a noite mais fria em cinco anos

As manchetes de sites de entretenimento me contam que Jennifer Lopez e Ben Affleck estão apaixonados novamente após dezessete anos separados; e uma madrugada que registrou temperaturas abaixo de cinco graus em São Paulo (algo que não acontecia há um tempo), confirma: fenômenos se repetem. Faz também cinco anos que você partiu e, em meio a uma pandemia que arrasou terras, famílias e qualquer possibilidade de romance, sua lembrança vira-e-mexe me volta, para que eu não esqueça que também sei amar no superlativo. O arrepio da sua pele de outono de alguma forma ainda segue vivo por aqui, e aquece o peito em noites com temperaturas de apenas um dígito, frio recorde em Rondônia e neve no sul; despertando a esperança de que, talvez um dia, sejamos nós o fenômeno a se repetir, a faísca de milagre mundana que nos cabe neste mundo caótico que segue a testar nossa fé.

Após mais de um ano considerando apenas o presente como estratégia de sobrevivência, posso me permitir aos poucos voltar a ter ideias de futuro, sonhar com o que ainda virá apesar de. E se ele se encontra com o que sobrou de passado após as ruínas, que venha então embrulhado no seu abraço. A chave de todo o mistério continua a ser o amor.

brasil, 2021

“como é possível tirar uma pedaço de alguma coisa e ela ficar mais pesada?”

esse questionamento da bru waitman no seu mercado do porto era sobre andar de bicicleta; mas na hora eu pensei em mortes e perdas: após o ano que nos tirou tanto, ao invés de leveza encontramos uma vida que segue arrastada, muitas vezes desprovida de brilho e, na maioria dos dias, carregada de um peso até então desconhecido: o peso do vazio.

dia de são jorge

23 de abril de 2010

Colecionando um sem-número de contratempos, dois anos de aulas de francês e muita vontade de dar a tal “volta por cima” nas quais os filmes hollywoodianos se baseiam; segurei a mão do meu irmão e juntos embarcamos na nossa aventura além-mar. Era uma sexta-feira que fechava uma semana tensa, movimentada por erupções na Islândia num vulcão de nome impronunciável que fizeram com que as companhias aéreas cancelassem mais da metade dos voos na Europa – como se ter meu coração destroçado por quem eu até então jurava ser o-amor-da-minha-vida já não fosse o bastante. Fiz promessa pra Santo Expedito e meti a cara (e o que me restava de coragem) para me mudar para uma cidade que eu só havia visitado nos filmes, não conhecia ninguém e não dominava a língua.

Mas São Jorge estava bem atento neste dia, e nos presenteou com ida de executiva após algumas confusões de assentos e voos superlotados. Londres me recebeu generosa e ensolarada e, alguns dias depois, cheguei na primavera de Paris. E gosto de acreditar que fui abençoada por Caio Fernando

23 de abril de 2013

Eu havia acabado de voltar de uma viagem pro Rio para a despedida de solteira de uma das minhas amigas mais antigas. E no meio de uma aventura de fim de semana, uma experiência que considero divisora de águas da minha vida adulta me ajudou a descobrir que não precisava estar apaixonada para viver um mini-romance: ele poderia vir leve e sem cobranças, ainda que com uma ou outra expectativa. Daí em diante, nunca mais fui a mesma.   

23 de abril de 2016

Era um sábado e cinco dias após um primeiro encontro mágico. Da minha sacada eu acenei para ele, que chegava lá embaixo, cruzando a calçada – camisa branca entreaberta, olhos de verde-mar, cabelo bagunçado. Ele me olhou de volta, com aquele sorriso pelo qual eu abandonaria tudo. Ficamos horas conversando no sofá, comemos risoto requentado e dormimos de mãos dadas. Tínhamos acabado de nos conhecer mas parecia que era um reencontro: foi neste dia que ele me pediu para vir pra ficar. E eu disse sim

23 de abril de 2020

Estamos vivendo uma pandemia. O inesperado chegou arrebatador roubando vidas, estraçalhando histórias, sequestrando futuros. Nada ficou no lugar. Escolhi este dia de lua nova para lançar um projeto de newsletters recheado de afeto e intenção, os drops diários para salvar o minuto. Eles salvaram meu ano.

