Arquivo de maio \30\UTC 2011

all things must pass, all things must pass away

Algumas vezes, tomei bronca de leitor por insistir na tal ideia de desapego. E não fico chateada; afinal, se exponho minha vida aqui tenho que estar aberta à reação provocada, também. Mas comentários sempre me fazem pensar, expandir horizontes.

Como vocês já devem ter percebido, desapego é um assunto que tem tomado muito do meu tempo este ano. E longe de mim querer ser repetitiva, mas é algo que tenho vivenciado bastante, principalmente nos encontros sobre meditação e estudos budistas. E é uma coisa com a qual estou tendo que aprender a lidar, meio que na marra.

Sei que, quando falo sobre isso, logo vem a ideia de um grande amor, separação ou algo do tipo (daí a tal repetição), mas nem é mais isso que preciso superar – que sim, doeu muito e por muito tempo, mas que hoje, de coração tranquilo, já posso dizer que faz parte do meu passado.

No momento, a ideia do desapego para mim é mais ampla; de me desapegar de ideias que eu tinha, de sonhos e planos que vamos fazendo compulsivamente quando somos muito jovens e acreditamos ter o mundo nas mãos, e que depois não saem como gostaríamos e lá nos encontramos, com um colo cheio de frustrações e muitos anos mais pela frente – para sonhar de novo e fazer diferente. Então esse tal desapego, hoje, seria mais aprender a digerir o curso natural das coisas ao invés de ficar tentando controlar tudo. E compreender que, se não foi, é porque não era pra ser, ponto. Que talvez muito mais coisas e mais incríveis estejam nos esperando, como li certa vez, sobre “deixar para trás a vida que tínhamos planejado, para ter a vida que está nos esperando”. Seja lá qual for.

E tentar seguir em frente de coração novo. “De repente, a mudança tão procurada poderá ser a maneira de encarar o problema, talvez mais leve, prática e objetiva”, como me disseram nessa tal bronca, com um fundo imenso de cuidado e carinho.

Porque, como George Harrison diz na música que dá título a este texto, tudo deve passar. Coisas boas e ruins acontecem a todos, o tempo todo. Só cabe a cada um de nós encarar os fatos e escolher a melhor maneira de lidar com isso. E brindar um novo dia, e uma chance de fazer tudo diferente – hoje.

freud explica

– Sabe mãe, ainda não sei se é melhor ou pior estar cercada de casais bem-sucedidos. Por um lado é bom porque me faz ver que o amor existe e pode sim dar certo; mas por outro é ruim porque posso estar acreditando em algo que talvez não aconteça mais para mim…

– Pois é Naná, pode acontecer como pode não acontecer. E você precisa aprender a lidar com isso.

***

Minha mãe não passa a mão na minha cabeça dizendo que tudo vai dar certo, não. Ela quer que eu esteja preparada para quando as coisas derem errado também.

Meu nome é Nathalia, minha mãe é psicóloga e eu faço terapia em casa full time há 26 anos. Bem-vindos ao meu mundo.

última oração pr’a salvar meu coração

Lembro que há um tempo, depois de mais uma dentre tantas decepções amorosas, me veio uma frase à cabeça: minha dor é idioma. Eu queria muito escrever um texto com ela (um livro, talvez?), mas postergar é nossa lei, o tempo passou e eu acabei não usando para nada… e ontem ela me veio novamente.

Porque, além de um bom sorriso, também é através dessa tal dor que me comunico, que digo tanto sem dizer nada, que eu consegui me aproximar de pessoas que nem falavam a minha língua ou sabiam do meu passado, da minha fobia de lugares fechados ou mania de dormir de meias. Por causa de um coração partido, e de como as pessoas conseguem se identificar com o ocorrido, e dizer as coisas mais bonitas. Como todos já passaram por isso em algum momento da vida, em como é algo tão democrático e fatídico; e, mesmo assim, no meio de um monte de clichês, como ainda conseguem dizer algo que traga um pouco de conforto. Nem que seja um “também já passei por isso”, para então compartilhar uma história e fazer com que a gente se sinta menos só no mundo.

Sei que falam um monte sobre rivalidade feminina, que mulheres só sabem competir, mimimi. Mas algumas das melhores amizades que fiz nos últimos tempos foi por causa de um coração partido, porque começamos a falar de como sofremos por causa de alguém, e choramos juntas, nos abraçamos desejando sinceramente um novo amor, e viramos amigas para todo o sempre, até-que-a-morte-nos-separe-amém.

