a mágica dos amores correspondidos

Quando eu era bem criança e comecei a rascunhar na minha cabeça as configurações de casais, amor romântico e relacionamentos; eu cheguei à conclusão de que, se você gostasse de uma pessoa, ela automaticamente gostaria de você. E vice-e-versa. Tão simples, amar. “Amor não-correspondido” era algo que eu jamais poderia imaginar que existisse – poxa, as princesas da Disney se apaixonavam pelo príncipe e eles sempre se apaixonavam de volta por elas, quase sempre à primeira vista, não…? Como eu poderia imaginar que existisse outra coisa que não isso?!

Mas essa ideia durou pouco, até minha primeira paixão platônica, aos sete anos (sim). Que durou uns bons anos, judiando desde cedo do meu romantismo e do poder de acreditar no amor.

***

Já uma moça pré-adolescente, me lembro de confessar para minha então melhor amiga tudo isso que eu imaginava antes, no alto da minha ingenuidade de primeira-infância. No que ela riu na minha cara, sarcástica: “hahaha se fosse assim seria fácil, né? pena que não é.” Foi então que entendi que, muitas vezes, você se apaixona por alguém e não é recíproco. E comecei a achar muito mágico duas pessoas se gostarem ao mesmo tempo, neste mundão-de-meu-deus, com bilhões de indivíduos, inúmeras oportunidades e infinitas possibilidades que nos são apresentadas diariamente. Que mágico, amar e ser amado…!

***

Mais de duas décadas se passaram. E, com elas, vieram incontáveis amores não-correspondidos, um punhado de amores bem-vividos e muitos, muitos corações partidos. Hoje, sou uma mulher de 30 anos que tem um emprego legal, paga as próprias contas, viaja sozinha para todo canto, fala quatro línguas, sabe cozinhar e escolher um vinho e fazer baliza e coordenar estampas. Mas ainda continua achando muito mágico amar e ser amada, pela mesma pessoa, ao mesmo tempo. Mágico.

“buscando o amor na prática”

No começo do ano, eu estava prestes a pegar um ônibus para o Rio para rever um amor pausado há mais de sete anos. Assim como eu peguei um trem Londres-Paris em outubro e cruzei o canal da mancha para passar um fim de semana com a então razão do meu afeto. Assim como, há dois anos, eu fui para o Rio passar um feriado e dar chance para um romance. Assim como, numa das vezes na Europa a trabalho, eu realmente cogitei pegar um voo até a fria Alemanha só para reencontrar uma paixão adormecida. Assim como, ao me apaixonar de novo na (e pela) cidade maravilhosa, eu tentei convencer um economista virginiano de que, apesar de seu ceticismo e pragmatismo, dá sim para um amor vencer a ponte-aérea. Assim como em tantas outras vezes eu fiz o que fosse preciso para estar perto de quem eu queria, quando achava que valia a pena.

***

Tirei o “tarô e o amor” há umas duas semanas e as cartas me mostraram que “estou buscando o amor na prática”, mas que as coisas não seriam fáceis, haveria sacrifícios envolvidos. Então relembrei essas histórias todas e me dei conta de que, todos os dias, eu sempre estou disposta a fazer o que for para um grande amor ter um final (ou um meio, o que já é bastante coisa) feliz. Sacrifício para mim seria olhar para trás e ficar imaginando como teria sido se eu tivesse de fato pego aquele ônibus. Porque se uma das partes um dia se arrepender de não ter feito algo, eu realmente espero que não seja eu.

das epifanias cotidianas

Estava na dermatologista por conta de uma alergia nas axilas. Quando ela me perguntou se eu “transpirava muito”, minha reação imediata foi responder:

– Bom, como eu nunca estive em outro corpo, não sei qual seria a referência, mas acho que minha transpiração é normal…?

***

Saí de lá pensando em como isso pode ser usado para tudo na vida. Em como tendemos a pensar que os outros sempre estão mais felizes, mais saudáveis, mais realizados e mais amados do que a gente; quando, na verdade, tudo o que temos de referência e tudo o que sabemos sobre como lidar com o mundo é o que temos dentro de nós mesmos.

Quando um de meus grandes sofrimentos é ficar decepcionada quando as pessoas não agem comigo como eu agiria com elas, é hora de dar um passo para trás e olhar o macro: talvez, este seja o único jeito que essa pessoa conhece.

eu passarinho

Seus olhos verdes continuam mar-sem-fim, mas agora é um mar meio desbotado de fim de tarde, cansado de assobiar ondas e beijar areias pálidas. Seu sorriso me parece desprovido de encanto – ou talvez seja apenas eu, que não sou mais apaixonada por você. Não me leve a mal: o carinho ainda é imenso, e receber qualquer contato seu ainda me produz uma alegria involuntária, e me pego sorrindo à toa, lembrando das suas eloquentes mensagens de bom-dia quando estávamos juntos.

