Arquivo de outubro \31\UTC 2011

a fórmula do amor

Nos últimos tempos, pude presenciar eu e uma das minhas melhores amigas em situações similares: tendo que escolher entre seguir o coração impulsivamente (mas não impunimente), ou ir com a razão. A dela era uma decisão profissional, mas que envolvia muita paixão também. E seguir cegamente o coração acarretaria, provavelmente, em danos no futuro – e machucaria muito pessoas que ela ama e sempre a apoiaram.

No meu caso, foi uma decisão pessoal mesmo. Mas eu tive que ser fria e não seguir uma paixão efêmera para não magoar alguém que eu amo e que está ao meu lado há mais de dez anos.

Em ambos os casos, seguir a razão, para nós, também foi, de alguma forma, seguir o coração – só que ao contrário. Ao escolher não machucar quem amamos, a gente teve que deixar um pouquinho da nossa paixão de lado também. Mas considero isso parte do processo de adultescer, amadurecer: saber fazer escolhas que prejudiquem o menos possível as pessoas que amamos e queremos bem. Porque vê-las sofrer também nos machuca. Mais ainda quando sabemos que temos nossa parcela de culpa nisso – culpa essa que, dependendo do caso, pode ser irreversível.

Hoje tive que entregar um artigo de economia para uma aula e meu tema escolhido foi exatamente esse: contrapondo o conceito da economia neoclássica, que considera o indíviduo totalmente racional e autônomo em suas decisões; e a sociologia econômica, que leva em conta todos os fatores e variantes que influenciam nas suas escolhas, todo um pacote emocional envolvido em cada querer.

Tão mais simples se nossa vida fosse sempre matemática, tipo 2 + 2 = 4 não? Deveria ter escolhido as ciências exatas.

garota-enxaqueca

Estou no cartório para reconhecer a firma em alguns documentos. Constato que perdi minha carteira de motorista no caminho até lá. Toda a venda do carro, que se encontra em meu nome por razões que não convém explicar agora, poderá ser cancelada por causa disso (a habilitação era o único documento original que eu ainda possuía, já que meu RG se fué há alguns anos no buraco negro do meu quarto e eu ainda não me mobilizei para tirar outro porque né – tinha a carteira de motorista).

Minha mãe: “Mas pensa que poderia ser pior: e se eu não tivesse essa procuração em seu nome?”

Meu pai: “Acho que não era mesmo para você ficar com essa carteira.”

(porque eu achei que tinha perdido-a há um tempo; mas tinha esquecido na bolsa de uma amiga, depois de uma festa, e levei mais de dois meses para buscá-la de volta, há uns dez dias)

***

Será que alguém pode me ajudar na revolta de que:

1. se eu tivesse esperado mais uns dias para pegar a carteira na casa da minha amiga, eu não a teria perdido agora?

2. se eu não tivesse lembrado no meio do caminho que precisava dela para ir ao cartório e tivesse usado somente a procuração in the first place, eu não a teria perdido agora?

3. se eu tivesse colocado-a em um lugar propício e não dentro do envelope aberto que eu tinha nas mãos, eu não a teria perdido agora?

***

Semana passada um amigo me falou que “there’s no ‘if’ in life. What you see is what you get. ‘If’ only brings suffering.”

E eu sei que ele está coberto de razão e lucidez, que “se” só traz sofrimento, mimimi. Mas é muito frustrante estar cercada de pessoas otimistas naqueles dias em que tudo o que você mais quer é amaldiçoar o mundo.

kiss the rain

“Scott Fitzgerald dizia: ‘É preciso saber que o mundo é sem esperança e, contudo, decidir mudá-lo’. Eu gostaria de retomar igualmente um verso do poeta alemão Hölderlin, do qual gosto muito: ‘Lá onde crescem os perigos, cresce também a salvação‘.”
(desse mesmo texto aqui)

Gostei especialmente desta parte. É o mesmo raciocínio de “sem chuva não há arco-íris“, mas por outro prisma: felicidade = zona de conforto; e se não há dor, não há vontade de transformar e fazer diferente, recomeçar. E, sem cair, não há descoberta da força para se reerguer. Quer coisa melhor do que se descobrir forte o bastante para levantar? Se descobrir capaz de superar.

casa pré-fabricada

Eu me apaixonei algumas vezes este ano. E, em todas as vezes, a paixonite não foi pra frente por razões alheias à minha vontade.

E eu sei que a gente é como o tal peixinho dourado*, logo se esquece da dor e está lá, firme e forte, se apaixonando de novo, desejando até-que-a-morte-nos-separe-amém. Porque sempre parece que vai ser tão diferente né? Que a gente vai acertar em outras coisas, cometer erros novos e ser mais feliz que na última tentativa.

Mas cada vez mais eu percebo que, ao ver mais uma casinha de areia que construí com todo carinho e cuidado ruir diante de meus olhos, ela leva também consigo um pedaço de mim. E é triste reconhecer que muitas Nathalias já foram deixadas para trás nesse processo, e muitas outras ainda serão. A cada coração partido me vejo mais cínica e cética – e mais distante da única Nathalia em que me reconheço 100%: aquela apaixonada e sonhadora, idealista. Que não tem medo de errar e mergulhar, de amar e demonstrar, de se machucar cair levantar.

Me questiono quantos “certo alguém” ainda vão cruzar o meu caminho até que, enfim, eu pare de construir castelos de areia – e tenha um reduto firme e seguro que maré nenhuma vai se atrever a derrubar.

