eletrocardiograma

O dia seguinte ao domingo em que tive meu coração partido como não tinha há um certo tempo, foi também o dia de fazer exames para verificar como andava a minha saúde. No eletrocardiograma, a médica de voz gentil avisou quando encostaria o aparelho com gel gelado que verificaria se estava tudo funcionando direito com meu coração — eu ansiava por respostas e fiquei ali na maca, seminua e com a mão apoiando a cabeça, com os seios à mostra e esperando que ela dissesse porque o peito doía ao respirar desde o dia anterior, desde que alguém que eu gostava não quis ficar comigo. Ela falava comigo de forma doce e eu tinha vontade de chorar. Está tudo bem com seu coração, ela disse. Mas eu sabia que não estava. Eu não entendia como a medicina avança tanto para avaliar nossas batidas cardíacas mas não é capaz ainda de perceber quando sofremos por amor.

No mesmo dia em que ele se partiu, a mensagem do meu aplicativo favorito de astrologia diagnosticava, em tom de ameaça: “se apaixonar é uma forma temporária de loucura”. Um aviso do cosmos sobre minha condição efêmera: em poucos dias eu havia abandonado muito do que conhecia de sanidade em troca daqueles poucos momentos de frio na barriga, só para ver minhas apostas despedaçadas na primeira chance.

Quando chega alguém que diz gostar do nosso lado mais espontâneo e honesto, que fala tudo o que nem nos lembrávamos mais que queríamos ouvir, e abrimos a porta para nos permitirmos sentir tudo aquilo que nem nos julgávamos mais capazes; é também quando surge a oportunidade mais traiçoeira de nos vermos sem chão novamente. Tanto tempo sem nos colocar à prova e a gente esquece o quanto é frágil. “Nada se parte como um coração“, já cantava uma música pop.

Se acontece algo parecido com alguém próximo, eu ainda consolo dizendo o quão bom é nos reconhecermos vivos, ainda pulsando. Porque é. Mas quando é a minha vez, eu só quero que pare de doer; ou nunca mais experimentar formas temporárias de loucura se o preço a pagar por instantes de euforia for um coração partido, que dói ao respirar e parece não funcionar bem. Mesmo que o eletrocardiograma diga o contrário.

“dias rendendo semanas puxando meses empurrando a vida”

Soprou um vento no meio da noite que parece ter trocado tudo de lugar, mas foi só o lençol que mudou de lado de cama. Era início de novembro e chovia sem parar há mais de dez dias numa primavera que parecia chorar mais de (600) mil lutos, e eu não sabia mais pronunciar palavras que não tinham futuro. Espelhos embaçados que pouco refletiam não tinham espaço: eu queria ver claramente, bem cristalina, até o que doía. Arrumava toda a bagunça que encontrava fora para ver se organizava um pouco também do caos de dentro. Contabilizando os traumas, percebi que havia me machucado todas as semanas desde que parti: um escorregão na rua no meio de uma tempestade e um joelho que levava mais de vinte dias para sarar, um dedo preso no batente da janela que me fez ver as estrelas que não são boas de ver, um supercílio apanhado de surpresa por um guarda-sol numa praia lotada no primeiro domingo de sol em meses que pareceram anos. Meu corpo cicatriza lentamente, me lembrando que a pele rasga mas se recompõe – o coração, nem sempre.

Nem tudo o que exige força nos deixa mais rígidos. Mas o que ensina o peito a abrir com certeza nos torna cada vez maiores.

o futuro que nunca chega

Uma rejeição após a outra: um futuro negado, reconfigurado, suprimido. A dor de ver o espaço onde havíamos fincado nossos pés na esperança do que poderia ser, em que colocamos sonhos e planos, ser engolido pelo inesperado é um susto e um tombo. Recalibrar então o ritmo para aquele vácuo anterior, de onde parte o impulso para o que vem a seguir. O lugar em que estamos há tanto tempo que nem mais nos lembramos como é sentir a segurança de construir futuros com bases que não pareçam desmoronar ao primeiro sopro.

O tal do “compasso de espera” na verdade pouco tem da exatidão de um ritmo compassado, ele é instável e temperamental – vem em ondas que por vezes chegam suaves beijando a areia, e em outras quebram de forma violenta e arrastam tudo o que encontram pela frente. Uma espera em momentos serena, ‘confiando o futuro ao futuro’ e tentando o melhor com o que se tem no presente. Em outros, uma prisão que não permite espaço algum para a luz entrar. Onde está preso este amanhã, que nunca se torna o hoje?

