baby, eu sei que é assim

O décimo segundo dia de maio amanheceu com a luz branca de um céu nublado invadindo todo o quarto. Os pneus deslizavam pela rua fazendo um som molhado, apesar do silêncio que denotava ausência de chuva. Silêncio, ausência. Silêncio. Ausência. “Quase uma aliteração”, pensei. Semelhantes na fonética e no sentido.

Acho que choveu, constatei baixinho após seu “Bonjour !” sempre animado ao abrir os olhos.

Levantei e abri a sacada. Agora era meu coração que chovia certa angústia, relembrando as manchetes tristes do noticiário, falando de manobras políticas, golpe de Estado, retrocesso. E pensando que foi o último dia que acordamos juntos, após essa breve e intensa história que o mês de abril me trouxe de presente, compactada em 25 dias e incontáveis momentos. Infinito-o-quanto-durou, que veio como era pra ser. “Porque foste em minh’alma como um amanhecer, porque foste o que tinha de ser”, enchendo todos os silêncios de música e todas as ausências de riso solto. Um romance para trazer um pouco de mágica a um coração apático e errático, cansado de vazio.

(…)

Você trouxe pão fresquinho e eu fiz café enquanto lavava a louça do jantar de ontem. Quando fomos para a rua, o céu coalhado de nuvens já ensaiava uns cantos azuis, e um sol tímido tentava dar as caras. Enquanto caminhávamos buscando as galerias de arte do bairro; eu cantarolava “Time after time” e você balbuciava “Chega de saudade“, ambos tropeçando nas letras que não eram das nossas línguas nativas. Você – que um dia antes só sabia dizer que não queria ir embora -, hoje já parecia conformado, me escrevendo dedicatórias divertidas nos livros espalhados pela casa, com nossas piadas internas sobre sufixos de grau e banalização da gratidão.

Quando voltamos, eu te fiz a sobremesa brasileira com nome de casal injustiçado e foi esse romeu-e-julieta que adoçou a nossa tarde pré-aeroporto, lendo notícias do planalto em quatro línguas diferentes – e mesmo assim não entendemos nada. Essa vida é mesmo muito engraçada.

 

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2 Responses to “baby, eu sei que é assim”


  1. 1 Fabi maio 15, 2016 às 11:40 am

    Que história bonita. <3


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