por dor ou por dano

“Meu coração precisou se partir para aprender a se abrir”, conclui uma das crônicas do Modern Love da moça que teve o primeiro coração partido aos 31 e logo em seguida encontrou seu grande amor, com quem se casou e divide a vida há dezoito anos. “Que sorte a dela”, pensei. Eu tive meu primeiro coração partido aos 13 e, desde então, mais de duas décadas se passaram e ele continua a se despedaçar um sem-número de vezes. A busca por alguém para compartilhar aventuras e descobertas não cessa, embora canse. “A parte de nós que é livre, selvagem, aberta e curiosa pode ser fechada pela vida. Por dor ou por dano.”, resumiu Angelina Jolie em uma entrevista. Com esse depoimento eu sim me identifico. 

(…)

Num agosto que só chovia (contrariando os invernos costumeiramente secos), enxerguei um sol desenhado numa pegada de areia na escadinha da praia e fiquei me questionando para onde iriam aqueles caminhos mais ensolarados, sendo que eu ultimamente só encontrava tudo nublado. Isso é das “coisas que você só vê quando desacelera”, como descreve o livro zen-budista guardado na mochila que eu tinha sob os ombros ao encarar o horizonte em desencanto, após as notícias da amazônia ardendo em chamas enquanto a gente se abate e paralisa em lágrimas, perplexos diante do horror. Meus amigos são promovidos e fazem filhos e promessas de até-que-a-morte-nos-separe (não necessariamente nesta ordem), enquanto eu mal conseguia fazer planos. Nunca me mostraram o que a minha heroína-balzaquiana-independente-de-comédia-romântica-que-mora-sozinha-no-apartamento-descolado-na-cidade-grande faz numa terça à noite quando ela já esgotou todas as possibilidades em anos aprendendo a ser só. Às vezes a gente só quer que nos digam o que fazer. 

(…)

Nem sempre uma ausência representa um vazio a ser ocupado. “É difícil escrever para você. A praia está muito cheia, e você está ocupando todo o meu coração”, escreveu Leonard Cohen para sua amada. Mas a praia estava muito vazia no inverno frio e chuvoso no litoral paulista e mesmo assim era muito difícil escrever para você, com o coração cheio apenas de saudade mas vazio de respostas. Porque nem sempre conseguimos declarar que ainda amamos alguém que partiu, por vontade ou por acaso. Alguém que simplesmente não mais está. Confrontar nossas ausências e o medo que vem com elas requer uma coragem que nem sempre temos ou conquistamos, embora busquemos. Eu fiz uma declaração de amor apenas porque não conseguiria não mais fazê-la, e preferia todo o infinito que cabe no silêncio (ainda que a ausência de retorno simbolicamente represente a rejeição), do que o frio e objetivo “não”.

(Eu ganhei o “não”.)

(…)

Se vamos navegar, que honremos o risco de nos afogar. Nem sempre estamos preparados. Às vezes queremos apenas sentar na areia e olhar o mar. Por dor ou por dano: ficar onde se está.

a parede rosa hexagonal

“Se sua vida fosse um livro, como se chamaria este capítulo?”, ensinava um manual de como fazer melhores perguntas às pessoas. Olhei a parede que me encarava do outro lado da sala, com esta nova cor pintada numa manhã ensolarada de domingo há alguns meses pelo meu melhor amigo, que quebrou a cabeça tentando conseguir o ângulo correto para o hexágono que eu queria. A cor associada ao amor e as arestas todas que eu já nem tentava mais disfarçar que não tinha vontade de aparar, nas analogias que criamos para contar nossas histórias e tecer as narrativas que melhor nos cabem. Rosa, a cor que veio cobrir a parede que antes estampava as duas gaivotas que eu fiz quando estive mais apaixonada e você ainda morava aqui, e das quais eu me despedi numa cerimônia solitária e singela, cobrindo os buracos com argamassa. Agora a nova cor queria demonstrar que tudo eu tento transformar com simbolismos de novo amor, mesmo com as asperezas dos cantos que fui ganhando ao longo do tempo, dos tombos que levei e das vezes em que me machuquei.

