vida invertida

Era um dia como todos os outros, um dia como nenhum outro. Um sábado de sol, eu visitando a minha família. Aqueles dias em que tudo parece fluir, todas as atividades estavam seguindo sem maiores complicações – fazer as unhas, cozinhar o almoço, passar na loja de construção para comprar varal e vela para o filtro de barro. Dançar Fagner na cozinha com meus pais após o café. Buscar meu irmão para jantar com a gente, pedir pizza e não poder beber vinho porque eu iria dirigir de volta pra casa mas tudo bem, ta tudo certo. Atualizar os fatos da vida, comer portuguesa sem ervilhas. Na Radial Leste meio livre de um sábado à noite, cantar sozinha no volante voltando pra casa, acappella, porque meu carro tem mais de 40 anos mas não tem rádio. Cruzar todos os sinais abertos na Consolação. Absolutamente todos, um fato inédito. Me sentindo muito feliz e confiante e… pá. Não consegui frear a tempo e em câmera lenta tudo veio pra frente – o banco de trás, o suporte de apoio, a sacola cheia de roupas que eu havia lavado na casa da minha mãe porque ainda não consegui comprar uma máquina. O barulho. A dois quarteirões de casa, os jovens todos muito jovens no bar da esquina. Um outro carro, um pai dirigindo, uma mãe no banco de trás acalmando uma filha muito assustada e chorando. O barulho. Ninguém se machucou, troca telefone, placa, sim eu não tenho seguro mas vou pagar fica tranquilo não consegui frear a tempo foi minha culpa me desculpa. Parei no estacionamento, meu para-choque todo amassado, tinta descascada, capô amassado. Falei com minha mãe, meu irmão me ligou para me acalmar, eu chorando de soluçar, indo até o mercado da esquina comprar páprica para o brunch que faria no dia seguinte para a minha amiga. Muito assustada, querendo alguém para me abraçar e dizer que vai ficar tudo bem, ta tudo certo. Mas eu moro sozinha – não havia mais ninguém além de mim, naquele apartamento muitas vezes muito grande para uma pessoa só. Uma só pessoa.

Dez da noite e eu na padaria com os olhos vermelhos e inchados pedindo 100g de presunto e o atendente que sempre me dá uma fatia de cortesia teve a sensibilidade de me ver fragilizada e não falou nada nem me ofereceu e eu silenciosamente agradeci que ele não tenha perguntado o que houve. Voltei pra casa e tomei uma dose de uísque, duas. Ninguém se machucou. Terei que gastar um dinheiro que não poderia gastar agora estando desempregada mas ninguém se machucou. Poderia ter sido pior. Sempre pode. Eu estava num dia ótimo e passei o resto da semana indo a reuniões meio anestesiada e fragilizada porque ninguém se machucou mas eu poderia ter morrido ou matado alguém. O sol só voltou a sair no outro sábado.

na minha playlist só toca chet baker

Dia desses fui coar o café e o cheiro me lembrou da nossa hora favorita do dia. Eu moendo os grãos quando havia grãos e espalhando um monte de pó na bancada, porque sou desastrada e precisão não é meu forte. E aquele cheiro tomando a cozinha, sem o som do seu sorriso ao fundo. Você não está mais aqui. A mesa de jantar precisando de calço, outros cinco lugares vazios, ninguém sentado à minha frente para refletir o sol da manhã nos seus olhos e ser emoldurado pelas duas pombinhas de origami que eu fiz na parede. Você não está mais aqui. O chão de tacos coberto por dois tapetes gráficos para aquecer uma casa que se tornou muito grande e muito fria para uma pessoa só e um coração cheio de saudade. Você não está mais aqui. 

Abro todas as janelas para deixar o ar fresco de uma manhã ensolarada de inverno tomar a casa. Fico acompanhando o movimento da luz do sol ao redor do apartamento ao longo do dia, banhando cada hora um cômodo diferente. Você não está mais aqui. Esqueci de tirar o frango para descongelar na noite anterior, e vou ter que almoçar omelete, como quase sempre acontece. Você não está mais aqui. 

