Arquivo para fevereiro \23\UTC 2012

feito pluma

Por indicação de uma leitora querida, comecei um ler um livro sobre a arte de ser leve. Além da agradável surpresa de descobrir que já pratico a maior parte das coisas sem ao menos ter tido manual de instrução antes, também fico feliz de ver que leveza não é sinônimo de ingenuidade, pequenice ou banalidade. É uma escolha consciente para viver uma vida com menos desgaste e atrito. Leve feito brisa após a chuva de verão, amor de estação. Sei que ainda tenho muitas arestas a aparar e fardos para descartar, afinal, é um aprendizado para sempre. Mas gostei de saber que estou no caminho. Votarei ao livro – e à leveza – muito mais vezes ainda. Que bom.

(…) Fala de uma leveza que inclui a angústia, a tristeza, as inseguranças, a precariedade da existência. (…) a leveza que proponho aqui é aquela que reconhece a existência das sombras e as incorpora. Aquela que admite que a vida é barra-pesadíssima e que nem sempre é possível ver um lado bom no que nos desgasta, nos amedronta, nos faz sofrer. Mas que, mesmo quando estivermos tristes, ansiosos ou deprimidos, possamos ser pessoas que não abrem mão da civilidade, da compaixão e do mínimo de elegância para conviver. Travel light, recomendam os guias de viagem; ou seja, viaje leve. Não é sair pelo mundo sem bagagem. É simplesmente eliminar o excesso de peso.”

check list

Tenho conseguido dar conta das resoluções para o dia, na maioria das vezes. E, pouco a pouco, 2012 vai se desenhando diante dos meus olhos. Uma sensação de controle boa e, ao mesmo tempo esperando um twist do destino: porque nada melhor que uma boa surpresa para a gente, voluntariamente, querer mais é que tudo saia do controle. Estou amando as boas surpresas cotidianas, gente nova entrando na vida, respiro. Ah 2012, sabia que você não iria me decepcionar.

avisa que é de se entregar o viver

A água estava fria, daquelas de gelar os ossos, arrepiar os pelos da nuca. Difícil entrar aos poucos, pé por pé, dedos, membros. A ansiedade não quer deixar cada pedacinho esfriar de vez – mas no mar não dá pra mergulhar de cabeça, há que se ir por partes, desde a areia, tecendo oração para Iemanjá.

Mas depois fica tão melhor. E quando o corpo acostuma, eu não quero mais sair de lá. O que era frio e assustador virou meu recanto seguro, onde me protejo do vento gelado lá de fora. Quero me abraçar neste mar, mergulhar.

***

Na tal vida do dia a dia é assim também. Eu não quero entrar, e quando entro, não quero mais sair. Conheci uma pessoa há algumas semanas que tem me mostrado o quanto vale a pena se abrir e acreditar no mundo, deixar as pessoas entrarem. É algo tão puro e tão bonito, tão generoso e sem expectativas que me deixa emocionada. Hoje em dia é tão difícil encontrar relações assim, em que as pessoas simplesmente não esperam nada. Difícil de acreditar, até.

Percebi o quanto tanta dor fez com que eu me fechasse mais e mais dentro do casulo, o quanto eu criei essa proteção superficial que permite com que eu seja sempre aberta só até a página 2. Como eu faço amigos com muita facilidade, como eu consigo ser tão falante e articulada, como eu trago todos para o meu mundo por alguns instantes – o mundo que eu quero que vejam. Mas é só alguém dar um passo à frente que eu me fecho feito tatu-bola, e me enrolo no meu infinito particular.

Depois de uma queda muito grande, é difícil encontrar suporte para voltar a andar e se sentir capaz de trilhar novos caminhos. Ao coração que teima em bater, estou aqui, tentando mostrar que é sim para se entregar, sem temer nem maltratar. Por uma vida mais completa e honesta. Por uma vida mais feliz.

ata-me

Outro dia li um texto postado por amiga querida sobre nós e laços, sendo nós aquelas pessoas significativas que já fizeram parte da nossa vida e das quais não conseguimos nos desvencilhar; e laços as pessoas que enfeitam e colorem nossos dias, que trazem bem. O peso x a leveza.

Tenho passado por um processo bem importante de saber desatar nós e fazer laços. É algo que já vem faz tempo, mas que é tão longo – diferenciar um do outro, tão difícil. Até hoje fico muito triste quando me dou conta de que tenho que deixar alguém partir; de que essa pessoa, que um dia já ocupou tanto espaço em meu bem querer, hoje já não faz mais sentido em minha vida*. Ao mesmo tempo, fico muito feliz de ver laços novos de cetim, brilhando um novo amor que nasce. Nos últimos dois anos, desfiz muitos nós (alguns ainda em processo), mas também amarrei laços bonitos e que estão me trazendo coisas tão, mas tão boas. Já dizia o poetinha que “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Tão rico, poder vivenciar os dois. 