(Uns meses depois desta parede se transformar e renascer, eu ofereci um outro futuro a quem ganhou meu coração ano passado e tinha sido promessa de novos caminhos, e mais uma vez tive que aprender que o coração se rompe e se reparte e se regenera tantas vezes apenas para se expandir ainda mais. Escolhi não ver as palavras que denunciaram a rejeição porque com o tempo a gente também aprende um pouco sobre autopreservação. Às vezes uma escolha é apenas uma escolha e nem tudo vai ter resposta. A parede rosa hexagonal pode ser um símbolo de um coração que se mantém alerta e um pouco áspero por tudo o que já sofreu, mas nunca deixa de amar. Ou pode ser apenas uma parede, um muro sem dialogar. Esta parede também ganhou um espelho para lembrar que quem está do outro lado é uma pessoa. É sempre uma pessoa.)

sol em câncer

O jornal me contou que dez anos se passaram desde a morte de Michael Jackson e eu não havia reparado que já fazia uma década desde que entramos naquele avião pro Chile no que seriam nossas últimas férias juntos. Eu estava em outro avião numa manhã gelada voltando do sul e vendo o sol nascer no horizonte quando lembrei da turbulência cruzando as cordilheiras e como aquele chacoalhão foi o que faltava para revirar tudo o que tínhamos e sempre achei tão seguro; mas se partiu como se partem todas as coisas que um dia já foram sólidas. Até as rochas viram pequenas frações de pedrinhas, transmutadas em areia da praia. Em Pucón a areia era negra, ainda mais negra amontoada na palma das nossas mãos tão brancas e ocupando o silêncio que não ousávamos quebrar tentando configurar outro amor. Eu sorria gigante porque me encontro onde não sou, explorando territórios desconhecidos e línguas que não domino completamente, puxando conversa com estranhos e experimentando novos sabores e moradas. Mas naquela viagem eu já senti tudo diferente e poucos meses depois nossas rochas viraram areia sem ter um litoral onde aportar.

Estranho ou não, sonhei com você uns dias atrás, também porque é seu aniversário na sexta e eu te encontrava e dizia, bem prosaica, nossa dez anos que não nos vemos. Não sei mais quem você é hoje, mas mentiria se dissesse que quero saber. Não quero. Aquele rapaz tímido com olhos oblíquos e abraço em que cabia o mundo já não existe mais, e é dele que quero me lembrar. Daquele cheiro que invadia meu quarto sem pedir licença e das mãos pequenas, da sensação de que o mundo era nosso porque descobrimos que o amor é o segredo de todo o universo. “Quem não ama demais, não ama o bastante”, disse o moço da novela. Que quem não ama demais, ama pouco, e esse arrependimento eu não tenho. Os jovens amam sempre demais e é por isso que Romeu e Julieta pensaram na morte como atalho p’ra fuga: o amor desmedido pede medidas extremas. Que lindo, amar assim. Hoje em dia não gosto nem que passem a noite.

 

 

o futuro ainda não tem cheiro

O passado tem gosto de sobremesa que enche a boca e preenche todos os cantos. Brigadeiro quente, doce de leite feito com condensado na pressão, bolo de vó e pavê de madrinha, carne de panela da minha mãe e aquele estrogonofe que eu jamais comi igual, que eu disse que sentiria falta se a gente separasse um dia – e a gente se separou e às vezes eu me lembro dele e sinto falta, confesso. Não é um buraco no estômago mas é um gosto que sobrevive – se houvesse outra garfada hoje, talvez o sabor fosse diferente. Nossa memória é metida a ficcionista, a reinventar ou remexer um pouquinho a história para que se encaixe melhor no que a gente acredita que “na minha época é que era bom”. Talvez nem fosse.

Os cheiros também são um passaporte para momentos esquecidos, uma máquina do tempo preservada com cuidado. Às vezes a gente abre um armário e encontra uma pessoa querida, vai dobrar uma roupa e reencontra uma viagem, abre um livro e está de novo numa noite fresca de outono de anos atrás. A gente fecha os olhos e inspira, expira, transpira, respira. Um, dois. Eu não sei quanto guardamos da gente nesses guardanapos rabiscados dentro dessas gavetas da memória, coisas que às vezes preferiríamos esquecer mas não, os cinco sentidos não deixam. Até um abraço já me fez lembrar de outra pessoa, e eu juro que não queria que fosse assim.

Mas nos sonhos ainda não temos gosto nem cheiro. O que ainda não chegou é um lugar vazio de sentidos e infinito de possibilidades. E é nele que tenho me acolhido ultimamente.

variedades do exílio

Tem um outro CEP em que eu me encontrei e te encontrei, com um sorriso tímido e um abraço acolhedor, fins de tarde em tons de rosa pincelado e uma brisa que soprava sem pressa. Casas coloridas que pareciam de um conto-de-fadas vieram pintar um romance que chegou sem ser convidado mas veio ocupando todos os recôncavos. Sem a sofreguidão de uma paixão que ainda habita os cantos de um coração maltratado; seu amor generoso, aberto e curioso me pegou pelas mãos e não queria me deixar ir embora. Me apresentou aos amigos, familiares e a todos os lugares. Das minhas caminhadas matutinas solitária eu guardo o olhar fascinado com tudo que me cerca e do pouco que se preserva sem que haja suas iniciais, como se houvesse escapatória das suas mãos tão presentes, do seu toque tão latente, da sua voz. Pouco a pouco, tudo o que torna uma cidade um lugar único é impregnado com você – quase nada existe daquele destino que não tenha seus olhos me encarando de volta, seus dedos frios buscando os meus.

