num futuro não muito distante

no dia do lançamento do meu livro
alguns amores passados
me pedirão exemplares autografados

será uma noite e tanto
será uma noite toda
com o peito desabrochando flores
com o peito a desaguar amores
com a caneta assinando perdões
com a caneta assinando gratidões
nenhum instante que me escape
tudo que ali me move
tudo que ali que me comove

talvez eu só levante da cadeira
após apagarem as luzes

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quero ouvir uma canção de amor

não sei bem em que dia que voltou, uma nuvem negra apareceu, e tudo se calou. todas as portas, todos os ‘partas’, tudo se abriu, tudo se fechou. “aonde está você agora além de aqui dentro de mim?”

um inverno que nem direito começou, ao fim se encaminha, com pouco frio, seco como um coração endurecido. livros com páginas marcadas e linhas grifadas, pensamentos guardados e sentimentos acolhidos. houve uma vez um verão, eu me lembro. já faz tantos anos, ele disse. faz tantos anos que nem mais parecemos jovens (embora ainda sejamos). um fio de vida esgarçado, um amor aguado até ser diluído para render mais. quando ele me abriu seus braços a gente fez um país; e nessa nação que não existe a gente tinha língua própria e passaporte pronto. ninguém queria partir. e mesmo assim (nos) partimos. não é assim que acontece sempre? assim fomos. nas lembranças criadas e na cartografia inventada, nossos metros quadrados de geografia apropriada viraram um território ocupado de suspiros apaixonados e planos a serem concretizados, um local cheio de futuro e promessas de amanhã; quando acreditamos que tudo pode dar certo, que dessa vez será diferente. riso solto e abraço apertado, mãos dadas ao dormir, dois travesseiros ocupados. quando o silêncio compartilhado é confortável sabemos que encontramos alguém para somar qualquer coisa de contente. nos contentamos. 

 

bem agora,

bem agora, numa quinta-feira fresca às duas e meia da tarde, eu fui ler um texto de poesia pra esquecer de tudo o que tinha para fazer e só pensar em você. bem agora, que a casa do vizinho tem reforma e que eu escuto a britadeira sem parar todos os dias desde sete da manhã, mesmo aos domingos. bem agora, que não chove há mais de cem dias e os ipês têm flores que tomam conta de todas as calçadas. bem agora, que eu resolvi levar mais a sério a carreira que você vislumbrou pra mim há tanto tempo. bem agora, quando vai ter eclipse e marte retrógrado, mercúrio retrógrado, amor que não avança. bem agora, que tem vinho na geladeira e pão no balcão, eu lembrei que você mora tão longe e me deu um aperto no coração. bem agora.

bem agora, onde cabe vírgula e o sol entra oblíquo pela janela da sala. bem agora, quando tantas pessoas vivem suas vidas sem nem saber que você existe, eu sei e me lembro todos os dias. bem agora, quando tudo ainda é tanto mesmo quando não é. bem agora, que me anima descobrir novas possibilidades e planejar novas viagens. bem agora, eu fui lembrar que não te esqueci. bem agora, você não está. bem agora, você ainda é. bem agora. 

 

* inspirado neste texto aqui

segue o seco

numa são paulo da estiagem e que não chove há mais de mês eu encontrei água para desaguar em prantos o luto de um amor que poderia ter sido e não foi. eu respirava tijolos e vertia lágrimas que pouco faziam sentido para quem não compreende que sonhos construídos, ainda que não concretizados, são também chorados quando desmoronados — representam tudo o que queríamos acreditar que era possível, tudo aquilo em que depositamos nossos resquícios de fé e romantismo, nossas migalhas de amor maltratado. assim que recolhemos nossos pedaços e nossos prantos, num clima que ajuda a secar (e esquecer) mais rápido, retomamos a forma anterior sem retomar. acreditamos não ter nos deixado abalar e que resiliência é a virtude dos resistentes, a estrutura molecular dos prósperos de boa vontade e carentes de rancor. assim seguimos e prosseguimos, o sol que seca o sal do rosto e transforma o gosto; para quando, ao que menos esperamos, nos (re)encontramos sorrindo outra vez. respirando e concluindo, ainda há amar. há mar. amar.

