aeronaves seguem pousando sem você desembarcar

Está fazendo um ano desde aquele dia de abril em que eu tive uma reunião perto da sua casa, e nós vivemos uma tarde de amor apaixonado como a gente acha que só existem nos filmes – você, meu romance da vida real. Era uma segunda quente e mesmo assim você me serviu café, e sentou no sofá da sala com seu violão, caetaneando o que há de bom. Eu fui de lá direto para a aula de balé e depois não nos desgrudamos mais até eu me despedir de você no aeroporto, na ala internacional cheia de espaço e mesmo assim tão pequena para um abraço que quer guardar o mundo e parar o tempo.

Isso quer dizer que daqui a algumas semanas, vai completar um ano desde que nos vimos pela última vez. Desde que você partiu, deixando o coração pleno e o apartamento vazio. Mas, neste tempo que se passou, o silêncio, antes ensurdecedor, se tornou acolhedor. Mantenho a postura altiva como alguém que sempre tem certeza de suas decisões, mesmo quando não tem. Continuo comprando flores e assando bolos e fazendo chá, aquecendo os espaços todos agora já, aos poucos, sendo novamente ocupados.

Se esta história tivesse sido vivida há cem anos e não um, de tempos em tempos chegaria uma carta sua amarelada escrita à mão, na sua letra firme e apertadinha; com novidades de outras terras, cheiro de leveza e barulho de sorriso. Mas hoje o carteiro só bate aqui para deixar encomendas.

amores bem passados e um coração ainda cru

Vênus retrógrado não trouxe amor do passado, mas trouxe muitas lembranças de amores já ultrapassados (há mais de vinte anos), e acho curioso relembrar de como eu era uma romântica incorrigível antes mesmo de ter chegado à puberdade. Tocou uma música na rádio e eu fiquei cantarolando o resto da semana seguinte, que ‘quem sabe o príncipe virou um chato que vive dando no meu saco, quem sabe a vida é não sonhar‘. Aos dez anos eu era essa garotinha que assistia “Malhação”, em que havia uma personagem com essa música de tema, e eu era sim essa menina que pedia a deus um pouco de malandragem (acho que fui até pouco tempo atrás, aliás). Na sexta série eu dava aulas particulares de história para o garoto mais popular da turma, que era bagunceiro e valentão, mas comigo era doce e gentil e eu enxergava lá naqueles olhos qualquer coisa de frágil, qualquer coisa de vulnerável, qualquer coisa de triste – no melhor estilo comédia romântica americana em que o príncipe do baile se apaixona pela garota nerd e desajeitada. Acontece que ele não se apaixonou, nada nunca aconteceu entre a gente, e ainda assim ele foi uma das lembranças do passado que me voltou num sonho vívido que pareceu ter durado a noite toda (porém, como inception já nos ensinou, deve ter sido coisa de minutos). E no sonho a gente se reencontrava já adultos ali perto do colégio e a gente finalmente vivia um romance divertido e leve, como todos os romances devem ser. Acordei mexida e fiquei pensando nisso o dia todo, mesmo tendo quase certeza de que ele se tornou apenas uma versão hipertrofiada do garoto meio truculento que ele já era naquela época, e de que nada nunca jamais aconteceria hoje, como já não aconteceu em 1997. A vida tem dessas.

 

vênus retrógrado traz amor do passado

Reunião pelo Skype com meu chefe na Inglaterra, um colega na Alemanha e eu aqui no Brasil, todos remotamente sorridentes de seus respectivos cantos do mundo em três fuso-horários diferentes – de todas as invencionices dos Jetsons, aquele “telefone” que na verdade era uma tela em que dava pra ver a outra pessoa sempre foi minha favorita. Como foi que chegamos até aqui?, pensei. Nós já somos o futuro.

Terapia pra discutir o fato de sofrer sexismo de potenciais clientes e um assédio grave na época em que eu ainda era estagiária. Almoço sozinha no meu restaurante japonês favorito. Discutir fundos de investimento com meu novo gerente do banco e ter à mão comprovante de residência no meu nome, declaração de imposto de renda e patrimônio (um fusca 1975). Como foi que chegamos até aqui?

Quando tanto já aconteceu, mas de alguma forma parece que fui pinçada dos meus 25 para os 32 e me reconheci adulta numa quinta-feira morna de março. Com a idade das minhas heroínas de outrora (os 32 de Carrie na primeira temporada de ‘sex and the city’, os 32 de Bridget Jones no primeiro filme). Com a vida que sempre sonhei para mim, e ainda assim me sentindo vazia às vezes. Como foi que chegamos até aqui?