A casa é tomada pelo peso absoluto de um silêncio carregado de ressentimentos, do que não deveria ter sido dito mas foi. Todos os cantos tomados pelo futuro do pretérito, pelas chances não acontecidas, pelas oportunidades não vividas, respostas não dadas. Não encontrar sentido nas linhas tortas em que gira o mundo é, ao mesmo tempo, um consolo e um desespero. Nada podemos com o mistério. Repito: nada podemos. No imprevisível reside todo um conforto e um desconsolo sem fim. Não sabemos o que virá. Que alívio e que medo: não sabemos o que virá. Deve o amanhã chegar.

spring cleaning

Foi numa dessas novas atualizações no celular que numa segunda-feira, após chegar em casa tarde, ele me mostrou uma lembrança de mais de 2018. Ela não estava “marcada como favorita”, e não era nem exatamente o mesmo dia do ano ou do mês para aquela lembrança específica ser selecionada, entre as milhares armazenadas nesta quase década acumulando registros. Foi um destes mistérios dessa tal de nuvem que, embora a gente não veja, às vezes traz tempestade: a minha veio em forma de choro ao encontrar um vídeo que eu nem sabia que tinha e que foi gravado por acaso no dia do nosso primeiro encontro, momentos antes do nosso primeiro beijo, quando eu enfiei o aparelho de forma desajeitada na bolsa, tão nervosa que estava. Tem um céu azul de relance, seu perfil aparecendo borrado no canto da tela no início, e depois tudo escuro e só vozes. A sua. Me explicando mil coisas, sempre generoso, presente e eloquente. Tem a minha – entusiasmada, ansiosa, curiosa. Depois são minutos de silêncio e uma imagem congelada. Das nossas sombras contra o sol. Eu daqui sabia que depois dali veio um beijo e nada mais foi o mesmo – seus olhos sorrindo me dizendo “estou feliz, estou tão feliz”. Seus braços enlaçando a minha cintura. Seus cachos negros preenchendo as minhas mãos, quando você aprendeu o que significava “cafuné” na minha língua: um novo vocabulário inventamos, um carinho que nunca mais abandonamos. Com você tudo era azul, até o frio.

***

Quantas ‘faxinas de primavera’ seria preciso para restaurar um coração embrutecido? Eu tentei limpar tudo que trouxesse dor. Na lua minguante exorcizei o que machucava e fiz rituais para deixar para trás o que não iria pra frente. Mas ainda existe o que nos foge ao controle, este que achamos que temos mas jamais dominamos: talvez tenha sido o eclipse, a força avassaladora de 2020 ou o lembrete de que somos humanos, demasiadamente humanos. Só sei que não existe defumador, aspirador ou pai de santo que limpe da memória aquilo a que ainda nos apegamos, por mais que às vezes doa, porque sempre ainda tão bonito.

Desde que nos vimos pela última vez, teve dias de verão que o sol pareceu aquecer menos. O inverno teve as temperaturas mais frias registradas em muito tempo e também as mais quentes, mas nem sei mais se o aquecimento global é a resposta pra tudo. Talvez seja apenas assim.

Coisas acontecem, e chuvas de verão também matam plantas por excesso de água. Tiro o tarô do dia porque estamos sempre buscando respostas, mesmo quando a gente finge que não está. E, desta última vez, ele me disse que “atrasos são providências”, afagando um coração cansado de amar errado, atravessando o deserto de reconhecer-se só. A chegada da primavera promete abrir flores, janelas e ombros. Que venha fértil.

a noite mais fria em cinco anos

As manchetes de sites de entretenimento me contam que Jennifer Lopez e Ben Affleck estão apaixonados novamente após dezessete anos separados; e uma madrugada que registrou temperaturas abaixo de cinco graus em São Paulo (algo que não acontecia há um tempo), confirma: fenômenos se repetem. Faz também cinco anos que você partiu e, em meio a uma pandemia que arrasou terras, famílias e qualquer possibilidade de romance, sua lembrança vira-e-mexe me volta, para que eu não esqueça que também sei amar no superlativo. O arrepio da sua pele de outono de alguma forma ainda segue vivo por aqui, e aquece o peito em noites com temperaturas de apenas um dígito, frio recorde em Rondônia e neve no sul; despertando a esperança de que, talvez um dia, sejamos nós o fenômeno a se repetir, a faísca de milagre mundana que nos cabe neste mundo caótico que segue a testar nossa fé.

