Arquivo para fevereiro \26\UTC 2014

o início, o fim, e o meio

Nos últimos tempos, voltei a falar com várias das pessoas que, de alguma forma, tiveram participação na construção da minha personalidade e de quem sou hoje – ou de quem eu achava que era, até me perder um pouco.

E é numa história retomada, num afeto compartilhado ou numa rua cruzada que eu consigo me reencontrar; aos poucos.

Autoconhecimento, esta longa jornada vida adentro.

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tudo muda o tempo todo no mundo

Há um mês, eu estava dando um passo que considerava bem importante dentro de um relacionamento. Uma semana depois, tudo o que eu achava que sabia em relação a esta parte da minha vida já não existia mais. Hoje, estou tentando reconstruir, diariamente, características que julgava tão minhas e que já não sou mais capaz de reconhecer em mim.

Foi crucial ter vindo para cá viver isso. Londres é meu lugar no mundo; e essa cidade, tão cheia de nuances e camadas, que desperta paixões nada óbvias ou instantâneas, tem me ajudado a reencontrar uma Nathalia com brilho no olho, que caiu no mundo aos 22 com um punhado de coragem e fé nos bolsos, e só. Uma Nathalia que ainda tenta acreditar, tenta levantar e tenta se encantar de novo, mesmo quando tudo ao redor parece ruir.

(Quero cortar o cabelo e externar essa bomba atômica interna que me tomou antes de pegar o avião, no último dia de janeiro. Fazia 35 graus em São Paulo.)

***

Pensei neste processo quando vi esta matéria da Esquire sobre Kiev – são fotos de usuários de Instagram ucranianos, com a diferença de tempo de uma semana. É bem impressionante perceber como o mundo como você o conhece pode desmoronar da noite pro dia – e ainda me surpreendo quando me dou conta de que o único controle que temos na vida é sobre como vamos reagir ao que nos acontece. Nada mais.

monotema

Eu vim para Londres a trabalho, e 80% do meu tempo tem sido ocupado por ele (não só trabalho em si, mas compromissos referentes a ele, mesmo fora do expediente). Porém, ontem percebi que boa parte dos outros 20% são ocupados por discussões sobre o amor, com amiga daqui e amigos que lá ficaram. Alguns amores permeiam esta minha viagem: um coração recém-partido, um relacionamento recente que voltou para se despedir porque está de partida em busca de outros horizontes, um amor platônico que ressurgiu, um amor antigo que revivi através de um filme ou uma música com que trombei num brechó, e o amor por Londres em si, que é um caso à parte. Isso sem contar os amores dos amigos próximos, que acompanho de perto e têm suas histórias próprias, também.

Me encontro meio obcecada com a ideia de como os relacionamentos se constroem e se dissolvem, em como gerenciar expectativas, em como fazer tudo fluir de forma mais fácil e leve. A gente tenta virar logo a página e pular para a história seguinte, essa ânsia de saber o que aprendeu com a última experiência, como errar menos na próxima vez, como fazer melhor. Tenho um monte de textos rascunhados a respeito e ainda não publiquei nenhum; porque não consigo elaborar ideia alguma sobre nada mais sólido. 

Ainda estou digerindo o filme que vi ontem e conta com vários desses questionamentos, e me lembrei do livro que li uns seis meses atrás e que retomei antes de vir. Acabei deixando-o em cima da cama quando parti, e me arrependo de não tê-lo trazido: ele está cheio de grifos sobre o amor líquido e volátil, a fragilidade dos laços humanos – um reflexo de tempos em que as pessoas se sentem coagidas entre apertar os laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos, entre mergulhar de vez numa relação e ao mesmo tempo manter sua liberdade. Não raro encontro alguém com uma ideia um tanto equivocada de que o amor idealizado pode estar tão na próxima esquina, que não há mais paciência ou vontade de construir um relacionamento de verdade aqui e agora, com suas limitações e imperfeições que o fazem ser… real. O amor contemporâneo é líquido porque muda de forma rápida, sob qualquer pressão. Parece que ninguém mais quer tentar amadurecer o que sente, ser paciente e entender o que cerca, investir para fazer funcionar. Uma pena, porque se tem algo em que vale a pena investir tempo e dedicação é em um amor bom e correspondido, verdadeiro.

