Arquivo para julho \28\UTC 2018

quero ouvir uma canção de amor

não sei bem em que dia que voltou, uma nuvem negra apareceu, e tudo se calou. todas as portas, todos os ‘partas’, tudo se abriu, tudo se fechou. “aonde está você agora além de aqui dentro de mim?”

um inverno que nem direito começou, ao fim se encaminha, com pouco frio, seco como um coração endurecido. livros com páginas marcadas e linhas grifadas, pensamentos guardados e sentimentos acolhidos. houve uma vez um verão, eu me lembro. já faz tantos anos, ele disse. faz tantos anos que nem mais parecemos jovens (embora ainda sejamos). um fio de vida esgarçado, um amor aguado até ser diluído para render mais. quando ele me abriu seus braços a gente fez um país; e nessa nação que não existe a gente tinha língua própria e passaporte pronto. ninguém queria partir. e mesmo assim (nos) partimos. não é assim que acontece sempre? assim fomos. nas lembranças criadas e na cartografia inventada, nossos metros quadrados de geografia apropriada viraram um território ocupado de suspiros apaixonados e planos a serem concretizados, um local cheio de futuro e promessas de amanhã; quando acreditamos que tudo pode dar certo, que dessa vez será diferente. riso solto e abraço apertado, mãos dadas ao dormir, dois travesseiros ocupados. quando o silêncio compartilhado é confortável sabemos que encontramos alguém para somar qualquer coisa de contente. nos contentamos. 

 

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bem agora,

bem agora, numa quinta-feira fresca às duas e meia da tarde, eu fui ler um texto de poesia pra esquecer de tudo o que tinha para fazer e só pensar em você. bem agora, que a casa do vizinho tem reforma e que eu escuto a britadeira sem parar todos os dias desde sete da manhã, mesmo aos domingos. bem agora, que não chove há mais de cem dias e os ipês têm flores que tomam conta de todas as calçadas. bem agora, que eu resolvi levar mais a sério a carreira que você vislumbrou pra mim há tanto tempo. bem agora, quando vai ter eclipse e marte retrógrado, mercúrio retrógrado, amor que não avança. bem agora, que tem vinho na geladeira e pão no balcão, eu lembrei que você mora tão longe e me deu um aperto no coração. bem agora.

bem agora, onde cabe vírgula e o sol entra oblíquo pela janela da sala. bem agora, quando tantas pessoas vivem suas vidas sem nem saber que você existe, eu sei e me lembro todos os dias. bem agora, quando tudo ainda é tanto mesmo quando não é. bem agora, que me anima descobrir novas possibilidades e planejar novas viagens. bem agora, eu fui lembrar que não te esqueci. bem agora, você não está. bem agora, você ainda é. bem agora. 

 

* inspirado neste texto aqui

segue o seco

numa são paulo da estiagem e que não chove há mais de mês eu encontrei água para desaguar em prantos o luto de um amor que poderia ter sido e não foi. eu respirava tijolos e vertia lágrimas que pouco faziam sentido para quem não compreende que sonhos construídos, ainda que não concretizados, são também chorados quando desmoronados — representam tudo o que queríamos acreditar que era possível, tudo aquilo em que depositamos nossos resquícios de fé e romantismo, nossas migalhas de amor maltratado. assim que recolhemos nossos pedaços e nossos prantos, num clima que ajuda a secar (e esquecer) mais rápido, retomamos a forma anterior sem retomar. acreditamos não ter nos deixado abalar e que resiliência é a virtude dos resistentes, a estrutura molecular dos prósperos de boa vontade e carentes de rancor. assim seguimos e prosseguimos, o sol que seca o sal do rosto e transforma o gosto; para quando, ao que menos esperamos, nos (re)encontramos sorrindo outra vez. respirando e concluindo, ainda há amar. há mar. amar.

segredos de liquidificador

Num domingo em que eu cortava cebolas preparando um prato para o almoço de família para assistirmos juntos à estreia do Brasil na Copa, meu pai ouvia no rádio um programa chamado “Éramos todos jovens” e tocou uma música que um dia ele gravou pra mim. Um dia, uns quinze anos atrás, quando nós também éramos jovens, num desses clichês que dá até vergonha de escrever. Uma dessas músicas descaradamente românticas, cafonas como todas as músicas de amor e sem receio algum de ser. Quando a gente ama a gente até canta Reginaldo Rossi sem achar que é bobagem, porque não é. Bobo é quem tem medo de ser feliz. Ele sempre foi assim, criativo e destemido, algumas das muitas qualidades que eu achava tão bonitas. Ali, cortando cebolas, as lágrimas frias e mecânicas de uma reação química involuntária se misturaram com umas outras quentes (não menos involuntárias) de uma lembrança de um amor tão arrebatador e verdadeiro que um dia eu senti. Numa semana em que eu me dei conta de que, por mais que seja cheia de vontade genuína de amar de novo (e que a vida me traga umas pessoas tão incríveis vez ou outra); há certas coisas que não dá para forçar. Eu chorei porque o rádio cantava um amor beira-de-estrada tão sentido, e porque eu já não era mais capaz de sentir assim, e porque me doía reconhecer que talvez jamais seria de novo. Como se um dia nossas capacidades se esgotassem, cheias de culpa, e o cansaço tomasse conta. E isso é triste demais.

***

Com o passar do tempo, a eloquência afoita das mensagens de quem reconhece uma conexão especial e quer se falar muito e trocar tudo foi se tornando um vazio já tão conhecido, uma tela que não pisca e não denuncia mais nada, mas também não vibra – como um coração exausto que só bate o suficiente para manter-se vivo. Um silêncio espaçado já tão familiar foi tomando conta; e a maior surpresa é que não houve surpresa, nem tristeza. Houve um nada. Um dia, dois, cinco. Sete. Catorze, quinze. Assim é quando os romances novos perdem o sentido. E já nem dói mais. Há uma dormência não-calculada, porém bem-vinda certas vezes, quando reconhecemos já ter sofrido tanto tantas outras vezes que qualquer apatia é sinal de sanidade. Quando não pulsa, não oprime – e às vezes nem sangra. Esse gosto metálico eu conheço tão bem que, mesmo reconhecendo que o ato de sangrar é atestado do que nos torna vivos, a dormência é acolhida com ternura por trazer a não-dor – e uns pedaços que podem ser recolhidos sem estardalhaço, e recolocados em seu lugar. “No peito”, diz a anatomia. 


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