segunda-feira de maio

quando eu releio links com dicas mirabolantes sobre tudo e sobre nada, explicando detalhadamente todas as referências do novo clipe do donald glover, as narrativas do romance miscigenado do casamento real, os protocolos de vestimenta do baile do met gala, a poesia dos textos pessoais e confessionais de quem ainda tem coragem de se expôr com mais crueza, como melhorar a produtividade se você trabalha em casa, o melhor jeito de requentar um pedaço de pizza (um. pedaço. pra quem mora sozinho. que, curiosamente, já é como faço, intuitivamente. foi com surpresa e certo desapontamento que me dei conta disso – porque me descobri mais sabida do que imaginava, e também porque reconheci que meu pedaço de pizza solitário não ficará melhor reaquecido do que já fica).

as roupas brancas estão secas no varal há muito mais tempo do que qualquer pessoa julgaria razoável para serem recolhidas, e não sei ainda quando serão. mas morar sozinha tem dessas, de reconhecer nossos limites e nessas questões de casa os meus são esses: não há. empurro até onde dá. passo domingos inteiros cozinhando e testando receitas e congelando refeições e separando pedaços de bolo já assados para distribuir, mas limpeza e arrumação: dispenso. odeio.

foi também na prateleira da cozinha que eu esbarrei com o desenho que ele fez de mim durante o jantar. eu nem o vi desenhando, acho que estava distraída ao telefone falando com a minha mãe alguma coisa, juro que não vi e, quando olhei, lá estava eu, desenhada: pronta. de lado, olhos expressivos, cabelos sobre os ombros. me achei tão bonita. ele me diz que estou linda todas as vezes em que nos vemos, mas foi a primeira vez que, de certa foma, me enxerguei através de seus olhos. enfiei aquele guardanapo na bolsa porque como eu poderia não levar aquilo embora? era eu, ali, bonita, desenhada. ele achou graça. não só levei como expus: na prateleira da cozinha. me faz sorrir toda vez que vejo e me lembro. como poderia ter deixado pra trás?

você iria gostar dele, porque ele quer me dar o mundo. de certa forma ele pode me dar um pedaço do mundo porque esse é o trabalho dele. acho que vocês conversariam por horas, porque eu converso por horas com ele e eu conversava por horas com você e o que me une a ambos é uma conexão mágica que começou em abril de anos diferentes e que veio tomando todos os espaços, como o céu abundante de outono, de azul limpo e impositivo. como a luz oblíqua e difusa de outono, cheia de significados e lembranças. o trabalho dele é ganhar os céus e mesmo assim ele tem os pés tão no chão, ele é tão pouco deslumbrado mesmo sendo tão incrível, que sempre me surpreende. como você. mesmo sendo tão diferentes, vocês dois me encantam por motivos tão semelhantes – e acredito que talvez todas as paixões, de certa maneira, venham assim da mesma matriz. outro dia ouvimos legião e eu contei que “giz” era a minha favorita e ele nem percebeu quando cantei que “lá vem, lá vem, lá vem de novo: acho que estou gostando de alguém. e é de ti que não me esquecerei.”; e que num lampejo os dois estiveram presentes no mesmo espaço-tempo ali, naquele quarto que você já ocupou, nos livros que você me deu, na mão que você apertou, nas lembranças que você deixou. e agora havia um novo futuro e ele gostava de me desenhar durante o jantar, quando eu não estava olhando. a vida pode ser tão bonita.

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