como um sol no quintal

Nosso primeiro encontro não foi nem por acaso nem por propósito – foi por uma casualidade profissional que nossas vidas se cruzaram e desde o começo você foi interessado e eu fui aberta e uma conexão foi criada de alguma maneira, e lá ficamos. Parecia confortável aquele lugar, aquela situação. Seu sorriso esfuziante e sua maneira animada de encarar o mundo e seu desdobrar de possibilidades. Praticamente desde o primeiro momento nós escolhemos um canto que se parecia muito com o qual um casal ocuparia, e o ocupamos. Nosso balé de representar papéis como se já nos conhecêssemos há tempos estava funcionando bem para ambas as partes envolvidas e lá nos repousamos. Na discussão de grupo pós-expediente. Na mesa da taberna com a taça de vinho e o casal francês de meia idade que se sentou conosco. Você, tão francês ali. Me mostrando no mapa do celular onde mora em Paris, e a tecnologia que hoje em dia nos permite tantas coisas me permitindo te mostrar a casa onde cresci e a janela do quarto onde hoje durmo – a porta da varanda estava aberta, naquele momento eternizado pelo google street view. Gosto de janelas abertas.

Daí em diante, os poucos dias que vieram foram uma sucessão de momentos muito rápidos de cumplicidade e planos feitos. De morar numa casinha em Annecy com vista pro lago. De passar o ano-novo em São Paulo. De ambos nos mudarmos para Lisboa no ano que vem e escolhermos um predinho desses sem elevador que tenha janelas grandes e sol batendo na sala pelas manhãs. Você, uma das pessoas mais fantásticas que já conheci, que me deixou encantada naquele restaurante mexicano quando me falava das suas ideias tão diferentes de tudo que já ouvi com a maior naturalidade do mundo, como alguém contando que vai trocar a marca de amaciante de roupas; como se fosse assim tão normal as pessoas pensarem diferente do que todo mundo nos diz para pensar igual. Você, que veio de uma história de vida difícil e hoje é bem-sucedido mas não perde o brilho no olho, como se fosse uma criança que acabou de descobrir que estão distribuindo balas na cantina. Você “entrou em mim como um sol no quintal“, como naquela música cafona de amor (todas as músicas de amor são cafonas). Me dando de presente o caderninho com a frase de Pessoa sobre ter em mim “todos os sonhos do mundo“. Me levando para almoçar no meio do expediente, para dar um respiro da bagunça. Me trazendo waffles com chocolate no meio de um dia tão tumultuado e exaustivo de trabalho, para recarregar minhas energias. Você, ali piscando no meu whatsapp com mensagens doces, deixando meu coração quentinho.

Na nossa última noite na mesma cidade, fomos jantar com meus amigos. E no meio de uma mesa com outras pessoas e todos conversando amenidades, nossos anfitriões acolhedores nos explicando as comidas portuguesas com tanto carinho; nossas mãos estavam dadas embaixo da mesa. Nossas mãos se procurando atrapalhadas e se tocando. Enquanto você conversava com uma pessoa ao seu lado, e eu conversava com outra ao meu lado, nossas mãos estavam juntas do mesmo lado e estávamos conectados sem dizer palavra alguma um ao outro. Era isso que importava – a gente estava juntos, de alguma forma.

Do que se seguiu depois, pouco lembro ou quero lembrar. Sei que teve festa, duas novas amigas romenas, música alta ao vivo, drinques com fogo, um casal australiano que fez com que eu me sentisse extremamente querida e acolhida, você me dizendo o quanto era frustrante morarmos longe, meu álbum favorito do Michael Jackson tocando num casarão antigo cheio de gente, nossa despedida na praça de Camões em frente à estátua de Fernando Pessoa e eu chorando copiosamente porque sempre estou me despedindo das pessoas que eu gosto e você não quis que isso fosse especial como poderia ter sido, por medo de se machucar. O medo, sempre ele. Você falou que nós é que “fazemos as coisas acontecerem” e que tem certeza de que a gente vai se ver de novo; e meu último abraço foi contido porque eu sei que não vai. No que você puxou meus braços ali encolhidos, e nos abraçamos de verdade, e eu não quis mais olhar para trás. Eu não olhei. Cinco e meia da manhã e eu subindo a rua da Misericórdia aos prantos. Rua.da.misericórdia. Não consegui não achar graça dessa ironia, mesmo com o coração em pedaços, porque no livro que ganhei de presente da minha amiga portuguesa Eça de Queirós dizia que a vida “pode às vezes ter o capricho de ser mais romanesca do que pede a verossimilhança artística“. 

Uma semana depois, antes de aterrissar em Paris, do alto eu pude ver a torre Eiffel iluminada e o Sena cortando a cidade. Pensando que você deveria estar lá, em algum lugar. E a gente não ia se encontrar. 

se esta é sua primeira vez aqui…

… eu queria te contar que tenho blog pessoal desde 2003 (!) e em julho dei um pulo para fora da minha zona de conforto e lancei uma newsletter semanal . Meu objetivo inicial com ela era apenas falar com mais gente de forma diferente; porém, o retorno tem sido tão acolhedor e significativo de tantas formas que, neste ano maluco que tem sido 2016, ela foi uma das melhores coisas que poderia ter me acontecido. Então venho aqui, humildemente, te convidar para ler as vinte cartinhas já publicadas, compartilhar das minhas reflexões e embarcar comigo nesta jornada de autoconhecimento, descobertas e abrir de olhos. Bem-vindos!