Há dois anos meu horóscopo está me alertando sobre um tal ‘amor do passado’ que pode voltar a qualquer momento, e eu sempre ansiosa pensando se ele vai me trombar na esquina quando vou pra padaria descabelada e de óculos, com o pijama escondido debaixo do casaco – mas torcendo para que ele me veja num dia em que eu me sinta bonita, e esteja de vestido rodado e blazer num encontro com um moço de olhos verdes e sorriso gentil. Mas nós nunca mais nos trombamos. E na maioria das vezes eu estou descabelada correndo pela calçada atrasada. Como foi que chegamos até aqui?

o dia em que eu matei minha planta da felicidade mesmo estando tão feliz

Foi seu aniversário num dia dez, e o Facebook não me lembrou mas eu lembrava porque jamais conseguiria esquecer. Mandei mensagem e você disse ter ficado feliz com a lembrança, que deixou seu “coração quentinho”. Mesmo distante, você ainda me faz sorrir com a menor das coisas, a maior das coisas. Outro dia li uma matéria numa revista feminina sobre amores breves que mudaram tudo e não tinha como não pensar em você, que foi tudo isso exatamente por ter sido ‘apenas’ isso: foi a brevidade que catalizou tudo, e foi tão especial exatamente porque só veio para chacoalhar o que precisava ser transformado. Se fosse ‘pra sempre’, talvez se afundasse mais pra frente em briguinhas bobas por ciúmes, em discussões por conta da toalha em cima da cama ou da conta de luz paga com atraso. Que bom que foi assim, tão certo e tão certeiro. Que bom.

Quando eu recebi a notícia do emprego novo, aguardada há mais de um ano, eu fiquei em estado de êxtase, meio paralisada. Depois uma música tocou na playlist e ela falava sobre se sentir no topo do mundo, e eu fiquei chorando compulsivamente de soluçar por um tempo que pareceu de horas mas deve ter sido de minutos. Foi uma viagem tão longa até aqui. 

Aí chegou carnaval e purpurina em todos os cantos, e beijei outros beijos e provei outros gostos, e uns foram bons e outros nem tanto, mas é vida que segue, com brilho no olho e no corpo e amanhã tudo voltando ao normal. E no último dia, voltando pra casa, choveu demais, daquelas chuvas torrenciais. E eu me deixei molhar. Eu quis me molhar. Era fim de tarde e eu era a única pessoa descendo a Rebouças a pé debaixo de tempestade, encharcando minha saia de tule e chutando a água das calçadas. Dançando na chuva, lavando a alma. Feliz, feliz. Cheguei em casa ensopada das águas de março que vieram para fechar o verão. E as promessas de vida, tão plenas e vivas, continuam aqui: no coração.

there will never be another you

Eu estava voltando de mais uma viagem inspiradora, o coração cheio de sonhos e o céu cheio de azul. Era julho. No banco de trás do carro, encarando as montanhas que passavam borradas a 100km por hora. Então tocou aquela música. A música que você colocou para tocar no nosso terceiro encontro, enquanto eu cozinhava nosso jantar. Que me deixou tão surpresa – após bater a cabeça por tanto tempo com tantos amores errados e líquidos e reprimidos; como poderia alguém assim, sem a menor cerimônia, colocar para tocar um “estou tão apaixonado por você, que tudo o que você quiser fazer, está bom para mim. vamos ficar juntos“? E essa música então apareceu, do nada, num momento aleatório de uma viagem de carro, em algum quilômetro perdido no meio da Dutra. E eu comecei a chorar. Sem nem pensar, sem tentar controlar. Eu comecei a chorar porque pensei em você e você não está mais aqui. Eu comecei a chorar porque quando você apareceu, você mudou tudo. Porque eu penso no seu sorriso, nos seus olhos cor de mar-verde, em como eu me sentia ao seu lado. E você não está mais aqui. Foi a primeira vez que chorei desde que você partiu.

