hoje se tornou realidade, lá no seu cantinho: o drops singulares, encontro de nossos dois mundos, cuidados com tanto carinho. Vou aparecer por lá sempre que possível, com mais drops de epifanias cotidianas, pinceladas com o olhar apurado da minha lindeza.

Como já diria o poetinha, “a gente não faz amigos, reconhece-os”. Então, se não fosse essa tal internet, talvez a gente se trombasse numa esquina qualquer e já se tornaria melhores amigas da vida, porque essas coisas acontecem porque têm de acontecer. Porque o livre-arbítrio pode até ter sua parcela de responsabilidade nas nossas escolhas, mas o destino… ah, desse eu nunca duvidei.

 

 
*a foto é dela também, que não somente sabe enxergar as coisas bonitas do mundo, como as reproduz com uma sensibilidade incrível, ;*  

exatamente onde eu queria estar

Estava vendo um filme, uma comédia romântica qualquer numa sessão da tarde. Tinha uma xícara do meu chá favorito nas mãos, minha mãe no sofá ao lado lendo o jornal e uma chuva média batendo na janela. Era uma sexta-feira. Então, numa das cenas, um personagem pergunta ao outro:

– Se você pudesse escolher outra vida para viver por um dia, qualquer outra, como seria?

E aí que, como boa pseudo-filósofa metida a besta que sou, me pus a mesma pergunta. E… eu não soube responder. Porque minha vida está tão bacana, apesar de. E eu sei que pode soar otimismo barato, e que se eu pensasse por um tempo acharia de fato várias outras vidas que eu gostaria de viver por um dia, mas, naquele momento, nenhuma me pareceu tão interessante quanto a minha, quanto ter as pessoas que eu amo por perto, saúde e mil expectativas, enchendo-os-pulmões-de-ar-antes-de-pular.

Outro dia aconteceu uma coisa muito, muito chata. Eu fui roubada num momento em que isso não poderia acontecer (nunca pode, mas enfim, agora é mais delicado porque estou desempregada e atolada em dívidas). E nem isso me afetou de forma superlativa. “Dinheiro é só dinheiro”, eu dizia para quem fazia cara de revolta. “Tenho saúde e posso trabalhar para conseguir de novo. Tem tanta coisa legal acontecendo na minha vida agora que não é esse tipo de pequenice que vai me tirar o rumo.” Obladi, oblada, life goes on.

E, como esse cantinho aqui é o que mais tem me trazido sorrisos ultimamente, eu queria vir aqui dividir esse momento especial com vocês… e agradecer, por todo carinho, sempre-sempre. Porque deu tudo certo na minha vida hoje, e até meu horóscopo foi generoso comigo: ‘Se existe um período do ano em que suas expectativas e esperanças terão um peso enorme na direção de seu presente é agora. Se você enxergar o futuro com bons olhos otimistas e compartilhar isso com outros, o sucesso virá.’

Para todos nós, :)

não aprendi a dizer adeus

“Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais – por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia – qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.”
(Caio Fernando Abreu)

***

Diálogo:

– … hmm, bom retorno ao Brasil então. Mas você quer mesmo voltar?

– Sim, eu quero!

– … não sei, mas algo me diz que, no fundo, você não quer. Minha intuição me diz que você vai ficar aqui, na Europa.

(ainda naquele encontro)

 

Ela acabou não acertando porque eu voltei. Mas eu tenho uma coleção tão grande de não-adeus nos meus caderninhos da vida que eu sempre acho que, de uma forma ou de outra, eu acabo mesmo deixando uma parte minha para trás.

i’m lost but i’m hopeful

Eu tenho mania de achar que tudo é um sinal na minha vida. TUDO. Que um arco-íris quer dizer que vai ficar tudo bem, que Caio ter escrito sua última carta de Paris no mesmo 28 de abril em que eu chegaria lá prenunciava uma boa estadia, que eu cruzar com uma placa randômica de algum evento histórico parisiense que aconteceu num 20 de agosto de algum ano perdido sinalizava que eu tinha tomado a decisão certa em voltar para o Brasil (porque eu tinha escolhido esta mesma data, sem querer). E eu tenho uma coleção de sinais assim, outros muito mais signficativos, até. Que eu só escrevo no meu moleskine roxinho e acabo nem contando a ninguém, porque o que para os outros pode parecer besteira ou filosofia barata, para mim faz todo o sentido do mundo.

