um pé de ipê na calçada e um sabiá laranjeira na janela

Acordo todos os dias antes das seis com os pássaros cantando perto da minha janela. Aos poucos tudo vai se abrindo – meus olhos, os dias, os caminhos, as posturas na yoga, as flores da primavera. Ando pelas ruas olhando todas as árvores e encantada com tanta flor desabrochando, de um setembro que chegou para empurrar pra longe todas as nuvens carregadas que pairavam neste céu. Sábado estava chegando em casa e um casal me abordou para contar que eram da associação de árvores do bairro e que saem aos finais de semana plantando “árvores nobres” nas ruas e se poderiam fazer o mesmo debaixo da minha janela. Me senti como se alguém estivesse me pedindo permissão para me dar um presente…? “Tem gente que não gosta, dizem que faz sujeira, os passarinhos incomodam…” Fiquei meio chocada pensando que o mundo se divide entre pessoas que acham a natureza um espetáculo e outras que acham um incômodo.

Numa quinta-feira em que passei a manhã colhendo amoras no quintal, fiquei o dia todo com os dedos roxos e não cabulei a terapia; eu comecei a chorar enquanto fazia meu almoço porque pouco antes disso estava combinando de reencontrar um amor pausado há seis anos durante uma viagem e tocou mmmbop na playlist de pop dos anos 90 e eu me lembrei da garota que eu era aos 13 ouvindo essa música olhando para o desenho que as nuvens fazem no céu deitada na cama do quarto sonhando com uma vida que é a minha hoje e foi um longo caminho mas eu cheguei até aqui e a Nathalia de 13 anos ficaria orgulhosa. E agora eu tenho até uma árvore. 

apesar de você

Uma quarta-feira que amanheceu cinza e chuvosa no 89º dia de agosto, este mês que não tem fim. Em que uma decisão política deixou meu coração mais partido que o último fora que eu tomei. Em que meus dois cortes, no dedão e no indicador, estão ainda cicatrizando após o encontro com a navalha afiada da faca nova que eu usava para cortar legumes. Sangrou demais. Eu tenho sangrado demais. Um dia de montanha-russa emocional, de altos muitos altos e baixos muito baixos. Em que os altos foram repletos de amor em reação à minha última (e mais querida) cartinha. E os baixos foram de frustração de ver alguém em quem eu confiava se aproveitando de um momento meu de fragilidade para ter uma atitude oportunista e trair minha confiança. O mundo é bão, Sebastião. O mundo é cão, Sebastião. O mundo é seu.

Troco emails com uma amiga sobre nos reconhecermos adultas e nos sentirmos finalmente responsáveis pela nossa trajetória. Estou animada e ansiosa com perspectivas profissionais, tentando confiar o futuro ao futuro, mas descontando tudo no chocolate e numa autoestima machucada. Percebi que vou perder uma batalha, mas no fim do dia quero apenas acreditar que fiz o que era certo e fui verdadeira com meus valores. “Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”, que minha amiga compartilhou, fica retumbando na minha cabeça, para lembrar que é bom ser do bem; e melhor perder se isso significa não prejudicar ninguém. Tanto mundo no mundo para nos desafiar, tanta razão para desacreditar. E tanto motivo para continuar, também. Sempre há. Amém.