(E não quero falar mal dos homens. Tenho muitos e ótimos amigos, pau pra toda obra. Mas homem é aquela coisa pragmática, preto no branco, e mulher tem essas várias nuances e camadas e sentimentos e sentimentalismos.)

Ontem de manhã eu recebi um email querido com um vídeo lindo que dá título a este post. Tipo um chá quentinho via caixa-postal, um abraço virtual. Como outros raiozitos de sol que recebi esta semana. E me peguei a pensar que “dor” rimar com “amor” é uma linguística bem da cafona. Mas olha, até que faz um pouco de sentido viu?

heartbreak hotel

Quando eu era adolescente, só me envolvia com canalhas. Aquele tipo de cara bonito, irresistível e cafajeste – aquele que você sabe que vai te fazer sofrer, mas mesmo assim se rende porque…, poxa, ele diz as coisas certas, sabe ser envolvente e tem olhos tão encantadores…! Só romances equivocados mesmo.

Dez anos e alguns relacionamentos saudáveis depois, surpreendo-me fazendo brigadeiros de emergência com as amigas, escrevendo e respondendo e-mails sofridos no meio da tarde, trocando conselhos que a gente sabe que não vão levar a nada. Curioso como a gente acha que deixou aquela adolescente boboca e insegura para trás, que hoje a gente é tão mais bonita e inteligente e sabida e independente, que hoje a gente é viajada e poliglota, sabe fazer coordenação de cores nas roupas, discutir existencialismo e escolher um bom vinho; mas é só aparecer o primeiro canalha com um sorriso bonito que a gente derrete feito manteiga e vai tudo por água baixo, tudo o que a gente levou anos e anos para construir. E se vê chorando porque ele disse que não queria compromisso e alguns dias depois aparece namorando outra, ou porque ele parecia um príncipe e resolve terminar do nada via sms, ou porque, simplesmente, ele não estava a fim. E já vi isso acontecer tantas e tantas vezes, com mulheres tão incríveis!

Não sou ninguém para vir defender cavalheirismos ou amor à moda-antiga, porque os Don Juan estão aí desde que o mundo é mundo e a gente sempre se deixou levar por eles. Mas olha, vou dar o braço a torcer de que tá difícil manter a polianice por aqui – porque endurecer é bem fácil, duro é manter a ternura, viu Che?

eu quero um cachorro preto

“(…) O padre Gridilla comentou que ‘os selvagens não conhecem o dinheiro, suas necessidades são limitadas e eles pedem unicamente armas de fogo, munições, machados, facões, espelhos e, de vez em quando, redes’. Um índio que ele descreveu como um selvagem corpulento e feio se negou a aceitar o que quer que fosse. Pressionado, respondeu: ‘Não quero nada. Tenho tudo’.
Os brancos voltaram a insistir, dizendo que ele deveria pedir alguma coisa. Finalmente ele respondeu: ‘Quero um cachorro preto!’.
‘E onde vou encontrar um cahorro preto ou até mesmo branco, se não existe nenhum em todo Putumayo?’, perguntou o administrador do seringal.
‘Você me pede borracha e eu trago borracha’, respondeu o selvagem. ‘Se eu peço um cachorro preto, você tem que me dar’.”

(Michael Taussig, em “Xamanismo, colonialismo e o homem selvagem”)

***

Adoro ver como os estudos antropológicos têm aberto meus horizontes para conclusões inesperadas – e até um pouco distantes dos objetivos iniciais da obra. Depois de ler esse texto fiquei um tempão pensando nisso, em como a gente tem tudo o que de fato importa – amor, saúde, comida e cama -, e mesmo assim se deixa levar por pressões externas para querer sempre aquele algo a mais, que muitas vezes nem sabemos direito o que é. Criamos esse cachorro preto e vamos atrás dele com toda a força que nos resta.

E olha que aqui eu poderia fazer um mea culpa de ser publicitária e contribuir para a criação de desejos no mundo capitalista, mas não sou assim tão engajada e minhas pretensões nem tão políticas. To falando de um cachorro preto mais mundano e palpável mesmo, que a gente busca todos os dias na nossa luta cotidiana – um amor decente, uma felicidade atingível, uma vida digna. E uma angústia boba de sempre querer o que não se tem, mesmo quando, em teoria, já temos tudo. Melhor ser como os selvagens – não querer nada. E ser feliz assim.

deixar partir

Matheus, meu priminho de quatro anos, estava segurando uma bexiga que lhe dei. Uma daquelas com gás hélio, que escapam com o menor descuido. E foi o domingo inteiro para cima e para baixo com aquilo entre os dedos, no quintal. Ora amarrada no pulso, para poder brincar mais livre e destemido; ora desamarrada e só segurando mesmo, para sentir o frio na barriga de quase-escapar, de um medinho de deixar partir.

