Arquivo para novembro \24\UTC 2015

keep on survivin’

“(…) then I realized: no one had told her about the end of love in Manhattan. Welcome to the age of un-innocence. No one has breakfast at Tiffany’s, and no one has affairs to remember. Instead, we have breakfast at seven a.m., and affairs we try to forget as quickly as possible. Self-protection and closing the deal are paramount. Cupid has flown the co-op!”
(cena de abertura do seriado “Sex and the City”, lançado no final dos anos 1990, com narração da protagonista Carrie Bradshaw)

Desde que vi esta cena pela primeira vez, mais de uma década se passou. Eu era uma jovem apaixonada de quase 20 anos, incorrigivelmente romântica, querendo beber o mundo numa garrafa de coca-cola. Eu ficava encantada com aquelas histórias de encontros e desencontros de quatro balzacas cosmopolitas, lindas e bem-sucedidas e bem-vestidas e superamigas, buscando o amor na cidade grande. Elas eram tudo o que eu queria ser quando chegasse a essa idade.

Corta para eu mesma, aos quase 31. Vivendo uma vida praticamente igual à das minhas então heroínas. Tem muito glamour sim, mas também tem uma luta cotidiana contra o cinismo e a indisponibilidade da maioria das pessoas que cruzam o meu caminho. Uma guerreira moderna, me digladiando bravamente num mundo de aplicativos de paquera, festinhas hipsters e paixões de uma noite só, de uma nota só. Da minha última investida, ficou um gosto amargo na boca e um vazio devastador no coração. Mais de dez anos se passaram desde que aquela garota sonhadora ouviu a história sobre o fim do romance, e algo morreu aqui dentro – ou se perdeu, e está muito, muito difícil reencontrar.

De todos os corações partidos, sempre sobrava um respiro, um suspiro de certeza de que o próximo seria maior e melhor – ou mais uma história para contar para as amigas durante uma noitada de drinques, pelo menos. E era essa certeza que me fazia jogar a foto para a direita, e entrar com fé e simpatia em mais um papo morno e desinteressante, e gastar todo o meu charme em mais um encontro sem propósito, engolindo uma cerveja gelada para acompanhar um coração que se tornou frio.

Agora, quase nem isso. Da tristeza, sobrou uma indiferença brutal, sem fé alguma de nada, e até certa serenidade a respeito. Uma tranquilidade de não ter mais que buscar, porque não há esperança de encontrar. Meu atual relacionamento é total desprovido de encanto e sentimento, de tal forma que talvez merecesse até outra denominação. Mas por enquanto ele é tão apenas um nome na minha lista de contatos, que nem me dou a esse trabalho. Bem-vindos à era do não-amor.

Anúncios

amor de uma via só

“Isso, ou algo melhor, agora se manifesta para mim, de maneiras totalmente harmoniosas e satisfatórias, para o bem maior de todos os envolvidos”.

Esse mantra, que aprendi num livro sobre visualização criativa uns anos atrás, sempre me acompanhou. Eu tentava pensar, criar e visualizar coisas maravilhosas acontecendo na minha vida – e com a ingênua certeza de que, na verdade, ainda viria algo muito maior e melhor, porque né, sou uma pessoa boa e queria acreditar que o universo me traria isso de alguma forma. Então, quando você apareceu na minha vida, apenas dez dias (!) após mais um coração partido, eu achei que era isso: minha tão esperada resposta do universo. Você era tão tudo que eu sempre sonhei, e ao mesmo tempo tão maior e melhor, que eu mal podia acreditar na minha sorte – “mal podia” mesmo, porque enquanto você se declarava apaixonado desde o início, eu demorei mais para me jogar e botar fé, achava que era mais uma pegadinha. Alguns meses depois, foi meio que isso. Triste.

***

Algumas dores de amor são mais fáceis de curar do que outras. A sua foi bem difícil, porque havia muita coisa em jogo – e se tem um estudo no qual estou me tornando PhD é “relacionamentos & coração partido”. Umas poucas semanas atrás, resolvi te procurar para poder virar a página, e que surpresa enxergar em você essa pessoa egoísta, imatura, fria, mimada. Dei um passo para trás para então perceber que talvez a culpa não tenha sido sua: era minha. Porque, no fundo, talvez eu é que tenha enxergado em você uma pessoa que você nunca foi. E fiquei pensando em todos os outros amores nos quais eu insisti e investi muito apenas porque, na minha projeção, eles eram essa tal resposta do universo para as minhas angústias. Que grande bobagem: a resposta mesmo nunca esteve lá fora – ela está aqui, comigo. Agora. 

 

“Às vezes, quando nos apaixonamos, quando desejamos uma pessoa, nós vemos apenas uma pequena porcentagem de quem ela realmente é. Ao invés de ouvir, ou aprender, nós a recortamos como imaginamos que ela seja, como a desejamos para nós mesmos, nós criamos pequenas fantasias das pessoas e deixamos que isso cresça em nossos corações. E é aí que os relacionamentos falham. Com o tempo, a ficção que criamos de uma pessoa se vai, as mentiras que contamos para nós mesmos se revelam e logo a pessoa que temos à nossa frente é quase irreconhecível, e se tornam dois estranhos em seu próprio amor. E que grande pena que isso aconteça. Meu conselho: preste atenção aos pequenos detalhes das pessoas – você irá aprender que o universo é muito mais espetacular do que um autor jamais esperaria que fosse.” 
– Beau Taplin (compartilhado pela minha querida xará, em minha tradução livre do inglês)

 

 

 


Blog Stats

  • 163,917 hits