Não era você que era para estar ali, comigo. Mas a vida tem dessas surpresas e, se não estivermos abertos e despertos, perdemos o mistério que é deixar “que seja”. Dispostos e expostos, para que a gente mergulhe sem medo ou constrangimento, para que a gente se machuque e aprenda que sabe levantar sempre que possível e se curar sempre que necessário. “Nem sempre temos o que queremos, mas às vezes temos o que precisamos”, canta Mick Jagger nos meus ouvidos enquanto aguardo, entre uma ou outra lágrima, a chamada no portão de embarque. Seu “amor tranquilo” não era a paixão que eu queria, mas com certeza era o caminho possível que eu precisava. Pela segunda vez em alguns meses, viajo buscando fugir de mim mesma e reconheço que “aonde quer que eu vá, eu vou junto”. Nem sempre aprendemos a lição que pregamos.

Duas vezes em que um amor me levou ao aeroporto para o embarque e eu me derreti em lágrimas e me abandonei em agradecimentos; como se fosse raridade encontrar tanta gratidão e encantamento (e não é?). Na outra costa eu havia deixado os pulmões que me trouxeram novos ares mas que também levaram consigo meu suspiro apaixonado. Neste novo exílio, deixo outras promessas de amor interrompido e mais uma vida contada nos sorrisos compartilhados, nos idiomas aprendidos e surpreendidos, numa tarde jogada na grama e nos medos superados. Não foi só a bicicleta enfrentando os carros no horário de pico com a luz dourada derramada do fim de tarde – foi também um coração que sangrava em silêncio todos os amores já rejeitados, aqui assoprados com cuidado para serem cicatrizados, “vai ficar tudo bem”. Todos os encontros são uma faísca de milagre.

para um amor que gosta de cafuné

De um gesto desses que a gente banaliza de tão corriqueiro ou reprime de tão afetuoso ficou algo que desde os primeiros instantes se tornou só nosso, naquele início de outubro fresco e ensolarado em que o mundo estava ruindo pro meu lado e eu fugi, olhando pra trás por cima do ombro enquanto me perdia entre seus cachos negros: cafuné. Esta palavra que não existia no seu vocabulário e que virou uma senha desse nosso amor que nasceu tão rápido e genuíno, tão cheio de promessas e tão vivo no presente, sem medo do futuro: você me olhava com seus olhos sorrindo, cafuné. Você direcionava delicadamente a minha mão para sua cabeça, e nada mais precisava fazer sentido, aquilo bastava: cafuné. Era como se eu tivesse acabado de descobrir um lar onde sempre morei. Me perdoem todas as guerras distantes por querer amar demais um menino que me ama de volta e me diz que sou incrível, que cozinha pra mim e que do alto dos seus 1,91m me parece capaz de matar todos os monstros que me assombram.

Depois daquela segunda-feira em que um canto remoto na costa do pacífico testemunhou nosso primeiro beijo, todos os outros encontros parecerão pequenos. Porque foi uma manhã de grandes perguntas e grandes significados e grandes encontros, e uma tarde cercados das árvores mais altas do mundo – e desconfio que não há como algo ser maior que isso. Tenho uns vídeos com sua voz ao fundo e um céu escandalosamente azul, e fotos de vários ângulos da paisagem e aquelas que você tirou minhas com vento no cabelo rindo tímida por não querer sair em foto; e lembro que conversávamos sobre como ursos podem ficar seis meses sem comer durante o inverno porque eu quero fazer todas as perguntas e você parece ter todas as respostas.

As distâncias até parecem pequenas quando penso que poderia de novo acordar ao seu lado. Quantas passagens já comprei para viver um amor, nem sei. Eu sempre vou. Eu irei. Para contar as pequenas pintas nas suas costas como uma constelação de uma galáxia distante, da noite em que você me mostrou o tango de Bajofondo ao celular no caminho do supermercado e arriscou um espanhol e eu quis chorar, ali no banco passageiro de um carro já tão cheio de memórias que criamos num passado recente e num presente tão latente, e as que eu inventei de um futuro que eu queria tanto que acontecesse. De quando colhemos abóboras para o halloween e na tevê tinha um jogo de beisebol enquanto a gente talhava desenhos e eu pensava que não havia nada mais americano que aquele momento, ali. Havia você, e tudo fazia sentido. Um moço bonito que tem 33 anos e olhos de menino, e um sorriso que traz todas as respostas, e uma poesia que não cabe, mesmo quando tenta. Eu escreveria todos os poemas do mundo naquele caminho pro aeroporto que eu não queria que chegasse nunca. Quem fez esta cidade tão pequena? Quem fez estes caminhos tão curtos? Eu queria mais tempo ao teu lado. E que não fossem dez mil quilômetros e tantos trechos de avião entre a nossa história e o que separa passado de presente e tece futuro. 