23 de abril de 2021

É uma sexta-feira também, embora muito diferente da vivida onze anos atrás. Como muitos, estou há mais de ano sem viajar, não sei mais o que é me apaixonar e a pandemia revirou tudo o que encontrou. Mas foi neste dia, este ano, que meu pai tomou a primeira dose da vacina contra a covid-19 – ele, que durante 2020 inteiro ficou monitorando a confecção dos imunizantes cheio de esperança e fé nos recomeços, finalmente pôde respirar um pouco aliviado. O sentimento é agridoce: uma alegria misturada com a dor dos quase 400 mil mortos no país, da tristeza de reconhecer quantos sonharam com isso mas não tiveram a mesma chance de tomá-la a tempo, quantas vidas ainda serão perdidas sem que se alcance todos. A gente queria comemorar, mas não seria justo. Viver no Brasil tem sido um constante estado de luto – é como se estivéssemos definhando.

***

A maioria das pessoas têm como seu “mês favorito” aquele em que fazem aniversário, mas quem me conhece sabe que, apesar de sagitariana do 12-do-12, o mês que mais gosto não é dezembro: é abril. Amo o comecinho do outono, os dias ensolarados e frescos, o início do ano novo astrológico, o sopro de renovação trazido pela troca de estação.

E embora o “mês que sempre me traz as melhores surpresas” este ano tenha vindo carregado de luto com o peso de ter sido o mais letal que vivenciamos até agora; ele ainda abriu espaço para um pouco de poesia. Está difícil cultivar a fé e o encanto nesses tempos que cobram tanto da gente, mas busco nas lembranças e nas novas chances esta tal esperança que tanto nos falta. Que em 2022 São Jorge venha ainda mais generoso.

 

*(este texto foi inspirado neste outro aqui ;)

você é a melhor história que nunca me aconteceu

“… casada com um músico folk…” – Esta é uma “vidas imaginárias” que mais se repete entre os rascunhos de tudo o que me seria possível viver e sonhar. Eu tenho vários papéis nestas vidas que a autora do “caminho do artista” propõe que a gente crie pra exercitar a imaginação (escritora que viaja para todo canto, curadora de arte, jornalista de beleza, professora de balé, editora de livros, instrutora de yoga, florista, designer de joias, musicista, sommelière; cada uma num lugar diferente do mundo); mas quem está ao meu lado costuma se repetir com certa frequência (quando alguém aparece), e é diferente dos engenheiros, economistas e outros profissionais mais prosaicos com quem costumo me relacionar. Não precisei investigar muito minhas histórias para reconhecer quem o meu subconsciente traz à tona nesses exercícios: uma das minhas vidas não vividas tem nome, sobrenome e futuro interrompido.

Foi numa noite do verão-que-nunca-é-verão em Londres (eu estava de casaco, ele de jaqueta de couro); após uma noitada com amigos numa sexta à noite num boliche, enquanto eu esperava o ônibus noturno pra voltar pra casa. Ele, alto, loiro, olhos azuis, cabelos longos, forte. Puxou conversa, pegou o mesmo ônibus que eu, me contou que tinha uma banda, perguntou se eu já “havia considerado me casar com um americano”, me pediu em casamento, pegou meu telefone. Talvez o álcool tenha exercido um grande papel nessa história mas o fato é que ele realmente mandou mensagem no dia seguinte, e tivemos um encontro em que ele me ensinou qual cerveja escolher, me disse a banda brasileira que gostava, eu mostrei a revista para qual trabalhava. Me contou histórias de quando passou um semestre em Cuba lutando boxe. A vida tinha me trazido um roqueiro-lutador-de-boxe com os olhos mais doces do mundo e eu mal podia acreditar que estava vivendo a vida que sempre havia sonhado para mim: romances, pessoas com histórias completamente inusitadas, encontros em lugares inesperados. Eu fiquei tão encantada com ele, apesar de nunca nada de concreto ter acontecido. Ele era algo que eu amava guardar só para mim, como aquelas relíquias que não compartilhamos com os outros: eu tinha 22 anos e o mundo pela frente mas já tinha uma história minha, só minha. Platônica mas tão preciosa.

