Arquivo de julho \30\UTC 2015

a mágica dos amores correspondidos

Quando eu era bem criança e comecei a rascunhar na minha cabeça as configurações de casais, amor romântico e relacionamentos; eu cheguei à conclusão de que, se você gostasse de uma pessoa, ela automaticamente gostaria de você. E vice-e-versa. Tão simples, amar. “Amor não-correspondido” era algo que eu jamais poderia imaginar que existisse – poxa, as princesas da Disney se apaixonavam pelo príncipe e eles sempre se apaixonavam de volta por elas, quase sempre à primeira vista, não…? Como eu poderia imaginar que existisse outra coisa que não isso?!

Mas essa ideia durou pouco, até minha primeira paixão platônica, aos sete anos (sim). Que durou uns bons anos, judiando desde cedo do meu romantismo e do poder de acreditar no amor.

***

Já uma moça pré-adolescente, me lembro de confessar para minha então melhor amiga tudo isso que eu imaginava antes, no alto da minha ingenuidade de primeira-infância. No que ela riu na minha cara, sarcástica: “hahaha se fosse assim seria fácil, né? pena que não é.” Foi então que entendi que, muitas vezes, você se apaixona por alguém e não é recíproco. E comecei a achar muito mágico duas pessoas se gostarem ao mesmo tempo, neste mundão-de-meu-deus, com bilhões de indivíduos, inúmeras oportunidades e infinitas possibilidades que nos são apresentadas diariamente. Que mágico, amar e ser amado…!

***

Mais de duas décadas se passaram. E, com elas, vieram incontáveis amores não-correspondidos, um punhado de amores bem-vividos e muitos, muitos corações partidos. Hoje, sou uma mulher de 30 anos que tem um emprego legal, paga as próprias contas, viaja sozinha para todo canto, fala quatro línguas, sabe cozinhar e escolher um vinho e fazer baliza e coordenar estampas. Mas ainda continua achando muito mágico amar e ser amada, pela mesma pessoa, ao mesmo tempo. Mágico.

“buscando o amor na prática”

No começo do ano, eu estava prestes a pegar um ônibus para o Rio para rever um amor pausado há mais de sete anos. Assim como eu peguei um trem Londres-Paris em outubro e cruzei o canal da mancha para passar um fim de semana com a então razão do meu afeto. Assim como, há dois anos, eu fui para o Rio passar um feriado e dar chance para um romance. Assim como, numa das vezes na Europa a trabalho, eu realmente cogitei pegar um voo até a fria Alemanha só para reencontrar uma paixão adormecida. Assim como, ao me apaixonar de novo na (e pela) cidade maravilhosa, eu tentei convencer um economista virginiano de que, apesar de seu ceticismo e pragmatismo, dá sim para um amor vencer a ponte-aérea. Assim como em tantas outras vezes eu fiz o que fosse preciso para estar perto de quem eu queria, quando achava que valia a pena.

***

Tirei o “tarô e o amor” há umas duas semanas e as cartas me mostraram que “estou buscando o amor na prática”, mas que as coisas não seriam fáceis, haveria sacrifícios envolvidos. Então relembrei essas histórias todas e me dei conta de que, todos os dias, eu sempre estou disposta a fazer o que for para um grande amor ter um final (ou um meio, o que já é bastante coisa) feliz. Sacrifício para mim seria olhar para trás e ficar imaginando como teria sido se eu tivesse de fato pego aquele ônibus. Porque se uma das partes um dia se arrepender de não ter feito algo, eu realmente espero que não seja eu.

das epifanias cotidianas

Estava na dermatologista por conta de uma alergia nas axilas. Quando ela me perguntou se eu “transpirava muito”, minha reação imediata foi responder:

– Bom, como eu nunca estive em outro corpo, não sei qual seria a referência, mas acho que minha transpiração é normal…?

***

Saí de lá pensando em como isso pode ser usado para tudo na vida. Em como tendemos a pensar que os outros sempre estão mais felizes, mais saudáveis, mais realizados e mais amados do que a gente; quando, na verdade, tudo o que temos de referência e tudo o que sabemos sobre como lidar com o mundo é o que temos dentro de nós mesmos.

Quando um de meus grandes sofrimentos é ficar decepcionada quando as pessoas não agem comigo como eu agiria com elas, é hora de dar um passo para trás e olhar o macro: talvez, este seja o único jeito que essa pessoa conhece.

eu passarinho

Seus olhos verdes continuam mar-sem-fim, mas agora é um mar meio desbotado de fim de tarde, cansado de assobiar ondas e beijar areias pálidas. Seu sorriso me parece desprovido de encanto – ou talvez seja apenas eu, que não sou mais apaixonada por você. Não me leve a mal: o carinho ainda é imenso, e receber qualquer contato seu ainda me produz uma alegria involuntária, e me pego sorrindo à toa, lembrando das suas eloquentes mensagens de bom-dia quando estávamos juntos.

Quando você arregaçou a manga da sua camisa-xadrez-de-festa-junina, eu reconheci as cicatrizes do seu antebraço, aquelas nas quais me perdi tantas vezes, na luz desperdiçada da manhã. Foi neste momento que reencontrei algum traço da paixão avassaladora que me tomou há quase dois anos – “eu já estive aí”, sentenciei a mim mesma.

O tempo passa, as paixões também. Seus braços ainda procuraram os meus, buscando algum conforto. Suas mãos tentavam alcançar as minhas, como se quisessem me convidar para uma valsa que eu não queria mais dançar. Passou, como passam os pássaros buscando novos verões, como passam as estações. Passou.


Blog Stats

  • 162,106 hits