Após mais de um ano considerando apenas o presente como estratégia de sobrevivência, posso me permitir aos poucos voltar a ter ideias de futuro, sonhar com o que ainda virá apesar de. E se ele se encontra com o que sobrou de passado após as ruínas, que venha então embrulhado no seu abraço. A chave de todo o mistério continua a ser o amor.

brasil, 2021

“como é possível tirar uma pedaço de alguma coisa e ela ficar mais pesada?”

esse questionamento da bru waitman no seu mercado do porto era sobre andar de bicicleta; mas na hora eu pensei em mortes e perdas: após o ano que nos tirou tanto, ao invés de leveza encontramos uma vida que segue arrastada, muitas vezes desprovida de brilho e, na maioria dos dias, carregada de um peso até então desconhecido: o peso do vazio.

dia de são jorge

23 de abril de 2010

Colecionando um sem-número de contratempos, dois anos de aulas de francês e muita vontade de dar a tal “volta por cima” nas quais os filmes hollywoodianos se baseiam; segurei a mão do meu irmão e juntos embarcamos na nossa aventura além-mar. Era uma sexta-feira que fechava uma semana tensa, movimentada por erupções na Islândia num vulcão de nome impronunciável que fizeram com que as companhias aéreas cancelassem mais da metade dos voos na Europa – como se ter meu coração destroçado por quem eu até então jurava ser o-amor-da-minha-vida já não fosse o bastante. Fiz promessa pra Santo Expedito e meti a cara (e o que me restava de coragem) para me mudar para uma cidade que eu só havia visitado nos filmes, não conhecia ninguém e não dominava a língua.

Mas São Jorge estava bem atento neste dia, e nos presenteou com ida de executiva após algumas confusões de assentos e voos superlotados. Londres me recebeu generosa e ensolarada e, alguns dias depois, cheguei na primavera de Paris. E gosto de acreditar que fui abençoada por Caio Fernando

23 de abril de 2013

Eu havia acabado de voltar de uma viagem pro Rio para a despedida de solteira de uma das minhas amigas mais antigas. E no meio de uma aventura de fim de semana, uma experiência que considero divisora de águas da minha vida adulta me ajudou a descobrir que não precisava estar apaixonada para viver um mini-romance: ele poderia vir leve e sem cobranças, ainda que com uma ou outra expectativa. Daí em diante, nunca mais fui a mesma.   

23 de abril de 2016

Era um sábado e cinco dias após um primeiro encontro mágico. Da minha sacada eu acenei para ele, que chegava lá embaixo, cruzando a calçada – camisa branca entreaberta, olhos de verde-mar, cabelo bagunçado. Ele me olhou de volta, com aquele sorriso pelo qual eu abandonaria tudo. Ficamos horas conversando no sofá, comemos risoto requentado e dormimos de mãos dadas. Tínhamos acabado de nos conhecer mas parecia que era um reencontro: foi neste dia que ele me pediu para vir pra ficar. E eu disse sim

23 de abril de 2020

Estamos vivendo uma pandemia. O inesperado chegou arrebatador roubando vidas, estraçalhando histórias, sequestrando futuros. Nada ficou no lugar. Escolhi este dia de lua nova para lançar um projeto de newsletters recheado de afeto e intenção, os drops diários para salvar o minuto. Eles salvaram meu ano.

23 de abril de 2021

É uma sexta-feira também, embora muito diferente da vivida onze anos atrás. Como muitos, estou há mais de ano sem viajar, não sei mais o que é me apaixonar e a pandemia revirou tudo o que encontrou. Mas foi neste dia, este ano, que meu pai tomou a primeira dose da vacina contra a covid-19 – ele, que durante 2020 inteiro ficou monitorando a confecção dos imunizantes cheio de esperança e fé nos recomeços, finalmente pôde respirar um pouco aliviado. O sentimento é agridoce: uma alegria misturada com a dor dos quase 400 mil mortos no país, da tristeza de reconhecer quantos sonharam com isso mas não tiveram a mesma chance de tomá-la a tempo, quantas vidas ainda serão perdidas sem que se alcance todos. A gente queria comemorar, mas não seria justo. Viver no Brasil tem sido um constante estado de luto – é como se estivéssemos definhando.