E então a vida aconteceu. Marcamos um encontro no meu restaurante mexicano favorito e eu não apareci porque tive que viajar. Ou talvez fosse só medo, não sei. (Às vezes temos medo do que pode dar certo também, e mais tarde aprendi que se chama “autossabotagem”). Ele ficou me esperando, e nem o meu descaramento de menina amedrontada fez com que ele cortasse relações: eu voltei para o Brasil e continuamos trocando mensagens, e-mails. Ele arrumou um estágio como jornalista no The Guardian, me escrevia contando do seu fascínio pelo Tom Waits. Seguiu carreira solo como músico folk, me enviava suas músicas e eu ouvia tentando decifrar cada verso, cheia de encanto e melancolia. Passou uma temporada em Paris. Voltou para os Estados Unidos, esteve por vários lugares, acabou ficando em Nashville, a “terra dos músicos”. Casou, separou. Chegou a vir para o Brasil com o irmão de férias, mas só para o Rio. Não nos reencontramos. Casou de novo. Virou pai.

Treze anos se passaram desde aquela noite em que nos conhecemos, e hoje acompanho pelas tais “redes sociais” tudo o que ele se tornou, como eu acho que ainda temos tantas “coisas em comum”, como ele só melhora com o tempo. E pela manhã, vendo mais uma de suas postagens que me fez sorrir, pensei que eu gosto ainda mais dele exatamente porque nunca tivemos a chance de sermos um plural: nos meus sonhos, ele vai continuar sendo aquele que me enxergou quando eu estava me descobrindo no mundo e seus olhos azuis me convidaram pra entrar. Agora, ele é uma presença nas minhas telas e o “músico folk” de uma das minhas vidas imaginárias. Que é sempre mais bonita e divertida do que a “vida real”, pois idealizada – mas nunca incluiria um pedido casamento no 243 numa noite fresca de verão em Londres. Isso eu jamais seria capaz de imaginar.

saudade é ter para onde voltar

Uma tal “pandemia” nos roubou a noção de futuro, aquilo-que-nunca-existiu mas que tínhamos como uma ideia confortável de algo em que exercíamos qualquer espécie de controle. Uma pandemia – você reconhece esta palavra? Já deve ter lido a respeito, no colégio ou nas aulas de biologia, quando ainda era uma ideia distante. Sabe quando uma coisa parece muito distante e não damos a devida importância, e de repente aquilo se torna parte do seu cotidiano e você só fala naquele assunto todos os dias, e já não consegue mais nem se lembrar de como era a sua vida antes, sem nem saber do que aquilo se tratava? Pois bem. Com as tais “rupturas” uma língua é extinta e surge também um novo léxico. Isso serve para os amores que partimos e para os amigos de quem nos afastamos e tínhamos aquelas expressões que “só a gente entendia”; mas aparentemente também serve para as tragédias globais porque agora se você comentar com qualquer pessoa do-Oiapoque-ao-Chui sobre “vírus”, ela vai saber que não é da gripe, e sim “O VÍRUS”, o tal com nome e sobrenome. No presente ganhamos novos significados para contágio, pandemia, curva. No passado, ficou o futuro. 

