pies, para que los quiero*

Era um feriado de céu azul brigadeiro na cidade grande, com pequenas nuvens. Estávamos de mãos dadas pelo parque, procurando o planetário, quando ele parou e olhou para o céu. Passava um avião. Eu olhei para o brilho de seus olhos, mirei para cima. Ele estava encantado, não entende até hoje como uma geringonça tão grande e pesada consegue ganhar os ares desta forma – toda vez que viajamos nos perguntamos isso (por mais que a matemática e a física expliquem, nosso coração infantil não quer ver lógica, quer ver situação).

E então me veio à memória um outro momento de encantamento com aviões: quando eu era criança, minha casa ficava na rota do aeroporto de guarulhos, e eles passavam bem em cima do nosso quintal, mas láaa no alto. E eu podia passar horas, de dia ou à noite, olhando-os, imaginando, ’será que quem está lá dentro está olhando para baixo? será que eles imaginam que há uma garotinha no quintal, tentando adivinhar quem está lá? será uma executiva fechando grandes negócios? um pai de família? para onde vão? ou de onde vêm?…’ E eu ficava lá, criando histórias – quem estava indo, para onde, porquê.

Talvez tenha vindo daí minha fascinação por viagens e aviões, também. Porque hoje sou eu na janela, fitando lá embaixo. Haverá uma garotinha num quintal olhando para cima? E se houver, estará pensando em mim?

cielo 

*¿ si tengo alas pa’ volar?
(frida kahlo)

livre para voar

Por já ter morado (e viajado) na Europa, bem sei o que é ser imigrante em país distinto. E também bem conheço a fama dos brasileiros de aproveitadores, malandros, quererem levar vantagem em tudo. Já tive que aguentar cara feia e torcida de sobrancelha em vários casos - que não se derreteram apesar de eu estar vestindo meu melhor sorriso e falando a língua local -, somente pelo fato de meu passaporte ser verdinho.

Sou neta de espanhóis, sendo três dos meus avós nascidos lá (o outro, materno, era filho de portugueses), e vindos para cá no pós-guerra. Meu pai tem a cidadania espanhola, e me partia o coração saber que, devido às leis do país, eu só poderia ter requerido a minha antes dos 18, quando nem sabia quão importante era viajar pelo mundo com passe livre. E agora, só morando lá por um tempo.

Mas, no começo do ano, mudaram algumas leis. E uma pontinha do sonho teve um respiro de esperança de se tornar realidade. Fui atrás de mil documentos, fiz pedidos e declarações, ainda descrente de que poderia dar mesmo certo. Mas minha estrelinha continuou a brilhar forte, e hoje, menos de cinco meses após o processo iniciado, fui buscar meu novo passaporte de cidadã européia, tinindo de novo e lindo.

Não renuncio ao meu país, de maneira alguma. Sou brasileira de nascença e de coração. Mas tenho sangue espanhol também, que corre pelas veias, que me deu cabelos e olhos castanhos, proporções curvilíneas, drama-exagerado-almodovariano de fatos e voz aguda para discussões em família. E esse sangue, tão meu e familiar, hoje me deu mais um sonho realizado, e passe livre para voar, voar. Feito as borboletas que vivem saracoteando no estômago, ou feito o poema que melhor amigo recitou para mim num momento de angústia: “vai tua vida, pássaro contente, vai tua vida que estaria contigo”. Tou indo, nêgo, tou indo.

 

chanson d’amour

sing

For the love you bring, won’t mean a thing
Unless you sing, sing sing sing.

Feliz, feliz.
:)))

michael jackson morreu

William Bonner e Fátima Bernardes acabaram de confirmar. E eu ainda estou em choque. Quando soube da notícia, o uol já me disse que ele estava morto, e eu fiquei alguns minutos estática na frente do computador.

Não era fã nº 1, nem colecionava álbuns, fotos ou algo assim. Mas meu pai gostava bastante dele, e eu cresci ouvindo suas músicas. Como toda criança, tentei fazer o moonwalk, morria de medo do clipe de ‘thriller’ e sabia suas canções de cor. Júlio também adorava, e tínhamos muita dó de saber que ele, o rei do pop e maior astro da música, seria conhecido pelas gerações daqui pra frente como o freak comedor de criancinhas.

Quando noticiaram sua turnê, me bateu uma magoazinha de saber que eu não estaria em Londres e não poderia ver. Mas há umas duas semanas Júlio me avisou de uma promoção do VH1 que daria ingressos, passagens e hospedagens para a resposta mais original. E então, há quinze dias, boa parte do meu tempo livre era utilizado mentalizando nós dois em Londres vendo o show (’the secret’, pra atrair, sabe?). Escrevemos as frases mais originais, e eu sabia que íamos ganhar. Não sei como, mas sabia. Tinha aquela certeza ingênua dos apaixonados. Fiz todo mundo aqui em casa torcer, minha mãe acender vela, pensar positivo. Ficaram enrolando para dar o resultado, que não saiu até agora (e nem vai sair mais), mas eu já tinha tudo esquematizado para irmos e… ele morreu.

