Arquivo para outubro \21\UTC 2015

no horário de verão tem sol até mais tarde

Foi com susto de quem se vê pego em flagrante que me reconheci naquela carta que alertava sobre “idealismo excessivo”, sobre estar tão cansada de quebrar a cara com esse coração vagabundo e acreditar no amor e suas possibilidades infinitas que acabei me fechando num casulo para tudo que estava ao redor, esperando virar borboleta. Spoiler: não aconteceu. 

***

Então, pela enésima vez, botei meu coração no sambódromo e fui me declarar para uma paixão pausada algumas vezes, que não foi para frente porque… por quê mesmo…?! Ah sim, porque ele pisou na bola e eu não dei chance. Mas nos reencontramos quase por acaso e seus olhos continuam muito lindos e seu olhar muito tímido, e a gente ficou se atrapalhando como quem não sabe agir perto do outro, coração sambando feito bateria de abre-alas, e eu querendo dar uma nova chance, duas, três. Abri meu coração e a resposta foi positiva, convidativa, gentil, vulnerável. Eu queria acreditar que dessa vez poderia dar certo, queria tanto. Escolhi meu vestido mais bonito e, quando os planos tiveram de ser cancelados, meus sentimentos se misturaram entre a disponibilidade para sempre acreditar no outro e a lembrança agora bem vívida do motivo de termos nos afastado há alguns meses – mesmo ele tendo pedido desculpas desta vez, e ter reconhecido seus erros, e ter tentado me mostrar que seria diferente. Não foi: não nos falamos mais.

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No meio das idas e vindas do amor, resolvi encontrar outra pessoa apenas para arejar e tirar o anterior da cabeça. Eu, com essa mania besta de julgar e rotular e colocar as pessoas dentro de uma caixinha pré-determinada; fui cheia de preguiça e má-vontade, achando que este apenas confirmaria tudo o que eu já achava dele pela pouca conversa que tivemos e pelos amigos em comum. Ledo engano – uma surpresa ótima me esperava, cheia de sorrisos encantadores e humor afiado, que me abriu um mundo de possibilidades, de autoconhecimento e descobertas e trajetória nada previsível. Que bom que ainda existe espaço para o inesperado, nessa nossa vida tão cheia de rotinas e horários e burocracias e contratos. Que bom, que bom. Dias mais longos para trazer mais boas surpresas, amém. 

 

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enquanto a vida vai e vem

É uma sexta-feira abafada de primavera pré-feriado, estou com a garganta inflamada e tenho febre. Faço lista de supermercado, voltei pra academia e tento passar hidratante todo dia, estou me disciplinando na meditação e na alimentação, sempre um desafio, Saturno e seu retorno. Minha casa é meu castelo e só saio por bons motivos, compro flores, cozinho. Tomei bronca no balé e voltei pra casa chorando no metrô, por todos os ‘nãos’ que tomei nos últimos tempos e por um monte de quases. Acendi um incenso e tomei um banho lento, pra aquecer o coração e as lesões. Percebi que tudo em que a gente coloca muita energia fica carregado e truncado, que melhor é mudar o foco e deixar correr livre e leve. Minha amiga manda música pra gente consolar, enquanto-a-vida-vai-e-vem-você-procura-achar-alguém-que-um-dia-possa-te-dizer-queroficarsócomvocê. Preciso aprender a ser só, preciso aprender a só ser. No rádio tocou uma música e na tevê passou um filme e eu nunca sei escolher nada, fico imobilizada. Mas na maior parte do tempo, estou sorrindo e seguindo com fé – num caderno de colégio eu tinha rabiscada uma frase que dizia que só existem duas maneiras de ver a vida, uma é como se não existissem milagres e a outra é como se tudo fosse um milagre. Eu ainda acredito em milagres.

levei minha alma para passear

E foi pra me tirar de uma apatia involuntária que você apareceu. Decidido, assertivo, sorrindo. Quando alguém havia me dito “quem sabe você encontra um amor no Rio”, eu ri – porque há muito tempo ninguém me encanta e minha vida tem sido no modo automático há tantos meses, que eu achei graça pensar que o acaso poderia me trazer alguém assim, do nada. Mas eu aterrissei no Santos Dumont, naquele tapete de casas e belezas óbvias (porém sempre impactantes), num dia fresco e molhado do inverno carioca. E essa cidade que eu tanto amo, tão cheia de pessoas queridas e que sempre me trouxe boas surpresas, dessa vez me brindou com a promessa de um amor novo, com brilho no olho. Você, que veio sem frescura, que riu das minhas trapalhadas ansiosas, que me convidou para um show que eu queria muito ir e achou bobagem quando eu, no ápice de minhas feminices, disse “não ter o que vestir”. Você tomou a iniciativa, comprou os ingressos, chegou antes da hora marcada e estava me esperando. E eu, que sou preguiçosa e sempre vou pela lei do menor esforço, fiz o que em outras circunstâncias não faria: saí mais cedo de um jantar de família e cruzei a cidade apenas para poder te ver. E foi tudo tão natural. E desde o primeiro instante em que nos vimos eu quis te dar um beijo, mas engoli essa ansiedade maluca e apertei todas as borboletas no estômago bem apertadinhas, para ninguém escapulir como um soluço pela minha boca, muito aberta falante e sorridente, porque a verdade é que eu estava assim bem nervosa de ter você ali, comigo. Você, que cresceu no centro-oeste mas torce pro mesmo time que eu, que é muito inteligente e sagaz, tem a profissão do meu pai e meu tipo de humor. Que entende um pouco de signos e adivinhou o meu, e meu entregou seu mapa astral e disse que “nossos signos talvez não combinassem”, que ficou jogando a culpa de ter nascido no difícil Virgem na sua mãe, “que agendou a cesárea e bagunçou com meu cosmos”. Eu te falei que adorava seu ascendente e te contei sobre o retorno de Saturno e nós dois ficamos jogando curiosidades triviais na conversa assim ao longo da noite, meio que mostrando como somos pessoas interessantes e de cultura vasta e versátil, apesar de você ser tão cartesiano, cético e pragmático. Mas que fazia tudo isso com um sorriso irresistível, e um jeito tímido de jogar o cabelo para trás. Você, que verbalizava as coisas bobas que eu também pensava mas tinha vergonha de falar. Que me beijou e foi o melhor beijo da minha vida. E que, de forma abrupta, partiu assim como chegou: de repente, sem pedir licença, como uma tempestade de verão. 

***

Algumas semanas depois eu ainda não entendia o que havia acontecido. Porque eu estava sentindo de novo uma coisa que eu não sentia há muito tempo e eu não conseguia nem imaginar que você pudesse não estar sentindo a mesma coisa. Eu me declarei, e você se derramou em mil desculpas. De que acabou de sair de um relacionamento longo, coração partido e pouca vontade de se jogar de novo, essas coisas que todos nós sentimos tanto e tantas vezes ao longo da vida, com esse monte de bagagem que nos pesa e que é tão difícil largar.

Uma pena. Eu queria que as borboletas tivessem vindo para ficar desta vez – tinha até enchido a casa de flores. Vamos ter que esperar outra primavera.


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