Já eu, estou há mais de quatro meses convivendo apenas comigo mesma, com todas as dores e delícias que essa convivência impõe. Me distraio facilmente com tudo o que há redor – as motos barulhentas, os pássaros despertos, os cheiros que vêm da rua sem serem convidados. Observo a luz se movimentando pela casa ao longo do dia, acompanhando a mudança de estações com o planeta Terra fazendo seu balé anual em volta do astro-rei – e eu aqui com meu café quase frio. Asso pão, assisto tevê, passo um tempo maior do que seria considerado adequado olhando o céu, “há sempre uma ausência que me atormenta”. Vejo sinais em tudo o que me cerca mas talvez acredite que o universo converse comigo porque o que me falta mesmo é companhia. São os mistérios da fé. E na tarde mais fria do ano do inverno em São Paulo, eu passei um bom par de horas revisitando minha pasta de fotos favoritas no celular para me reconhecer naqueles sorrisos, abraços e felicidades passadas. E nessa saudade que não cessa, entendi que não precisa haver futuro para nos reencontrarmos com tudo o que já preencheu tantos vazios: o presente também pode, nem que seja apenas por umas horas, voltar um pouquinho na memória pra rehabitar essas presenças. Basta que a gente convide.

“é preciso aprender a ficar submerso”

foi submersa que eu aprendi
que o silêncio às vezes pode ensurdecer
e na volta à superfície
reconheci um barulho que acolhe
– a descoberta de muitos avessos veio de enfiar a cabeça dentro d’água

submersa aprendi que fechar os olhos não nos torna invisíveis,
(e nem abri-los torna enxergar tudo possível)
ainda assim
os abrimos quando queremos
e os fechamos quando podemos

submersa aprendi que todo peso é relativo
e há aquele que nos permitimos carregar,
e o que não conseguimos abandonar

foi também entre idas e vindas de submergir e mergulhar que aprendi
que só conseguimos boiar quando nos deixamos entregar
e que há cantos profundos que a luz não consegue atingir,
mesmo se a gente deixar

pros momentos de profundezas,
em que a gente sabe que não dá para gritar no vazio
que consigamos fazer os sinais de resgate
e reencontrar nosso caminho de volta à luz

 

(inspirado neste aqui)

“nathalia, não há desculpas para não cuidar dos seus fios!”

é o fim do mundo como o conhecemos,
todos estamos isolados juntos.
caiu em 70% o uso do transporte público em são paulo,
o céu azul abundante de outono está ainda mais límpido (“menos poluição”, disseram).
as lojas fecharam, os restaurantes de portas cerradas dizem “não”.
academias, tudo o que é “supérfluo”, anunciaram.
questionamos o que é essencial
– vidas são.
o número de doentes cresce a índices alarmantes ao redor do globo,
mortes e corpos empilhados sem enterros dignos,
sem despedidas.
(ainda assim a primavera começou no hemisfério norte)

é o fim do mundo como o conhecemos,
mas minha amiga celebra a vista do pôr-do-sol do seu novo apartamento no bairro nobre,
e outra amiga comemora um ano trabalhando na sua empresa,
eu cancelo uma viagem tão sonhada e planejada com meu irmão porque fronteiras (imaginárias) foram fechadas,
me preocupo com a pandemia chegando às periferias
e todos rimos de brincadeiras que fazem piada com um presidente psicopata –
porque se é o fim, que nos pegue rindo.

é o fim do mundo como o conhecemos,
e uma quarentena nos fez ficar dentro e olhar pra fora,
escutar o que silêncio estava vindo nos dizer.
um vírus parou bilhões de pessoas e como pode o invisível ser tão devastador e poderoso, questiono
converso sobre a era de aquário com minha amiga argentina através de vídeo
e compro de iniciativas locais e coletivamente apoiamos os trabalhadores independentes
e todos queremos agir com a parte que nos cabe neste (novo) latifúndio que ninguém sabe ainda o que é.

