Arquivo para dezembro \27\UTC 2012

apocalypse now

“(…) A cada um desses pequenos apocalipses temos a chance de recomeçar. Partidos, aos pedaços, às vezes colados como um Frankenstein de filme B. Enquanto o meteoro não chega há sempre um possível que podemos inventar. Se os anúncios de fim do mundo servem para alguma coisa, além de fazer piadas e encher os bolsos de alguns espertos, é para nos lembrar de que o mundo acaba mesmo. Não em apoteose coletiva, com dia e hora determinados, mas na tragédia individual, sem alarde e sem aviso prévio, que desde sempre está marcada na vida de cada um de nós.”

(trecho de “Malditos Maias!“, Eliane Brum)

Este foi o texto mais lúcido que li sobre o tão falado apocalipse. Para nós, que temos nossas tragédias pessoais e fins do nosso mundo particular de tempos em tempos, vivendo dia a dia vários novos fins e (re)começos, e mesmo assim continuamos em pé, do luto à luta. Que venha 2013.

tema do dia

Semana passada, em dois dias percebi que havia um “tema” comum que ligava alguns dos assuntos que vivia naquela momento. Como seriado de tevê, que escolhe um tema e permeia todo o episódio com isso, sabem? Na terça-feira foi decadência: fui encontrar meus amigos da terceira idade para almoçar. Todos tiveram carreiras muito bem-sucedidas em suas áreas, já passam dos 80 e continuam lúcidos e falantes, uma lição de vida. Um deles, engenheiro respeitado, professor de universidade renomada e com uma neta da minha idade (e com o mesmo nome!) adora fazer mágicas. Mas ele falhou em duas das três vezes que tentou fazer comigo, como se algo estivesse fora de conexão. Ele disse que talvez eu não tenha dado as coordenadas direito, o que pode ter acontecido também. Mas o mal entendido me causou mal estar. À noite, no mesmo dia, fomos assistir ao jogo de despedida do Marcos. Em campo estavam todos os maiores jogadores do final dos anos 90/início dos anos 2000. E todos, antes craques, estavam pesados, lentos, fora de forma. O tempo, sempre ele, fazendo-nos lembrar que nada é eterno, que todos temos nossos momentos de ascensão e queda, quando o corpo já não responde mais aos estímulos como antes, quando a gente tenta correr atrás das nossas sombras, antes ágeis e capazes.

Na quinta-feira, o tema do dia foi “acerto de contas com o passado“. Abordaram isso na última edição do programa “Saia Justa”, sobre o falado fim do mundo e o que seria interessante fazermos até lá: pedir perdão, perdoar, desapegar, deixar passar. Ao final do dia, reprise de “Alta Fidelidade” na tevê a cabo, e eu pela enésima vez acompanhando a história do homem que vai atrás de seus relacionamentos passados para entender por onde os caminhos o levaram, o que ele deveria mudar (ou se deveria mudar algo) para que o futuro seja diferente.

Dizem que o universo vive a nos passar mensagens subliminares nas entrelinhas de todos os acontecimentos ao nosso redor – basta termos as antenas ligadas e a sensibilidade aguçada para perceber. E agora, acompanhando a partida de um ente querido no hospital e esperando o tal “final do mundo”, percebo que é época de grandes reflexões, reavaliações e fazer as pazes com nossa história, aceitando o que está por vir de coração livre e braços abertos. Um exercício que traz lições para toda a vida. 

12.12.12

12.12.12

Um e-mail para amiga-irmã-sagitariana querida, que resume tudo o que estou sentindo hoje, num dia tão místico-cabalístico e repleto de significados: 

“(…) eu esperei minha vida toda por este aniversário (12/12/12, cabalístico!), e este ano também não estou a fim de fazer nada, pela primeira vez na vida!! não sei se já comentei isso contigo, mas este foi um ano tão difícil em tantos sentidos… parecia que tinha um elástico na minha barriga me puxando para trás; em tudo que eu fazia eu precisava do triplo de força, e mesmo assim não rolava muito. agora pretendo ficar na quarta-feira bem quietinha, meditando no que quero daqui pra frente da minha vida, só no modo reativo. esses dias rolou uma faxina geral no armário e na vida – joguei MUITA coisa fora, que não cabia mais para mim, nos mais diversos sentidos que isso possa ter.

tou sentindo uma renovação boa, parece o fim de um ciclo todo. 2012 era um ano para o qual eu sempre tive muitas expectativas, a minha vida inteira; e nenhuma delas se realizou. mas no fim acho que veio pro bem, porque agora me sinto mais livre dessas expectativas que só trazem frustração – e renovada para criar novos caminhos. dizem que o tal “fim do mundo” na verdade é só fim de um ciclo e início de outro né? tou botando fé!”

***

então o dia chegou, e por mais que eu tente ficar de birra, não consigo, pelo tanta de energia boa que rola e reverbera em volta. decidi não prestar mais atenção ao que os outros esperavam de mim e só fazer o que desse na telha: comer comidas favoritas, dormir, ver tevê, ler, ficar só, prestar atenção ao redor. tou colhendo e recolhendo todas essas vibrações para dinamizar os próximos desejos, sem esperar nem desesperar além da conta; deixar o universo e o acaso fazerem sua parte, também. tou de bem.

o peito cheio de amores vãos

Dia desses me dei conta de como, de uns anos para cá, se tornou fácil para mim abandonar qualquer coisa, mesmo as que causam imensa paixão. Enfrentei um impasse referente a uma das partes mais importantes da minha vida no momento, algo pelo qual tenho profundo amor, e meu único suspiro era “se começar a dar muita dor de cabeça, eu largo tudo e pronto”. Foi aí que me dei conta: sempre estou com um pé lá e outro cá. Passaporte em mãos, sempre pronta para partir quando os planos ameaçam não sair conforme foi sonhado. Sempre pronta a redesenhar de giz a calçada lavada pela chuva.

Achei triste.

Queria ter algo em mãos que eu não desejasse abandonar por nada, ao qual eu quisesse me agarrar agressivamente, que eu sofresse até virar fiapo caso acabasse. Não tem.

Achei desolador.

Tantos corações partidos, tantas histórias que não deram certo, tantos sonhos frustrados… Para, ao invés de me enxergar mais forte, eu hoje me encontre assim: tão fria e cínica.

Achei prematuro.


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