“ela gosta de claridade”

Estava procurando o cantinho mais iluminado do escritório para colocar as flores lindas que ganhei de presente de boas-vindas de volta a SP, seguindo a regrinha que minha mãe, muito entendida de plantas, sempre diz quando mexe em alguma delas: “ela gosta de claridade”.

E foi essa frase que me veio à cabeça hoje mais cedo, cruzando a barulhenta e movimentada Rebouças, às nove da manhã de uma terça-feira linda e fresquinha de início de primavera, com um vaso na mão e um sorriso no rosto: eu gosto de claridade.

let your poor heart break a little

Há quase vinte dias, é nas ruas geométricas e matemáticas de Nova York que meu coração se derrete mais um pouco; e a cada canto é um respiro diferente, uma emoção, um suspiro, uma pulsação. Um sentimento de dever cumprido, comprido. “Porque o mundo, apesar de redondo, tem muitas esquinas”, li certa vez. E é um pouco nesses desdobramentos de uma vida moldada em tantos filmes e séries que eu vim me encontrar. Num calor abafado e hostil de plataforma de metrô, num céu de azul intenso recortado por muitos prédios muito altos, num primeiro beijo roubado no meio da Times Square de madrugada, nas luzes frenéticas e neuróticas da cidade que nunca dorme, numa Califórnia acolhedora de amigos e paisagens e viagens de carro e promessas de futuro.

Fico cheia de borboletas narrando o tanto de aventuras que ainda me esperam, aqui, ali, acolá. Em poucas semanas cruzo o Atlântico de novo, e esse pobre coração, já tão ferido de amar errado, parece não se preocupar mais em buscar novos curativos pelo caminho. Que assim seja, então: primavera, outono, verão.

um rio

Quando eu não consegui a passagem de volta que eu queria, para ir em aniversário querido, ficar na minha cama até mais tarde no domingo e tomar café da manhã preguiçoso, arrumar a casa e depois ir almoçar nos meus pais; eu quis partir, eu quis correr, eu quis sumir. Eu perdi a passagem e tive uma crise de choro, assim por uma coisa besta. E era como se um vulcão dentro de mim que estivesse sufocado e brincando de adormecido há um tempo eclodisse todo de uma vez só, escorrendo muitas lágrimas e soluços. Era como se tudo na minha vida que não aconteceu como eu queria e eu joguei pra baixo do tapete suspirando “paciência”, tentando não me importar além da conta, de repente tivesse sido esfregado na minha cara, mostrando que “sim, algumas coisas importam”. Eu fiquei chorando um tempo escondida, pra ninguém ver. E depois fingi que tava tudo bem, como sempre. 

Pensei nas 82 coisas que tinha que fazer naquela semana e que não podia delegar, nas férias ainda sem programação de nada, na fatura do cartão de crédito, na dieta adiada e no vestido que não fecha. No coração partido. Eu queria colo, afeto e mimos, ouvir “eu te amo e vai ficar tudo bem”. E em como a gente é frágil e tenta não ser, em como me ofereceram carona e eu disse “deixa que eu vou de metrô”, porque pra mim é sempre tão mais simples e automático não depender de ninguém. Porque quanto menos eu dependo dos outros, menor a chance de sair machucada. E que droga, regular afeto. Nos meus últimos romances, eu fui quem eu queria ser, quem eu sei ser. Entregue, doce, vulnerável. Dei um livro de poemas para um, disse que estava apaixonada. Trouxe um souvenir de viagem pro outro de algo que me fez pensar nele, prometi cozinhar minha melhor massa. E todos (me) partiram, em algum momento. E foi todo esse choro reprimido que escoou assim, num sábado à noite, numa rodoviária pequena de uma cidade do interior que não tinha mais passagens pra São Paulo. Eu chorei um rio que eu não sabia mais navegar. Até reaprender. Porque, mais dia menos dia, a vida empurra a gente de volta, pro barco e pro amanhã. De novo e sempre, pro novo. E pra sempre.

presente no presente

A linha de meditação que eu tento seguir é conhecida como a da “atenção plena” (mindfulness), que nada mais é do que “viver plenamente o momento”* – voltar 100% da nossa atenção para determinada ação. É preciso um treinamento pesado para, enquanto a gente está fazendo uma coisa, não deixar nossa mente voar longe com mil outras coisas que a gente tem tamborilando aqui dentro (pra viver, já vividas, sentidas ou não sentidas, lista de afazeres etc etc etc).

Quando comecei a ler a respeito, percebi que já é algo que eu faço um pouco: nas tarefas cotidianas, prestar atenção ao redor, reconhecer os detalhes, exprimir gratidão e tentar tornar o mundo à nossa volta um lugar mais leve e agradável, gentil. Ontem, me contaram de um monge que falava: “quando eu como, eu como; quando eu durmo, eu durmo” – que é exatamente isso: fazer uma coisa de cada vez, de forma plena. E que tem tudo a ver com a minha resolução de ano novo, que vem sendo aplicada meio que aos trancos e barrancos, mas vem – que é o que realmente importa. Não deixar a ansiedade tomar conta do nosso dia a dia é um baita desafio. Mas, no final das contas, percebemos o que a única coisa que temos de fato, por mais clichê que seja, é isso mesmo: o agora

 

*em inglês é “be here now”, uma frase que eu amo e que também é título do meu álbum favorito do Oasis :)

quatro girafas e um coração cansado

Ele saiu super tarde da redação, e mesmo assim foi me encontrar. Me contou histórias incríveis sobre sua paixão pela F1, em como trabalhou em todos os cadernos do jornal que é minha referência de periódico desde que me conheço por gente, sua viagem à Europa. Ele tinha os olhos doces e qualquer coisa de triste, que não se encaixa. Ele foi gentil e atencioso, e eu queria ter sentido o mesmo que ele pareceu sentir, depois que nos despedimos. Mas não aconteceu.

