demasiadamente humano

Nos meus dois últimos relacionamentos, eu fui a primeira a reconhecer minha vulnerabilidade. A me entregar, dizer que estava apaixonada e disposta a fazer dar certo. E, nos dois casos, quem estava ao meu lado disse não estar na mesma página – e escolheram partir. Por muito, muito tempo, eu me culpei por isso. Achei que não deveria ser esse trem descarrilado, que deveria levar as coisa de forma morna e amena, de pôr um pé de cada vez, olhar antes de mergulhar. E demorou muitos meses para eu entender que essa sou eu. E, não sem muita dor prévia, eu consegui me aceitar e me perdoar. E entender que eu não quero uma vida mais-ou-menos, que doar um pedaço menor de mim ao outro, além de mesquinho; não seria justo comigo mesma e com a minha essência.

***

Só hoje, numa manhã de uma sexta-feira quieta e ensolarada de outubro, eu consegui chorar tudo o que não chorei esse tempo todo por ter cobrado tanto de mim mesma por esses relacionamentos terem “falhado”. Foi assistindo a um TED sobre vulnerabilidade que eu entendi que se reconhecer vulnerável, frágil e imperfeito nada mais é, no fundo, que se reconhecer humano. Um ser vivo. Um ser, vivo.

sobre reencontros

Uma vez um amigo me mandou uma frase que dizia que “voltar quase sempre é partir para um outro lugar“.

Depois da minha não-tão-boa experiência em Paris, há mais de quatro anos, eu nunca mais tive vontade de lá voltar. Mas, por circunstâncias do destino e de um pequeno romance encontrado no verão novaiorquino, eu comprei uma passagem de trem para cruzar o canal da mancha e passar um fim de semana de reencontro – nem tanto com o tal romance-relâmpago, mas mais com a cidade que me ensinou algumas das lições mais duras sob o verniz mais bonito.

E mesmo com fluidez num francês funcional, e acolhida por um sábado lindo de sol e temperatura amena, e com alguém para segurar a minha mão pelo Sena, num momento de vida tão diferente do anterior – e tão mais bonito… nada disso funcionou com a cidade-luz: eu não me apaixonei. Mas finalmente consegui me libertar do sentimento de que o CEP de 75qualquercoisa só não me atraía porque eu estive lá num momento tão difícil da minha trajetória – ele apenas não me atrai, ponto.

Num domingo de chuva impaciente, retornei ao local de um grande encontro para mentalizar e agradecer. Reconhecer todo o caminho percorrido a duras penas; e todo o sangue, suor e lágrimas que haviam me trazido até ali, àquele lugar, àquele momento. Chorando todo o choro que Paris chovia pelas ruelas de paralepípedo lá fora.

Depois que voltei para Londres, muitos me perguntaram se eu retornaria a Paris, se iria morar lá, se tinha morrido de amores. Porque, no fundo, acho que o que todos esperam ainda é um grande romance, daqueles que nos fazem mudar de país, de rumos, de planos. Pra gente acreditar num amor que move mundos e montanhas, que transforma e engrandece. Mas tudo que me saiu foi um “não, coração”. Voltar, ficar, mudar – isso nem passou pela minha cabeça. Que pena.

livin’ la vida linda

“(…) Confiava por instinto que confiar já era a resposta. Era muito especial que pudesse enternecer-se consigo mesmo. Com o que fora tão recentemente, como se, pelo outro lado das coisas, também lamentasse deixar-se de mão e mudar. Mas não era uma tristeza, era exatamente uma saudade de ter sofrido o que sofrera, o necessário para lhe ensinar a usufruir mais tarde, agora, a felicidade. Achava ele que se devia nutrir carinho por um sofrimento sobre o qual se soube construir a felicidade.

Deve nutrir-se carinho por um sofrimento sobre o qual se soube construir a felicidade, repetiu muito seguro. Apenas isso. Nunca cultivar a dor, mas lembrá-la com respeito, por ter sido indutora de uma melhoria, por melhorar quem se é. Se assim for, não é necessário voltar atrás. A aprendizagem estará feita e o caminho livre para que a dor não se repita. Estava a crescer. O pescador crescia para ser um homem tremendo.”

(valter hugo mãe, em “o filho de mil homens”)

***

Acabei de voltar de uma viagem linda aos EUA, com que sempre havia sonhado. Hoje estou embarcando para Londres, meu lugar favorito no mundo. Olho para tudo ao meu redor e não consigo imaginar, na minha realidade, um jeito mais bonito de se viver. Não de forma arrogante, mas de maneira humilde, de reconhecer valor em cada conquista alcançada. Se toda a dor passada, sofrida e superada (e que não foi pouca), me trouxe até aqui, a este momento, à vida que sempre sonhei, então por essa dor eu tenho também esse respeito de saber-se maior, mais forte, melhor. Eu sobrevivi.

“ela gosta de claridade”

Estava procurando o cantinho mais iluminado do escritório para colocar as flores lindas que ganhei de presente de boas-vindas de volta a SP, seguindo a regrinha que minha mãe, muito entendida de plantas, sempre diz quando mexe em alguma delas: “ela gosta de claridade”.