segredos de liquidificador

Num domingo em que eu cortava cebolas preparando um prato para o almoço de família para assistirmos juntos à estreia do Brasil na Copa, meu pai ouvia no rádio um programa chamado “Éramos todos jovens” e tocou uma música que um dia ele gravou pra mim. Um dia, uns quinze anos atrás, quando nós também éramos jovens, num desses clichês que dá até vergonha de escrever. Uma dessas músicas descaradamente românticas, cafonas como todas as músicas de amor e sem receio algum de ser. Quando a gente ama a gente até canta Reginaldo Rossi sem achar que é bobagem, porque não é. Bobo é quem tem medo de ser feliz. Ele sempre foi assim, criativo e destemido, algumas das muitas qualidades que eu achava tão bonitas. Ali, cortando cebolas, as lágrimas frias e mecânicas de uma reação química involuntária se misturaram com umas outras quentes (não menos involuntárias) de uma lembrança de um amor tão arrebatador e verdadeiro que um dia eu senti. Numa semana em que eu me dei conta de que, por mais que seja cheia de vontade genuína de amar de novo (e que a vida me traga umas pessoas tão incríveis vez ou outra); há certas coisas que não dá para forçar. Eu chorei porque o rádio cantava um amor beira-de-estrada tão sentido, e porque eu já não era mais capaz de sentir assim, e porque me doía reconhecer que talvez jamais seria de novo. Como se um dia nossas capacidades se esgotassem, cheias de culpa, e o cansaço tomasse conta. E isso é triste demais.

***

Com o passar do tempo, a eloquência afoita das mensagens de quem reconhece uma conexão especial e quer se falar muito e trocar tudo foi se tornando um vazio já tão conhecido, uma tela que não pisca e não denuncia mais nada, mas também não vibra – como um coração exausto que só bate o suficiente para manter-se vivo. Um silêncio espaçado já tão familiar foi tomando conta; e a maior surpresa é que não houve surpresa, nem tristeza. Houve um nada. Um dia, dois, cinco. Sete. Catorze, quinze. Assim é quando os romances novos perdem o sentido. E já nem dói mais. Há uma dormência não-calculada, porém bem-vinda certas vezes, quando reconhecemos já ter sofrido tanto tantas outras vezes que qualquer apatia é sinal de sanidade. Quando não pulsa, não oprime – e às vezes nem sangra. Esse gosto metálico eu conheço tão bem que, mesmo reconhecendo que o ato de sangrar é atestado do que nos torna vivos, a dormência é acolhida com ternura por trazer a não-dor – e uns pedaços que podem ser recolhidos sem estardalhaço, e recolocados em seu lugar. “No peito”, diz a anatomia. 

segunda-feira de maio

quando eu releio links com dicas mirabolantes sobre tudo e sobre nada, explicando detalhadamente todas as referências do novo clipe do donald glover, as narrativas do romance miscigenado do casamento real, os protocolos de vestimenta do baile do met gala, a poesia dos textos pessoais e confessionais de quem ainda tem coragem de se expôr com mais crueza, como melhorar a produtividade se você trabalha em casa, o melhor jeito de requentar um pedaço de pizza (um. pedaço. pra quem mora sozinho. que, curiosamente, já é como faço, intuitivamente. foi com surpresa e certo desapontamento que me dei conta disso – porque me descobri mais sabida do que imaginava, e também porque reconheci que meu pedaço de pizza solitário não ficará melhor reaquecido do que já fica).

as roupas brancas estão secas no varal há muito mais tempo do que qualquer pessoa julgaria razoável para serem recolhidas, e não sei ainda quando serão. mas morar sozinha tem dessas, de reconhecer nossos limites e nessas questões de casa os meus são esses: não há. empurro até onde dá. passo domingos inteiros cozinhando e testando receitas e congelando refeições e separando pedaços de bolo já assados para distribuir, mas limpeza e arrumação: dispenso. odeio.

