para um amor que gosta de cafuné

De um gesto desses que a gente banaliza de tão corriqueiro ou reprime de tão afetuoso ficou algo que desde os primeiros instantes se tornou só nosso, naquele início de outubro fresco e ensolarado em que o mundo estava ruindo pro meu lado e eu fugi, olhando pra trás por cima do ombro enquanto me perdia entre seus cachos negros: cafuné. Esta palavra que não existia no seu vocabulário e que virou uma senha desse nosso amor que nasceu tão rápido e genuíno, tão cheio de promessas e tão vivo no presente, sem medo do futuro: você me olhava com seus olhos sorrindo, cafuné. Você direcionava delicadamente a minha mão para sua cabeça, e nada mais precisava fazer sentido, aquilo bastava: cafuné. Era como se eu tivesse acabado de descobrir um lar onde sempre morei. Me perdoem todas as guerras distantes por querer amar demais um menino que me ama de volta e me diz que sou incrível, que cozinha pra mim e que do alto dos seus 1,91m me parece capaz de matar todos os monstros que me assombram.

Depois daquela segunda-feira em que um canto remoto na costa do pacífico testemunhou nosso primeiro beijo, todos os outros encontros parecerão pequenos. Porque foi uma manhã de grandes perguntas e grandes significados e grandes encontros, e uma tarde cercados das árvores mais altas do mundo – e desconfio que não há como algo ser maior que isso. Tenho uns vídeos com sua voz ao fundo e um céu escandalosamente azul, e fotos de vários ângulos da paisagem e aquelas que você tirou minhas com cabelos ao vento rindo de não querer sair em foto; e lembro que conversávamos sobre como ursos podem ficar seis meses sem comer durante o inverno.

As distâncias até parecem pequenas quando penso que poderia de novo acordar ao seu lado. Quantas passagens já comprei para viver um amor, nem sei. Eu sempre vou. Eu irei. Para contar as pequenas pintas nas suas costas como uma constelação de uma galáxia distante, da noite em que você me mostrou o tango de Bajofondo ao celular no caminho do supermercado e arriscou um espanhol e eu quis chorar, ali no banco passageiro de um carro já tão cheio de memórias que criamos num passado recente e num presente tão latente, e as que eu inventei de um futuro que eu queria tanto que acontecesse. De quando colhemos abóboras para o halloween e na tevê tinha um jogo de beisebol enquanto a gente talhava desenhos e eu pensava que não havia nada mais americano que aquele momento, ali. Havia você, e tudo fazia sentido. Um moço bonito que tem 33 anos e olhos de menino, e um sorriso que traz todas as respostas, e uma poesia que não cabe, mesmo quando tenta. Eu escreveria todos os poemas do mundo naquele caminho pro aeroporto que eu não queria que chegasse nunca. Quem fez esta cidade tão pequena? Quem fez estes caminhos tão curtos? Eu queria mais tempo ao teu lado. E que não fossem dez mil quilômetros e tantos trechos de avião entre a nossa história e o que separa passado de presente e tece futuro. 

São seis horas de fuso-horário, agora. Isso é um período. Nas nossas refeições já descompassadas, enquanto eu almoço você está no café da manhã e seu almoço é meu jantar e você nunca mais respondeu minhas mensagens. Não são só os pratos que se desencontram, penso. Aos poucos, as lembranças vão se diluindo com o tempo e eu não queria que elas morressem nunca. Toco Neil Young enquanto tomo seu chá favorito. Aqui já é quase verão.

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como uma janela para um quintal ensolarado

Nos dias cinzentos como hoje, eu me lembro do seu sorriso que tem todas as respostas. Tudo que havia seu de criança estava ali, convivendo harmonicamente com as linhas finas já pronunciadas ao redor dos olhos e os fios grisalhos misturados aos outros escuros. Esse sorriso pelo qual me apaixonei no primeiro instante. Eu, que jurava já nem acreditar mais “nessas coisas”, me vi pega mais uma vez. Com um convite inesperado e um sorriso em que cabia o mundo, numa segunda de manhã você dirigiu mais de vinte quilômetros só para me levar para tomar café numa cidadezinha vizinha que tem um céu feito pintura e um mar de azul turquesa recortado entre as pedras. Parecia enredo de filme, daqueles que a gente não acredita que existam na vida real, que a gente acha que inventaram só para parecer que a vida pode ser feito um romance. E lá estava: minha vida, um romance real. Suas mãos grandes e seu olhar doce, seus olhos que sorriam ao olhar pra mim, antes do próprio sorriso – sempre abundante, acolhedor, destemido, desarmado.

Como o mundo é muito mundo, eu estava despedaçada quando te conheci. Com as notícias, com as verdades que nem são mais verdades mas nem por isso são menos cruas. E, de algum jeito, você me consertou. Você conserta algumas coisas sem nem ao menos tentar, e isso é das suas características mais bonitas. A gente se conhecia há menos de uma hora e eu chorei na sua frente porque você me mostrou um caminho que eu nem sabia ser possível. Que lindo, isso. Poder ser vulnerável de novo.