Podiam falar que ele era um peter pan pedófilo, que queria ser branco, que não tinha nariz, whatever. Pra mim ele era o rei do pop. E só desejo que ele descanse em paz.

desabafo

Depois de amanhã, eu e Júlio embarcamos para o Chile, para uma viagem de sonho pelo país vizinho, algo que queríamos há tempos.

Daqui a menos de um mês, meus pais decolam para uma semana na Argentina e no Uruguai, para comemorar, com um ano de atraso, as bodas de prata. Uma viagem cercada de expectativas por ser a primeira internacional dos dois, com passaporte tinindo de novo, passagens dadas por mim e pelo meu irmão e hotéis pagos com antecedência e sacrifício por eles, muitas borboletas na bagagem e na barriga.

Só que hoje minha mãe me acordou às seis da manhã para dizer que está pensando em cancelar tudo, por causa de uma gripe que virou pandemia. E eu perdi o sono pensando em quando o mundo virou um lugar tão perigoso para se viver.

Minha viagem de férias tão aguardada, para comemorar o aniversário do meu namorado, agora tem a sombra de um monitoramento do governo. A viagem para celebrar 26 anos que meus pais casaram, e 34 que estão juntos, está ameaçada por um vírus e um terrorismo dos veículos de comunicação. Minha mãe, preocupada por natureza, entrou na onda e não quer se arriscar.

Mas quem não quer se arriscar sou eu: não quero arriscar uma vida mais ou menos. Não quero ter que me assustar toda vez que ouço um barulho em casa só porque ela foi invadida há dois anos comigo dentro. Não quero ter que me preocupar se tranquei todas as fechaduras e liguei o alarme toda vez que saio de casa, mesmo se for para ir até à padaria. Não quero ter que prender minha respiração toda vez que alguém tosse ou espirra perto de mim só por causa da iminência de uma pandemia, não quero ter que ficar andando com gel antisséptico na bolsa para evitar germes, não quero ter que me segurar tensa na cadeira do avião questionando a probabilidade de ele cair em meia hora porque não revisaram os equipamentos corretamente antes de embarcar. Não quero me privar de comer o que gosto porque engorda, entope artérias, eleva o colesterol. Não quero máscaras cirúrgicas, vacinas, camisinhas, e um sem-fim de prevenções para nos protegermos de nós mesmos.

Porque até a tal da esperança, que diziam ser a última que parte, está morrendo antes. De medo. E eu não quero ser assim. Porque sou jovem, e dizem que quando somos jovens é que temos menos medo de tudo e de todos, mais coragem pra vida. E eu não quero, daqui a uns anos, envelhecer pensando que caduquei antes, justo na minha época de loucurices permitidas. Meu medo é legítimo e válido, mas nem por isso mais aceitável. Quero entrar naquele avião daqui a 48 horas sabendo que tudo vai ficar bem, sem violência, fome, febre, doença, gordura trans. E acreditando que, daqui a 28 anos, quem sabe, eu e Júlio poderemos estar em outro avião, comemorando 34 anos juntos. Ou bodas de prata, num outro inverno. Sem gripe.

o amor é importante, porra!

Quem me conhece sabe que tento ser moça fina e raramente falo palavrão. Acho que foi Danuza que disse certa vez que algumas pessoas quando o fazem parece que falam de flores, outras não. Eu me encaixo no último grupo – em mim acho feio, deslocado. PalavrÃO mesmo, bem maiúsculo e inadequado. 

Mas de uns tempos pra cá uma frase espalhada pelos muros da paulicéia me chamou a atenção. E é essa do título, e é a que se tornou capa da última revista da folha. Já virou lenda urbana: ninguém sabe quem fez (e faz), ou quando. Mas creio que todos sabem o porquê: numa cidade assim tão grande e impessoal, às vezes só uma frase pintada num muro para fazer as pessoas se darem conta de uma coisa tão linda e que, na correria do dia-a-dia, passa batida: o amor. Você está lá, atrasado pro trabalho, correndo pra aula, costurando o trânsito pra ir a uma reunião, e um muro na sua frente diz que o amor é importante. Porra.