*”A memória de um peixinho dourado só dura três segundos. Então, depois de uma volta pelo aquário, tudo é novidade. Cada vez que dois peixinhos se vêem, é como se fosse a primeira vez. É como nós humanos. Cada nova paixão é como se fosse a primeira. Uma reação química apaga a lembrança da última dor de amor, e nós pensamos ‘Puxa, isso é maravilhoso, isso é novo, é diferente!’. Como uma mulher que esquece a dor do parto (após contemplar o filho recém-nascido).”
(do filme “Goldfish memory”; tinha postado no antigo “drops de anis”, há uns cinco anos)

spend more time flowing

“Os homens normais não sabem que tudo é possível.”
(D. Rousset)

Tive que ler um texto de psicologia* para uma aula sobre o homem do século XXI. E ele tinha tantas frases de efeito e reflexões lindas que achei ser uma maneira muito simpática de começarmos uma segunda-feira ensolarada de outubro. Por favor, descartem o linguajar técnico e específico e se concentrem apenas nas mensagens – elas ainda vão render outros textos por aqui. Boa semana para vocês, :)

“(…) O sujeito psíquico é, assim, um ser que reconhece as suas contradições e os seus conflitos, sabendo que não é totalmente senhor de sua própria casa pelo fato de existir o inconsciente, submetido à vacilação e ao medo do despedaçamento, mas capaz de fazer de suas falhas o trampolim para chegar à posição de sujeito humano e de sujeito social, estando ambos intimamente ligados, providos de uma membrana protetora (de um “eu-pele”, conforme D. Anzieu) e capazes de abrir-se ao mundo. (…) o homem está no caminho de sua autonomia, de ditar a si mesmo as próprias regras e de ter uma visão otimista do futuro.”

Afinal, se a gente é autônomo o bastante para poder escolher qual caminho seguir, por que não fazê-lo de forma positiva, néam?! Porque o fim pode ser o mesmo, mas o meio faz toda diferença.

***

Um bônus extra para vocês é esse clipe lindo do Tiago Iorc, que foi a maneira mais bonita e doce de terminar meu domingo: cheio de verdades que eu tava precisando ouvir, pero sin perder la ternura jamás.

 

*trechos em aspas extraídos de “O Homem do Século XXI”, de Eugène Enriquez

relaxa baby, e flui

Tenho visto em vários blogs, de uns tempos pra cá, um exercício meio batido mas sempre válido: o que você diria para si mesmo se pudesse voltar no tempo? Quais conselhos daria para seu eu mais jovem, quais dicas sobre caminhos sentimentos planos angústias você gostaria de compartilhar agora – ou de ter sabido antes?

Tava rolando na cama pensando nisso outra noite (“penso, logo não durmo”, já diria uma comunidade no falecido orkut), nas coisas que eu diria para a Nathalia de dez anos atrás. Os 16 anos foram os mais significativos da minha adolescência. Tanta coisa ali nasceu, floresceu, cresceu, morreu. E, nesta noite insone, eu fiquei pensando nas mil coisas que diria àquela garota – e, ao contar mil, não estou apenas hiperbolizando, é porque de fato eu comecei a pensar no tanto de coisa incrível que aconteceu comigo neste tempo e parecia não ter mais fim. Dez anos, né gente? Uma vida.

Mas o que eu vim aqui trazer para vocês não foi esse exercício que, como eu disse, tá meio batido já na blogolândia, mas outro que descobri meio por acaso: pensar no que a Nathalia daqui a dez anos, aos 36, diria para euzinha aqui, aos 26? O que essa futura-eu teria de tão importante para me aconselhar? E tudo em que eu conseguia pensar era, “Nathalia, pare de ser tão ansiosa. De tentar colocar o carro na frente dos bois, de tentar adivinhar o futuro, de ser mulher-maravilha, de tentar atender as expectativas de todo mundo. Aproveita agora, curte o momento. Em dez anos tudo parecerá tão pequeno…”

Como é pequeno hoje eu voltar atrás e pensar na prova de física, no paquerinha da escola, na melhor-festa-de-todos-os-tempos-da-próxima-semana, no meu primeiro bico para descolar uma graninha extra, na viagem de formatura, se vou passar no vestibular (!).

Então meu novo exercício favorito contra a ansiedade agora é este: toda vez que uma angústia me espreita e ameaça surgir, eu me vejo aos 36, citando Caio: “relaxa baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará.”

diário do desassossego

Passei a última semana viajando – literalmente. Peguei meu irmão pelo braço (na verdade, ele me pegou) e fomos passar uns dias no litoral. Longe de internet, caos paulistano, poluição, ansiedade e angústias cotidianas. O tempo só fez chover e eu aproveitei para colocar os estudos e o sono em dia, deixar o cérebro derreter de tanto ver tevê, me acabar de comer. Só de voltar para SP já sinto os ombros mais tensos, mas não dá para viver de brisa a vida toda né?! (ou dá?? como faz?)

Eu cheguei lá na baixada há cinco dias com o coração na mão. Os últimos dias tinham sido tão intensos de tantas coisas que eu queria compartilhar dividir somar. Pensava em como processar, organizar, respirar. Me lembrar de respirar! Pela barriga, um dois, um dois…

E teve uma frase de Fernando Pessoa que não saiu da minha cabeça, que eu tinha lido uns dias antes numa revista qualquer: “O coração, se pudesse pensar, pararia” (no livro do desassossego).

Mas minha vida anda tão frenética, com tantas coisas acontecendo tudo-ao-mesmo-tempo-agora, com momentos de melancolia (poucos) e outros tantos de magia (muitos), tão incível apesar de; que minha única resposta cabível para esse atestado era: “Meu coração, se pudesse pensar, mais amaria“.


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