Arquivo para junho \27\UTC 2012

um elefante incomoda muita gente

“Emoções, para utilizar a imagem do psicólogo Jonathan Haidt, são um elefante; a razão, o condutor desse elefante. O animal obedecerá ao piloto, mas apenas enquanto estiver disposto a fazê-lo. Quando os dois estão de acordo, tudo transcorre bem, mas, quando divergem, o elefante tende a levar a melhor. Ele, afinal, é o mais forte e o mais resistente. Há outras circunstâncias, mais raras, em que o condutor convence o bicho a mudar de ideia. É aí que se inscrevem as mudanças de hábito.”
(trecho de artigo sobre a mudança de hábitos, no caderno Ilustríssima da Folha de 10/06/2012)


Tem sido extremamente difícil movimentar esse elefante teimoso feito porta, que só faz o que lhe der na telha e é surdo aos meus apelos. Respiro fundo e tento ir pela máxima de que tudo acontece no seu devido tempo e que, se não foi, é porque ainda não era para ser. Veremos.

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iça, iça, vela do barco

“O importante é seguir com os planos independentemente da direção do vento – aqui nós ajustamos as velas”, li outro dia no facebook de uma amiga.

Tem ventado muito em São Paulo.

se você me der verão

Metrô, sete da noite, contra-fluxo. Trem parcialmente vazio. A poucos metros de mim está sentado um garoto de traços orientais, meio gordinho, 20 e poucos anos no máximo, fones no ouvido, um corte de cabelo moicano-longo e que pouco o valoriza. Ele está à minha frente e meu olhar, embora tente alcançar a janela para divagar em paz, sempre volta para ele. Então ele começa a sorrir. Não para mim, mas para ele mesmo. Ele está imerso num mundo próprio que eu não acesso. Ele sorri. Primeiro com os olhos, depois com os lábios, de forma discreta e sutil. Pega o celular para mexer na playlist e abre um sorriso mais largo. “Ele está apaixonado”, penso. Ele não pára de sorrir. À toa. (pelo menos para mim, que desconheço a causa de tamanha graça). É como se alguém estivesse soprando juras de amor ao seu ouvido, embora ele esteja só. Pelo menos fisicamente, não há companhia visível. Mas seus olhos têm o brilho dos que não se enxergam mais sozinhos no mundo. O caminho todo é assim: só risos, sorrisos. Um jovem de moletom vermelho e tênis de corrida, numa tarde fria e chuvosa de início de inverno paulistano, está profunda e abundantemente apaixonado, constato. “Então é assim”. Havia me esquecido.

and all that counts is here and now

Ando imersa em estudos e aprofundamentos de autoconhecimento para lidar de forma mais leve com tudo ao redor e poder dar meu melhor para o mundo. Um dos maiores desafios tem sido estar presente aqui e agora. Estou fazendo um curso de meditação para ver se ajuda, mas enquanto o mestre fica narrando como devemos proceder, prestar atenção na respiração, focar no que temos no momento (nosso corpo ali, o ar que entra pelas narinas etc); minha cabeça fica divagando entre mil outras esferas e não consigo descansar.

Percebi que o mais irônico é que, embora todos digam que a única coisa que temos é o presente, os únicos tempos verbais que permeiam minha mente são o passado e o futuro – não consigo me libertar do primeiro e, profissionalmente, sou obrigada a viver no segundo, programando pautas, agendas, viagens, reservas, visitantes, projetos.

Hoje ouvimos a história do sândalo que perfuma o machado que o fere – não por ser bonzinho, ignorante ou conformista; mas porque esta é sua natureza: perfumar. Estou ainda na busca pela minha essência, para saber o que move a minha natureza. Espero que também seja um pouco dessa nobreza de perfumar o que machuca. E que seja no momento presente.

à deriva

Alterno momentos exultantes de graça, gratidão e euforia com outros de profunda melancolia – e uma culpa voraz por me enxergar tão pobre de espírito perto das verdadeiras mazelas do mundo. Reencontros (ainda que virtuais) com pessoas que passaram por minha vida me fazem questionar muitos dos rumos que escolhi ou foram escolhidos por mim. “O passado não sabe seu lugar, ele está sempre presente”, já suspirava Mário Quintana. A verdade é que “o encontro com nosso verdadeiro eu”, como li outro dia no jornal, é o encontro mais difícil de todos. É um encontro com ares de embate pouco romântico, parece mais um confronto: encarar nossas fraquezas e limitações, inquietudes e forças oblíquas ainda pouco exploradas. 

Outro dia me dei conta de que há muito tempo eu sonhava que 2012 seria o ano decisivo da minha vida, por inúmeras razões. E hoje eu já não sei mais de nada. Trabalho com afinco e paixão shakesperiana, mas quando dou um passo para trás para ganhar perspectiva, olho o panorama geral em que me encontro e tudo o que pareço enxergar é um arranjo de inércias aleatórias, de ações que foram se desenvolvendo como que por si só, e eu só “fui com a maré”, deixando a vida me levar, com um papel mais de espectador que de ator.

Creio que, de alguma forma, eu esperava mais do que minha vida seria quando eu chegasse neste “aqui agora”, aos 27, em 2012. Esta atual crise, talvez o tal “retorno de saturno“, é um conflito que não me deixa – uma batalha de leões que me atormenta dia e noite, e se descamba em certos descontroles, muita insegurança e pouco amor por mim mesma. Ando insuportável, e tem sido difícil me aguentar 24 horas por dia (eu que o diga). Mas há de passar, como essas tais chuvas inesperadas de fim de outono. Se dizem que “o que não mata, fortalece”, então que o furacão sirva pelo menos para isso: menos morte e mais força.


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