vida invertida

Era um dia como todos os outros, um dia como nenhum outro. Um sábado de sol, eu visitando a minha família. Aqueles dias em que tudo parece fluir, todas as atividades estavam seguindo sem maiores complicações – fazer as unhas, cozinhar o almoço, passar na loja de construção para comprar varal e vela para o filtro de barro. Dançar Fagner na cozinha com meus pais após o café. Buscar meu irmão para jantar com a gente, pedir pizza e não poder beber vinho porque eu iria dirigir de volta pra casa mas tudo bem, ta tudo certo. Atualizar os fatos da vida, comer portuguesa sem ervilhas. Na Radial Leste meio livre de um sábado à noite, cantar sozinha no volante voltando pra casa, acappella, porque meu carro tem mais de 40 anos mas não tem rádio. Cruzar todos os sinais abertos na Consolação. Absolutamente todos, um fato inédito. Me sentindo muito feliz e confiante e… pá. Não consegui frear a tempo e em câmera lenta tudo veio pra frente – o banco de trás, o suporte de apoio, a sacola cheia de roupas que eu havia lavado na casa da minha mãe porque ainda não consegui comprar uma máquina. O barulho. A dois quarteirões de casa, os jovens todos muito jovens no bar da esquina. Um outro carro, um pai dirigindo, uma mãe no banco de trás acalmando uma filha muito assustada e chorando. O barulho. Ninguém se machucou, troca telefone, placa, sim eu não tenho seguro mas vou pagar fica tranquilo não consegui frear a tempo foi minha culpa me desculpa. Parei no estacionamento, meu para-choque todo amassado, tinta descascada, capô amassado. Falei com minha mãe, meu irmão me ligou para me acalmar, eu chorando de soluçar, indo até o mercado da esquina comprar páprica para o brunch que faria no dia seguinte para a minha amiga. Muito assustada, querendo alguém para me abraçar e dizer que vai ficar tudo bem, ta tudo certo. Mas eu moro sozinha – não havia mais ninguém além de mim, naquele apartamento muitas vezes muito grande para uma pessoa só. Uma só pessoa.

Dez da noite e eu na padaria com os olhos vermelhos e inchados pedindo 100g de presunto e o atendente que sempre me dá uma fatia de cortesia teve a sensibilidade de me ver fragilizada e não falou nada nem me ofereceu e eu silenciosamente agradeci que ele não tenha perguntado o que houve. Voltei pra casa e tomei uma dose de uísque, duas. Ninguém se machucou. Terei que gastar um dinheiro que não poderia gastar agora estando desempregada mas ninguém se machucou. Poderia ter sido pior. Sempre pode. Eu estava num dia ótimo e passei o resto da semana indo a reuniões meio anestesiada e fragilizada porque ninguém se machucou mas eu poderia ter morrido ou matado alguém. O sol só voltou a sair no outro sábado.

na minha playlist só toca chet baker

Dia desses fui coar o café e o cheiro me lembrou da nossa hora favorita do dia. Eu moendo os grãos quando havia grãos e espalhando um monte de pó na bancada, porque sou desastrada e precisão não é meu forte. E aquele cheiro tomando a cozinha, sem o som do seu sorriso ao fundo. Você não está mais aqui. A mesa de jantar precisando de calço, outros cinco lugares vazios, ninguém sentado à minha frente para refletir o sol da manhã nos seus olhos e ser emoldurado pelas duas pombinhas de origami que eu fiz na parede. Você não está mais aqui. O chão de tacos coberto por dois tapetes gráficos para aquecer uma casa que se tornou muito grande e muito fria para uma pessoa só e um coração cheio de saudade. Você não está mais aqui. 

Abro todas as janelas para deixar o ar fresco de uma manhã ensolarada de inverno tomar a casa. Fico acompanhando o movimento da luz do sol ao redor do apartamento ao longo do dia, banhando cada hora um cômodo diferente. Você não está mais aqui. Esqueci de tirar o frango para descongelar na noite anterior, e vou ter que almoçar omelete, como quase sempre acontece. Você não está mais aqui. 

(…) Quando voltei de viagem, havia flores murchas nos vasos espalhados por vários cantos; e uma louça excessivamente seca na pia. Você não está mais aqui. Fui comprar pão na padaria e na tevê do boteco da esquina o Datena falava sobre um atentado na França e meu coração parou e eu só conseguia pensar em você e voltei correndo pra casa para ver o que havia acontecido e voei os degraus que pareciam infinitos dos dois andares até o quinto apartamento do predinho-antigo-que-não-tem-elevador e me deixou ainda mais sem fôlego até eu ver que foi em Nice e não em Paris e te mandei uma mensagem que você viu mas não respondeu mas eu soube que estava tudo bem porque você nunca foi bom em responder mensagens, e finalmente pude respirar novamente. De alguma forma, você ainda está aqui.

