Arquivo de janeiro \30\UTC 2014

dia da saudade

Estava eu lá, me divertindo horrores com um caleidoscópio (tantos anos que não via um!), criando mil formas e imagens, tirando fotos para referências de futuras estampas – ou só para guardar coisas bonitas mesmo, para olhar depois. Tipo criança com brinquedo novo.

– O ruim é que a cada pequeno movimento tudo muda, e não dá para repetir a mesma imagem nunca.

– Mas é como na vida né? Cada segundo é diferente do anterior, e impossível de reproduzir.

***

Como na música do Lulu Santos, “tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo, tudo muda o tempo todo no muuundo…”. E eu, que fico tirando reflexões até das coisas mais mundanas e prosaicas (como um brinquedo de colorir e criar formas para distrair), me lembrei disso hoje: no dia da saudade, eu desejo que nossa vida seja repleta de momentos-caleidoscópio, lindos e que jamais irão se repetir da mesma forma. Pra gente ter muitas coisas boas para lembrar e deixar saudade – melhor que caminhar vazio.

 

caleidoscopio

i was a train moving too fast

Tem muitas coisas que eu não entendo. Física quântica, o mecanismo do fax, gramática russa. Timing. Eu tomei outra rasteira da vida, quando menos esperava. Mas a cada tombo a gente vai calibrando ainda mais nossa capacidade de levantar-sacudir-a-poeira-dar-a-volta-por-cima, aquela coisa toda. Na busca por respostas, penso que a culpa é desse meu imediatismo desenfreado, da velocidade intensidade ansiedade, dessa sede de beber o mundo numa garrafa de coca-cola, desse desassossego que não me deixa. Mas como mudar? Ou melhor: por quê? Não consigo conceber a ideia de ficar se questionando depois sobre o que poderia ter sido e não foi: bem melhor que viver pela metade é se doar por inteiro, principalmente quando encontramos algo que acreditamos merecer essa doação integral – tão raro.

Pela segunda vez em um curto intervalo de tempo, abriram uma rede de segurança e eu me joguei, sem ficar analisando antes para ver se dava pé. Não deu. Tiro a poeira da resiliência, sempre tão companheira, e digo que estamos prontas para outra. No fim, uma viagem que me angustiava há um mês parece ter sido orquestrada para acontecer na hora mais certa de todas – nem se eu mesma tivesse planejado teria um timing tão perfeito. (Esse mesmo timing que faz nossa vida movimentar ou parar, conhecer a pessoa certa na hora errada, conhecer a pessoa errada na hora certa). Embrulhei com cuidado o coração já tão partido e surrado e coloquei na mala, a caminho do meu lugar favorito no mundo e destino que já acolheu meus pedaços pelo menos umas três outras vezes. Londres, prepara teu rio que o pranto aqui quer companhia – mas por favor, faça festa e luz, que a gente gosta mesmo é de brilhar (principalmente no escuro). 

calvin

meio feliz

post secret

Estava lendo as atualizações do meu feed do fim de semana quando tomei esse soco no estômago, hoje pela manhã. Após uns dias em que nenhum dos meus planos deu certo e eu fiquei curtindo uma boa reflexão sozinha em casa, repensando caminhos e atitudes; me deu um nó na garganta encarar que talvez isso seja real, nem todo mundo terá um final feliz.

Estava discutindo essa e outras questões com fiel companheira, quando ela pontuou que o exercício é fazer as reflexões mas não se deixar tomar por elas. O segredo é tentar manter o foco em algum lugar sem deixar essas reflexões desaparecerem, porque no fundo são as dúvidas que movimentam a gente. Temos que dar espaço para elas acontecerem porque quando a gente pára de questionar, a gente pára de tentar entender, melhorar, de tentar evoluir. 

E após a segunda xícara de café do dia, me veio à cabeça a tirinha mais amada, do Laerte, que está no mural do meu quarto, para que eu encare todos os dias e pare de fantasiar com um final feliz: felicidade existe sim, mas ela está no meio, não no (ou num?) fim. No meio de uma semana tumultuada, num bombom numa terça-feira, num beijo roubado no cinema, numa conversa com melhor amiga, num abraço de pai, numa receita acertada de primeira, num email querido. Está na gente todos os dias – até porque ninguém quer esperar chegar ao final para encontrar essa tal felicidade. Por mais poliana-ingênua que isso possa parecer, e por mais clichê que seja – e é. É clichê porque é verdade: felicidade não é um fim, é um meio. Um meio de tornar nosso dia a dia menos duro e mais doce, mais anis. Mais feliz.

pjegw

eu uso óculos

Eu tenho um pouco de astigmatismo e 2.5 graus de miopia (acho). Mas só uso óculos para dirigir, ver tevê, trabalhar. Não na rua, mesmo que muitas vezes isso possa me custar um ciclista passando de raspão no meio-fio. E não gosto de lentes de contato, parece que tem um fio de cabelo na minha vista – meu olho é muito sensível. (Meu olhar também).