Aqueles minutos intermináveis antes do primeiro beijo que ambos sabem que vai acontecer a qualquer momento, mas ninguém ainda tomou a iniciativa; são onde cabem todas as possibilidades de que tudo ainda pode acontecer. Todas as borboletas no estômago, as estrelas no céu da boca, as mãos geladas de tensão. É sobre isso que todos os filmes são feitos, os livros são escritos, as músicas são cantadas. Porque não importa o que venha depois: tudo começa ali. Tudo é sobre aquele momento em que estávamos sentados naquele banco trocando olhares e falando sobre qualquer assunto que já não mais importava porque ele era apenas um atalho para um beijo. Todo o romance do mundo cabia ali, naquele instante. E depois dele vieram todos os outros e aí sim veio uma história. “Estou feliz. Estou tão feliz”, você dizia. Como se seu coração estivesse a transbordar aquelas coisas bobas que a gente às vezes acha que já não existirão mais pra gente.

Você me perguntou o que era a alma e eu não soube responder. O que pensei era que deveria ser qualquer coisa que transcendesse a gente assim como o amor. Que faz com que a gente se sinta superpoderoso e invencível. Dentro de uma sequoia gigante que sofreu alguns incêndios ao longo da vida sem morrer, você me explicava as leis da natureza e eu pensava em humanidade e nossa capacidade de nos regenerarmos tantas vezes. No amor, nas batalhas, nas nossas perdas diárias. Eu fiquei emocionada tocando um tronco queimado de árvore porque a vida é tão mágica. O universo me trouxe você, a dez mil quilômetros de casa, e eu não queria mais partir. 

Você viu as minhas cicatrizes com interesse e compaixão, achou bonitas. Você me convidou para entrar no seu mundo de forma tão genuína que eu não consegui dizer ‘não’, mesmo quando tentei. Eu não poderia recusar. “Olha só, moreno do cabelo enroladinho, vê se olha com carinho pro nosso amor. Eu sei que é complicado amar tão devagarinho, e eu também tenho tanto medo”. A gente nem conseguia dormir de tanto assunto, “como se fala ‘boa noite’ em alemão?'”, “qual seu número favorito?”. Você me apresentou todo seu universo e todos seus cuidados assopraram as feridas que eu até já havia esquecido que tinha. “Vai ficar tudo bem”, você afirmou. Eu não duvidaria de nada que vinha de você. Nós criamos nossa história com tanta pureza e intenção que nesse mundo inventado essa bolha de amor protegido é o que hoje me inspira e move em direção a um futuro mais humano e gentil. E, nos dias cinzentos como hoje, eu me lembro do seu sorriso que tem todas as respostas. Que falta você me faz.

num futuro não muito distante

no dia do lançamento do meu livro
alguns amores passados
me pedirão exemplares autografados

será uma noite e tanto
será uma noite toda
com o peito desabrochando flores
com o peito a desaguar amores
com a caneta assinando perdões
com a caneta assinando gratidões
nenhum instante que me escape
tudo que ali me move
tudo que ali que me comove

talvez eu só levante da cadeira
após apagarem as luzes

quero ouvir uma canção de amor

não sei bem em que dia que voltou, uma nuvem negra apareceu, e tudo se calou. todas as portas, todos os ‘partas’, tudo se abriu, tudo se fechou. “aonde está você agora além de aqui dentro de mim?”

um inverno que nem direito começou, ao fim se encaminha, com pouco frio, seco como um coração endurecido. livros com páginas marcadas e linhas grifadas, pensamentos guardados e sentimentos acolhidos. houve uma vez um verão, eu me lembro. já faz tantos anos, ele disse. faz tantos anos que nem mais parecemos jovens (embora ainda sejamos). um fio de vida esgarçado, um amor aguado até ser diluído para render mais. quando ele me abriu seus braços a gente fez um país; e nessa nação que não existe a gente tinha língua própria e passaporte pronto. ninguém queria partir. e mesmo assim (nos) partimos. não é assim que acontece sempre? assim fomos. nas lembranças criadas e na cartografia inventada, nossos metros quadrados de geografia apropriada viraram um território ocupado de suspiros apaixonados e planos a serem concretizados, um local cheio de futuro e promessas de amanhã; quando acreditamos que tudo pode dar certo, que dessa vez será diferente. riso solto e abraço apertado, mãos dadas ao dormir, dois travesseiros ocupados. quando o silêncio compartilhado é confortável sabemos que encontramos alguém para somar qualquer coisa de contente. nos contentamos. 