foi também na prateleira da cozinha que eu esbarrei com o desenho que ele fez de mim durante o jantar. eu nem o vi desenhando, acho que estava distraída ao telefone falando com a minha mãe alguma coisa, juro que não vi e, quando olhei, lá estava eu, desenhada: pronta. de lado, olhos expressivos, cabelos sobre os ombros. me achei tão bonita. ele me diz que estou linda todas as vezes em que nos vemos, mas foi a primeira vez que, de certa foma, me enxerguei através de seus olhos. enfiei aquele guardanapo na bolsa porque como eu poderia não levar aquilo embora? era eu, ali, bonita, desenhada. ele achou graça. não só levei como expus: na prateleira da cozinha. me faz sorrir toda vez que vejo e me lembro. como poderia ter deixado pra trás?

você iria gostar dele, porque ele quer me dar o mundo. de certa forma ele pode me dar um pedaço do mundo porque esse é o trabalho dele. acho que vocês conversariam por horas, porque eu converso por horas com ele e eu conversava por horas com você e o que me une a ambos é uma conexão mágica que começou em abril de anos diferentes e que veio tomando todos os espaços, como o céu abundante de outono, de azul limpo e impositivo. como a luz oblíqua e difusa de outono, cheia de significados e lembranças. o trabalho dele é ganhar os céus e mesmo assim ele tem os pés tão no chão, ele é tão pouco deslumbrado mesmo sendo tão incrível, que sempre me surpreende. como você. mesmo sendo tão diferentes, vocês dois me encantam por motivos tão semelhantes – e acredito que talvez todas as paixões, de certa maneira, venham assim da mesma matriz. outro dia ouvimos legião e eu contei que “giz” era a minha favorita e ele nem percebeu quando cantei que “lá vem, lá vem, lá vem de novo: acho que estou gostando de alguém. e é de ti que não me esquecerei.”; e que num lampejo os dois estiveram presentes no mesmo espaço-tempo ali, naquele quarto que você já ocupou, nos livros que você me deu, na mão que você apertou, nas lembranças que você deixou. e agora havia um novo futuro e ele gostava de me desenhar durante o jantar, quando eu não estava olhando. a vida pode ser tão bonita.

eu tenho o céu de abril pra desentristecer

Outro dia me dei conta que entre amor número 2 e amor número 3 se passaram dois anos – o mesmo tempo que se passou entre amor número 3 e agora. Mas este tempo entre esses dois amores parece que foi tão mais… foi um coração partido tão feio, que depois dele veio uma ânsia aguda de fechar a ferida a todo custo: e com ela veio um sem-número de amores líquidos, tombos e cabeçadas, que fizeram esses dois anos parecerem quase uma década errante, à deriva.

Já o amor 3 deixou no peito a sensação bem-resolvida de amor bem-vivido, e os dois anos que se passaram vieram como um sopro – de espera sem demora, paciente e serena, sabendo aguardar pelo que vale a pena. Foram dois anos tranquilos e sem sofreguidão, ajeitando os cômodos e móveis, buscando sentido e propósito, sem desespero ou aflição. Foi o amor que colocou tudo de volta no lugar e trouxe o que precisava, na hora certa, com mansidão e propriedade, imensidão e poesia.

***

Só hoje, após quatro anos, o amor número 2 fez sentido – e pode, de alguma forma, ser libertado. Amor número 3 seguirá para sempre sendo aquele sobre os quais os filmes são feitos, os livros são escritos, as músicas são cantadas – um tesouro preservado num canto da memória, nuns rabiscos guardados e num lugar precioso que ainda me move e me aconchega. Abril deste ano me trouxe nova surpresa e o desdobrar tem deixado o coração quentinho. Que venha maio. 


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