but I should never think of spring

Há exatos dois anos eu estava numa viagem que considero um divisor de águas na minha vida – de lá para cá, tudo mudou.

No último mês, teve pouco texto por aqui porque tenho levado todas as minhas divagações para os ouvidos incansáveis do meu terapeuta e das minhas melhores amigas. Neste tempo, teve duas viagens, um montão de Chet Baker, muito choro, dois corações partidos a murro, muito questionamento e muita resiliência para manter a fé no futuro quando tudo que temos à frente é um túnel bem escuro. Mas na hora em que o chão quer ruir, e tudo o que eu sabia fazer era chorar, sem saber pra onde correr, sem saber pra onde olhar – é exatamente nessas horas em que a gente tem que respirar fundo e sorrir, respirar fundo e sonhar. 

A cada respingo de luz eu volto a ter brilho no olho – mas, principalmente nas duas últimas semanas, isso parece ter sido bem uma brincadeira de mau gosto de alguém mal intencionado, porque é só ver essa luzinha e me animar para levar outro tombo, ainda mais feio que o anterior. Tem sido uma luta constante, mas minha única crença é a de que, de tombo em tombo, a gente sai mais forte: semana passada me disseram que ser sensível é uma virtude e eu bem queria conseguir endurecer sem perder a ternura. Mas olha, tem doído bastante.

um solitário

Eu estava com um livro de Clarice na mão divagando sobre felicidades clandestinas quando tirei os olhos das páginas e na estação da linha vermelha entrou um rapaz de vinte e muitos ou trinta e poucos e ele vestia uma roupa casual mas o que chamou a minha atenção foi o que ele tinha nas mãos porque eu achei que era um guardanapo amassado mas quando reparei: era um cravo. Um só. No exato momento em que eu pensava sobre meus amores partidos e sobre o capítulo da novela que eu estava perdendo, numa segunda-feira às nove e meia da noite, voltando pra casa depois da aula de balé: havia um rapaz com um cravo branco solitário nas mãos, com aquele frescor e formosura que só as flores recém-colhidas ainda têm.

E eu não sei quem iria ganhar aquele cravo, se era uma rosa despedaçada que brigou debaixo de uma sacada, ou apenas alguma moça enamorada. Mas achei tudo tão singelo.

vida que segue

Eu voltei pra terapia e pra acupuntura, Rebeca voltou pro escritório. Minha vida social está normal novamente, tenho mil planos de viagens e respiros, retiros. Amigos próximos de novo depois de meses de hiato. E teria muitas coisas para falar sobre divagações e elaborações de tudo que me cerca, sobre eu ser apenas eu e estar muito focada em ser este eu melhor, sobre disciplina e determinação, sobre Saturno estar em Sagitário pelos próximos três anos e pedir estabilidade e clareza de objetivos. Eu poderia contar sobre uns amores-relâmpagos, sobre promessas de ligar no dia seguinte que jamais aconteceram (mais minhas do que dos outros, aliás). Mas estou aqui, contemplando a terna fluidez do movimento do universo que faz a vida seguir seu curso.

Outro dia, meu horóscopo disse que algo maravilhoso estava para acontecer e que eu aproveitaria não somente o acontecimento em si, mas toda a jornada até lá. E eu, que adoro uma mentira sincera, estou aqui – aproveitando o caminho.

novo velho encontro

“Lily: Toda vez você chega com alguém e diz, ‘Ei pessoal, ela pode ser minha alma-gêmea’. Mas ela não é a única que ‘pode ser sua alma-gêmea’. O que há de errado com você?
Ted: Eu peço desculpas por todas as fotos em grupo que estraguei, mas quando você é solteiro, você sempre tem esperança de que a próxima pessoa que você conhece será sua alma-gêmea. Naquele momento, eu realmente achei que cada uma dessas garotas seria especial, porque eu tenho que manter minhas esperanças. Qual seria a alternativa?”

(trecho do episódio “Say Cheese”, de “How I met your mother”)

***

Esse é um episódio de um seriado, mas poderia ser um episódio nas três últimas temporadas da minha vida errante. Num encontro mágico no meio de um bloco de carnaval e mil borboletas na barriga (que voaram tão rápido como chegaram), em conhecer alguém diferente num país estrangeiro e não sentir borboleta alguma. Em conhecer um colombiano numa cena de filme de comédia romântica, e chegar em casa com brilho no olho. Ou chegar em casa cansada de mais um primeiro encontro que não foi legal, e ter altos e baixos e altos e baixos. Mas sempre acreditar que o melhor ainda está por vir – porque, convenhamos: qual seria a outra opção?

little expectations

Eu queria poder ter expectativas altas em relação às pessoas e que, só pra variar, vezenquando, mesmo sendo altas, ainda assim elas fossem superadas.

Mas eu teimo em mantê-las lá embaixo para evitar qualquer sofrimento e, ora veja só!, mesmo assim elas não se cumprem.

Qual a medida do mínimo para que o mínimo, por menor que seja, ainda não seja maior do que o que outro está disposto a oferecer?

mocinhos e vilões

A última vez que nos vimos quando ainda éramos “nós”, eu lhe dei um livro que tinha seu nome no título. É um dos meus nomes masculinos favoritos, era o nome do meu avô, é o nome que quero dar ao meu filho. É também uma dentre as tantas razões que me fizeram me apaixonar por ele.