(…) Quando voltei de viagem, havia flores murchas nos vasos espalhados por vários cantos; e uma louça excessivamente seca na pia. Você não está mais aqui. Fui comprar pão na padaria e na tevê do boteco da esquina o Datena falava sobre um atentado na França e meu coração parou e eu só conseguia pensar em você e voltei correndo pra casa para ver o que havia acontecido e voei os degraus que pareciam infinitos dos dois andares até o quinto apartamento do predinho-antigo-que-não-tem-elevador e me deixou ainda mais sem fôlego até eu ver que foi em Nice e não em Paris e te mandei uma mensagem que você viu mas não respondeu mas eu soube que estava tudo bem porque você nunca foi bom em responder mensagens, e finalmente pude respirar novamente. De alguma forma, você ainda está aqui.

mais um drops

Queridos, amanhã tem início um projeto meu que foi bastante pensado e querido: o lançamento de uma newsletter pessoal, em que pretendo compartilhar um pouco do meu mundo. Apesar de ter também reflexões mundanas, o conteúdo vai ser um pouco diferente aqui do blog: nesta cartinha semanal, além dessas aventuras imaginativas, momentos de vulnerabilidade e polianices cotidianas; também pretendo compartilhar dicas mais práticas e pequenos truques que fazem parte do meu dia-a-dia, ajudando a tornar tudo mais leve e bonito – pode ser uma receita fácil e gostosa, um penteado descomplicado, um DIY rapidinho para deixar a decoração mais divertida, um livro que me fez repensar uma questão, uma música para animar a segunda-feira ou uma ideia de sobreposição de roupas para o inverno.

Estou fazendo tudo com muito carinho e amanhã será enviada a primeira. Estão todos convidados a se inscrever (aconselho a checarem sua caixa de spam depois, porque às vezes o email de confirmação vai parar lá.) Vou adorar ter vocês, que me acompanham aqui há pouco ou muito tempo, em mais essa jornada ♡

 

 

sem limite de caracteres

Outro dia estava lendo uma matéria sobre vida profissional e dizia que a primeira pergunta que os coaches fazem é “quando você era criança, o que você queria ser quando crescesse?”. E minha resposta, sem nem pensar duas vezes, foi “escritora!”. Lembro como se fosse hoje as redações cheias de histórias e reviravoltas que eu escrevia, os professores elogiando minha narrativa e imaginação fértil, ser leitora voraz desde muito cedo e a melhor aluna de literatura do colégio, ver meus rabiscos publicados nos jornaizinhos da escola – e a primeira vez que vi um texto meu na Capricho, uma das conquistas mais queridas que tenho até hoje.

Apesar de não me considerar um grande talento, ainda gosto demais de escrever, e de ver a conexão linda que isso cria com as pessoas. Agora, minhas reflexões mundanas também estarão na Central do Textão, endereço de resistência de quem ainda quer usar a blogosfera para publicar um monte de coisas bacanas e que se esparramam por muito mais do que 140 caracteres. Vale pegar uma boa xícara de café e dar uma parada no seu dia para conferir!

Central do Textão

vida aberta, um farol fechado e uma pausa para refletir

– A vida ta aberta pra gente!

É essa frase otimista, de um dos meus melhores amigos, que sempre me vem à mente quando pego uma sequência de faróis com a luz verde. E foi assim num sábado fresco de sol, início do inverno em em São Paulo, quando peguei o fusquinha para ir ao tatuapé ver minha família – todos os sinais abertos, e eu pensando que minha vida estava assim: com caminhos se abrindo. Porém, após uns cinco minutos dirigindo, percebi que o espelhinho do lado do passageiro estava para dentro, porque alguém provavelmente havia empurrado. Só que eu não pegava nenhum sinal fechado para arrumar, e não podia me distrair no meio da Radial Leste para fazê-lo – nem podia trocar de faixa, com receio de acertar um motoboy. Até que, em algum momento, o farol fechou – e foi um alívio! Finalmente consegui acertar o espelhinho e respirar tranquila, checar a maquiagem no retrovisor e voltar ao volante.

E foi então que eu percebi a mensagem que o universo estava tentando me passar: que às vezes precisamos mesmo dessas pausas para ajeitar as coisas, para endireitar o que precisa ser arrumado, para dar um respiro – e só então voltar para uma vida fluida, de vias se abrindo. Uma vida atropelada não tem espaço para a reflexão.

Após alguns meses lutando contra essa ansiedade doida de não conseguir uma recolocação profissional, foi essa epifania mundana que aquietou um pouco meu coração aflito. Para qualquer pessoa, isso pode parecer uma grande bobagem. Mas para mim, que voltei a pegar no volante após um longo inverno, não foi apenas um farol fechado: foi um momento iluminado.

sem ver, o coração não sente

Passados o contentamento e o vazio, eu fiquei empilhando nossos momentos e os seus livros no canto do quarto tentando reconstruir uma história. Não funcionou.

Quanto mais o tempo passa, mais longe tudo vai ficando. As memórias, meus braços longe do seu abraço, você do outro lado do Atlântico. Nosso primeiro beijo na sua cozinha. A gente tomando café na sua sacada, fitando o rio Pinheiros. Você tocando Caetano no violão para mim, no sofá. Eu sentada na ponta da cama, do outro lado do corredor, observando.

(…) Nosso segundo encontro. Você me olhando nos olhos e dizendo que “a gente tem uma conexão, né?“. Você de camisa branca entreaberta, apoiado na bancada na cozinha, comendo meu risoto requentado, me incentivando a ir atrás dos meus sonhos. Você se despedindo na catraca me contando que meu café da manhã “ia ficar na memória“.

(…) Nosso último almoço juntos, comendo feijoada e conversando sobre política e legalização do aborto. Seu sorriso iluminado pela luz oblíqua do sol que atravessava a calçada, enquanto eu te fazia cócegas porque você estava estava me pentelhando. Aquele seu sorriso, daquele jeito, naquele dia – é tudo o que consigo ver quando fecho os olhos para dormir, há seis semanas.

(…) Os dias passam e as lembranças vão ficando mais distantes e difusas. E eu tentando me agarrar a elas com força, como uma criança segura balões de gás que estão prestes a escapar para o infinito. Eu não quero que nossa história suma no horizonte.

As mensagens não respondidas. Os emails não lidos, as notícias não comentadas, os abraços não dados, os beijos perdidos. Há um vazio nessa casa e ele não é mais só meu. Mas talvez seja melhor assim: um oceano no meio – longe dos olhos, longe do coração. Foi o que disseram.

a frente fria trazida pela chuva

Dispensando o balé por causa de uma enxaqueca fortíssima, sentada na janela do metrô voltando pra casa e divagando sobre todas as vidas que um dia imaginei para mim e nunca aconteceram. Desbravar a Alemanha com Stefan. Casada com Rafael e ter minha então melhor amiga como cunhada. Reencontrar Bruno já “adulta” e bem resolvida e rirmos das nossas bobagens adolescentes. Finalmente viver um romance com Ben quando ele se mudou para Paris. Uma volta de vespa com Marco em Veneza. Discutir filosofia num café em Santiago com Ignacio. Você batendo à minha porta arrependido, me pedindo para voltar – você nunca mais voltou. 

Eu, que gosto de vestir cores claras no inverno, deixo meus sapatos espalhados pela casa toda e sempre dou dinheiro para músicos de rua. Que tenho a base de um vestido de noiva no meu sofá há uma semana esperando uma reforma e almoço brownie num dia frio porque quero um consolo em forma de bolo. Eu, que fico postergando o texto que preciso escrever para o trabalho enquanto tomo chá e leio blogs de moda, salvando imagens no pinterest e ouvindo divas do jazz. Trapaceio na terapia, visto polainas enquanto assisto ao novo seriado favorito porque a mocinha me lembra muito eu mesma e me faz gostar um pouco mais de mim – e em momentos de crise, isso é tão, mas tão necessário. Tento me enxergar como os outros me veem mas sempre há uma insegurança gritante aqui dentro, como se eu nunca fosse merecedora ou capaz. Uma tendência forte à preguiça e à indisciplina, um não-querer levantar cedo, atender o telefone ou responder mensagens. A vista da minha janela é recortada por São Paulo e seus prédios desordenados, o pôr-do-sol desenhado no meio dos edifícios. Enquanto caminho sem destino, vejo as ciclovias desbotando, a tinta das paredes descascando. Leio sobre saturno em sagitário trazendo estabilidade, mas minha mente sonhadora só sabe pensar nos aneis. Mãos sempre tão frias – dizem que é sinal de “coração quente”. Com essa minha mania besta de insistir no romantismo: só pode ser.



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