Arquivo de março \30\UTC 2014

olhos de jabuticaba

Quinta-feira, minha vontade ao acordar era republicar uma frase sobre um coração ferido de amar errado, sobre castelos de areia e não querer mais se encantar com ninguém. Muitas voltas a vida dá. E neste mesmo dia, ao voltar do almoço, trombei com um amor recolhido. Sim, numa esquina qualquer, próxima ao escritório. Foi uma pessoa com quem eu não fui muito legal no passado, mas que eu adoraria ter de volta na minha vida no presente. Se minha amiga não tivesse desviado para olhar a blusa na loja, se tivesse demorado meio minuto a mais pro sistema do cartão processar o pagamento, se ele não tivesse decidido comer pastel depois de andar de skate… este encontro não teria acontecido. E esse pequeno acaso do destino, que me pegou na volta da feira e com uma sacola cheia de frutas pendurada no ombro, me fez sorrir o resto da tarde divagando sobre pequenas mágicas mundanas, que nos dão sutis sinais aleatórios de que talvez exista algo maior regendo o universo, numa tarde ensolarada de outono.

Passei a noite fazendo geleia de jabuticaba, porque ele gosta de sobremesas bem doces. Espero que ele venha para o jantar.

 

seis meses, três pessoas, uma lição

Esta semana me dei conta de que, exatos seis meses atrás, minha vida era completamente outra. Eu ainda morava na casa dos meus pais, não tinha conhecido três das pessoas mais importantes para mim neste período, não tinha passado um mês em Londres, tinha outro cargo e visão na empresa em que trabalho. Outro corte de cabelo. Se paro para pensar, acho que seis meses é um espaço de tempo muito curto para mudanças tão significativas. Mas tudo já parece tão distante, tão descolado de mim agora… era o início da primavera.

***

Foi então que percebi que o pensamento budista colado na minha geladeira (“isso também vai passar. tudo é impermanente.“) fala mais sobre crer no dinamismo das situações do que se sentir triste pela finitude das alegrias passageiras. É uma lição bem difícil de ser aplicada no nosso dia a dia atribulado, cheio de expectativas e obrigações. Mas é bom ter em mente que, de um modo meio torto, nada foi feito para durar mesmo. Dá um certo alívio dessa mania besta de querer controlar o mundo ao redor. (Isso também vai passar.)

uma tesoura na mão e uma ideia na cabeça

Uma tesoura figurada que rompe laços emocionais. Uma tesoura literal que corta laços inaugurais. A minha tesoura quis se libertar do passado e abrir caminho pro futuro. Foi só um corte de cabelo, mas nunca é apenas um corte de cabelo.

Todos que viram, até agora, disseram “é a sua cara! este corte é você! parece que você nasceu assim!” Já eu, estou há alguns dias me acostumando a olhar para o espelho e encarar a Nathalia que eu sempre projetei ser aos quase trinta anos, inspirada por muitos personagens e referências ao longo da vida. É um processo tumultuado, mas estou gostando da jornada.

Muito prazer, nova Nathalia. Fazia bastante tempo que eu queria te encontrar.

‘novas e boas irão lhe acontecer’

Quando uma newsletter semanal te traz um email anunciando boas novas, Susan Miller aconselha a “estar pronta para brilhar nos próximos trinta dias”, e o ano novo astrológico finalmente tem seu start (e traz consigo a estação mais amada de todas), o jeito é mudar o foco e tentar desapegar de tudo de não-tão-bom que está acontecendo, respirar fundo e entoar, “vai melhorar, vai melhorar”. Há de, apesar de.

pequeno inventário dos amores recolhidos

eu sempre guardo amores antigos – numa gaveta esquecida, num email facebook carta foto whatsapp. sempre acho que podem voltar a me trombar numa esquina qualquer, olhar com carinho, “e aí como ce ta, como anda a vida?”, “how life has been treating you?”. considerar seu atual endereço de moradia pruma próxima viagem de férias, e mandar uma mensagem fingindo ser obra do acaso, “nossa que coincidência estou indo para nashville passar uns dias!?”. e num reencontro reinventado, inundar o peito de afeto e pensar em retomar uma história cheia de ternura e passado editado, recortado de lembranças felizes, de declarações de amor numa manhã ensolarada de primavera, de um passeio despretensioso numa tarde de outono. na maioria das vezes os amores não se retomam – para ser sincera, no meu mundo nem nunca se trombam, apesar dos meus tortos esforços disfarçados de casualidade. mas como me enchem de calor o coração todas essas possibilidades…! como me enchem.

existirmos: a que será que se destina?

Quando a pergunta que reverbera aqui dentro é sobre o sentido da vida, da música do Caetano, a resposta que vem é quase imediata: a vida tem o sentido que a gente dá para ela.

brilho eterno de uma mente sem lembranças

Pela primeira vez na vida eu abandonei o discurso de “tudo-vale-a-pena-se-a-alma-não-é-pequena” e desejei, do fundo do coração, que uma pessoa jamais tivesse cruzado o meu caminho. De chegar ao ponto de sonhar que a Lacuna Inc. existisse de verdade para que eu pudesse apagar sua cicatriz de mim. Porque antes dela chegar, tudo estava incrível; aí ela veio, fez uma bagunça tremenda e, agora, olhando pra trás, só enxergo um vazio. Não sinto que aprendi nada de relevante, não acho que saí com ganho algum desta história toda – só me tornei alguém mais amarga e descrente, com mais medo e menos fé.
(e olha que outros acontecimentos já me machucaram muito, muito mais – mas mesmo assim eu acreditava que a dor valia a pena por tudo que tinha vindo antes dela. o que não se aplica aqui.)

E minha vida hoje, em teoria até melhor do que estava quando essa pessoa chegou, parece pálida e sem graça, desbotada e desprovida de brilho. É como se ela tivesse levado consigo a melhor parte de mim, aquela confiança teimosa e ingênua no futuro. Caminhando para o escritório pela manhã, me dei conta de que ainda nem chegou o outono e já virei uma folha seca; e poxa, que triste. Que triste.


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