Ainda não encontrei nenhuma resposta, mas estou gostando de fazer as perguntas. Tentar entender o que nos guia é apenas o primeiro passo para trilhar um novo caminho – uma hora a gente chega lá. 

baby it’s cold outside

Hoje faz um dia tipicamente londrino, cinza frio molhado. Encolho os ombros para fugir do vento, olho para dentro. Chove de leve. Na playlist do escritório toca Phoenix, me lembro da cena que vimos juntos numa noite fresca de dezembro, de um dos meus filmes favoritos. Semana passada fui ao show deles aqui e cantei junto a plenos pulmões, dizendo que a gente é muito jovem. Choro de leve. Eu queria você aqui. Mente inquieta, agenda cheia e coração vazio. Outro dia você apareceu no meu sonho, e nele a gente entrelaçava as mãos. E foi tão real. A sua mão, grande, segurando a minha – segurando para não deixar cair, segurando para me dar segurança. Eu me sentia segura com você ao meu lado. Sinto sua falta.

Há exatos dois meses era meu aniversário e você me entregou um cartão escrito à mão, me desejando boas surpresas. Eu não entendia como em tão pouco tempo podia caber tanto afeto num pedaço de papel tão pequeno, um origami de um começo se desdobrando para nós. Penso no que poderia ter sido e não foi – e no que foi, maior e melhor do que eu jamais imaginaria. Tento dar uma polida naquele otimismo teimoso, escuto amigos dizendo que não era para ser, aquele discurso pronto que a gente sempre tem na ponta da língua para tentar confortar os que amamos. Fico desapontada comigo mesma por ainda pensar nisso, por não conseguir virar página tão rápido quanto gostaria, por ainda deixar machucar. Por não saber sarar. No reflexo da janela, as nuvens se movem rapidamente, como num filme em que a gente aperta o botão de adiantar para chegar logo na cena do final feliz. Que, no fundo, talvez seja exatamente onde eu queria estar neste momento.

Vou pegar um café para arejar, e quando volto já tem um canto de céu azul atrás da minha mesa. Concluo que talvez vá ser assim daqui pra frente – às vezes cinza, às vezes chuva, e um raiozito de sol bem tímido a esperar a hora certa de aparecer. Talvez.

deixe estar

Estávamos indo ao mercado central quando eu, desconfiada, viro e pergunto: “você tem certeza de que estamos indo na direção certa?”

“Sim, tenho. Amiga, você precisa aprender a deixar as pessoas te conduzirem.”

***

Então esse foi o grande clique: após uma semana aqui em Londres, em que eu estava sempre responsável pelos mapas, itinerários e chaves de casa (não só por já ter morado aqui antes e conhecer melhor a cidade, mas sim porque gosto de ter a sensação de estar no controle); minha grande amiga me mostrou, da forma mais doce possível, que eu estava tendo dificuldades para confiar nas pessoas e deixar que o outro tome as rédeas da situação. E isso foi tão, tão forte. Porque é real. Percebi que já tomei tanta rasteira na vida, de tantas pessoas em quem eu confiava, que aos poucos essa capacidade foi atrofiando. Mas não é para ser assim – eu não quero que seja assim. Muitas pessoas em quem confiei já me surpreenderam para o bem também – e eu nunca vou saber como vai ser se não tentar.

***

No dia seguinte estávamos com outra amiga nossa e ela contou que, numa palestra que assistiu no ano passado, de um mestre budista famoso (ou algo assim), ele disse que as pessoas têm muita dificuldade em “exercitar seu músculo do ‘deixar partir‘”. E eu acrescentei a isso o músculo do “deixe estar” também, como na música dos Beatles (esta associação me ocorreu porque em inglês as duas expressões eram muito próximas, “let it go” e “let it be”).

Lições para novos começos: aprender a deixar partir, deixar estar, deixar ser. Deixar.

mas havia ficado mais forte, agora

“(…) dizia que os amores lhe tinham falhado, mas que os amores não destruíam o futuro. (…) tinha nada de vergonha e sonhava tão grande que cada impedimento era apenas um pequeno atraso, nunca a desistência ou a aceitação da loucura. pensava que quando se sonha tão grande a realidade aprende.

(…) estava ainda de coração partido, porque falhara nos amores e os amores podiam ser tão complicados, mas havia ficado mais forte, agora.
quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz.”

(em “o filho de mil homens”, valter hugo mãe – o livro mais lindo do mundo, segundo a nata)

aqui tem feito sol todos os dias,

só sábado que choveu um pouco, mas foi essa mesma chuva que desenhou um arco-íris levinho no canto do tâmisa, para me receber. muitas surpresas boas me encontraram de braços abertos – londres continua uma ótima anfitriã. 


(quero escrever um diário do começo do mundo. e no primeiro parágrafo tem um rio.)

 


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