Quando você arregaçou a manga da sua camisa-xadrez-de-festa-junina, eu reconheci as cicatrizes do seu antebraço, aquelas nas quais me perdi tantas vezes, na luz desperdiçada da manhã. Foi neste momento que reencontrei algum traço da paixão avassaladora que me tomou há quase dois anos – “eu já estive aí”, sentenciei a mim mesma.

O tempo passa, as paixões também. Seus braços ainda procuraram os meus, buscando algum conforto. Suas mãos tentavam alcançar as minhas, como se quisessem me convidar para uma valsa que eu não queria mais dançar. Passou, como passam os pássaros buscando novos verões, como passam as estações. Passou.

presente mais-que-perfeito

Quando o passado me voltou como um relâmpago, numa noite fria de sábado, me bateu uma tristeza. Questionei os caminhos e as decisões – as que tomei e as que foram tomadas por mim, e eu não tive escolha a não ser aceitar. Poderia ser eu naquele porta-retrato feliz no aparador, ao lado do gato. Poderia ser eu aquela esposa. Poderia ser eu aquela futura mãe.

Até uma amiga me lembrar que eu só sou hoje a mulher que sempre sonhei ser exatamente por não estar naquele porta-retrato. E eu gosto demais de quem eu me tornei e da vida que tenho para sequer imaginar que eu poderia ser hoje qualquer outra coisa que não isso. Que poderia ser eu aquela que faz graça de algo em que eu acredito muito. Poderia ser eu aquela que compra apartamento na planta e economiza pra passar férias em Miami. Poderia ser eu a estar na outra ponta da polarização política que vivemos ano passado. Poderia ser eu aquela que está hoje ao lado de um homem que um dia eu amei e achei ser pra vida toda, mas que hoje parece não ser nem sombra daquela pessoa que me era tão familiar – e não gosto de quem ele se tornou.

Se libertar do passado e estar em paz com suas escolhas é um processo muito profundo, lento e cheio de cicatrizes a sarar. Vira-e-mexe esse fantasma me volta, para que eu pare por um momento, respire fundo e encare todos os caminhos que me trouxeram até aqui – e faça ajustes na trajetória, caso seja necessário. Fiquei pensando em tudo o que eu vivi neste tempo e tudo que me é tão caro e importante para esboçar uma realidade paralela em que nada disso tivesse acontecido. E aceitei uma vida que levo hoje e que tem sim muitos momentos de angústia, mas que é mais-que-perfeita porque é minha.

***

Quando levantei no dia seguinte, tendo um domingo fresco de sol inteiro nas minhas mãos e com todo o poder de decidir fazer apenas o que eu quisesse com ele, transbordando de possibilidades, a única coisa em que consegui pensar foi “que bom que não era eu naquele porta-retrato.”

últimos românticos

– É muito bom me sentir assim, com você. Quando tou apaixonada, sou a melhor versão de mim mesma. É quando eu me sinto “eu” de verdade.

Eu lhe disse num domingo à tarde, enquanto estava sentada no seu colo, no sofá. Lembro que estava tão feliz que quase podia flutuar – era uma felicidade que explodia aqui dentro e eu precisava verbalizar. Tínhamos passado o dia todo juntos, compartilhando afetos e cumplicidades, e eu realmente estava numa fase radiante. Foi a última vez que me apaixonei, e isso faz mais de um ano. Pouco tempo depois disso, o amor se foi e eu ainda não o reencontrei.

***

Numa tarde chuvosa e gelada de início de inverno em São Paulo, uma amiga me encaminha uma matéria dizendo que é isso aí mesmo, o romantismo acabou, bola pra frente. Enquanto em outra aba tenho email aberto de outra amiga, e lamentamos o sentimento de nulidade pós-amor pós-moderno, em como às vezes nos sentimos descartáveis, quando todos os nossos amores efêmeros e errantes são apenas essa eterna busca por um amor mais sólido e verdadeiro, sem mentiras de conquista e joguinhos traiçoeiros. Somos mulheres de 30 e poucos e nos sentimos deslocadas por ainda acreditar em amor que sacode nossas certezas – estamos na contramão do movimento e, apesar de sermos ainda muito modernas, muitas vezes queremos um amor à moda antiga, não-vivo-sem-você. Mas o tempo em que vivemos é o hoje e acreditar em romantismo é estar fora de moda. Que pena. Até onde sei, amar continua sendo a única maneira da gente sentir que pode conquistar o mundo.