‘que dia mais feliz!’

Hoje foi um dia feliz porque eu aproveitei que caiu a energia em casa para fazer um serviço que não requeria internet e consertei sozinha o sifão do tanque, após uma aula de hidráulica básica que tive num grupo feminino. Hoje foi um dia feliz porque, apesar de ter tirado o dia para trabalhar de casa, eu usei o fato de que fiquei sem luz para me juntar a uma amiga em seu escritório, e aproveitamos o dia juntas para colocar o papo em dia no almoço e matarmos a saudade de quando éramos inseparáveis colegas de equipe. Hoje foi um dia feliz porque, apesar de ter feito alguns trajetos a pé, choveu apenas num horário em que eu estava abrigada. Hoje foi um dia feliz porque eu consegui fazer uma sessão de drenagem linfática numa semana pré-menstrual em que estou super inchada e dolorida. Hoje foi um dia feliz porque, após várias horas tentando, no fim da tarde eu consegui comprar os ingressos que queria para levar minha mãe ao cinema francês no domingo. Hoje foi um dia feliz porque quando eu voltei pra casa à noite, já tinha luz; e eu pude testar a máquina de lavar que eu mesma comprei após oito meses lavando minhas roupas na casa dos meus pais. Hoje foi um dia feliz porque eu fucei os cacarecos de cozinha que uma amiga me deu de presente quando saí da casa dos meus pais e ficavam relegados numa gaveta porque eu nunca tinha usado e encontrei o cortador de legumes que eu estava pensando em comprar. E foi neste exato momento, quando eu o testei e ele cortou a abobrinha exatamente do jeito que eu queria, que eu quase chorei de alegria, e saí pulando pela casa gritando “que dia mais feliz!” 

Hoje foi um dia feliz porque no meio de tantos encontros e desencontros e planos frustrados dos últimos meses e de 2016 todinho, eu consegui transformar coisas que deram errado num motivo para sorrir. Um sifão quebrado, um dia sem luz, uma máquina inutilizada, um utensílio esquecido, corpo inchado, tarde de chuva. Hoje foi um dia feliz porque eu me dei conta, de forma profunda e libertadora, que cabe a mim ressignificar tudo o que me acontece. E ainda tenho uma noite todinha para comer um jantarzinho feito com cuidado, assistir comédia romântica e tomar banho quentinho. Que dia mais feliz!

um amor sempre partindo

Uma segunda-feira fria e garoenta em São Paulo. Aniversário do meu amigo mais antigo que, após uma temporada de férias na cidade, está voltando para Chicago. A festa é a três quarteirões de casa e eu saio duas horas atrasada porque fiquei trabalhando até tarde. Nem deu tempo de lavar o cabelo ou colocar as lentes de contato; vesti qualquer coisa e saí apressada de óculos, só queria estar lá para um abraço. Mas aí… você apareceu. Você, com seu sorriso acolhedor, me cedendo seu lugar ao lado do aniversariante. Você, o único outro avulso daquela festa. Você, que mora na Europa há cinco anos e também está só de passagem. Que acha São Paulo muito feia, mas sente falta dos amigos e da família. Você, que compartilha das minhas visões políticas e também se sente velho aos 31. Você, que teve banda de rock que tocava na mtv. Que coloca as mãos na frente do rosto quando fica com vergonha. Que tem muitas opiniões ranzinzas, mas o jeito mais doce de ser rabugento. Você, que apareceu quando eu estava indo viajar, e ia partir quando eu voltasse. Que chega em Lisboa bem no dia em que eu vou embora da cidade. Que foi um encontro feito para desencontrar.

Você, que acha que os romances estão muito líquidos e está difícil achar alguém que merece la pena – eu concordo. Que foi o não-beijo que mais mexeu comigo nos últimos tempos. E que, com sua delicadeza e olhos com qualquer coisa de triste, fez com que essa história se tornasse apenas uma lembrança carinhosa e não mais um coração partido. Porque eu sempre me apaixono por quem está de partida.

Se Vinícius já falou certa vez que a vida é feita dessa tal arte do encontro, embora haja tanto desencontro; eu aceito resignada que um só existe porque o outro aconteceu. E enquanto houver tanta gente se desencontrando em romances rápidos e rasteiros, é esse tipo de (des)encontro inesperado que mantém meu brilho no olho – alguma vez, quem sabe, alguém terá vindo para ficar. E será quando a gente menos esperar – talvez numa segunda fria e com garoa, desleixada e desprovida de expectativas, numa esquina a três quarteirões de casa. 

esperando o melhor, mas sempre preparada para o pior

Assando uma torta de limão quase de madrugada, e o cheiro de manteiga da massa tomando conta da casa. No quinto dia de outubro em que há três anos eu realizava o sonho de me mudar para este apartamento, este ano foi o dia em que eu tive que pedir dinheiro emprestado, após ter uma crise de choro porque me dei conta de que a empresa pra qual eu presto serviço freelancer não tem previsão de me pagar os dois meses que estão atrasados e o que eu tinha disponível não seria mais suficiente para pagar o aluguel e a fatura do cartão de crédito. Em que eu fico questionando se devo mesmo viajar para reencontrar um amor antigo porque a recepção dele não foi tão calorosa quanto eu esperava; após ter tirado o tarô em que saíram as cartas mais auspiciosas possíveis me dizendo que sim, esse era o caminho, “união bem-sucedida” e “recuperando a fé no amor”.

