e vem chegando a primavera

Um dia antes do início da primavera, me dei conta de que esse seria nosso 5o aniversário de casamento, se de fato a gente tivesse se casado conforme havia programado. A gente tinha escolhido essa data porque era nosso aniversário de namoro e o início da primavera – naquela analogia trivial porém sempre bonita de algo que ‘floresce’. Porém, não houve casamento nem nada e, neste ano, que seria o tal quinto-aniversário-de-casamento; na verdade era aniversário do meu atual romance, e ele vinha para jantar. Enquanto eu amarrava o avental e confabulava no cardápio e preparava a sobremesa com velinha para assoprar; pensei nas voltas que o mundo dá. Dois bolos completamente diferentes e ainda assim mil motivos para comemorar. Um sopro.

Nosso futuro recomeça.

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histórias que só existem quando lembradas

Amor número 1 que me aparece nos sonhos mais pertinentes em noites abafadas de um inverno que não invernou; e nas histórias contadas aleatoriamente em que puxa um assunto e outro em que ele sempre está presente de alguma forma, num pedaço de vida que já foi pouco mais de um terço de anos vividos e hoje já é quase um quinto quanto mais me afasto desta lembrança. Eu cantando a plenos pulmões uma música cafona que diz que “não posso viver se viver for sem você” enquanto lavo a louça. Amor número 3 numa região geográfica atingida por um furacão e que me manda um vídeo sobre como seria o planeta Terra se a gente não existisse. O som do seu sorriso ao despertar. Seus olhos de verde-mar. Philip Glass tocando de fundo num outro cômodo enquanto acendo um incenso. Amor número 2 nunca me volta em lembrança alguma e é quase como se nunca tivesse existido, tirando o fato de que existiu sim e foi minha última dor de amor bem doída, de ficar indo ao banheiro no meio do expediente para poder chorar em paz no escuro. Não existe amor atual, apenas um ou outro relance de romance para deixar o coração batendo mais rápido vez ou outra. Se não houvesse vestígios de amores já vividos ainda permeando alguns cantos solitários do passado, como contaríamos nossa história?

um mês com mais semanas do que dias

Descobri o peso de ser adulta num ano em que nos encontros com meus amigos, as conversas não são mais sobre o atual paquera, o novo filme do woody allen, a próxima viagem, o livro do saramago ou a exposição do tomie ohtake: agora os assuntos giram em torno de relacionamentos abusivos nos casais tão próximos, divórcio por conta de problemas financeiros, dinheiro guardado para fazer fertilização in vitro, diagnósticos de câncer na família, abortos espontâneos, desemprego e empréstimos no banco, acidentes de carro. Eu não sei como chegamos até aqui, só sei que tudo isso me deixa sem ar muitas vezes, como se tivesse carregando o mundo em minha costas e uma mão na boca me impedisse de falar ou respirar. Não queria que fosse assim.

Tem uma esquina do mundo onde os sorrisos e choros se encontram e ela agora é a quina da minha cama num domingo cinzento da 42a semana de julho. Eu não procuro os amores líquidos e eles não mais me encontram. Me sinto só. Assisto a histórias sobre mil coisas e mergulho na compreensão de um mundo que não era meu até ontem mas agora é, um pouco.

E, numa noite de domingo cansado, poder sair para jantar com a minha família para comemorar uma história que começou há 42 anos, ter um flerte correspondido, comer mousse de chocolate em colheradas fartas sem contar calorias e me permitir rir de forma sincera pela primeira vez em muitos dias é como abrir uma janela de frente pro mar, e poder enfim respirar.

Pena que hoje já é segunda-feira, de novo. E ainda é julho.

o limbo dos souvenirs de amores partidos

E dentre as muitas coisas que perdemos com o fim de um relacionamento, tem as músicas e os lugares e os poemas e os romances todos que podiam até ser muito meus antes de te conhecer; mas eu emprestei pra gente usar na primeira pessoa do plural e eles se metamorfosearam em qualquer outra coisa que não é mais só minha nem só sua; e depois que a gente termina também não é mais nossa, e cai no limbo de todos os souvenirs de relacionamentos já fin(d)ados.