***

A maioria das pessoas têm como seu “mês favorito” aquele em que fazem aniversário, mas quem me conhece sabe que, apesar de sagitariana do 12-do-12, o mês que mais gosto não é dezembro: é abril. Amo o comecinho do outono, os dias ensolarados e frescos, o início do ano novo astrológico, o sopro de renovação trazido pela troca de estação.

E embora o “mês que sempre me traz as melhores surpresas” este ano tenha vindo carregado de luto com o peso de ter sido o mais letal que vivenciamos até agora; ele ainda abriu espaço para um pouco de poesia. Está difícil cultivar a fé e o encanto nesses tempos que cobram tanto da gente, mas busco nas lembranças e nas novas chances esta tal esperança que tanto nos falta. Que em 2022 São Jorge venha ainda mais generoso.

 

*(este texto foi inspirado neste outro aqui ;)

você é a melhor história que nunca me aconteceu

“… casada com um músico folk…” – Esta é uma “vidas imaginárias” que mais se repete entre os rascunhos de tudo o que me seria possível viver e sonhar. Eu tenho vários papéis nestas vidas que a autora do “caminho do artista” propõe que a gente crie pra exercitar a imaginação (escritora que viaja para todo canto, curadora de arte, jornalista de beleza, professora de balé, editora de livros, instrutora de yoga, florista, designer de joias, musicista, sommelière; cada uma num lugar diferente do mundo); mas quem está ao meu lado costuma se repetir com certa frequência (quando alguém aparece), e é diferente dos engenheiros, economistas e outros profissionais mais prosaicos com quem costumo me relacionar. Não precisei investigar muito minhas histórias para reconhecer quem o meu subconsciente traz à tona nesses exercícios: uma das minhas vidas não vividas tem nome, sobrenome e futuro interrompido.

Foi numa noite do verão-que-nunca-é-verão em Londres (eu estava de casaco, ele de jaqueta de couro); após uma noitada com amigos numa sexta à noite num boliche, enquanto eu esperava o ônibus noturno pra voltar pra casa. Ele, alto, loiro, olhos azuis, cabelos longos, forte. Puxou conversa, pegou o mesmo ônibus que eu, me contou que tinha uma banda, perguntou se eu já “havia considerado me casar com um americano”, me pediu em casamento, pegou meu telefone. Talvez o álcool tenha exercido um grande papel nessa história mas o fato é que ele realmente mandou mensagem no dia seguinte, e tivemos um encontro em que ele me ensinou qual cerveja escolher, me disse a banda brasileira que gostava, eu mostrei a revista para qual trabalhava. Me contou histórias de quando passou um semestre em Cuba lutando boxe. A vida tinha me trazido um roqueiro-lutador-de-boxe com os olhos mais doces do mundo e eu mal podia acreditar que estava vivendo a vida que sempre havia sonhado para mim: romances, pessoas com histórias completamente inusitadas, encontros em lugares inesperados. Eu fiquei tão encantada com ele, apesar de nunca nada de concreto ter acontecido. Ele era algo que eu amava guardar só para mim, como aquelas relíquias que não compartilhamos com os outros: eu tinha 22 anos e o mundo pela frente mas já tinha uma história minha, só minha. Platônica mas tão preciosa.

E então a vida aconteceu. Marcamos um encontro no meu restaurante mexicano favorito e eu não apareci porque tive que viajar. Ou talvez fosse só medo, não sei. (Às vezes temos medo do que pode dar certo também, e mais tarde aprendi que se chama “autossabotagem”). Ele ficou me esperando, e nem o meu descaramento de menina amedrontada fez com que ele cortasse relações: eu voltei para o Brasil e continuamos trocando mensagens, e-mails. Ele arrumou um estágio como jornalista no The Guardian, me escrevia contando do seu fascínio pelo Tom Waits. Seguiu carreira solo como músico folk, me enviava suas músicas e eu ouvia tentando decifrar cada verso, cheia de encanto e melancolia. Passou uma temporada em Paris. Voltou para os Estados Unidos, esteve por vários lugares, acabou ficando em Nashville, a “terra dos músicos”. Casou, separou. Chegou a vir para o Brasil com o irmão de férias, mas só para o Rio. Não nos reencontramos. Casou de novo. Virou pai.