Mas então uma hora ele se distraiu, amarrando os sapatos, e ela se foi. A bexiga vermelha, voando livre, chocando-se contra o céu azul lavado a mão, indo indo indo. Uma metáfora tão bonita de tudo o que eu preciso fazer com algumas coisas da minha vida, do que eu preciso me libertar.

E por algum tempo ele ficou se culpando, “por que eu soltei? por que eu deixei ela voar?”. Peguei suas mãos pequeninas entre as minhas e expliquei que é assim mesmo, que às vezes a gente tem que deixar algumas coisas irem para outras entrarem na nossa vida; que agora ele podia brincar e correr mais livre, sem se preocupar em perder a bexiga, que eles já tinham se divertido bastante e que ela tinha ido brincar em outro lugar, com outra criança. Como se, ao dizer tudo isso assim para ele, eu tentasse reforçar para mim mesma que apego só traz atraso de vida, que é preciso soltar o que nos prende e enxergar novos horizontes.

Sorte que, para ele, o caminho ainda é mais fácil, fruto de uma distração corriqueira. Para nós exige um pouco mais de preparo e força de vontade. Mas os frutos valem a pena.

pão e circo

Há uns dois anos, acho (não tenho a menor noção de tempo, quantidade e distância), meu irmão estava assistindo ao programa do Luciano Huck e eu parei para acompanhar uma história. Se não me engano, era naquele quadro que reformam um carro, mas parece que a pessoa tem que passar por um “teste final” para conseguir de volta a caranga. Enfim. Nesse episódio, o convidado da vez era um senhor de cinquenta e poucos anos, família muito humilde, que nunca teve uma chance na vida – e tudo o que pode acompanhar um drama para ganhar mais audiência. A tal prova final dele era cantar. Imitar o Elvis, James Brown ou algo assim, se não me falha a memória. Alguém famoso. E ele foi lá, fantasia e tudo, banda pronta. E cantou. Muito. Voz linda, emoção a mil, platéia empolgada, ganhou o carro.

Até aí seria mais uma história qualquer de um programa de auditório, se não fosse o discurso final dele. Quando o apresentador começou a elogiar, pedir para ele cantar mais, aquela reciprocidade e carinho dos espectadores, ele começou a chorar. E contou sua história de vida. Disse que, desde pequeno, pobre, numa família numerosa, ele sempre achou que era especial. Que ele tinha um dom, que o destino dele seria diferente dos pais, dos irmãos. Ele sempre acreditou muito nisso, lutou pelo sonho de uma oportunidade que… nunca apareceu. E só agora, já na meia-idade, que ele teve a chance de mostrar isso ao mundo, pela primeira vez. Todos ficaram muito comovidos. Eu chorei.

Porque então me veio uma epifania, “poxa, então mais gente se sente assim?”. Porque a gente sempre acha que é especial, que é único, que é predestinado a ter um futuro brilhante… e pode ser mesmo que aconteça, lindo. Ou pode ser que não também, pode ser que a gente acabe levando uma vida medíocre como a grande maioria da população; e talvez termine num programa de auditório, aos 50 e poucos anos, vendo um apresentador usar nossas tristezas para ganhar uns pontos a mais na audiência.

Vira-e-mexe essa história volta à minha cabeça. Quando algo dá errado, quando tomo uma rasteira. “E se eu for como o Sr. Fulano de Tal, a única a acreditar que sou assim especial?”

Sabem, um dos últimos textos que deixei aqui foi bem positivo e esperançoso, porque de fato era assim que eu me sentia quando o escrevi. Mas a felicidade não veio para ficar de vez, ainda. E a gente aqui, brigando com unhas e dentes, buscando o que quer que isso seja. 26 anos nas costas e minha maior luta ainda é para dosar expectativas. Descobrir até que ponto meus sonhos funcionam como a tal lei da atração, para chamar coisas boas para a minha vida; e até que ponto eles só criam esses tais castelos de areia que vivem a ser destruídos pelo vento, me fazendo acumular um histórico cada vez maior de frustrações e corações partidos.

Eu quero acreditar. Que tem mais um grande amor à minha espera, que eu posso lutar pelos meus valores, que eu posso amar as pessoas e ser feliz, que eu posso mudar o mundo à minha maneira. Mas ser idealista às vezes cansa. E tudo o que se quer, no fim de um dia exaustivo, é um colo e um cafuné quentinho, dizendo que tudo vai acabar bem. E não num programa de auditório.


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