Arquivo para dezembro \31\UTC 2016

dois mil e dezesseis, sete

2016. O ano de abalos sísmicos e grandes mudanças – internas, externas no meu universo particular, externas a nível nacional e global. Um ano em que eu levei muitos tombos, mas aprendi que é quando a gente cai que conseguimos mudar a perspectiva e ver o mundo de outro ângulo. Foi o ano em que a vida deu várias invertidas, eu virei do avesso e descobri que poderia haver outros lados certos. Ano de aprender a respeitar o tempo das coisas, de tentar entender meu papel no mundo, de fortalecer o círculo de afetos, aprofundar conexões, estabelecer novos vínculos e ler os sinais do universo. No meu mundo, tudo pode ser mágica e a esperança é sempre equilibrista. Outono veio com renovação, inverno com gestação, primavera com flor em botão e, agora, chuva de verão. Compreendendo que a gente está aonde deveria estar, que o presente é o único que nos pertence e que temos mil e uma possibilidades o tempo todo para fazer melhor e diferente.

Para 2017, eu espero cair menos – mas, se cair, continuar a entender que sempre é possível levantar, me reerguer e aprender, apreender. Que as surpresas sejam boas, os sorrisos sejam sinceros, o amor seja recíproco e os abraços, apertados. Que a gente renove as esperanças e tenha ainda mais força para mudar, crescer, agregar, florescer. Mantendo a ternura mesmo ao endurecer. Estou confiante quanto a 2017 e espero que ele venha bem lindo e leve, já que a vida é tão breve. Um sopro de novos começos e aguardadas estreias. Um amanhã cheio de futuro.

 

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como um sol no quintal

Nosso primeiro encontro não foi nem por acaso nem por propósito – foi por uma casualidade profissional que nossas vidas se cruzaram e desde o começo você foi interessado e eu fui aberta e uma conexão foi criada de alguma maneira, e lá ficamos. Parecia confortável aquele lugar, aquela situação. Seu sorriso esfuziante e sua maneira animada de encarar o mundo e seu desdobrar de possibilidades. Praticamente desde o primeiro momento nós escolhemos um canto que se parecia muito com o qual um casal ocuparia, e o ocupamos. Nosso balé de representar papéis como se já nos conhecêssemos há tempos estava funcionando bem para ambas as partes envolvidas e lá nos repousamos. Na discussão de grupo pós-expediente. Na mesa da taberna com a taça de vinho e o casal francês de meia idade que se sentou conosco. Você, tão francês ali. Me mostrando no mapa do celular onde mora em Paris, e a tecnologia que hoje em dia nos permite tantas coisas me permitindo te mostrar a casa onde cresci e a janela do quarto onde hoje durmo – a porta da varanda estava aberta, naquele momento eternizado pelo google street view. Gosto de janelas abertas.

Daí em diante, os poucos dias que vieram foram uma sucessão de momentos muito rápidos de cumplicidade e planos feitos. De morar numa casinha em Annecy com vista pro lago. De passar o ano-novo em São Paulo. De ambos nos mudarmos para Lisboa no ano que vem e escolhermos um predinho desses sem elevador que tenha janelas grandes e sol batendo na sala pelas manhãs. Você, uma das pessoas mais fantásticas que já conheci, que me deixou encantada naquele restaurante mexicano quando me falava das suas ideias tão diferentes de tudo que já ouvi com a maior naturalidade do mundo, como alguém contando que vai trocar a marca de amaciante de roupas; como se fosse assim tão normal as pessoas pensarem diferente do que todo mundo nos diz para pensar igual. Você, que veio de uma história de vida difícil e hoje é bem-sucedido mas não perde o brilho no olho, como se fosse uma criança que acabou de descobrir que estão distribuindo balas na cantina. Você “entrou em mim como um sol no quintal“, como naquela música cafona de amor (todas as músicas de amor são cafonas). Me dando de presente o caderninho com a frase de Pessoa sobre ter em mim “todos os sonhos do mundo“. Me levando para almoçar no meio do expediente, para dar um respiro da bagunça. Me trazendo waffles com chocolate no meio de um dia tão tumultuado e exaustivo de trabalho, para recarregar minhas energias. Você, ali piscando no meu whatsapp com mensagens doces, deixando meu coração quentinho.

Na nossa última noite na mesma cidade, fomos jantar com meus amigos. E no meio de uma mesa com outras pessoas e todos conversando amenidades, nossos anfitriões acolhedores nos explicando as comidas portuguesas com tanto carinho; nossas mãos estavam dadas embaixo da mesa. Nossas mãos se procurando atrapalhadas e se tocando. Enquanto você conversava com uma pessoa ao seu lado, e eu conversava com outra ao meu lado, nossas mãos estavam juntas do mesmo lado e estávamos conectados sem dizer palavra alguma um ao outro. Era isso que importava – a gente estava juntos, de alguma forma.

Do que se seguiu depois, pouco lembro ou quero lembrar. Sei que teve festa, duas novas amigas romenas, música alta ao vivo, drinques com fogo, um casal australiano que fez com que eu me sentisse extremamente querida e acolhida, você me dizendo o quanto era frustrante morarmos longe, meu álbum favorito do Michael Jackson tocando num casarão antigo cheio de gente, nossa despedida na praça de Camões em frente à estátua de Fernando Pessoa e eu chorando copiosamente porque sempre estou me despedindo das pessoas que eu gosto e você não quis que isso fosse especial como poderia ter sido, por medo de se machucar. O medo, sempre ele. Você falou que nós é que “fazemos as coisas acontecerem” e que tem certeza de que a gente vai se ver de novo; e meu último abraço foi contido porque eu sei que não vai. No que você puxou meus braços ali encolhidos, e nos abraçamos de verdade, e eu não quis mais olhar para trás. Eu não olhei. Cinco e meia da manhã e eu subindo a rua da Misericórdia aos prantos. Rua.da.misericórdia. Não consegui não achar graça dessa ironia, mesmo com o coração em pedaços, porque no livro que ganhei de presente da minha amiga portuguesa Eça de Queirós dizia que a vida “pode às vezes ter o capricho de ser mais romanesca do que pede a verossimilhança artística“. 

Uma semana depois, antes de aterrissar em Paris, do alto eu pude ver a torre Eiffel iluminada e o Sena cortando a cidade. Pensando que você deveria estar lá, em algum lugar. E a gente não ia se encontrar. 


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