***

Ele não era o meu tipo, isso eu sempre soube. Mas minha má vontade inicial aos poucos foi dando lugar a um interesse genuíno por suas origens. Ficamos um tempão tagarelando sem parar quando nos conhecemos, uma coisa emendava na outra e, quando vi, mais de duas horas haviam se passado desde o primeiro ‘oi’. Ele era inteligente, divertido, interessado. E contava mais histórias que o Forrest Gump – eu escutava todas, com muita atenção. Mas a gente sempre soube que não tinha nada a ver. A gente nunca mais se falou – e, que triste, isso nem me afetou.

***

Fui vê-lo sem grandes expectativas. Mas aos poucos ele foi me conquistando, e foi o encontro mais legal que tive nos últimos tempos. Falamos de pizza de frango com catupiry, pão na chapa e cachaça. Amazônia, Santo Daime e o quanto ele amava São Paulo. Um americano que falava português com fluência e que tinha vindo para ficar um tempo, sabia pronunciar o fonema “ão” sem falhas e me levou em algumas deliciosas aventuras gastronômicas estrangeiras pelo centro. Ele sabia ser cínico quando precisava e doce quando queria. Seu jeito de me olhar me deixava vermelha, e meu peito ficava quentinho de pensar que ele era uma boa surpresa que a vida me trouxe. Porém, quando encontramos um amor de seu passado e ele ficou transtornado; nos vimos num presente incerto, discutimos futuro e todo um peso caiu sobre nossos ombros. Quando a bagagem do outro se materializou diante dos meus olhos, eu queria ter tido mais vontade de deixar isso para trás e seguir em frente. Não tive.

***

Saber escolher qual uva harmoniza com qual prato não me impressiona, mas um elogio bem colocado, sim. Ele disse que gostava do brilho nos meus olhos e me bateu uma tristeza de pensar que este brilho já foi muito mais genuíno e intenso uns anos atrás – numa época em que eu ainda nem era essa “mulher decidida, viajada e vivida” que ele disse admirar. Ele tinha levado um capacete extra para me dar carona em sua moto, e eu achei isso tão bonito. Mas estava uma noite gostosa e a gente resolveu ir a pé. Ele pensava em planos na 1ª pessoa do plural; e eu ali no singular, pensando na minha tão esperada viagem, na minha agenda pros próximos dias, nas minhas prioridades. No meu cinismo. Eu queria muito ter sentido de volta, ter respondido àquela mensagem, ter tido um lampejo de paixão sem controle. Mas não senti nada. Nada.

***

São muitos encontros, muitos tropeços, muito sentimento que acaba sendo reprimido ou subestimado ou apagado. Algo em mim se perdeu no meio de tantas histórias, e eu muito me questiono se não deveria insistir mais, reconsiderar, me abrir, lutar. Se essa espera pelo leão está acabando com todas as girafas tão legais que cruzam meu caminho, e que sempre trazem uma lição. Cada uma delas me faz aprender um pouco mais sobre mim mesma, e mesmo assim eu estou tão cansada de, cada uma das vezes, ter que começar tudo do zero – aprender toda uma nova história de vida, decorar árvore genealógica, características zodiacais, gostos adquiridos, que tipo de humor funciona, quais objetivos de vida. Tanto, tanto. E saber, lá no fundo, que talvez o mundo seja feito mesmo de girafas. E, a nós, só cabe aprender a dançar conforme a música – e ficar na ponta dos pés.

memória de peixinho dourado

A cada nova pessoa que conheço, a cada novo encontro, em toda perspectiva renovada – eu sempre me arrumo como se fosse a primeira vez, escolho o vestido mais bonito, o perfume mais cheiroso, os assuntos mais interessantes na ponta da língua, meu sorriso mais charmoso. Como se nunca antes eu tivesse levado um tombo, como se nunca ninguém tivesse me machucado, como se meu coração nunca tivesse sido partido, como se aquela pessoa que prometeu realmente tivesse ligado, como se aquele grande amor de fato tivesse voltado. Porque não há saída alguma se, ao menos por um instante, pensarmos que vai ser tudo igual, a gente vai se desiludir, se machucar, alguém vai partir, alguém vai chorar; todos vão sofrer, e ninguém vai morrer.

Acreditar que vai ser diferente, a cada vez, todas as vezes, não é questão de otimismo barato – é quase questão de sobrevivência. 

o lado negro da força

Há momentos em que as coisas não caminham como esperávamos. Isso acontece com todos nós – que eu, como qualquer ser humano, apesar de pesar a mão no otimismo muitas vezes, também me vejo em situações em que preciso enfrentar frustrações e desapontamentos. De uns tempos pra cá, tenho encontrado em mim sentimentos que não queria, de maneira alguma, encontrar. E o maior desafio no momento tem sido lutar contra isso: como é duro olhar para dentro e encontrar coisas que julgamos feias e erradas, ruins. E como fazer para não deixar que isso tome conta, e nos transforme em pessoas amargas e infelizes? Mudança de foco, meditação. Muita dedicação.

Acho triste reconhecer em mim tudo isso, e me enxergar assim tão humana, tão falível – não que em algum momento eu tivesse achado que estava acima do bem e do mal, muito pelo contrário. Mas ainda assim é um susto.

Enquanto estou no trabalho árduo de resolver essas questões em mim, tento enxergar isso tudo como o lado negro da força: uma força que descobrimos em nós mesmos após enfrentar tudo que julgamos de pior na nossa personalidade, e que precisa melhorar, evoluir e crescer. Amadurecer. Afinal, o que a vida sempre quis da gente é isso mesmo: pra agir com o coração, há que ter coragem.

coragem


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