Eu acreditei em tudo. Eu sempre acredito em tudo. Eu sempre serei a pessoa que vai pegar o avião, tomar o ônibus, entrar no trem, para reencontrar alguém. Talvez eu tenha crescido assistindo comédias românticas além da conta e acredite nesse tipo de gesto apaixonado na vida real; portanto eu sempre vou dar essa chance ao amor, porque jamais quero ser uma Nathalia mais velha amargurada e arrependida por ‘não ter tentado’. Mas é essa mesma crença otimista que vezenquando me desestrutura por reconhecer que doo muito e muitas vezes recebo apenas migalhas. E o que retumba na minha cabeça em looping é uma frase que vi num seriado, sobre como a gente tem que “esperar o melhor, mas se preparar para o pior“. Então eu estou sim esperando que as previsões do tarô se confirmem e o melhor aconteça e esse romance interrompido tenha sua merecida segunda chance; mas, ao mesmo tempo, cá estou eu, pensando onde ficarei e o que farei com três dias numa cidade que nunca tive vontade de conhecer, que fala uma língua sobre a qual não tenho domínio algum e ainda num frio paralisante, no início do inverno alemão. Ser sonhadora às vezes é tão cansativo.

um pé de ipê na calçada e um sabiá laranjeira na janela

Acordo todos os dias antes das seis com os pássaros cantando perto da minha janela. Aos poucos tudo vai se abrindo – meus olhos, os dias, os caminhos, as posturas na yoga, as flores da primavera. Ando pelas ruas olhando todas as árvores e encantada com tanta flor desabrochando, de um setembro que chegou para empurrar pra longe todas as nuvens carregadas que pairavam neste céu. Sábado estava chegando em casa e um casal me abordou para contar que eram da associação de árvores do bairro e que saem aos finais de semana plantando “árvores nobres” nas ruas e se poderiam fazer o mesmo debaixo da minha janela. Me senti como se alguém estivesse me pedindo permissão para me dar um presente…? “Tem gente que não gosta, dizem que faz sujeira, os passarinhos incomodam…” Fiquei meio chocada pensando que o mundo se divide entre pessoas que acham a natureza um espetáculo e outras que acham um incômodo.

Numa quinta-feira em que passei a manhã colhendo amoras no quintal, fiquei o dia todo com os dedos roxos e não cabulei a terapia; eu comecei a chorar enquanto fazia meu almoço porque pouco antes disso estava combinando de reencontrar durante uma viagem um amor pausado há seis anos e tocou mmmbop na playlist de pop dos anos 90 e eu me lembrei da garota que eu era aos 13 ouvindo essa música olhando para o desenho que as nuvens fazem no céu deitada na cama do quarto sonhando com uma vida que é a minha hoje e foi um longo caminho mas eu cheguei até aqui e a Nathalia de 13 anos ficaria orgulhosa. E agora eu tenho até uma árvore. 

apesar de você

Uma quarta-feira que amanheceu cinza e chuvosa no 89º dia de agosto, este mês que não tem fim. Em que uma decisão política deixou meu coração mais partido que o último fora que eu tomei. Em que meus dois cortes, no dedão e no indicador, estão ainda cicatrizando após o encontro com a navalha afiada da faca nova que eu usava para cortar legumes. Sangrou demais. Eu tenho sangrado demais. Um dia de montanha-russa emocional, de altos muitos altos e baixos muito baixos. Em que os altos foram repletos de amor em reação à minha última (e mais querida) cartinha. E os baixos foram de frustração de ver alguém em quem eu confiava se aproveitando de um momento meu de fragilidade para ter uma atitude oportunista e trair minha confiança. O mundo é bão, Sebastião. O mundo é cão, Sebastião. O mundo é seu.

Troco emails com uma amiga sobre nos reconhecermos adultas e nos sentirmos finalmente responsáveis pela nossa trajetória. Estou animada e ansiosa com perspectivas profissionais, tentando confiar o futuro ao futuro, mas descontando tudo no chocolate e numa autoestima machucada. Percebi que vou perder uma batalha, mas no fim do dia quero apenas acreditar que fiz o que era certo e fui verdadeira com meus valores. “Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”, que minha amiga compartilhou, fica retumbando na minha cabeça, para lembrar que é bom ser do bem; e melhor perder se isso significa não prejudicar ninguém. Tanto mundo no mundo para nos desafiar, tanta razão para desacreditar. E tanto motivo para continuar, também. Sempre há. Amém.