*dica para ler: “Quando a amizade acaba“, no sempre favorito “Don’t touch my moleskine”, da querida Dani Arrais

se eu fosse eu

“Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.
“Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais”.
(
Clarice Lispector, em texto extraído do livro A Descoberta do Mundo)

***

Todo mundo sempre parece ter conselhos para os outros, o tempo todo. “Se eu fosse você, faria assim”, “se eu fosse você, faria assado”. Mas e se você fosse você, o que faria? O que diria?

Este texto de Clarice, do qual tirei o título prum outro, é o que mais tem me inspirado nos últimos tempos. De tentar adotar esse distanciamento do olhar alheio. Para se enxergar com mais carinho, para se dar conselhos preciosos, para mergulhar fundo e ter enfim a experiência do mundo. Por uma vida mais inspirada e inspiradora.

ser feliz ou ter razão

Sábado passado fui encontrar uma amiga para um café, e estávamos conversando sobre nossas escolhas. Temos um monte delas em comum, como preferir não andar de carro, ficarmos solteiras até aparecer um cara legal, investir nosso dinheiro em viagens e boas lembranças. Mas também falamos sobre como é cansativo ter de ficar o tempo todo justificando nossas escolhas para as outras pessoas, simplesmente porque isso vai de encontro ao que a grande maioria tem como caminho único e destino traçado – como se nós, ao mostrar que sim, outra rota é possível, estivéssemos fazendo uma afronta pessoal a elas e ao seu modo de vida.

Um dia antes eu havia assistido a um filme bem bacana e, resumindo a história: ao encontrar o doador de sêmen de seus filhos, duas mães ficam chocadas com suas escolhas de vida. Ele disse que não gostava muito de estudar, que achava uma perda de tempo fazer faculdade, foi curtir a vida e abriu um restaurante de comida orgânica. Não era casado, tinha seus romancezinhos, e parecia tão feliz e sereno! E como isso era antagônico ao modo de vida delas, que acreditavam na formação acadêmica e não deixavam nem os filhos andarem de moto por considerarem perigoso. Elas agiam como se as escolhas dele fossem uma atitude tomada com o único objetivo de chocá-las; quando, no fundo, ele só escolheu aquilo que ele acreditava que o faria feliz, sem ligar para o que os outros pensavam.

Escolhi não ter um carro para estudar francês em Paris e fazer minha pós-graduação, escolhi ficar solteira ao invés de namorar um babaca apenas para não ser tachada de encalhada, escolhi trabalhar em casa e em projetos paralelos mesmo ganhando menos do que em agência, porque isso me dá mais liberdade e flexibilidade de horários. 

Creio que quem faz tudo como “manda o figurino”, razão tem é pouca – acho até irracional na verdade, além de me soar bem infeliz. Eu escolhi ser feliz e de acordo com o que acredito – e, além de tudo, ainda acho que quem tem a razão sou eu. Afinal, já cantavam os Mutantes: “Mas louco é quem me diz, e não é feliz. Eu sou feliz.” :)

a felicidade na normalidade

“(…) É comum, em animações, que ‘finais felizes’ nada mais signifiquem que a restauração da normalidade.”
(em “Picadas de aranha e outras viagens” – coluna do Marcelo Coelho, na Folha de 04/01/2012)

Quinta-feira à noite tivemos um problema sério com a internet aqui em casa, que ficou com uma velocidade impraticável. A companhia telefônica me enrolou até segunda na hora do almoço, falando ser fase de manutenção geral na área, que iria se estabilizar em breve, mimimi. Eu, que tenho o luxo de trabalhar em casa, estava tendo surtos psicóticos de ansiedade, e quase deixei de encontrar uma amiga do Rio que estava aqui porque não tinha visto seu email.

Pois bem, o técnico veio aqui hoje, arrumou, tudo certo, lindo. Passei o resto do dia colocando a leitura de sites amados em dia, respondendo emails queridos, botando ordem na casa. E me peguei pensando em como coisas tão simples, como uma conexão com a internet ou um bad hair day, podem mudar completamente o nosso humor e prioridades, deixar tudo fora de compasso.

Num grupo de discussão do qual participei ano passado, falamos sobre os pequenos prazeres mundanos – tomar café da manhã lendo o jornal do dia, comer pipoca assistindo ‘dirty dancing’ na sessão da tarde de uma segunda-feira chuvosa -, e em como eles acabam se tornando grandes porque é tão difícil encontrar as condições ideais para tudo acontecer: não ter obra na casa vizinha com um barulho martelando a paz interna, ter um friozinho bom que dá vontade de ficar na cama até mais tarde – em dias que a gente pode de fato ficar na cama até mais tarde. Chuva quando queremos ficar em casa, sol em dia de sair, temperatura ideal, silêncio, milho na despensa, noite fresca e estrelada.

São tantas as variantes de uma vida em harmonia que, quando tudo está no eixo, é como se fosse um ballet de pequenos acasos que se encontraram, para transformar um dia comum em um dia perfeito. Mesmo que um dia perfeito seja só ficar em casa lendo um livro e tomando café – com uma boa conexão de internet se a gente precisar.


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