é o fim do mundo como o conhecemos,
e bebês nascem na mesma semana em que fui avisada da minha demissão,
da possível falência da empresa,
da vida-morte-vida dos ciclos que se renovam e das jovens plantas que nascem ao redor de casa
numa semana em que chorei todos os dias
e preciso renegociar meu aluguel
e teve lua nova em áries
e noites frescas e estreladas.
(meu vizinho toca as músicas mais lindas e eu assei um bolo para lhe agradecer)

é o fim do mundo como o conhecemos,
mas o e-mail marketing de um site de beleza me diz que não tenho desculpa para não cuidar dos meus cabelos
mesmo com todos confinados trabalhando de casa (os que podem)
mesmo com muitos arriscando sua vida em nome de tantos outros (os que precisam)
mesmo com a solidão que me encontra em todos os cantos da minha casa agora ainda mais quieta já que não há barulho na rua:
o mundo termina mas a vida de alguma forma continua.

e, pelo visto, nem o fim do mundo como o conhecemos
parece ser desculpa
para descuidar dos meus fios.

por dor ou por dano

“Meu coração precisou se partir para aprender a se abrir”, conclui uma das crônicas do Modern Love da moça que teve o primeiro coração partido aos 31 e logo em seguida encontrou seu grande amor, com quem se casou e divide a vida há dezoito anos. “Que sorte a dela”, pensei. Eu tive meu primeiro coração partido aos 13 e, desde então, mais de duas décadas se passaram e ele continua a se despedaçar um sem-número de vezes. A busca por alguém para compartilhar aventuras e descobertas não cessa, embora canse. “A parte de nós que é livre, selvagem, aberta e curiosa pode ser fechada pela vida. Por dor ou por dano.”, resumiu Angelina Jolie em uma entrevista. Com esse depoimento eu sim me identifico. 

(…)

Num agosto que só chovia (contrariando os invernos costumeiramente secos), enxerguei um sol desenhado numa pegada de areia na escadinha da praia e fiquei me questionando para onde iriam aqueles caminhos mais ensolarados, sendo que eu ultimamente só encontrava tudo nublado. Isso é das “coisas que você só vê quando desacelera”, como descreve o livro zen-budista guardado na mochila que eu tinha sob os ombros ao encarar o horizonte em desencanto, após as notícias da amazônia ardendo em chamas enquanto a gente se abate e paralisa em lágrimas, perplexos diante do horror. Meus amigos são promovidos e fazem filhos e promessas de até-que-a-morte-nos-separe (não necessariamente nesta ordem), enquanto eu mal conseguia fazer planos. Nunca me mostraram o que a minha heroína-balzaquiana-independente-de-comédia-romântica-que-mora-sozinha-no-apartamento-descolado-na-cidade-grande faz numa terça à noite quando ela já esgotou todas as possibilidades em anos aprendendo a ser só. Às vezes a gente só quer que nos digam o que fazer. 

(…)

Nem sempre uma ausência representa um vazio a ser ocupado. “É difícil escrever para você. A praia está muito cheia, e você está ocupando todo o meu coração”, escreveu Leonard Cohen para sua amada. Mas a praia estava muito vazia no inverno frio e chuvoso no litoral paulista e mesmo assim era muito difícil escrever para você, com o coração cheio apenas de saudade mas vazio de respostas. Porque nem sempre conseguimos declarar que ainda amamos alguém que partiu, por vontade ou por acaso. Alguém que simplesmente não mais está. Confrontar nossas ausências e o medo que vem com elas requer uma coragem que nem sempre temos ou conquistamos, embora busquemos. Eu fiz uma declaração de amor apenas porque não conseguiria não mais fazê-la, e preferia todo o infinito que cabe no silêncio (ainda que a ausência de retorno simbolicamente represente a rejeição), do que o frio e objetivo “não”.

(Eu ganhei o “não”.)

