na cinza das horas

“Vai ter que operar”, ele me disse sem a menor cerimônia, como se estivesse dizendo “vai ter que levar guarda-chuva porque vai chover em pontos isolados da cidade”. Eu segurei meu olhos e os comprimi em silêncio, num esforço fora de série para não me derramar toda em lágrimas naquela mesa muito branca e naquela luz muito branca e naquele avental asséptico que tinha uma boca desprovida de sentimentos me falando de cirurgia como se fala de lista de supermercado. Eu nem sabia por onde começar a perguntar, o que eu deveria saber, o que questionar.

Me senti muito só. E eu, sempre muito tagarela e falante pelos cotovelos, passei umas boas horas sem querer falar com ninguém. Mas meu terapeuta insiste que é isso mesmo, que todos estamos sós no mundo e “que bom, não depender de ninguém, saber que se pode tomar as rédeas da própria vida”.

A lâmpada da cozinha queimou e eu tive que arranjar o mínimo pra comer no escuro, usando a lanterna do celular. Eu vi o moço dos meus sonhos numa praia semi-deserta da Bahia, mas ele nunca mais voltou. A tira do meu chinelo-que-não-solta-tiras estourou no último dia de viagem, assim como a alça da minha mala. Passei muito mal no barco, vontade de vomitar e de morrer em 40 minutos de trajeto que pareceram 40 dias no purgatório. Mas numa rara abertura de sol, ficamos nas piscinas naturais falando de planos pro futuro; e numa noite em que faltou luz, ficamos no bunker falando de amores passados, e esses dois momentos valeram a viagem toda.

Ganhei brigadeiro com cacau do Belém de quem voltou de viagem. E chocolate da amazônia peruana de outro alguém. Tenho uma amiga para falar sobre tudo e nada e a gente se apoia e não tem vergonha de expor nossas fragilidades. Tenho muita sorte. Tenho que resolver muitas burocracias no Detran e coisas que eu queria ter alguém pra resolver pra mim e não tenho, mas tenho alguém pra resolver comigo e isso é muito bom. Agora tenho um carro dez anos mais velho que eu e um medo para apertar no punho e tomar posse. Tenho pesadelos, e neles tenho muita raiva, uma raiva que não sinto no dia a dia – ou não expresso. Estou tentando ser disciplinada, o que exige muita força contra a minha natureza lenta e preguiçosa. Ando lendo Pessoa, ando lendo pessoas. Minha vida é um eterno fazer, desfazer e refazer de planos. O dólar ta caro, o tomate também. Quis curar a baixa autoestima com vestidos lindos que encontrei em promoção. Mudou a estação. Estou planejando as minhas férias, passo um domingo inteiro na cama com bolsa de água quente pra cólica e chá quente pra companhia, comendo chocolate e assistindo seriados ad eternum. Tenho amigos mudando de cidade e de vida, essa nossa infinita busca pelos recomeços. Procurei uma segunda opinião e decidi não operar, escolhi esperar. Tomo um punhado de comprimidos e vitaminas, faço tratamentos. No meio do caminho tinha um fusca e agora ele é meu.

No tocante ao amor, continuo apática. Dia desses, eu e uma amiga descobrimos sair com o mesmo cara – ela no presente, eu num passado muito próximo. Não senti absolutamente nada – achei apenas curioso. Quase nada mais me emociona e, como este não é meu estado natural, (não) sentir isso me dá uma tristeza profunda vezenquando, esse eterno desencanto. Continuo a matar todas as plantas que me cercam – mesmo as mais resistentes -, e penso que amor algum é capaz de existir na seca. Mas continuo a ter medo de chuva.

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1 Response to “na cinza das horas”


  1. 1 Tamiris setembro 28, 2015 às 3:37 pm

    Me identifiquei com praticamente tudo, os chocolates, o domingo de cama e seriados, a apatia, o medo da chuva, a tentativa de ser disciplinada… Até com a cirurgia, que no meu caso, acabei fazendo. Leio os textos e sinto que você está falando comigo. Beijos, adoro tua escrita!


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