sobre partir e voltar

E eu, que vivo feliz e saltitante minha vida de borboleta solta, de mil amores ligeiros e passageiros, me vi cair em contradição ao me dar conta de que uma das coisas mais legais de passar uma semana fora, viajando de férias, era saber que tinha alguém me esperando voltar.

pequenas mortes cotidianas

Semana passada, mais uma parte do meu passado (que eu ainda carregava no presente) morreu. E me vi pensando sobre essas pequenas partes de nós que morrem todos os dias. Algo que deixamos de gostar, alguém que deixamos de encontrar, uma música que deixamos de ouvir, uma pessoa que deixamos de amar. Um mundo que deixamos de ver. Como a gente se redescobre e se reinventa nas pequenezas de tantos momentos colecionados. A cada suspiro de amor, a cada instante de dor. E quanto de nós ainda precisa morrer, para que um outro “eu” sempre possa, a cada dia, renascer. Assim.

no ar, antes de mergulhar

Eu não sei se é a chegada do fim da copa (e a retomada da rotina querida), se é a mudança de escritório para uma casinha muy hermosa e cheia de novas histórias a serem escritas, se é um trânsito astrológico super generoso dizendo que meu ano de verdade começa agora em julho, se é a semana de férias no nordeste que está chegando, se são os muitos programas agendados para as próximas semanas, se é a viagem programada há anos que finalmente vai vir no segundo semestre, se é o fato de que, apesar de, só aparecem pessoas incríveis na minha vida… eu não sei o que é, porque no fundo é tudo isso, e não é nada disso. É um frio na barriga antes de cair de cabeça – aonde, nem eu sei.

Só sei que estou “confiando o futuro ao futuro“, e sinto uma esperança tão palpável aqui dentro, tomando todos os cantos feito espuma de detergente, que é difícil não acreditar que a vida poderia ser bem melhor – e será. Mas se continuar assim, do jeito que está, ainda assim vai ser, pra sempre, linda, linda. Porque é minha

piloto manual

Outro dia tinha que passar numa loja para trocar uma roupa, antes de ir à aula de balé. E tinha sido um dia tão, mas tão cansativo. Cheguei ao local e de lá pensei em comer junkie food (coisa que raramente faço) e depois voltar direto para a minha casa, sem ir ao balé. Pensei em nem trocar a roupa. Depois troquei. E não comi. E fui ao balé. E aí sim voltei pra casa, comendo um pacotinho de mini-pães de queijo no metrô, sentada na janela e vendo a cidade passar borrada ao meu lado, cheia de luzes. E me dei conta de que, a maior parte do tempo, vivemos no piloto automático. A gente praticamente nem considera que, a cada passo que damos, há uma quantidade infinita de outros passos que poderíamos ter dado. Mudar o trajeto para voltar para casa, trocar a opção de café da manhã, dormir do outro lado da cama, não passar condicionador no cabelo, deixar de responder alguma mensagem, testar outra combinação de roupa, experimentar algo totalmente novo, não adoçar a limonada, dormir na casa de alguém. Não dormir. Ver o nascer do sol.

***

Uma vez li um texto que dizia que tudo o que fazemos sem pensar é, na verdade, um mecanismo de defesa do cérebro para poupar energia. Se todos os dias, pelas manhãs, a gente fosse pensar em qual pé colocar na frente para levantar da cama, em como ligar o chuveiro, em qual ferramenta utilizamos para escovar os dentes, em como se acende o fogão… no meio da manhã já estaríamos exaustos. Então, tudo bem deixar muitas coisas no piloto automático. Mas tudo bem – e melhor até – se permitir mudar muitas coisas vez ou outra, e dar chance para que novas escolhas e trajetórias tragam uma perspectiva renovada de vida. Mesmo que seja apenas jantar pão de queijo no meio de uma semana ensolarada e cheia de pequenas-grandes decisões.

amores passados e passageiros

Fui para um lugar que sempre sonhei ir, para curtir dias desligada do mundo e vida que passa devagar, andar de bicicleta e me sentir livre. Vento no cabelo e rodinhas nos pés, cabeça nas nuvens e coração na mão. Quando voltei para a capital, havia alguém me esperando na rodoviária. Era feriado de primeiro de maio, o dia estava frio cinzo garoa. Ele cozinhou para mim com cuidado e atenção, e o céu abriu. Ficamos no terraço vendo o pôr-do-sol, contando “estrejas”, compartilhando histórias e corações partidos. Ele me leu um poema do Cortázar e eu segurei sua mão na minha. Mas conforme os dias foram passando, eu comecei a reclamar minhas asas de volta. Eu só queria ir embora.