São seis horas de fuso-horário, agora. Isso é um período. Nas nossas refeições já descompassadas, enquanto eu almoço você está no café da manhã e seu almoço é meu jantar e você nunca mais respondeu minhas mensagens. Não são só os pratos que se desencontram, penso. Aos poucos, as lembranças vão se diluindo com o tempo e eu não queria que elas morressem nunca. Toco Neil Young enquanto tomo seu chá favorito. Aqui já é quase verão.

como uma janela para um quintal ensolarado

Nos dias cinzentos como hoje, eu me lembro do seu sorriso que tem todas as respostas. Tudo que havia seu de criança estava ali, convivendo harmonicamente com as linhas finas já pronunciadas ao redor dos olhos e os fios grisalhos misturados aos outros escuros. Esse sorriso pelo qual me apaixonei no primeiro instante. Eu, que jurava já nem acreditar mais “nessas coisas”, me vi pega mais uma vez. Com um convite inesperado e um sorriso em que cabia o mundo, numa segunda de manhã você dirigiu mais de vinte quilômetros só para me levar para tomar café numa cidadezinha vizinha que tem um céu feito pintura e um mar de azul turquesa recortado entre as pedras. Parecia enredo de filme, daqueles que a gente não acredita que existam na vida real, que a gente acha que inventaram só para parecer que a vida pode ser feito um romance. E lá estava: minha vida, um romance real. Suas mãos grandes e seu olhar doce, seus olhos que sorriam ao olhar pra mim, antes do próprio sorriso – sempre abundante, acolhedor, destemido, desarmado.

Como o mundo é muito mundo, eu estava despedaçada quando te conheci. Com as notícias, com as verdades que nem são mais verdades mas nem por isso são menos cruas ou cruéis. E, de algum jeito, você me consertou. Você conserta algumas coisas sem nem ao menos tentar, e isso é das suas características mais bonitas. A gente se conhecia há menos de uma hora e eu chorei na sua frente porque você me mostrou um caminho que eu nem sabia ser possível. Que lindo, isso. Poder ser vulnerável de novo.

Aqueles minutos intermináveis antes do primeiro beijo que ambos sabem que vai acontecer a qualquer momento, mas ninguém ainda tomou a iniciativa; são onde cabem todas as possibilidades de que tudo ainda pode acontecer. Todas as borboletas no estômago, as estrelas no céu da boca, as mãos geladas de tensão. É sobre isso que todos os filmes são feitos, os livros são escritos, as músicas são cantadas. Porque não importa o que venha depois: tudo começa ali. Tudo é sobre aquele momento em que estávamos sentados naquele banco trocando olhares e falando sobre qualquer assunto que já não mais importava porque ele era apenas um atalho para um beijo. Todo o romance do mundo cabia ali, naquele instante. E depois dele vieram todos os outros e aí sim veio uma história. “Estou feliz. Estou tão feliz”, você dizia. Como se seu coração estivesse a transbordar aquelas coisas bobas que a gente às vezes acha que já não existirão mais pra gente.

Você me perguntou o que era a alma e eu não soube responder. O que pensei era que deveria ser qualquer coisa que transcendesse a gente assim como o amor. Que faz com que a gente se sinta superpoderoso e invencível. Dentro de uma sequoia gigante que sofreu alguns incêndios ao longo da vida sem morrer, você me explicava as leis da natureza e eu pensava em humanidade e nossa capacidade de nos regenerarmos tantas vezes. No amor, nas batalhas, nas nossas perdas diárias. Eu fiquei emocionada tocando um tronco queimado de árvore porque a vida é tão mágica. O universo me trouxe você, a dez mil quilômetros de casa, e eu não queria mais partir. 

Você viu as minhas cicatrizes com interesse e compaixão, achou bonitas. Você me convidou para entrar no seu mundo de forma tão genuína que eu não consegui dizer ‘não’, mesmo quando tentei. Eu não poderia recusar. “Olha só, moreno do cabelo enroladinho, vê se olha com carinho pro nosso amor. Eu sei que é complicado amar tão devagarinho, e eu também tenho tanto medo”. A gente nem conseguia dormir de tanto assunto, “como se fala ‘boa noite’ em alemão?'”, “qual seu número favorito?”. Você me apresentou todo seu universo e todos seus cuidados assopraram as feridas que eu até já havia esquecido que tinha. “Vai ficar tudo bem”, você afirmou. Eu não duvidaria de nada que viesse de você. Nós criamos nossa história com tanta pureza e intenção que nesse mundo inventado essa bolha de amor protegido é o que hoje me inspira e move em direção a um futuro mais humano e gentil. E, nos dias cinzentos como hoje, eu me lembro do seu sorriso que tem todas as respostas. Que falta você me faz.


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