Treze anos se passaram desde aquela noite em que nos conhecemos, e hoje acompanho pelas tais “redes sociais” tudo o que ele se tornou, como eu acho que ainda temos tantas “coisas em comum”, como ele só melhora com o tempo. E pela manhã, vendo mais uma de suas postagens que me fez sorrir, pensei que eu gosto ainda mais dele exatamente porque nunca tivemos a chance de sermos um plural: nos meus sonhos, ele vai continuar sendo aquele que me enxergou quando eu estava me descobrindo no mundo e seus olhos azuis me convidaram pra entrar. Agora, ele é uma presença nas minhas telas e o “músico folk” de uma das minhas vidas imaginárias. Que é sempre mais bonita e divertida do que a “vida real”, pois idealizada – mas nunca incluiria um pedido casamento no 243 numa noite fresca de verão em Londres. Isso eu jamais seria capaz de imaginar.

saudade é ter para onde voltar

Uma tal “pandemia” nos roubou a noção de futuro, aquilo-que-nunca-existiu mas que tínhamos como uma ideia confortável de algo em que exercíamos qualquer espécie de controle. Uma pandemia – você reconhece esta palavra? Já deve ter lido a respeito, no colégio ou nas aulas de biologia, quando ainda era uma ideia distante. Sabe quando uma coisa parece muito distante e não damos a devida importância, e de repente aquilo se torna parte do seu cotidiano e você só fala naquele assunto todos os dias, e já não consegue mais nem se lembrar de como era a sua vida antes, sem nem saber do que aquilo se tratava? Pois bem. Com as tais “rupturas” uma língua é extinta e surge também um novo léxico. Isso serve para os amores que partimos e para os amigos de quem nos afastamos e tínhamos aquelas expressões que “só a gente entendia”; mas aparentemente também serve para as tragédias globais porque agora se você comentar com qualquer pessoa do-Oiapoque-ao-Chui sobre “vírus”, ela vai saber que não é da gripe, e sim “O VÍRUS”, o tal com nome e sobrenome. No presente ganhamos novos significados para contágio, pandemia, curva. No passado, ficou o futuro. 

Já eu, estou há mais de quatro meses convivendo apenas comigo mesma, com todas as dores e delícias que essa convivência impõe. Me distraio facilmente com tudo o que há redor – as motos barulhentas, os pássaros despertos, os cheiros que vêm da rua sem serem convidados. Observo a luz se movimentando pela casa ao longo do dia, acompanhando a mudança de estações com o planeta Terra fazendo seu balé anual em volta do astro-rei – e eu aqui com meu café quase frio. Asso pão, assisto tevê, passo um tempo maior do que seria considerado adequado olhando o céu, “há sempre uma ausência que me atormenta”. Vejo sinais em tudo o que me cerca mas talvez acredite que o universo converse comigo porque o que me falta mesmo é companhia. São os mistérios da fé. E na tarde mais fria do ano do inverno em São Paulo, eu passei um bom par de horas revisitando minha pasta de fotos favoritas no celular para me reconhecer naqueles sorrisos, abraços e felicidades passadas. E nessa saudade que não cessa, entendi que não precisa haver futuro para nos reencontrarmos com tudo o que já preencheu tantos vazios: o presente também pode, nem que seja apenas por umas horas, voltar um pouquinho na memória pra rehabitar essas presenças. Basta que a gente convide.

“é preciso aprender a ficar submerso”

foi submersa que eu aprendi
que o silêncio às vezes pode ensurdecer
e na volta à superfície
reconheci um barulho que acolhe
– a descoberta de muitos avessos veio de enfiar a cabeça dentro d’água

submersa aprendi que fechar os olhos não nos torna invisíveis,
(e nem abri-los torna enxergar tudo possível)
ainda assim
os abrimos quando queremos
e os fechamos quando podemos

submersa aprendi que todo peso é relativo
e há aquele que nos permitimos carregar,
e o que não conseguimos abandonar

foi também entre idas e vindas de submergir e mergulhar que aprendi
que só conseguimos boiar quando nos deixamos entregar
e que há cantos profundos que a luz não consegue atingir,
mesmo se a gente deixar

pros momentos de profundezas,
em que a gente sabe que não dá para gritar no vazio
que consigamos fazer os sinais de resgate
e reencontrar nosso caminho de volta à luz

 

(inspirado neste aqui)


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