Arquivo de maio \22\UTC 2014

há sempre uma ausência que atormenta

Fui renovar meu passaporte e, ao caminhar pelas ruas arborizadas dos jardins, duas lembranças me tomaram: há exatos dez anos, eu estava experienciando um tequinho de vida adulta no meu primeiro estágio na área de publicidade, a algumas quadras dali. Já cinco anos atrás, eu tinha voltado a trabalhar na mesma agência (que é a dois quarteirões do escritório onde trabalho hoje); e eu fiz este mesmo caminho para ir ao expediente depois de ter dado entrada no pedido de cidadania espanhola.

Nestes três percursos, num intervalo de dez anos, as ruas eram as mesmas, mas a Nathalia era completamente outra. Se eu tivesse dito à Nathalia de 2004 que a Nathalia de 2009 já teria morado fora, viajado um pouco pela Europa sozinha e bebido um gole de mundo, ela ficaria bastante surpresa – e realizada. Agora se a Nathalia de hoje voltasse para dizer a essa de 2009 que muita, muita coisa seria diferente cinco anos depois, e que aquele passaporte ainda iria rodar um monte, talvez ela não acreditasse. E como ela deveria acreditar – e sossegar.

***

Quase todos os dias, quando uma tristezinha non grata resolve tomar conta, eu tenho que me lembrar que tenho a vida que sempre, sempre sonhei ter. Há quinze, dez ou cinco anos – mesmo há dois. Nunca imaginei que chegaria tão longe. Então vem cá, coração inquieto: por que não sossega?

na dissonância do outono

“(…) às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na vaidade; no álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer hora o amor acaba.”
(trecho de “o amor acaba”, de Paulo Mendes Campos, publicado na revista Manchete em 16.05.1964)

Há exatos 50 anos o amor ainda acabava da mesma maneira que acaba hoje. E a gente continua esperando, no sentido figurado e no literal, que ele recomece a qualquer hora em qualquer lugar, travestido de acaso e desassossego, para chacoalhar nossas certezas e encher de surpresa nossas vidinhas programadas.

um lado que pesa e um outro lado que flutua

Paris foi um relacionamento bem complicado para mim. Mas não para ele, que ficou lá dois anos e meio e era louco pela cidade. Ele chegou exatamente no dia seguinte ao que eu fui embora – isso que eu acabei partindo um dia após o programado, porque perdi o primeiro trem. E essa tal coincidência boba – da gente quase ter se esbarrado lá, do outro lado do atlântico, sem ainda nem se conhecer; a gente, que viria a viver um amor de verão mais de três anos depois deste não-encontro , isso para mim não era acaso: era destino. Esse para mim era apenas mais um dos muitos sinais que o universo tinha jogado para me mostrar que todos os errados vieram antes para que depois, já meio cansada de cuidar do jardim, ele aparecesse – ele, todo certo, todo lindo e romântico, libriano que tocava violão e sabia cálculo e falava francês, e fazia declarações de amor e entendia de fotografia e temperos exóticos, e tinha altura de príncipe europeu e uma mãe que era exemplo de mulher; ele, que era forte e sensível ao mesmo tempo, e por quem eu suspirei apaixonada achando que meu 2014 já seria todo dele, todo de amor e de planos na primeira pessoa do plural. Ele, que era mais do que sei, mais que pensei, mais que eu esperava, baby.

Mas o desenrolar da história acabou não sendo assim. Quando nos reencontramos, mais de dois meses depois, não senti estrelas no céu da boca de paixão anestesiada, nem tampouco calor na boca do estômago de raiva reprimida. Nada. E outro dia que me dei conta disso, do quanto essa mania besta de acreditar em sinais do universo ainda me atrapalha no dia a dia e me faz insistir em coisas que talvez eu não insistiria em outras circunstâncias – se eu não fizesse balé e soubesse ficar na ponta dos pés para alcançar seus 1,87m em meus abraços, se eu não teimasse sempre em ter cabeça nas nuvens e acreditar que o melhor está por vir, talvez eu não levasse tantos tombos no decorrer do caminho. Mas eu caí e ok, levantei. E é uma luta diária não achar que o universo fica a me enviar sinais o tempo todo, e tentar encontrar poesia e traduzir destino em todo canto. Ser otimista às vezes dá muito trabalho.

a jornada é o destino

andarilhaCompartilhei esta frase de Antonio Machado no meu facebook há poucos meses. E foi exatamente ela que me voltou, como um conselho soprado ao pé do ouvido, agora na minha viagem de férias. Tirei dez dias para peregrinar sozinha pelo Uruguay, numa viagem de autodescoberta e silêncio – precisava apertar o botão de pausar numa vida que andava muito cheia de atropelos para o meu gosto. 

Então esta pequena pérola me voltou para fazer todo o sentido do mundo assim, lá numa pontinha no sul da nossa costa leste: não adianta ansiar desesperar descabelar – não há caminho a ser seguido, quem traça a rota somos nós mesmos, a cada pegada deixada para trás. Pode parecer óbvio ululante, mas para mim foi um sopro de epifania. E estou adorando descobrir como desenhar uma nova cartografia na minha (um tanto gasta) linha do tempo. Afinal, já disse outro pensador que toda jornada começa com um único passo. Mesmo que às vezes nos custe muito acertar o ritmo.


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