Mas o mais maluco de todos nem foi com datas, apesar de eu ser meio obsessiva com elas: foi um recado que eu recebi numa revista, ainda em Paris, sobre o local friend. E foi tão absurdo que até o pai da Alice (amiga querida e criadora do projeto), quando soube, disse: “não, não é que o cosmos está conversando com você – ele está te chacoalhando e dizendo, ‘Nathalia, acorda, você tem que fazer isso!'”. E eu fiz. E agora tudo de bacana que está acontecendo na minha vida desde que voltei de fato tem a ver com isso.

Tenho um complexo leonino de achar que o mundo se importa comigo e que o universo fica, de fato, me enviando mensagens codificadas desta maneira, para que eu tente enxergar qual caminho seguir, para qual lado devo ir, qual decisão tomar. Incrível como a nossa fé tem uma maneira toda particular de funcionar quando a gente se sente perdida, não?!

“(…) A nossa vida cotidiana é sempre bombardeada pelos acasos, mais exatamente por encontros fortuitos entre as pessoas e os acontecimentos, ou seja, por aquilo a que costuma chamar-se “coincidências” . Há uma coincidência quando dois acontecimentos inesperados se produzem ao mesmo tempo, quando se encontram um com o outro: por exemplo, Tomas aparece no restaurante precisamente no momento em que a rádio toca Beethoven. Na sua imensa maioria, este tipo de coincidência passa totalmente despercebido. Se o homem do talho tivesse vindo sentar-se a uma mesa do restaurante em vez de Tomas, Tereza não teria reparado que a rádio tocava Beethoven (embora o encontro de Beethoven com um homem do talho também não deixe de ser uma coincidência interessante). Mas o amor que nascia aguçou-lhe o sentido da beleza e, por isso, nunca mais esquecerá essa música. Sempre que a ouvir, se sentirá comovida. Tudo o que se passar à sua volta nesse instante ficará aureolado com o brilho dessa música e será belo.
(…) Não há, portanto, razão nenhuma para censurar aos romances o seu fascínio pelos misteriosos cruzamentos dos acasos (…), mas há boas razões para censurar o homem por ser cego a esses acasos na sua vida cotidiana e assim privar a vida da sua dimensão de beleza.”
(“A insustentável leveza do ser”, Milan Kundera)

i want it bad, your bad romance

sexta-feira à noite:

– … mas ele não é para namorar. ele não é o cara certo para você. 

– cara certo??! o cara certo acabou comigo! agora só quero saber de caras errados na minha vida.

 

ai de mim que me tornei cínica.

outra parábola

então que eu vivo tentando controlar a formiga que existe dentro de mim, comer pouco açúcar e carboidratos integrais, me comportar direitinho, coisa e tal.

mas às vezes me dá uma fúria maluca e eu como tudo o que estiver pela frente compulsivamente, depois me arrependo e sou tomada por uma culpa avassaladora, queria-não-ter-feito-isso, todo um drama.

acontece que, quando eu consigo de fato desviar meu pensamento disso e me controlar, depois que a vontade passa eu me sinto tão maior e orgulhosa de mim mesma que não tem preço.

***

incrível como isso se aplica em tantas situações da minha vida. 

para ver a banda passar

Dia desses, no meio dos montes de filmes que as horas de ócio me permitem assistir, me deparei com “A Banda”, no tc cult. E me deu vontade de comentar, porque é tão o meu tipo favorito de filme. Sem grandes pretensões de um um amor épico ou uma história heróica e supervalorizada (das quais eu tenho um pouco de preguiça, na verdade), o filme faz um recorte de um dia na vida de uma banda da polícia egípcia que se perde num contratempo no meio de uma viagem para fazer um show. Uma história banal, mas contada de um jeito tão, tão bonito. A graça vem exatamente quando, por forças do destino, a banda fica presa numa cidadezinha israelense no meio do nada, e em como essa chegada afeta a vida de alguns habitantes locais. Sou fascinada por esse tipo de história, de como um simples encontro corriqueiro pode afetar nossa vã existência, trazendo apenas um sorriso extra no fim do dia, ou de fato mudando nossa perspectiva em relação a alguma coisa. Fora que os atores têm uma atuação impecável, a trilha sonora é ótima e a fotografia uma coisa de linda.

Outro dia alguém veio me falar que prefere os cariocas que os paulistas, porque os primeiros são mais falantes e abertos; enquanto nós, no meio da selva de pedra, somos mais reservados e não fazemos amizades na fila do supermercado. E fiquei triste de perceber como a tal “cidade grande” nos deixa amendrotados, duros e inseguros, sempre esperando um assalto na próxima esquina, não nos dando liberdade de olhar duas vezes no olho de alguém, começar um papo sobre a chuva que não chega e, se não ganhar um amigo, pelo menos tornar a espera pelo ônibus um pouco menos chata. Endurecer, sin perder la ternura. Tarefa cada dia mais difícil.


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