***

Eu o vi na feira, na fila da tapioca. Ele não me viu. Ele acabou não embarcando naquele avião, mas mesmo assim nunca mais me procurou. Em algum momento a gente se perdeu, mas nenhum dos dois fez questão de se encontrar. A gente não se gostava tanto assim, também. Quando o vi numa festa, de longe, usei minha miopia avançada como desculpa para não esboçar sorriso. Ele tinha outra nos braços e fez questão de me mostrar. Continuei a dançar, bradando que ‘vou nas asas de um passarinho, vou nos beijos de um beija-flor’. Eu fui.

***

A gente estava num restaurante espanhol, porque eu queria honrar minhas raízes flamencas. Estávamos à luz de velas e pedimos cerveja da terra da minha família, e enquanto a gente conversava ele fez uma rosa de guardanapo para mim, e mil corações vazados, rasgadinhos com cuidado – eu vi que ele estava tentando fazer isso algumas vezes e fiquei quieta, observando. (Ele conseguiu na quinta tentativa.) Eu, cínica e desacreditada de tudo, matutando com meus botões se demonstrar romantismo piegas ainda é coisa que se faça num primeiro encontro.
Não era amor nem tinha futuro, mas eu adorava o fato de estar ali, com ele. Ele, alguém com quem eu jamais sairia em outras circunstâncias. Mas que foi gentil e atencioso num momento em que eu muito precisava de gentileza e atenção, e era isso que importava. O beijo dele tirava meus pés do chão.

***

Vou separar dois dias das minhas férias para ir até uma cidadezinha erma do leste dos Estados Unidos, visitar um amor antigo e mal resolvido e tentar virar (mais) uma página na minha vida. Enxergo sinais em tudo que me cerca de um ex me querendo voltar, da música que toca no duty free do aeroporto ao convite do evento fake no facebook; e mesmo sem ter nenhum pedido de volta realmente concreto, eu começo a imaginar que até poderia ser bom recomeçar. Tenho outros encontros programados e um celular que não para de piscar com outras tantas mensagens de amor líquido e estrangeiro, de uns três países diferentes. Às vezes canso do mundo e desligo tudo.

***

Todos esses amores são diferentes, e todos esses amores são iguais. Porque eles têm em comum a mim, que continuo insistindo. Depois de tantos tropeços, muitos erros e alguns acertos. Porque no fundo, o que a gente mais quer é que o amor nos dê algum crédito de volta. Ainda que tardio e meio cansado, desgastado. Ainda que.

há sempre uma ausência que atormenta

Fui renovar meu passaporte e, ao caminhar pelas ruas arborizadas dos jardins, duas lembranças me tomaram: há exatos dez anos, eu estava experienciando um tequinho de vida adulta no meu primeiro estágio na área de publicidade, a algumas quadras dali. Já cinco anos atrás, eu tinha voltado a trabalhar na mesma agência (que é a dois quarteirões do escritório onde trabalho hoje); e eu fiz este mesmo caminho para ir ao expediente depois de ter dado entrada no pedido de cidadania espanhola.

Nestes três percursos, num intervalo de dez anos, as ruas eram as mesmas, mas a Nathalia era completamente outra. Se eu tivesse dito à Nathalia de 2004 que a Nathalia de 2009 já teria morado fora, viajado um pouco pela Europa sozinha e bebido um gole de mundo, ela ficaria bastante surpresa – e realizada. Agora se a Nathalia de hoje voltasse para dizer a essa de 2009 que muita, muita coisa seria diferente cinco anos depois, e que aquele passaporte ainda iria rodar um monte, talvez ela não acreditasse. E como ela deveria acreditar – e sossegar.

***

Quase todos os dias, quando uma tristezinha non grata resolve tomar conta, eu tenho que me lembrar que tenho a vida que sempre, sempre sonhei ter. Há quinze, dez ou cinco anos – mesmo há dois. Nunca imaginei que chegaria tão longe. Então vem cá, coração inquieto: por que não sossega?

na dissonância do outono

“(…) às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na vaidade; no álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer hora o amor acaba.”
(trecho de “o amor acaba”, de Paulo Mendes Campos, publicado na revista Manchete em 16.05.1964)

Há exatos 50 anos o amor ainda acabava da mesma maneira que acaba hoje. E a gente continua esperando, no sentido figurado e no literal, que ele recomece a qualquer hora em qualquer lugar, travestido de acaso e desassossego, para chacoalhar nossas certezas e encher de surpresa nossas vidinhas programadas.


Blog Stats

  • 126,342 hits

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 43 outros seguidores