o limbo dos souvenirs de amores partidos

E dentre as muitas coisas que perdemos com o fim de um relacionamento, tem as músicas e os lugares e os poemas e os romances todos que podiam até ser muito meus antes de te conhecer; mas eu emprestei pra gente usar na primeira pessoa do plural e eles se metamorfosearam em qualquer outra coisa que não é mais só minha nem só sua; e depois que a gente termina também não é mais nossa, e cai no limbo de todos os souvenirs de relacionamentos já fin(d)ados.

Meu restaurante francês que era favorito até meu melhor amigo trombar com meu amor passado acompanhado de sua nova namorada. Uma música que eu amava e hoje lembra saudade porque quando eu era metade de um casal ela fazia sorrir e fazia sentido, o-mundo-anda-tão-complicado-que-hoje-eu-quero-fazer-tudo-por-você. Uma sobremesa que hoje já não é mais tão especial porque não tem alguém do outro lado para pedir “uma só mas com duas colheres para dividir”. Um perfume que nunca mais será apenas um perfume qualquer de um estranho que me cruzou na rua – ele será sempre um cheiro de memória de um amor muito amado que vestia apressado a camiseta após o banho pela manhã, inebriando o quarto inteiro. As músicas agora sem dono, o perfume contaminado com o som de um sorriso, uma sobremesa nunca mais provada. Para onde devem ir todos os objetos inanimados quando o amor não é mais amado?

cheiro de novo

A gente namorou num mundo pré-netflix smartphone whatsapp facebook tinder, no que hoje parece ter sido a era paleolítica – e eu aqui me perguntando, o que teria sido diferente? Se ao invés de ter me apaixonado platonicamente cruzando o corredor da faculdade a gente tivesse se visto numa foto para apertar coração ou não, a gente teria se amado então? 

Assombrada por fantasmas dentro da minha própria casa, da roupa seca estendida no varal há dez dias porque ainda não encontrei cinco minutos de vontade para recolher. Ou do lixo para retirar, acumulando ali num canto descuidado da cozinha. Ou da bagunça na mesa de jantar, com caixas e livros e recibos e pedidos de exame médico – aqui dentro as coisas não estão muito diferentes disso.

Bem no dia em que eu me esqueci de passar perfume, reencontrei alguém que não via há tantos anos. E fiquei chateada quando me dei conta disso, porque de alguma forma eu queria que ele tivesse sentido que até meu cheiro mudou desde aquela época. Até meu cheiro. Haja desencontro.

amores fragmentados

Uma paixão-relâmpago que aconteceu pontualmente em alguns momentos do ano passado retomada com vontade num sábado embriagado, e que se desenrolou exatamente como era para ter sido: sem ser. Beijos trocados com muito afeto e pouca afinidade numa noite fria de quarta-feira em que saí para comprar chá, e a mensagem com declaração de amor que eu nunca mais respondi – eu não sentia o mesmo. Um romance-que-poderia-ter-sido-e-não-foi há mais de dez anos me esperando por acaso no terminal do desembarque do aeroporto do outro lado do atlântico. Tanto aconteceu na minha vida desde aquela época, e na dele. E mesmo assim nos reconectamos, e trocamos impressões sobre diversos assuntos enquanto caminhávamos entre as obras do museu do prado, ou divagando pelas ruas barcelonenses num domingo à noite procurando a melhor pizza da cidade enquanto acontecia uma final de futebol na tevê. E é naquela qualquer coisa de triste dos olhos dele que se encontraram com o que havia de qualquer coisa de triste nos meus que nos sentimos à vontade para desabafar nossas vulnerabilidades; e eu passei um bom tempo das semanas seguintes pensando nas voltas que o mundo dá e como, inesperadamente, podemos reencontrar um pedaço nosso que se partiu há tanto tempo. No meu celular piscam mensagens de amores líquidos novos e antigos e aquela angústia que não cessa num vazio que não cansa. Eu ainda não sei recusar um convite porque tenho uma vontade que acredito ser genuína de fazer as coisas, mas já deveria ter aprendido que não é – já que sempre desmarco na última hora e deixo as pessoas ao redor desapontadas. Nota mental: eu deveria ser mais adulta. Machuco os outros sem me dar conta, e numa terça à noite chuvosa de junho eu cancelei três programas porque preferi ficar em casa sozinha lendo. Não tem comida para o jantar. 