mais um drops

Queridos, amanhã tem início um projeto meu que foi bastante pensado e querido: o lançamento de uma newsletter pessoal, em que pretendo compartilhar um pouco do meu mundo. Apesar de ter também reflexões mundanas, o conteúdo vai ser um pouco diferente aqui do blog: nesta cartinha semanal, além dessas aventuras imaginativas, momentos de vulnerabilidade e polianices cotidianas; também pretendo compartilhar dicas mais práticas e pequenos truques que fazem parte do meu dia-a-dia, ajudando a tornar tudo mais leve e bonito – pode ser uma receita fácil e gostosa, um penteado descomplicado, um DIY rapidinho para deixar a decoração mais divertida, um livro que me fez repensar uma questão, uma música para animar a segunda-feira ou uma ideia de sobreposição de roupas para o inverno.

Estou fazendo tudo com muito carinho e amanhã será enviada a primeira. Estão todos convidados a se inscrever (aconselho a checarem sua caixa de spam depois, porque às vezes o email de confirmação vai parar lá.) Vou adorar ter vocês, que me acompanham aqui há pouco ou muito tempo, em mais essa jornada ♡

 

 

sem limite de caracteres

Outro dia estava lendo uma matéria sobre vida profissional e dizia que a primeira pergunta que os coaches fazem é “quando você era criança, o que você queria ser quando crescesse?”. E minha resposta, sem nem pensar duas vezes, foi “escritora!”. Lembro como se fosse hoje as redações cheias de histórias e reviravoltas que eu escrevia, os professores elogiando minha narrativa e imaginação fértil, ser leitora voraz desde muito cedo e a melhor aluna de literatura do colégio, ver meus rabiscos publicados nos jornaizinhos da escola – e a primeira vez que vi um texto meu na Capricho, uma das conquistas mais queridas que tenho até hoje.

Apesar de não me considerar um grande talento, ainda gosto demais de escrever, e de ver a conexão linda que isso cria com as pessoas. Agora, minhas reflexões mundanas também estarão na Central do Textão, endereço de resistência de quem ainda quer usar a blogosfera para publicar um monte de coisas bacanas e que se esparramam por muito mais do que 140 caracteres. Vale pegar uma boa xícara de café e dar uma parada no seu dia para conferir!

Central do Textão

vida aberta, um farol fechado e uma pausa para refletir

– A vida ta aberta pra gente!

É essa frase otimista, de um dos meus melhores amigos, que sempre me vem à mente quando pego uma sequência de faróis com a luz verde. E foi assim num sábado fresco de sol, início do inverno em em São Paulo, quando peguei o fusquinha para ir ao tatuapé ver minha família – todos os sinais abertos, e eu pensando que minha vida estava assim: com caminhos se abrindo. Porém, após uns cinco minutos dirigindo, percebi que o espelhinho do lado do passageiro estava para dentro, porque alguém provavelmente havia empurrado. Só que eu não pegava nenhum sinal fechado para arrumar, e não podia me distrair no meio da Radial Leste para fazê-lo – nem podia trocar de faixa, com receio de acertar um motoboy. Até que, em algum momento, o farol fechou – e foi um alívio! Finalmente consegui acertar o espelhinho e respirar tranquila, checar a maquiagem no retrovisor e voltar ao volante.

E foi então que eu percebi a mensagem que o universo estava tentando me passar: que às vezes precisamos mesmo dessas pausas para ajeitar as coisas, para endireitar o que precisa ser arrumado, para dar um respiro – e só então voltar para uma vida fluida, de vias se abrindo. Uma vida atropelada não tem espaço para a reflexão.

Após alguns meses lutando contra essa ansiedade doida de não conseguir uma recolocação profissional, foi essa epifania mundana que aquietou um pouco meu coração aflito. Para qualquer pessoa, isso pode parecer uma grande bobagem. Mas para mim, que voltei a pegar no volante após um longo inverno, não foi apenas um farol fechado: foi um momento iluminado.