levei minha alma para passear

E foi pra me tirar de uma apatia involuntária que você apareceu. Decidido, assertivo, sorrindo. Quando alguém havia me dito “quem sabe você encontra um amor no Rio”, eu ri – porque há muito tempo ninguém me encanta e minha vida tem sido no modo automático há tantos meses, que eu achei graça pensar que o acaso poderia me trazer alguém assim, do nada. Mas eu aterrissei no Santos Dumont, naquele tapete de casas e belezas óbvias (porém sempre impactantes), num dia fresco e molhado do inverno carioca. E essa cidade que eu tanto amo, tão cheia de pessoas queridas e que sempre me trouxe boas surpresas, dessa vez me brindou com a promessa de um amor novo, com brilho no olho. Você, que veio sem frescura, que riu das minhas trapalhadas ansiosas, que me convidou para um show que eu queria muito ir e achou bobagem quando eu, no ápice de minhas feminices, disse “não ter o que vestir”. Você tomou a iniciativa, comprou os ingressos, chegou antes da hora marcada e estava me esperando. E eu, que sou preguiçosa e sempre vou pela lei do menor esforço, fiz o que em outras circunstâncias não faria: saí mais cedo de um jantar de família e cruzei a cidade apenas para poder te ver. E foi tudo tão natural. E desde o primeiro instante em que nos vimos eu quis te dar um beijo, mas engoli essa ansiedade maluca e apertei todas as borboletas no estômago bem apertadinhas, para ninguém escapulir como um soluço pela minha boca, muito aberta falante e sorridente, porque a verdade é que eu estava assim bem nervosa de ter você ali, comigo. Você, que cresceu no centro-oeste mas torce pro mesmo time que eu, que é muito inteligente e sagaz, tem a profissão do meu pai e meu tipo de humor. Que entende um pouco de signos e adivinhou o meu, e meu entregou seu mapa astral e disse que “nossos signos talvez não combinassem”, que ficou jogando a culpa de ter nascido no difícil Virgem na sua mãe, “que agendou a cesárea e bagunçou com meu cosmos”. Eu te falei que adorava seu ascendente e te contei sobre o retorno de Saturno e nós dois ficamos jogando curiosidades triviais na conversa assim ao longo da noite, meio que mostrando como somos pessoas interessantes e de cultura vasta e versátil, apesar de você ser tão cartesiano, cético e pragmático. Mas que fazia tudo isso com um sorriso irresistível, e um jeito tímido de jogar o cabelo para trás. Você, que verbalizava as coisas bobas que eu também pensava mas tinha vergonha de falar. Que me beijou e foi o melhor beijo da minha vida. E que, de forma abrupta, partiu assim como chegou: de repente, sem pedir licença, como uma tempestade de verão. 

***

Algumas semanas depois eu ainda não entendia o que havia acontecido. Porque eu estava sentindo de novo uma coisa que eu não sentia há muito tempo e eu não conseguia nem imaginar que você pudesse não estar sentindo a mesma coisa. Eu me declarei, e você se derramou em mil desculpas. De que acabou de sair de um relacionamento longo, coração partido e pouca vontade de se jogar de novo, essas coisas que todos nós sentimos tanto e tantas vezes ao longo da vida, com esse monte de bagagem que nos pesa e que é tão difícil largar.

Uma pena. Eu queria que as borboletas tivessem vindo para ficar desta vez – tinha até enchido a casa de flores. Vamos ter que esperar outra primavera.

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4 Responses to “levei minha alma para passear”


  1. 1 Juliana Clorado outubro 6, 2015 às 5:52 pm

    putz, estava tão contente até a página dois…
    que droga amiga!
    =/

  2. 2 nachataa outubro 6, 2015 às 5:58 pm

    *abracinho*

  3. 3 Leticia outubro 16, 2015 às 5:46 pm

    caramba, que texto bonito. Fui lendo e sentindo aqui :(

  4. 4 Natália outubro 21, 2015 às 8:55 am

    Nathália, meu Deus, menina, vem aqui e me abraça.

    Somos tão iguais em tantos sentidos que olha senti daqui lendo o seu texto. Sabe o que me dá esperança nessa vida? A sua esperança ainda (de verdade)! Vejo que você ainda não desacredita no amor, e sempre tenta, mesmo se quebrando em mil pedacinhos depois.


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