aeronaves seguem pousando sem você desembarcar

Está fazendo um ano desde aquele dia de abril em que eu tive uma reunião perto da sua casa, e nós vivemos uma tarde de amor apaixonado como a gente acha que só existem nos filmes – você, meu romance da vida real. Era uma segunda quente e mesmo assim você me serviu café, e sentou no sofá da sala com seu violão, caetaneando o que há de bom. Eu fui de lá direto para a aula de balé e depois não nos desgrudamos mais até eu me despedir de você no aeroporto, na ala internacional cheia de espaço e mesmo assim tão pequena para um abraço que quer guardar o mundo e parar o tempo.

Isso quer dizer que daqui a algumas semanas, vai completar um ano desde que nos vimos pela última vez. Desde que você partiu, deixando o coração pleno e o apartamento vazio. Mas, neste tempo que se passou, o silêncio, antes ensurdecedor, se tornou acolhedor. Mantenho a postura altiva como alguém que sempre tem certeza de suas decisões, mesmo quando não tem. Continuo comprando flores e assando bolos e fazendo chá, aquecendo os espaços todos agora já, aos poucos, sendo novamente ocupados.

Se esta história tivesse sido vivida há cem anos e não um, de tempos em tempos chegaria uma carta sua amarelada escrita à mão, na sua letra firme e apertadinha; com novidades de outras terras, cheiro de leveza e barulho de sorriso. Mas hoje o carteiro só bate aqui para deixar encomendas.

amores bem passados e um coração ainda cru

Vênus retrógrado não trouxe amor do passado, mas trouxe muitas lembranças de amores já ultrapassados (há mais de vinte anos), e acho curioso relembrar de como eu era uma romântica incorrigível antes mesmo de ter chegado à puberdade. Tocou uma música na rádio e eu fiquei cantarolando o resto da semana seguinte, que ‘quem sabe o príncipe virou um chato que vive dando no meu saco, quem sabe a vida é não sonhar‘. Aos dez anos eu era essa garotinha que assistia “Malhação”, em que havia uma personagem com essa música de tema, e eu era sim essa menina que pedia a deus um pouco de malandragem (acho que fui até pouco tempo atrás, aliás). Na sexta série eu dava aulas particulares de história para o garoto mais popular da turma, que era bagunceiro e valentão, mas comigo era doce e gentil e eu enxergava lá naqueles olhos qualquer coisa de frágil, qualquer coisa de vulnerável, qualquer coisa de triste – no melhor estilo comédia romântica americana em que o príncipe do baile se apaixona pela garota nerd e desajeitada. Acontece que ele não se apaixonou, nada nunca aconteceu entre a gente, e ainda assim ele foi uma das lembranças do passado que me voltou num sonho vívido que pareceu ter durado a noite toda (porém, como inception já nos ensinou, deve ter sido coisa de minutos). E no sonho a gente se reencontrava já adultos ali perto do colégio e a gente finalmente vivia um romance divertido e leve, como todos os romances devem ser. Acordei mexida e fiquei pensando nisso o dia todo, mesmo tendo quase certeza de que ele se tornou apenas uma versão hipertrofiada do garoto meio truculento que ele já era naquela época, e de que nada nunca jamais aconteceria hoje, como já não aconteceu em 1997. A vida tem dessas.