O livro, de poemas e desenhos, é repleto de declarações de amor. E o autor deixou a última página em branco, para que cada um escrevesse a sua própria declaração. Eu escrevi a minha, com tanto carinho e cuidado. Dizendo que esperava que este fosse apenas o começo de uma linda história na primeira pessoa do plural. (A gente estava juntos há dois meses, já. Mas neste dia estávamos dando um passo que eu julgava muito importante para o relacionamento, então parecia ser apenas um começo – um novo começo).

E acho que foi esse peso que ele não aguentou. Porque, dias depois, ele terminou comigo porque a gente não estava na mesma página – literal e figurada. Ele não suportou a insustentável leveza do meu amor.

***

Essa, e tantas outras declarações de amor que eu fiz e foram rejeitadas, me passou pela cabeça feito um relâmpago quando estava num bar, numa noite quente de verão pré-réveillon. Quando alguém me fez uma declaração que eu queria tanto, mas tanto ouvir. Há tanto tempo. Só que não era dele que eu queria que tivesse vindo. E, dessa vez, a grande vilã a rejeitar o amor do outro era eu. Engoli em seco e nada disse – eu, sempre tão cuidadosa para não ferir ninguém. Porque, nessa vida de tantos encontros e desencontros, estar com a pessoa certa na hora errada ou com a pessoa errada na hora certa já virou figurinha repetida no meu álbum de amores desencontrados. E aquela situação eu já conhecia de cor – alguém iria sair bem machucado. Mas, naquele momento, a única coisa em que consegui pensar foi “que bom que, pelo menos desta vez, não sou eu“. Cínica.

dois sustos, dois plantões, dois mil e quinze

Alemão é meu garçom favorito do bar que fica embaixo da minha casa. A gente troca ideia o tempo todo, ele sempre arruma mesa pra mim mesmo quando o bar está cheio; e às vezes ele me descola umas cervejas de graça – dizendo que é para se desculpar pelo barulho que os frequentadores fazem bem embaixo da minha janela, de terça a domingo, até duas da manhã. No meu aniversário, ele veio me dar um abraço e pedir um pedaço de bolo de brigadeiro. Eu disse que mais tarde iria descer com um pedaço para eles todos, sempre tão atenciosos. Então, quando desci para fechar o portão para uns convidados – e com um pedaço generoso, cuidadosamente embrulhado -, o bar já estava fechado. Voltei no dia seguinte, e me contaram que o Alemão havia sofrido um acidente de moto voltando pra casa na noite anterior. Se machucou feio, teve que fazer uma cirurgia, repouso indefinido.

Hoje faz um mês que a gente não se vê. Eu não pude desejar bom natal, bom ano-novo, boa recuperação. E ele acabou não provando meu bolo de brigadeiro.

***

Numa quinta-feira quente e ensolarada de janeiro, eu e Rebeca estamos vendo a agenda de blocos de carnaval em SP e confirmando presença em todos. Animadas com o verão nas ruas, com caipirinha de limão e looks frescos para espantar o calor. São tantos planos – para 2015 no escritório que a gente administra sozinhas, para o verão, para nossas vidas coloridas.

Então, na sexta pela manhã, eu recebo uma ligação dela, do hospital. Ela sofreu um acidente na escada, quebrou o tornozelo com uma fratura gravíssima, vai fazer uma cirurgia em algumas horas. A perspectiva é horrorosa: pino, placa, oito semanas sem pôr o pé no chão, seis meses de fisioterapia. Passo o dia com ela no hospital – com ela, que alguns dias antes também havia passado o dia comigo no pronto-socorro porque eu tive uma crise de sinusite, e eu estava enjoada e não conseguia comer e ela me levou minhas revistas favoritas para ler durante a espera do resultado dos exames.

Da noite para o dia, todos os nossos planos para os próximos meses viraram uma sombra. Tudo terá que ser reorganizado, reajeitado, refeito. Ela, que não só é minha dupla no trabalho como a pessoa com quem eu mais tenho vida social, para quem eu mando mensagem com indagações existencialistas ou para escolher o look da festa, com quem eu troco receitas e afetos e cuidados, para quem eu ligo chorando um coração partido e que sempre tem um conselho bem ponderado e sensato na ponta da língua. A pessoa que passa mais tempo comigo e com quem tenho uma cumplicidade de entender tudo nas entrelinhas. E que agora foi se recuperar na sua cidade natal, no interior do estado, para ficar perto da família – e que, infelizmente, eu não sei se vou rever tão cedo.

***

Em pouco tempo, dois grandes sustos para a gente ter em mente que, de uma hora pra outra, tudo pode mudar. Estamos apenas no dia 12 de janeiro e meu 2015 já teve três dias de cama, dois dias de hospital, sete dias de antibiótico e mil planos desfeitos. E, do fundo do coração, eu espero que isso seja o pior que vai me acontecer pelos próximos 300 e tantos dias – e que, daqui pra frente, este tal ano do carneiro me traga muito mais calmaria e menos desespero. Porque, de sustos e galopes, já me chega 2014.  


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