(…)

Algumas horas mais tarde, peguei o fusca para voltar para minha casa. Era primeira vez que eu dirigia uma longa distância à noite em muito, muito tempo. Porque por anos eu tive medo de dirigir e o fazia o mínimo possível. E eu estava lá, na Radial Leste, admirando meu skyline favorito da cidade com suas mil luzes acesas, a torre da Gazeta. Pensando em como minha confiança no volante mudou drasticamente em apenas algumas semanas, sem saber ao certo porquê. E me deu um estalo: foi você. Você que chegou dizendo o quanto eu era fantástica, que achava tudo no meu mundo incrível, que me incentivou a ir atrás dos meus sonhos. Eu nunca havia visto isso tão claramente antes, mas quando eu digo que foi você que mudou tudo, eu quis dizer: tudo. Foi por sua causa que eu tirei o carro da garagem. Que me arrisquei num trabalho com um amigo. Que lancei um projeto pessoal. Você, você, você. Foi por causa da sua influência, da sua maneira de enxergar as coisas. Em algumas semanas, você virou meu mundo de ponta-cabeça – e nem estou falando apenas do romance: estou falando também de olhar o mundo de cabeça pra baixo mesmo, como a carta do enforcado no tarô, de mudar a perspectiva de tudo. Foi seu amor acolhedor, generoso e gentil que fez o que os amores fazem de mais incrível: nos transformar em pessoas melhores. Que sorte a minha.

uma terça de verão e choveu sem parar

… e o dia amanheceu cinza e fresco e eu tive que buscar um moletom para aquecer os braços gelados. Acho que foi a frente fria trazida pela chuva, talvez. Uma ressaca retumbante da noite de espumante com a amiga que acabou de se divorciar mas está apaixonada e era apenas segunda-feira ainda. Eu brigando com a gerente do banco com coisas tão desimportantes no macro mas que impactam tanto no micro como a anuidade do cartão de crédito, quando um telefonema gira o mundo em 180º. Para comunicar a morte de um querido conhecido há mais de 20 anos, que hoje tinha apenas 32 e teve uma parada cardíaca.

Um sopro abrupto e de repente muito já não está no mesmo lugar. A fragilidade da vida, o estar aqui e de repente não estar. Num domingo turbulento, esse amigo teve uma briga séria e terminou um relacionamento de muitos anos; e na noite prosaica de segunda-feira, ele estava fazendo planos de passear no parque domingo se melhorasse da virose. Em algum momento, ele deve ter pensado que tinha todo o tempo do mundo para pedir desculpas e acertar esse relacionamento de alguma forma. Ele deve ter feito uma lista de resoluções de ano-novo jogada em algum canto em que ele dizia para si mesmo que 2017 seria ‘o ano da sua vida’. Ele não deve ter pensado na morte em momento algum, porque a gente nunca pensa. E na terça de manhã ele já não estava mais aqui para fazer as pazes, parar de fumar, voltar para a academia ou virar vegetariano. Enquanto eu brigo com minha gerente do banco sobre coisas que não são realmente importantes, há pessoas lá fora também achando que têm todo tempo do mundo para se preocupar com frivolidades, mas estão morrendo – e é esse reconhecimento do fim, que por algum tempo, nos norteia quando somos impactados por alguma tragédia próxima. De entender que tudo que aqui está, pode amanhã não estar. De aproveitar a vida, os pequenos momentos, os grandes sentimentos.

Até a gente sublimar tudo isso e voltar a fazer planos achando que tem todo tempo do mundo. Mesmo sem ter.

dois mil e dezesseis, sete

2016. O ano de abalos sísmicos e grandes mudanças – internas, externas no meu universo particular, externas a nível nacional e global. Um ano em que eu levei muitos tombos, mas aprendi que é quando a gente cai que conseguimos mudar a perspectiva e ver o mundo de outro ângulo. Foi o ano em que a vida deu várias invertidas, eu virei do avesso e descobri que poderia haver outros lados certos. Ano de aprender a respeitar o tempo das coisas, de tentar entender meu papel no mundo, de fortalecer o círculo de afetos, aprofundar conexões, estabelecer novos vínculos e ler os sinais do universo. No meu mundo, tudo pode ser mágica e a esperança é sempre equilibrista. Outono veio com renovação, inverno com gestação, primavera com flor em botão e, agora, chuva de verão. Compreendendo que a gente está aonde deveria estar, que o presente é o único que nos pertence e que temos mil e uma possibilidades o tempo todo para fazer melhor e diferente.

Para 2017, eu espero cair menos – mas, se cair, continuar a entender que sempre é possível levantar, me reerguer e aprender, apreender. Que as surpresas sejam boas, os sorrisos sejam sinceros, o amor seja recíproco e os abraços, apertados. Que a gente renove as esperanças e tenha ainda mais força para mudar, crescer, agregar, florescer. Mantendo a ternura mesmo ao endurecer. Estou confiante quanto a 2017 e espero que ele venha bem lindo e leve, já que a vida é tão breve. Um sopro de novos começos e aguardadas estreias. Um amanhã cheio de futuro.

 


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