(…)

Se vamos navegar, que honremos o risco de nos afogar. Nem sempre estamos preparados. Às vezes queremos apenas sentar na areia e olhar o mar. Por dor ou por dano: ficar onde se está.

a parede rosa hexagonal

“Se sua vida fosse um livro, como se chamaria este capítulo?”, ensinava um manual de como fazer melhores perguntas às pessoas. Olhei a parede que me encarava do outro lado da sala, com esta nova cor pintada numa manhã ensolarada de domingo há alguns meses pelo meu melhor amigo, que quebrou a cabeça tentando conseguir o ângulo correto para o hexágono que eu queria. A cor associada ao amor e as arestas todas que eu já nem tentava mais disfarçar que não tinha vontade de aparar, nas analogias que criamos para contar nossas histórias e tecer as narrativas que melhor nos cabem. Rosa, a cor que veio cobrir a parede que antes estampava as duas gaivotas que eu fiz quando estive mais apaixonada e você ainda morava aqui, e das quais eu me despedi numa cerimônia solitária e singela, cobrindo os buracos com argamassa. Agora a nova cor queria demonstrar que tudo eu tento transformar com simbolismos de novo amor, mesmo com as asperezas dos cantos que fui ganhando ao longo do tempo, dos tombos que levei e das vezes em que me machuquei.

(Uns meses depois desta parede se transformar e renascer, eu ofereci um outro futuro a quem ganhou meu coração ano passado e tinha sido promessa de novos caminhos, e mais uma vez tive que aprender que o coração se rompe e se reparte e se regenera tantas vezes apenas para se expandir ainda mais. Escolhi não ver as palavras que denunciaram a rejeição porque com o tempo a gente também aprende um pouco sobre autopreservação. Às vezes uma escolha é apenas uma escolha e nem tudo vai ter resposta. A parede rosa hexagonal pode ser um símbolo de um coração que se mantém alerta e um pouco áspero por tudo o que já sofreu, mas nunca deixa de amar. Ou pode ser apenas uma parede, um muro sem dialogar. Esta parede também ganhou um espelho para lembrar que quem está do outro lado é uma pessoa. É sempre uma pessoa.)

sol em câncer

O jornal me contou que dez anos se passaram desde a morte de Michael Jackson e eu não havia reparado que já fazia uma década desde que entramos naquele avião pro Chile no que seriam nossas últimas férias juntos. Eu estava em outro avião numa manhã gelada voltando do sul e vendo o sol nascer no horizonte quando lembrei da turbulência cruzando as cordilheiras e como aquele chacoalhão foi o que faltava para revirar tudo o que tínhamos e sempre achei tão seguro; mas se partiu como se partem todas as coisas que um dia já foram sólidas. Até as rochas viram pequenas frações de pedrinhas, transmutadas em areia da praia. Em Pucón a areia era negra, ainda mais negra amontoada na palma das nossas mãos tão brancas e ocupando o silêncio que não ousávamos quebrar tentando configurar outro amor. Eu sorria gigante porque me encontro onde não sou, explorando territórios desconhecidos e línguas que não domino completamente, puxando conversa com estranhos e experimentando novos sabores e moradas. Mas naquela viagem eu já senti tudo diferente e poucos meses depois nossas rochas viraram areia sem ter um litoral onde aportar.

Estranho ou não, sonhei com você uns dias atrás, também porque é seu aniversário na sexta e eu te encontrava e dizia, bem prosaica, nossa dez anos que não nos vemos. Não sei mais quem você é hoje, mas mentiria se dissesse que quero saber. Não quero. Aquele rapaz tímido com olhos oblíquos e abraço em que cabia o mundo já não existe mais, e é dele que quero me lembrar. Daquele cheiro que invadia meu quarto sem pedir licença e das mãos pequenas, da sensação de que o mundo era nosso porque descobrimos que o amor é o segredo de todo o universo. “Quem não ama demais, não ama o bastante”, disse o moço da novela. Que quem não ama demais, ama pouco, e esse arrependimento eu não tenho. Os jovens amam sempre demais e é por isso que Romeu e Julieta pensaram na morte como atalho p’ra fuga: o amor desmedido pede medidas extremas. Que lindo, amar assim. Hoje em dia não gosto nem que passem a noite.

 

 


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