 

bem agora,

bem agora, numa quinta-feira fresca às duas e meia da tarde, eu fui ler um texto de poesia pra esquecer de tudo o que tinha para fazer e só pensar em você. bem agora, que a casa do vizinho tem reforma e que eu escuto a britadeira sem parar todos os dias desde sete da manhã, mesmo aos domingos. bem agora, que não chove há mais de cem dias e os ipês têm flores que tomam conta de todas as calçadas. bem agora, que eu resolvi levar mais a sério a carreira que você vislumbrou pra mim há tanto tempo. bem agora, quando vai ter eclipse e marte retrógrado, mercúrio retrógrado, amor que não avança. bem agora, que tem vinho na geladeira e pão no balcão, eu lembrei que você mora tão longe e me deu um aperto no coração. bem agora.

bem agora, onde cabe vírgula e o sol entra oblíquo pela janela da sala. bem agora, quando tantas pessoas vivem suas vidas sem nem saber que você existe, eu sei e me lembro todos os dias. bem agora, quando tudo ainda é tanto mesmo quando não é. bem agora, que me anima descobrir novas possibilidades e planejar novas viagens. bem agora, eu fui lembrar que não te esqueci. bem agora, você não está. bem agora, você ainda é. bem agora. 

 

* inspirado neste texto aqui

segue o seco

numa são paulo da estiagem e que não chove há mais de mês eu encontrei água para desaguar em prantos o luto de um amor que poderia ter sido e não foi. eu respirava tijolos e vertia lágrimas que pouco faziam sentido para quem não compreende que sonhos construídos, ainda que não concretizados, são também chorados quando desmoronados — representam tudo o que queríamos acreditar que era possível, tudo aquilo em que depositamos nossos resquícios de fé e romantismo, nossas migalhas de amor maltratado. assim que recolhemos nossos pedaços e nossos prantos, num clima que ajuda a secar (e esquecer) mais rápido, retomamos a forma anterior sem retomar. acreditamos não ter nos deixado abalar e que resiliência é a virtude dos resistentes, a estrutura molecular dos prósperos de boa vontade e carentes de rancor. assim seguimos e prosseguimos, o sol que seca o sal do rosto e transforma o gosto; para quando, ao que menos esperamos, nos (re)encontramos sorrindo outra vez. respirando e concluindo, ainda há amar. há mar. amar.

segredos de liquidificador

Num domingo em que eu cortava cebolas preparando um prato para o almoço de família para assistirmos juntos à estreia do Brasil na Copa, meu pai ouvia no rádio um programa chamado “Éramos todos jovens” e tocou uma música que um dia ele gravou pra mim. Um dia, uns quinze anos atrás, quando nós também éramos jovens, num desses clichês que dá até vergonha de escrever. Uma dessas músicas descaradamente românticas, cafonas como todas as músicas de amor e sem receio algum de ser. Quando a gente ama a gente até canta Reginaldo Rossi sem achar que é bobagem, porque não é. Bobo é quem tem medo de ser feliz. Ele sempre foi assim, criativo e destemido, algumas das muitas qualidades que eu achava tão bonitas. Ali, cortando cebolas, as lágrimas frias e mecânicas de uma reação química involuntária se misturaram com umas outras quentes (não menos involuntárias) de uma lembrança de um amor tão arrebatador e verdadeiro que um dia eu senti. Numa semana em que eu me dei conta de que, por mais que seja cheia de vontade genuína de amar de novo (e que a vida me traga umas pessoas tão incríveis vez ou outra); há certas coisas que não dá para forçar. Eu chorei porque o rádio cantava um amor beira-de-estrada tão sentido, e porque eu já não era mais capaz de sentir assim, e porque me doía reconhecer que talvez jamais seria de novo. Como se um dia nossas capacidades se esgotassem, cheias de culpa, e o cansaço tomasse conta. E isso é triste demais.

***

Com o passar do tempo, a eloquência afoita das mensagens de quem reconhece uma conexão especial e quer se falar muito e trocar tudo foi se tornando um vazio já tão conhecido, uma tela que não pisca e não denuncia mais nada, mas também não vibra – como um coração exausto que só bate o suficiente para manter-se vivo. Um silêncio espaçado já tão familiar foi tomando conta; e a maior surpresa é que não houve surpresa, nem tristeza. Houve um nada. Um dia, dois, cinco. Sete. Catorze, quinze. Assim é quando os romances novos perdem o sentido. E já nem dói mais. Há uma dormência não-calculada, porém bem-vinda certas vezes, quando reconhecemos já ter sofrido tanto tantas outras vezes que qualquer apatia é sinal de sanidade. Quando não pulsa, não oprime – e às vezes nem sangra. Esse gosto metálico eu conheço tão bem que, mesmo reconhecendo que o ato de sangrar é atestado do que nos torna vivos, a dormência é acolhida com ternura por trazer a não-dor – e uns pedaços que podem ser recolhidos sem estardalhaço, e recolocados em seu lugar. “No peito”, diz a anatomia. 


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