“(…) E ela respondeu: e você que quer. Para onde eu vou, vai-me o coração também, que ainda não arranjei modo de o largar pelo chão. (…)
Tocou na mulher, parou o olhar no dela, que se aquietou expectante como um animal um pouco selvagem apanhado em grande surpresa, e disse-lhe: nunca queira livrar-se do coração. Siga-o.

(…) nunca limites o amor, filho, nunca por preconceito algum limites o amor. O miúdo perguntou: porque dizes isso, pai. O pescador respondeu: porque é o único modo de também tu, um dia, te sentires o dobro do que és.”
(valter hugo mãe, em “como se caísse de um candeeiro”) 

na cinza das horas

“Vai ter que operar”, ele me disse sem a menor cerimônia, como se estivesse dizendo “vai ter que levar guarda-chuva porque vai chover em pontos isolados da cidade”. Eu segurei meu olhos e os comprimi em silêncio, num esforço fora de série para não me derramar toda em lágrimas naquela mesa muito branca e naquela luz muito branca e naquele avental asséptico que tinha uma boca desprovida de sentimentos me falando de cirurgia como se fala de lista de supermercado. Eu nem sabia por onde começar a perguntar, o que eu deveria saber, o que questionar.

Me senti muito só. E eu, sempre muito tagarela e falante pelos cotovelos, passei umas boas horas sem querer falar com ninguém. Mas meu terapeuta insiste que é isso mesmo, que todos estamos sós no mundo e “que bom, não depender de ninguém, saber que se pode tomar as rédeas da própria vida”.

A lâmpada da cozinha queimou e eu tive que arranjar o mínimo pra comer no escuro, usando a lanterna do celular. Eu vi o moço dos meus sonhos numa praia semi-deserta da Bahia, mas ele nunca mais voltou. A tira do meu chinelo-que-não-solta-tiras estourou no último dia de viagem, assim como a alça da minha mala. Passei muito mal no barco, vontade de vomitar e de morrer em 40 minutos de trajeto que pareceram 40 dias no purgatório. Mas numa rara abertura de sol, ficamos nas piscinas naturais falando de planos pro futuro; e numa noite em que faltou luz, ficamos no bunker falando de amores passados, e esses dois momentos valeram a viagem toda.

Ganhei brigadeiro com cacau do Belém de quem voltou de viagem. E chocolate da amazônia peruana de outro alguém. Tenho uma amiga para falar sobre tudo e nada e a gente se apoia e não tem vergonha de expor nossas fragilidades. Tenho muita sorte. Tenho que resolver muitas burocracias no Detran e coisas que eu queria ter alguém pra resolver pra mim e não tenho, mas tenho alguém pra resolver comigo e isso é muito bom. Agora tenho um carro dez anos mais velho que eu e um medo para apertar no punho e tomar posse. Tenho pesadelos, e neles tenho muita raiva, uma raiva que não sinto no dia a dia – ou não expresso. Estou tentando ser disciplinada, o que exige muita força contra a minha natureza lenta e preguiçosa. Ando lendo Pessoa, ando lendo pessoas. Minha vida é um eterno fazer, desfazer e refazer de planos. O dólar ta caro, o tomate também. Quis curar a baixa autoestima com vestidos lindos que encontrei em promoção. Mudou a estação. Estou planejando as minhas férias, passo um domingo inteiro na cama com bolsa de água quente pra cólica e chá quente pra companhia, comendo chocolate e assistindo seriados ad eternum. Tenho amigos mudando de cidade e de vida, essa nossa infinita busca pelos recomeços. Procurei uma segunda opinião e decidi não operar, escolhi esperar. Tomo um punhado de comprimidos e vitaminas, faço tratamentos. No meio do caminho tinha um fusca e agora ele é meu.

No tocante ao amor, continuo apática. Dia desses, eu e uma amiga descobrimos sair com o mesmo cara – ela no presente, eu num passado muito próximo. Não senti absolutamente nada – achei apenas curioso. Quase nada mais me emociona e, como este não é meu estado natural, (não) sentir isso me dá uma tristeza profunda vezenquando, esse eterno desencanto. Continuo a matar todas as plantas que me cercam – mesmo as mais resistentes -, e penso que amor algum é capaz de existir na seca. Mas continuo a ter medo de chuva.


Blog Stats

  • 137,362 hits

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 61 outros seguidores