a vida não pára

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma. Uma cirurgia de um familiar pouco próximo. Até quando o corpo pede um pouco mais de alma. Um diagnóstico assustador de um familiar muito próximo. E talvez de outro. Choro angustiado, respira pela barriga, um-dois, um-dois. Decidem fechar nosso escritório; e num susto não há mais emprego, num fôlego toda a vida que eu conhecia como tão minha tem de ser completamente reformulada. Enquanto o tempo acelera e pede pressa. Meu contrato de aluguel vai vencer, minha companheira de apartamento vai partir, preciso comprar um sofá. Eu finjo ter paciência. Meu irmão bateu o carro e ele está bem mas foi perda total e ele poderia ter morrido ou matado alguém. A vida é tão rara, tão rara.

Em pouco mais de 40 dias eu chorei tudo o que não havia chorado em um ano inteiro.

***

– Desculpa o sumiço, tive uma semana muito difícil.

– Espero que esteja tudo bem.

– Não ta, mas vai ficar.

Mas vai ficar.

 

 

cheiro de chuva

É curioso quando sua vida muda muito e muito rápido em diferentes esferas; e você olha para trás para lembrar um evento que aconteceu há pouco mais de um mês e hoje parece tão, mas tão distante. E como tudo estava tão bem, tão em seu devido lugar, com uma serenidade que você quase podia tocar. E você se lembra de como se sentia tão leve e feliz. E pensa que mal sabia que, dentro de alguns dias, tudo estaria diferente. Como se, na verdade, aquela leveza toda fosse apenas o cheiro úmido que fica no ar, antecipando uma tempestade. 

Agora a terra está molhada e ainda cheira a chuva. Mas é apenas anunciando fertilidade. Novos começos florescendo.

 

um prédio assinado com vista pro viaduto do chá

– Meu Natal já começou torto porque eu tava distraído com os fones e peguei a linha vermelha pro sentido contrário; quando percebi já tinha passado algumas estações…! Em vez de ir pro interior ver meus pais, quase vou pra Itaquera haha
– Hahaha daria uma boa introdução para um filme natalino, vai: pegar o trem errado, trombar com alguém, começar uma história…
– Pensei nisso também.

***

– Você já está de volta a SP?
– To entrando na cidade agora. E você?
– To no avião pra Bogotá.
– Caramba, quanto desencontro!
– Pensei nisso também.

***

Não fui eu que tomei o metrô por engano, mas poderia ter sido. Eu, que deixo cair doce de leite no cabelo e fico com uma mecha melecada grudada na bochecha enquanto estou folheando uma revista de moda, e as páginas ficam com manchas das minhas digitais. Eu, que sempre pego a fila errada do caixa e colo meus dedos com superbonder todas as vezes em que tento consertar algo; e tropeço no degrau da mercearia com um picolé de frutas que voa pro outro lado da calçada, e toda semana quico minha perna num lugar diferente e não sei deonde vêm meus roxos tampouco meu coração aflito; e quando você me disse que seu arquiteto favorito era o mesmo que o meu, por um breve momento eu pensei que se a gente der certo e ficar junto a gente pode morar num “prédio assinado” no centro, aquele projetado pelo arquiteto-que-não-era-arquiteto e que tem um jardim no meio e nome de princesa da Disney. “Pensei nisso também”, te imaginei dizendo.

“relaxe – nada está sob controle”

No dia do tal furacão, eu dormi na casa dos meus pais. Voltei pra minha casa no sábado no fim do dia, querendo derreter em frente à tevê – comecei a selecionar todos os programas para ver, enlouquecidamente. E, na metade do primeiro filme, acabou a luz. Liguei na companhia de energia e me informaram que ficaria assim pelo menos pelas próximas quatro horas. Suspiro.

Conformada, peguei algumas velas, o livro que estou lendo no momento e me encaixei na poltrona. E assim fiquei até pegar no sono, esgotada. A grande epifania/lição do dia foi que de nada adianta fazermos mil planos para mil coisas, quando nada de fato está sob nosso controle. A energia acaba, doenças aparecem, escritórios fecham, relacionamentos terminam. Coisas acontecem. A vida acontece. Tudo está em movimento o tempo todo, nada está sob controle. A única coisa que conseguimos controlar é como vamos reagir ao que nos atinge. Melhor que seja de bem. Tudo zen, meu bem. A força vem de dentro.


(a frase do título é de um aplicativo de meditação que eu uso, que ao longo do dia me manda alertas com alguns lembretes – esse é um dos meus favoritos)

um furacão

Eu estava num sobrado. No tal contexto, aquela era a minha casa. Então eu estava no andar de cima, e olhava pelo vão da escada o andar de baixo. Um furacão. Arrasando tudo. A minha casa, as minhas coisas. Um tufão, destruindo todos os cantos, arrastando tudo que encontrava pelo caminho. Rápido, um pesadelo. Quando ele se foi, me vi ajoelhada juntando os pedaços. De saia listrada, de joelhos, catando os cacos. Olhando para o que havia em minhas mãos: fragmentos de algo que um dia foi um todo, que um dia foi meu. Acordei.