E foi essa frase que me veio à cabeça hoje mais cedo, cruzando a barulhenta e movimentada Rebouças, às nove da manhã de uma terça-feira linda e fresquinha de início de primavera, com um vaso na mão e um sorriso no rosto: eu gosto de claridade.

let your poor heart break a little

Há quase vinte dias, é nas ruas geométricas e matemáticas de Nova York que meu coração se derrete mais um pouco; e a cada canto é um respiro diferente, uma emoção, um suspiro, uma pulsação. Um sentimento de dever cumprido, comprido. “Porque o mundo, apesar de redondo, tem muitas esquinas”, li certa vez. E é um pouco nesses desdobramentos de uma vida moldada em tantos filmes e séries que eu vim me encontrar. Num calor abafado e hostil de plataforma de metrô, num céu de azul intenso recortado por muitos prédios muito altos, num primeiro beijo roubado no meio da Times Square de madrugada, nas luzes frenéticas e neuróticas da cidade que nunca dorme, numa Califórnia acolhedora de amigos e paisagens e viagens de carro e promessas de futuro.

Fico cheia de borboletas narrando o tanto de aventuras que ainda me esperam, aqui, ali, acolá. Em poucas semanas cruzo o Atlântico de novo, e esse pobre coração, já tão ferido de amar errado, parece não se preocupar mais em buscar novos curativos pelo caminho. Que assim seja, então: primavera, outono, verão.

um rio

Quando eu não consegui a passagem de volta que eu queria, para ir em aniversário querido, ficar na minha cama até mais tarde no domingo e tomar café da manhã preguiçoso, arrumar a casa e depois ir almoçar nos meus pais; eu quis partir, eu quis correr, eu quis sumir. Eu perdi a passagem e tive uma crise de choro, assim por uma coisa besta. E era como se um vulcão dentro de mim que estivesse sufocado e brincando de adormecido há um tempo eclodisse todo de uma vez só, escorrendo muitas lágrimas e soluços. Era como se tudo na minha vida que não aconteceu como eu queria e eu joguei pra baixo do tapete suspirando “paciência”, tentando não me importar além da conta, de repente tivesse sido esfregado na minha cara, mostrando que “sim, algumas coisas importam”. Eu fiquei chorando um tempo escondida, pra ninguém ver. E depois fingi que tava tudo bem, como sempre. 

Pensei nas 82 coisas que tinha que fazer naquela semana e que não podia delegar, nas férias ainda sem programação de nada, na fatura do cartão de crédito, na dieta adiada e no vestido que não fecha. No coração partido. Eu queria colo, afeto e mimos, ouvir “eu te amo e vai ficar tudo bem”. E em como a gente é frágil e tenta não ser, em como me ofereceram carona e eu disse “deixa que eu vou de metrô”, porque pra mim é sempre tão mais simples e automático não depender de ninguém. Porque quanto menos eu dependo dos outros, menor a chance de sair machucada. E que droga, regular afeto. Nos meus últimos romances, eu fui quem eu queria ser, quem eu sei ser. Entregue, doce, vulnerável. Dei um livro de poemas para um, disse que estava apaixonada. Trouxe um souvenir de viagem pro outro de algo que me fez pensar nele, prometi cozinhar minha melhor massa. E todos (me) partiram, em algum momento. E foi todo esse choro reprimido que escoou assim, num sábado à noite, numa rodoviária pequena de uma cidade do interior que não tinha mais passagens pra São Paulo. Eu chorei um rio que eu não sabia mais navegar. Até reaprender. Porque, mais dia menos dia, a vida empurra a gente de volta, pro barco e pro amanhã. De novo e sempre, pro novo. E pra sempre.

presente no presente

A linha de meditação que eu tento seguir é conhecida como a da “atenção plena” (mindfulness), que nada mais é do que “viver plenamente o momento”* – voltar 100% da nossa atenção para determinada ação. É preciso um treinamento pesado para, enquanto a gente está fazendo uma coisa, não deixar nossa mente voar longe com mil outras coisas que a gente tem tamborilando aqui dentro (pra viver, já vividas, sentidas ou não sentidas, lista de afazeres etc etc etc).

Quando comecei a ler a respeito, percebi que já é algo que eu faço um pouco: nas tarefas cotidianas, prestar atenção ao redor, reconhecer os detalhes, exprimir gratidão e tentar tornar o mundo à nossa volta um lugar mais leve e agradável, gentil. Ontem, me contaram de um monge que falava: “quando eu como, eu como; quando eu durmo, eu durmo” – que é exatamente isso: fazer uma coisa de cada vez, de forma plena. E que tem tudo a ver com a minha resolução de ano novo, que vem sendo aplicada meio que aos trancos e barrancos, mas vem – que é o que realmente importa. Não deixar a ansiedade tomar conta do nosso dia a dia é um baita desafio. Mas, no final das contas, percebemos o que a única coisa que temos de fato, por mais clichê que seja, é isso mesmo: o agora

 

*em inglês é “be here now”, uma frase que eu amo e que também é título do meu álbum favorito do Oasis :)


Blog Stats

  • 129,206 hits

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 48 outros seguidores