presente mais-que-perfeito

Quando o passado me voltou como um relâmpago, numa noite fria de sábado, me bateu uma tristeza. Questionei os caminhos e as decisões – as que tomei e as que foram tomadas por mim, e eu não tive escolha a não ser aceitar. Poderia ser eu naquele porta-retrato feliz no aparador, ao lado do gato. Poderia ser eu aquela esposa. Poderia ser eu aquela futura mãe.

Até uma amiga me lembrar que eu só sou hoje a mulher que sempre sonhei ser exatamente por não estar naquele porta-retrato. E eu gosto demais de quem eu me tornei e da vida que tenho para sequer imaginar que eu poderia ser hoje qualquer outra coisa que não isso. Que poderia ser eu aquela que faz graça de algo em que eu acredito muito. Poderia ser eu aquela que compra apartamento na planta e economiza pra passar férias em Miami. Poderia ser eu a estar na outra ponta da polarização política que vivemos ano passado. Poderia ser eu aquela que está hoje ao lado de um homem que um dia eu amei e achei ser pra vida toda, mas que hoje parece não ser nem sombra daquela pessoa que me era tão familiar – e não gosto de quem ele se tornou.

Se libertar do passado e estar em paz com suas escolhas é um processo muito profundo, lento e cheio de cicatrizes a sarar. Vira-e-mexe esse fantasma me volta, para que eu pare por um momento, respire fundo e encare todos os caminhos que me trouxeram até aqui – e faça ajustes na trajetória, caso seja necessário. Fiquei pensando em tudo o que eu vivi neste tempo e tudo que me é tão caro e importante para esboçar uma realidade paralela em que nada disso tivesse acontecido. E aceitei uma vida que levo hoje e que tem sim muitos momentos de angústia, mas que é mais-que-perfeita porque é minha.

***

Quando levantei no dia seguinte, tendo um domingo fresco de sol inteiro nas minhas mãos e com todo o poder de decidir fazer apenas o que eu quisesse com ele, transbordando de possibilidades, a única coisa em que consegui pensar foi “que bom que não era eu naquele porta-retrato.”

Anúncios

3 Responses to “presente mais-que-perfeito”


  1. 1 Laylah Raeder junho 29, 2015 às 7:41 pm

    Ai, Nath… Faz tanto tempo que não comento nada seu. Mas que bom ouvir de vc que é bom não ser vc naquele porta-retrato. Me dá medo do futuro, das decisões que estou prestes a tomar, muito parecidas com aquele seu momento de decisão. E mais medo ainda daquelas que vão ser tomadas por mim, que me assombram na incerteza que me trariam. Mas eu olho pra você e vejo que tudo caminha, eventualmente, pra algo bom, quando a gente busca isso. Por mais que tenham períodos difíceis, eles são decisivos nessa trajetória que você está trilhando. Trouxeram vc até aqui, não foi? E valeu a pena, não foi? Por isso e outras coisas eu tenho esperança que por mais que seja incerto o meu futuro e por mais que exista uma torcida contra meus planos, tudo vai dar certo, mesmo se eu pegar um caminho errado em algum momento. Como já aconteceu! Então obrigada pela esperança, obrigada por preferir trabalhar em Londres a tirar férias em Miami ou curtir suas praias a comprar apartamentos na planta, obrigada por não gostar de quem ele se tornou e obrigada por escrever. Imagina só se você estivesse lá naquele porta-retrato ao invés de diante dessa tela! Onde eu iria te encontrar?

  2. 2 Thali julho 17, 2015 às 9:48 pm

    Nada como uma realidade superestimada para nos sentirmos melhores do que realmente somos,né?!
    Boa sorte ;)

    • 3 nath julho 17, 2015 às 10:02 pm

      (tentei responder por email, como sempre faço; mas o endereço é inválido)

      oi thali, tudo bem?
      em 1o lugar, agradeço você ler o drops e vir aqui comentar – sempre leio todos os comentários, :}

      mas devo confessar que o seu me deixou pensando… quem teria a realidade superestimada, na sua percepção? eu ou o meu ex?
      e sobre “nos sentirmos melhores do que realmente somos”, eu também fiquei na dúvida… seria sobre eu querer me sentir melhor do que realmente sou…?! porque na verdade minha batalha é outra: minha autoestima é super baixa e minha luta na verdade é por valorizar o que tenho de bom e aceitar o que não é tão bom assim, e me amar do jeito que eu sou (que não é “melhor” nem pior, é apenas único ;)
      da mesma forma como amo todas as pessoas que me cercam, porque tudo que elas têm que eu gosto ou desgosto é que faz delas únicas. e que bom que seja assim!

      enfim, na verdade fiquei surpresa como em tão poucas palavras você me fez ter tantos questionamentos…!

      um beijo,
      nath


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Blog Stats

  • 163,148 hits

%d blogueiros gostam disto: