“c’est la vie”

Quando derrubei a xícara do jogo de meia-dúzia que minha mãe havia ganhado de presente de casamento e me deu para trazer boa-sorte à casa nova, eu fiquei paralisada por infinitos segundos em frente ao armário de louças, fitando os cacos espalhados pelo chão como quem de repente reconhece que certas situações já não têm mais conserto. Você, que trabalhava no computador a poucos metros de distância, viu meu susto e pulou correndo para recolher os pedaços, antes que meus pés (sempre) descalços pisassem em algum resto cortante. Eu achei isso tão, mas tão bonito. Não foi nada, mas foi tudo. Foi como se eu enxergasse em você alguém que, por instinto, viria sempre correndo impedir que eu me machucasse.

Como quando você me entrelaça pela cintura ou delicadamente me puxa pelo braço ao atravessarmos a rua, para que nenhum carro chegue muito perto. Ou como você sempre quer, por educação ou romantismo, me acompanhar até a estação quando preciso ir embora; e me dá um beijo de despedida na catraca, quando chegamos ao limite de onde podemos seguir juntos. Ou quando você fez questão de carregar meus patins quando fui encontrar um amigo, porque sabia que eu iria passar a tarde patinando sob um sol de 35 graus no asfalto e você quis aliviar um pouco meu peso. É isso: desde que você apareceu, com seus olhos cor de mar-verde e seu riso fácil, você aliviou todo o peso. Você evitou que eu machucasse. Porque dez dias após nosso primeiro encontro, você me pediu para se mudar temporariamente para a minha casa, e eu peguei amor. Você chegou numa tarde de segunda-feira com sete volumes de bagagem e me deu de presente seu livro favorito. E todas as noites dormimos de mãos dadas, e todas as manhãs tiveram café demorado e sorriso apaixonado.

Agora a casa está cheia de ausências e silêncios.

let’s just kiss and say goodbye

– Vou te dar uma cópia da chave para você ficar mais à vontade.
Cinco dias após nosso encontro que mudou tudo, você me pediu para vir para ficar. E eu disse sim. Óbvio-que-sim. Com-certeza sim. Sem-sombra-de-dúvida sim. Decisivo sim. Conclusivo sim. Jamais-diria-não sim. Quero-acordar-todos-os-dias-ao-seu-lado sim. Você-me-abre-seus-braços-e-a-gente-faz-um-país sim. Sim, sim. Pode-vir-claro sim. Sim.
(…)

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Foi a frase do poeta que habitava sua mesa de cabeceira e que deu nome ao meu irmão que não saiu da minha cabeça desde que nos conhecemos; ao pensar em quanto desencontro tem de haver para que os encontros possam, em algum momento, exercer sua mágica. Quando dividimos a mesma festa por duas vezes e não nos conhecemos. Quando nos trombamos virtualmente e nos perdemos. E quando finalmente nos encontramos, depois desses quase dois anos de desencontros, foi uma história de amor. “Demorou muito para isso acontecer né? Mas depois; nossa, foi rápido…!” você concluiu, com aquele seu sorriso acolhedor que toma todo o rosto e faz seus olhos verdes ficarem ainda mais iluminados.

Quando você me confessa que já desistiu de tentar entender, eu ainda penso muito sobre o tempo das coisas e como as histórias se desdobram; em como muitas vezes tudo parece acontecer de tal forma orquestrada que nós finalmente percebemos não ter controle algum mesmo de nada; sobre estarmos nessa jornada apenas seguindo nesse balé e tentando ficar na ponta dos pés. 

(…)

Quando decidi te acompanhar ao aeroporto, eu pensei que iria ficar muito triste. Que iria me segurar para não demonstrar emoções demais para um aquariano reservado, que iria conter as lágrimas no canto e ficar com os olhos muito úmidos e ensaiar algumas palavras bonitas para te acompanhar na viagem. Mas não foi nada disso: eu segurei seu violão e nos beijamos timidamente. E depois um beijo mais longo e cheio de sentimento, que disse tudo o que não conseguimos dizer. Eu não chorei. Nem você. Na verdade, eu saí de lá sorrindo, com o peito cheio de contentamento, feliz de ter tido a chance de viver essa história tão bonita e significativa. Pensando em todo o furacão que 2016 me trouxe desde janeiro; mas foi esse mesmo 2016 que me trouxe você – num abril-abrindo-horizontes, que veio como um bálsamo curando todos os machucados, como um sopro de mãe aliviando todas as feridas. Você. Infinitamente você. Divertidamente você. Apaixonadamente você. Certamente você. Que traz ainda mais sentido para o já batido tudo-vale-a-pena-se-a-alma-não-é-pequena: uma grande história de amor na qual os dois resolveram apostar, sem receio do que viria a seguir, sem medo de se machucar.

E eu lá, saindo do aeroporto num fim de tarde fresco e cinzento, vendo a cidade passar borrada pela janela do ônibus, pensando em tudo isso; e sorrindo. Que bom, que bom. Que bom.

baby, eu sei que é assim

O décimo segundo dia de maio amanheceu com a luz branca de um céu nublado invadindo todo o quarto. Os pneus deslizavam pela rua fazendo um som molhado, apesar do silêncio que denotava ausência de chuva. Silêncio, ausência. Silêncio. Ausência. “Quase uma aliteração”, pensei. Semelhantes na fonética e no sentido.

Acho que choveu, constatei baixinho após seu “Bonjour !” sempre animado ao abrir os olhos.

Levantei e abri a sacada. Agora era meu coração que chovia certa angústia, relembrando as manchetes tristes do noticiário, falando de manobras políticas, golpe de Estado, retrocesso. E pensando que foi o último dia que acordamos juntos, após essa breve e intensa história que o mês de abril me trouxe de presente, compactada em 25 dias e incontáveis momentos. Infinito-o-quanto-durou, que veio como era pra ser. “Porque foste em minh’alma como um amanhecer, porque foste o que tinha de ser”, enchendo todos os silêncios de música e todas as ausências de riso solto. Um romance para trazer um pouco de mágica a um coração apático e errático, cansado de vazio.

(…)

Você trouxe pão fresquinho e eu fiz café enquanto lavava a louça do jantar de ontem. Quando fomos para a rua, o céu coalhado de nuvens já ensaiava uns cantos azuis, e um sol tímido tentava dar as caras. Enquanto caminhávamos buscando as galerias de arte do bairro; eu cantarolava “Time after time” e você balbuciava “Chega de saudade“, ambos tropeçando nas letras que não eram das nossas línguas nativas. Você – que um dia antes só sabia dizer que não queria ir embora -, hoje já parecia conformado, me escrevendo dedicatórias divertidas nos livros espalhados pela casa, com nossas piadas internas sobre sufixos de grau e banalização da gratidão.

Quando voltamos, eu te fiz a sobremesa brasileira com nome de casal injustiçado e foi esse romeu-e-julieta que adoçou a nossa tarde pré-aeroporto, lendo notícias do planalto em quatro línguas diferentes – e mesmo assim não entendemos nada. Essa vida é mesmo muito engraçada.

 

visita inesperada

Fazia três dias que minha casa estava vazia, pedindo um respiro após tanto desgaste, clamando por outros móveis e energia, esperando uma cara nova. Desmarquei compromissos para um encontro dos mais importantes (renovar meu refúgio), e passei a quinta-feira quase inteira fazendo faxina e limpando cada canto, espalhando sal grosso e acendendo incenso. No fim do dia, na lavanderia, ao puxar um pano seco de um balde, um inseto verde levantou voo furioso e de sopetão. Me assustei, pensando ser uma mosca varejeira – das quais não gosto e concluo serem mau agouro (são?). Meio contrariada de saber que um inseto estava estragando todo o meu profundo processo de limpeza (literal e metafórico), fui para a cozinha preparar o jantar, porção individual. No que reparei no tal inseto, na parede em cima da geladeira. E não era uma mosca: era uma esperança. Igual a um dos meus contos favoritos de Clarice.

Você pode ficar aí, eu disse sorrindo.

“Você faz o favor de facilitar o caminho da esperança”, fiquei recitando mentalmente. Não demorou muito para que eu voltasse a cantarolar as músicas que eu cantava antes, enquanto estava empunhando a vassoura pela sala. Esse inseto sim eu sabia ser sinal de bom presságio, de promissores acontecimentos vindouros e futuro auspicioso. Ficamos lá na cozinha um bom tempo: eu, a esperança e músicas animadas tocando de fundo.

Dez dias depois, algo mágico aconteceu. E acho que tem muito a ver com esta visita.

abrindo o horizonte

“(…) E o nome do mês de abril tem duas origens bem bacanas, Nath: ‘Uma é que o mês vem de aperire, “abrir” em latim, o que lembraria a primavera e o desabrochar das flores. A outra versão vem de uma comemoração sagrada, aprilis, feita em nome de Vênus, deusa do amor.’
E por aqui, eu vou criar um pouco de luz para tentar dar uma clareada nesse horizonte!”
(mensagem de um amigo querido, recebida no meio desse mês auspicioso)

Abril, o mês das melhores surpresas, se encerrando hoje com (quase) tudo em seu devido lugar. Abril: obrigada por nunca me decepcionar. <3 

quem quer passar além do bojador tem que passar além da dor

Depois da tempestade simbólica, continuou um calor infernal e literal. A casa ficou muito grande, cheia de espaços vazios a serem preenchidos e poeira se escondendo pelos cantos. O fim das águas de março esgotou minhas energias e me derrubou de cama por uma semana, à base de antibióticos e analgésicos. Mas passou a dor, a inflamação. Passou o calo no coração. Eu não quis mais olhar para trás.

Os processos que eu achei que seriam muio impactantes com a chegada de abril estão se arrastando longamente para serem concluídos, e com eles veio a lição de entender o tempo das coisas e respeitar a cicatrização. Esperar chegar o jogo de panelas comprado pela internet, esperar secar a massa corrida na parede, escondendo os buracos deixados. Esperar. E, ao olhar no espelho, abrir um sorriso ao me perceber ter vencido tudo isso, ter chegado até aqui. 

 

 “(…) E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.”
(Haruki Murakami, em “Kafka à Beira-Mar”)

águas de março

Quando março chegou, eu sabia que seria um mês de cinco semanas e inúmeras lições. Eu sabia que viria uma cirurgia e uma despedida. Mas não contava com também uma ruptura e um desgaste tão profundo que culminou num colapso e numa crise de choro compulsivo ao preparar o almoço de Páscoa.

Quando alguém muito próximo resolveu apontar o dedo em minha direção e com ele grifar tudo o que tenho de falhas, defeitos e humanidades, me faltou o chão. Passei muitos dias consecutivos gastando tempo e energia rebobinando infinitamente na minha cabeça tudo o que havia acontecido, onde eu havia errado. Me achando uma pessoa ruim, mesmo tendo doado meu tempo quase integral durante um mês apenas a outros. Encarei minha sombra e fiquei questionando a medida do mal. Num mundo real e não-maniqueísta, em que todos somos um pouco bons e um pouco ruins, existe defeito mais repreensível que outro? Existem qualidades mais nobres que neutralizem nossas sombras? Se eu for mesmo assim tão má, eu deixo de ser boa? Mas eu sei que sou uma pessoa boa e do bem em muitas coisas, isso não conta pra nada? Quanto autoconhecimento conseguimos tirar de um empurrão?

***

Depois de muita reflexão, concluí que todos somos feitos de sombra e luz – e é isso que traz à tona todas as nuances que tornam cada um de nós tão único e especial. Como em todos os outros tombos, eu escolho tirar lição de tudo que me acontece e levar o melhor de todos que cruzam o meu caminho, inclusive dessa pessoa que me machucou. E usar tudo para digerir, entender, refletir e evoluir. Mas não vou negar: que alívio quando chegou abril! Ah!bril.

 


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