 

vênus retrógrado traz amor do passado

Reunião pelo Skype com meu chefe na Inglaterra, um colega na Alemanha e eu aqui no Brasil, todos remotamente sorridentes de seus respectivos cantos do mundo em três fuso-horários diferentes – de todas as invencionices dos Jetsons, aquele “telefone” que na verdade era uma tela em que dava pra ver a outra pessoa sempre foi minha favorita. Como foi que chegamos até aqui?, pensei. Nós já somos o futuro.

Terapia pra discutir o fato de sofrer sexismo de potenciais clientes e um assédio grave na época em que eu ainda era estagiária. Almoço sozinha no meu restaurante japonês favorito. Discutir fundos de investimento com meu novo gerente do banco e ter à mão comprovante de residência no meu nome, declaração de imposto de renda e patrimônio (um fusca 1975). Como foi que chegamos até aqui?

Quando tanto já aconteceu, mas de alguma forma parece que fui pinçada dos meus 25 para os 32 e me reconheci adulta numa quinta-feira morna de março. Com a idade das minhas heroínas de outrora (os 32 de Carrie na primeira temporada de ‘sex and the city’, os 32 de Bridget Jones no primeiro filme). Com a vida que sempre sonhei para mim, e ainda assim me sentindo vazia às vezes. Como foi que chegamos até aqui?

Há dois anos meu horóscopo está me alertando sobre um tal ‘amor do passado’ que pode voltar a qualquer momento, e eu sempre ansiosa pensando se ele vai me trombar na esquina quando vou pra padaria descabelada e de óculos, com o pijama escondido debaixo do casaco – mas torcendo para que ele me veja num dia em que eu me sinta bonita, e esteja de vestido rodado e blazer num encontro com um moço de olhos verdes e sorriso gentil. Mas nós nunca mais nos trombamos. E na maioria das vezes eu estou descabelada correndo pela calçada atrasada. Como foi que chegamos até aqui?

o dia em que eu matei minha planta da felicidade mesmo estando tão feliz

Foi seu aniversário num dia dez, e o Facebook não me lembrou mas eu lembrava porque jamais conseguiria esquecer. Mandei mensagem e você disse ter ficado feliz com a lembrança, que deixou seu “coração quentinho”. Mesmo distante, você ainda me faz sorrir com a menor das coisas, a maior das coisas. Outro dia li uma matéria numa revista feminina sobre amores breves que mudaram tudo e não tinha como não pensar em você, que foi tudo isso exatamente por ter sido ‘apenas’ isso: foi a brevidade que catalizou tudo, e foi tão especial exatamente porque só veio para chacoalhar o que precisava ser transformado. Se fosse ‘pra sempre’, talvez se afundasse mais pra frente em briguinhas bobas por ciúmes, em discussões por conta da toalha em cima da cama ou da conta de luz paga com atraso. Que bom que foi assim, tão certo e tão certeiro. Que bom.

Quando eu recebi a notícia do emprego novo, aguardada há mais de um ano, eu fiquei em estado de êxtase, meio paralisada. Depois uma música tocou na playlist e ela falava sobre se sentir no topo do mundo, e eu fiquei chorando compulsivamente de soluçar por um tempo que pareceu de horas mas deve ter sido de minutos. Foi uma viagem tão longa até aqui. 

Aí chegou carnaval e purpurina em todos os cantos, e beijei outros beijos e provei outros gostos, e uns foram bons e outros nem tanto, mas é vida que segue, com brilho no olho e no corpo e amanhã tudo voltando ao normal. E no último dia, voltando pra casa, choveu demais, daquelas chuvas torrenciais. E eu me deixei molhar. Eu quis me molhar. Era fim de tarde e eu era a única pessoa descendo a Rebouças a pé debaixo de tempestade, encharcando minha saia de tule e chutando a água das calçadas. Dançando na chuva, lavando a alma. Feliz, feliz. Cheguei em casa ensopada das águas de março que vieram para fechar o verão. E as promessas de vida, tão plenas e vivas, continuam aqui: no coração.


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