No fundo, creio gostar de pensar no fato de que de longe sempre tudo é um borrão – é preciso se aproximar para enxergar, entender, encarar. Em quase tudo na vida, para ganhar dimensão é preciso se aprofundar, é preciso ganhar intimidade e se familiarizar com o assunto para poder criar uma opinião – ou cultivar uma emoção. É preciso querer ver para de fato enxergar

Minha miopia não me define, mas que ela explica muito da minha perspectiva de mundo; ah, isso ela explica sim. 

november rain

Quando você quis entrar, eu deixei. Meio aos atropelos, naquela chuva, eu voltando de viagem, coração ainda meio partido. Eu, sempre metendo os pés pelas mãos. Querendo curar na marra umas dores doídas que ainda queimavam no peito, mesmo após alguns dias no sol oblíquo de Paraty. Eu queria acreditar em você, na gente. Que era possível, que era provável. Que poderia ser para sempre. Nós dividimos meu guarda-chuva, mesmo sem nos conhecermos direito. Ainda.

Eu me encantei com você de primeira, seu jeito de ver o mundo, sua ingenuidade contagiante. Seu brilho no olho. Veja bem, eu já tive 24 também. Um dia. E muito daria para resgatar uma perspectiva assim sem o cinismo que os anos trazem para gente. Quando você sorri, o mundo todo ao redor parece se iluminar. E isso não é pouco.

Desde aquele final de novembro chuvoso, nós pegamos muito mais dias de chuva neste verão tropical. Mas você traz o sol. E eu aprendi a não me importar mais de sair na chuva e me molhar. Não mais. 

seja fiel a você

Em mais uma das minhas conversas reflexivas com amigos próximos, estávamos falando sobre como muitas vezes a gente se censura na hora de falar o que quer ou fazer o que tem vontade porque pensamos no outro – em como ele vai reagir, o que vai achar, se vai se assustar, fugir. Se vai nos machucar. E como isso nos impede de sermos transparentes e fieis ao que sentimos simplesmente porque tememos o impacto que isso vai ter no receptor. Mas que bobagem…! Se você for fiel à sua essência, não tem como dar errado: o outro pode até se assustar com uma ou outra coisa, mas se não souber lidar com isso, então não era mesmo alguém para ficar ao lado. É alguém que não sabe entender quem você é – e se apaixonar por todos os pequenos defeitos e grandes qualidades que você tem e é capaz de mostrar. Veja bem: não estamos falando aqui sobre se apegar aos seus defeitos e bater o pé em teimosia de que “sou assim e pronto, o resto do mundo que lide com isso”. Estamos falando sobre se importar menos com a reação dos outros e ser verdadeiro consigo mesmo.

Minha amiga querida disse: faça sempre o que respeita quem você é. Isso garante coração tranquilo e sensação de missão cumprida, de ter se dado por inteiro, de ter doado seu melhor ao mundo. O resto vem na garupa.

be-true-to-yourself

pequenos grandes defeitos

Dia desses li um texto que falava sobre como a gente tende a se apegar aos nossos próprios defeitos como se eles fossem uma parte engraçadinha e peculiar da nossa personalidade, quando muitas vezes eles podem agir como um freio que nos impede de viver de forma maior e melhor. E nem preciso ir muito longe para ilustrar: meus pais, apesar de sempre terem apoiado a mim e a meu irmão em tudo; nos criaram para sermos pessoas independentes e bem-resolvidas. E eu, talvez por ser primogênita (ou só por ser metida mesmo), acabei superestimando este comportamento e hoje sou uma pessoa orgulhosa. Ou seja: dificilmente peço ajuda às pessoas (ou aceito quando me é oferecida mesmo sem pedir), porque considero isso um sinal de fraqueza. Sempre acho que posso resolver tudo sozinha, que vou, faço e aconteço. Mas acontece que ninguém vive sozinho no mundo né, e deixar o outro nos ajudar pode fazer um bem danado, para ambos os envolvidos – quem quer ajudar sente que sua presença é valorizada, e quem aceita ajuda se sente amparado. Então fica a reflexão: qual defeito seu pode ser trabalhado para que sua vida flua de forma mais harmônica e, por quê não, feliz? Já adianto que olhar para isso, refletir sobre o que precisa ser feito para mudar e de fato trabalhar em cima é um exercício diário. Mas as recompensas valem a pena.



(sempre que falo de defeitos me lembro dessa frase de Clarice – e, apesar de amar a escritora, acho essa citação uma muleta perigosa para quem não quer melhorar o que pode ser melhorado)


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