***

Não precisa ser nenhum expert em mensagens subliminares de sonhos para entender que o que eu sonhei essa noite é uma mensagem do meu inconsciente materializando como está minha vida, que virou do avesso nos últimos dias. Voltando um pouco a fita, teve a virada de ano numa viagem incrível com amigos, e depois mais uns dias na praia com a minha mãe. No último dia, passei o fim de tarde olhando pro mar. “Tudo em seu devido lugar“‘, eu pensava. Me lembrando da Nathalia aos 17, que sentava olhando pro mesmo mar e sonhando com o futuro, cheia de angústias e ansiedades e borboletas no estômago.

Uma vida se passou desde esses 17 anos; e percebi que agora, aos 31, havia tido poucas ocasiões em que me senti tão plena e realizada. Tão abençoada, tão sortuda. Tão feliz. Dessa vez, com o mar no horizonte, queria mentalizar o que esperava pro meu ano; mas estava tão inundada por essa plenitude que não conseguia materializar nada. Via as ondas quebrando na areia e apenas recitava mentalmente Caio, “relaxa baby, e flui: barquinho na correnteza, deus dará“.

No dia seguinte, muito do que eu conhecia como meu mundo nos últimos dois ou três anos já não existia mais. Um choque, um abraço, choro contido. Decisões que fogem ao nosso controle. Raiva, descaso, abandono, medo do futuro. Luto. Não é a primeira vez, mas é a primeira que acontece com um emprego que eu realmente amava e no qual me sentia tão realizada. Um 2016 que começou auspicioso e cheio de pequenas boas surpresas, agora só apresenta incertezas. Mas de tombos eu entendo bem: agora é levantar, erguer, seguir e recomeçar. Como a Fênix aqui dentro nunca deixa a gente esquecer: apontar pra fé e remar.

dois mil e cresça

2015, para mim, não foi um ano traumático – e isso parece ser mais do que muita gente pode dizer, infelizmente. Mas foi sim um ano difícil, de Saturno em Sagitário cobrando objetividade nos propósitos e disciplina nas rotinas. Foi um ano duro, de grandes provas e avaliações, reflexões e resiliência. De mediar conflitos, ponderar, trazer sensatez. Ano de olhar pra dentro, de não reagir aos sentimentos pequenos do outro e sempre responder com generosidade, onde-houver-desespero-que-eu-leve-esperança. De aprender um monte sobre quem sou e quem quero ser, onde estou e onde quero estar, aonde cheguei e aonde ainda quero chegar. De vencer provas e desafios com muita inspiração e transpiração, muita respiração e perdão. Mas teve sonhos realizados, também. Em 2004, num momento de sonhar em voz alta com uma amiga, imaginamos uma vida para nós dali a uns anos. No meu aniversário, me dei conta de que este devaneio, na vida real, me veio ainda maior e melhor do que eu havia imaginado – e esse foi meu grande presente deste dia para os 31.

Das muitas buscas cotidianas, agora estou num momento tranquilo e de aproveitar a jornada e as descobertas que isso me traz – e essa leveza é tão reconfortante e tão mais do que eu senti ao longo de muitos meses que eu queria que ela tivesse vindo para ficar. Ainda preciso aprender mais, muito mais – a me cuidar, a desapegar, a seguir, a brigar. De 2015 fica a certeza de estar trilhando o caminho no qual acredito, e a espera de 2016 vir mais suave mas ainda surpreendente e desafiador, como um bom professor. Veremos.

e era simples, ficamos fortes

Numa música que tocou e lembrou você e eu pensando quem será que você é hoje, você que eu nunca mais vi ouvi beijei senti cheirei? Em nossos caminhos que nunca mais se cruzaram e seus presentes que eu doei (quase) todos e em como eu continuo matando todas as plantas e até o cacto – terá morrido seu gato? Das histórias de amor com começo-meio-fim a nossa foi a mais bonita pra mim. E a gente era ainda tão cru e tão jovem e eu às vezes me pego pensando como é que a gente sabia tanto sobre amor e sobre amar. Em como foi tudo tão orgânico e natural mesmo tendo sido eu a te apertar na parede porque você simplesmente não me notava e eu vivia(vivo) com essa mania besta de paixões platônica e se-fiquei-esperando-meu-amor-passar.

Quando a gente se separou e meu coração foi dilacerado, eu queria ficar bem e pegava no sono sonhando com uma vida incrível e me imaginava dali a uns anos essa balzaca muito bem-sucedida e viajada morando nos Jardins e trombando com você na fila do pão e concluindo que “nossa minha vida está muito boa sim, que bom te ver, te cuida beijos”. Hoje eu sou essa pessoa e minha vida está ótima mas eu nunca te encontrei na padaria. 


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