um rio

Quando eu não consegui a passagem de volta que eu queria, para ir em aniversário querido, ficar na minha cama até mais tarde no domingo e tomar café da manhã preguiçoso, arrumar a casa e depois ir almoçar nos meus pais; eu quis partir, eu quis correr, eu quis sumir. Eu perdi a passagem e tive uma crise de choro, assim por uma coisa besta. E era como se um vulcão dentro de mim que estivesse sufocado e brincando de adormecido há um tempo eclodisse todo de uma vez só, escorrendo muitas lágrimas e soluços. Era como se tudo na minha vida que não aconteceu como eu queria e eu joguei pra baixo do tapete suspirando “paciência”, tentando não me importar além da conta, de repente tivesse sido esfregado na minha cara, mostrando que “sim, algumas coisas importam”. Eu fiquei chorando um tempo escondida, pra ninguém ver. E depois fingi que tava tudo bem, como sempre. 

Pensei nas 82 coisas que tinha que fazer naquela semana e que não podia delegar, nas férias ainda sem programação de nada, na fatura do cartão de crédito, na dieta adiada e no vestido que não fecha. No coração partido. Eu queria colo, afeto e mimos, ouvir “eu te amo e vai ficar tudo bem”. E em como a gente é frágil e tenta não ser, em como me ofereceram carona e eu disse “deixa que eu vou de metrô”, porque pra mim é sempre tão mais simples e automático não depender de ninguém. Porque quanto menos eu dependo dos outros, menor a chance de sair machucada. E que droga, regular afeto. Nos meus últimos romances, eu fui quem eu queria ser, quem eu sei ser. Entregue, doce, vulnerável. Dei um livro de poemas para um, disse que estava apaixonada. Trouxe um souvenir de viagem pro outro de algo que me fez pensar nele, prometi cozinhar minha melhor massa. E todos (me) partiram, em algum momento. E foi todo esse choro reprimido que escoou assim, num sábado à noite, numa rodoviária pequena de uma cidade do interior que não tinha mais passagens pra São Paulo. Eu chorei um rio que eu não sabia mais navegar. Até reaprender. Porque, mais dia menos dia, a vida empurra a gente de volta, pro barco e pro amanhã. De novo e sempre, pro novo. E pra sempre.

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