Meu restaurante francês que era favorito até meu melhor amigo trombar com meu amor passado acompanhado de sua nova namorada. Uma música que eu amava e hoje lembra saudade porque quando eu era metade de um casal ela fazia sorrir e fazia sentido, o-mundo-anda-tão-complicado-que-hoje-eu-quero-fazer-tudo-por-você. Uma sobremesa que hoje já não é mais tão especial porque não tem alguém do outro lado para pedir “uma só mas com duas colheres para dividir”. Um perfume que nunca mais será apenas um perfume qualquer de um estranho que me cruzou na rua – ele será sempre um cheiro de memória de um amor muito amado que vestia apressado a camiseta após o banho pela manhã, inebriando o quarto inteiro. As músicas agora sem dono, o perfume contaminado com o som de um sorriso, uma sobremesa nunca mais provada. Para onde devem ir todos os objetos inanimados quando o amor não é mais amado?

cheiro de novo

A gente namorou num mundo pré-netflix smartphone whatsapp facebook tinder, no que hoje parece ter sido a era paleolítica – e eu aqui me perguntando, o que teria sido diferente? Se ao invés de ter me apaixonado platonicamente cruzando o corredor da faculdade a gente tivesse se visto numa foto para apertar coração ou não, a gente teria se amado então? 

Assombrada por fantasmas dentro da minha própria casa, da roupa seca estendida no varal há dez dias porque ainda não encontrei cinco minutos de vontade para recolher. Ou do lixo para retirar, acumulando ali num canto descuidado da cozinha. Ou da bagunça na mesa de jantar, com caixas e livros e recibos e pedidos de exame médico – aqui dentro as coisas não estão muito diferentes disso.

Bem no dia em que eu me esqueci de passar perfume, reencontrei alguém que não via há tantos anos. E fiquei chateada quando me dei conta disso, porque de alguma forma eu queria que ele tivesse sentido que até meu cheiro mudou desde aquela época. Até meu cheiro. Haja desencontro.

amores fragmentados

Uma paixão-relâmpago que aconteceu pontualmente em alguns momentos do ano passado retomada com vontade num sábado embriagado, e que se desenrolou exatamente como era para ter sido: sem ser. Beijos trocados com muito afeto e pouca afinidade numa noite fria de quarta-feira em que saí para comprar chá, e a mensagem com declaração de amor que eu nunca mais respondi – eu não sentia o mesmo. Um romance-que-poderia-ter-sido-e-não-foi há mais de dez anos me esperando por acaso no terminal do desembarque do aeroporto do outro lado do atlântico. Tanto aconteceu na minha vida desde aquela época, e na dele. E mesmo assim nos reconectamos, e trocamos impressões sobre diversos assuntos enquanto caminhávamos entre as obras do museu do prado, ou divagando pelas ruas barcelonenses num domingo à noite procurando a melhor pizza da cidade enquanto acontecia uma final de futebol na tevê. E é naquela qualquer coisa de triste dos olhos dele que se encontraram com o que havia de qualquer coisa de triste nos meus que nos sentimos à vontade para desabafar nossas vulnerabilidades; e eu passei um bom tempo das semanas seguintes pensando nas voltas que o mundo dá e como, inesperadamente, podemos reencontrar um pedaço nosso que se partiu há tanto tempo. No meu celular piscam mensagens de amores líquidos novos e antigos e aquela angústia que não cessa num vazio que não cansa. Eu ainda não sei recusar um convite porque tenho uma vontade que acredito ser genuína de fazer as coisas, mas já deveria ter aprendido que não é – já que sempre desmarco na última hora e deixo as pessoas ao redor desapontadas. Nota mental: eu deveria ser mais adulta. Machuco os outros sem me dar conta, e numa terça à noite chuvosa de junho eu cancelei três programas porque preferi ficar em casa sozinha lendo. Não tem comida para o jantar. 

aeronaves seguem pousando sem você desembarcar

Está fazendo um ano desde aquele dia de abril em que eu tive uma reunião perto da sua casa, e nós vivemos uma tarde de amor apaixonado como a gente acha que só existem nos filmes – você, meu romance da vida real. Era uma segunda quente e mesmo assim você me serviu café, e sentou no sofá da sala com seu violão, caetaneando o que há de bom. Eu fui de lá direto para a aula de balé e depois não nos desgrudamos mais até eu me despedir de você no aeroporto, na ala internacional cheia de espaço e mesmo assim tão pequena para um abraço que quer guardar o mundo e parar o tempo.

Isso quer dizer que daqui a algumas semanas, vai completar um ano desde que nos vimos pela última vez. Desde que você partiu, deixando o coração pleno e o apartamento vazio. Mas, neste tempo que se passou, o silêncio, antes ensurdecedor, se tornou acolhedor. Mantenho a postura altiva como alguém que sempre tem certeza de suas decisões, mesmo quando não tem. Continuo comprando flores e assando bolos e fazendo chá, aquecendo os espaços todos agora já, aos poucos, sendo novamente ocupados.

Se esta história tivesse sido vivida há cem anos e não um, de tempos em tempos chegaria uma carta sua amarelada escrita à mão, na sua letra firme e apertadinha; com novidades de outras terras, cheiro de leveza e barulho de sorriso. Mas hoje o carteiro só bate aqui para deixar encomendas.


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