Um chacoalhão mesmo, tipo, ‘acorda! tem vida lá fora, e tem amor!’. Acho bonito.

tirei em granada, que tem muito amor espalhado pelos muros, também.
* a foto eu tirei em granada, na espanha, que tem muito amor espalhado pelos muros, também.

que seja doce

É outono e faz frio. E é difícil vencer a preguiça que se instala vez ou outra, de seguir em frente, buscar outros horizontes, corresponder às expectativas. Tem dias em que dá vontade de fazer nada, fica quietinha debaixo das cobertas, esperando a poeira baixar, o sonho realizar. Mas enfrento o mundo e vou além – não tanto quanto gostaria, mas o tanto quanto consigo. Faço a minha prece e, como Caio, repito várias vezes, ‘que seja doce que seja doce que seja doce’. Às vezes o caminho mais fácil parece o da renúncia, ou o da autocompaixão. Mas não deixo a peteca cair: os dias têm sido bons comigo, e tenho mais motivos para agradecer do que para reclamar, amém. Deixo a polianice tomar conta, espero pelo feriado e pelo dia dos namorados, e pela tão aguardada viagem de férias. Porque quando surge uma ou outra decepçãozinha, convém praticar bons pensamentos e conservar uma fórmula-pronta. A minha tem sido, ‘meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer’. E a sua? : )

googling myself

Desde que descobri a sessão ‘Estatísticas do site’ no meu wordpress, sempre vou fuçar o que trouxe as pessoas até aqui, como links de outros blogs, ou no que elas clicaram quando aqui estiveram, coisas do tipo. Mas a parte mais curiosa é a dos ‘termos de motor de busca’. Ou seja: o que as pessoas digitaram no google.com que as encaminhou até meu humilde cantinho. Além dos óbvios ‘drops de anis’ e ‘drops de anis capricho’ (oi leitorinhas antigas!), um muito recorrente é ‘horóscopo do dia’. Acho engraçado porque meu post com esse título é meio caduco e, convenhamos, é apenas uma expressão e não o horóscopo em si. Por curiosidade vou até o site de busca e digito ‘horóscopo do dia’ só para ver em qual lugar eu apareço, e é só lá pela 5ª página. Aí fico pensando o que leva alguém a passar por mais de 40 links que realmente falam de horóscopo para por fim virem para cá, que não fala de signos do zodíaco ou mapa astral.

(uma pausa para dizer que meus termos favoritos que procuram por aqui são ‘vai dar tudo certo’ e ‘o semeador de estrelas’. quão lindo é isso, gente?!)

Mas hoje o que me chamou mais a atenção foi outra expressão que digitaram lá e chegou até aqui: ‘quanto tempo deve durar noivado’. Fiquei pensando o que levou uma pessoa a procurar respostas para isso. Seria uma noiva maluca achando que está sendo enrolada? Ou um noivo fazendo os cálculos para saber quanto tempo tem de solteiro? Ou uma mãe-futura-sogra que não vê a hora de se livrar da cria?

Enfim, achei curioso porque nunca pensei que um noivado deveria durar um tempo pré-determinado. Aliás, namoro ou relacionamento algum também, já que amor não deve ter prazo de validade – e aí é que mora boa parte da sua graça. Por xeretice digitei isso lá também só pra ver como fiquei na fita, e o trecho do meu texto que aparece é bem assim: ‘Lembro-me de que a primeira vez que ouvi alguém falar em noivado eu não deveria Dizem que para um amor ser bom, ele só deve durar o tempo que merecer.’

Espero que a pessoa tenha encontrado o que procurava.

go with the flow

‘e amanhã, e depois? e trabalho, amor, moradia? o que vai acontecer? típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o que vai acontecer acontecerá. relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará.’
(caio fernando abreu)

Esse é tipo meu mantra-contra-ansiedade. E acho que jamais consegui levá-lo tanto ao pé da letra quanto agora. As pessoas ao redor se preocupam, desesperam, não esperam: já está procurando? já arrumou emprego? já sabe o que quer? Não não não. Nunca tive tanta certeza de que algo muito bom está por vir. Então aguardo. Não sentada na janela, vendo a banda passar, que minha inquietude nem permite tal postura. Mas aguardo serena, fazendo a minha parte. Algumas coisas ruins aconteceram, mas outras incríveis também. E é mais dessas últimas que estão por vir, que eu bem sei. Meu barquinho já está na correnteza, que fui eu mesma que arregacei as mangas e coloquei. Deus dará. 

brand new baby

Há um tempo estava acalentando esta idéia, que veio ao mundo há duas semanas. Estava aguardando ela ficar mais redondinha para aprsentar a vocês e, apesar de ser tão novinha, ela já roubou meu coração, e vivo pensando em mil coisas para escrever por lá, passeios, lugares, viagens.

Espero que ela receba tanto carinho quanto este cantinho aqui ;]

Sejam bem-vindos! ;*

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