pés alados

Comecei a fazer balé aos três anos de idade. Tenho várias fotos de tutu esvoaçante, tirei diploma infantil (!) e adorava saltitar por aí. Até que, aos sete, num descuido ao atravessar a rua com a minha avó, um caminhão nos pegou em cheio. Me lembro de abrir os olhos embaixo dele, depois do impacto, e olhar para trás – meu pé esquerdo estava preso embaixo da roda traseira. No táxi a caminho do hospital, eu podia ver seu esqueleto todo ensaguentado (dizem que quando a dor é muito forte, nossos neurotransmissores bloqueiam. Eu não tinha pele alguma mais lá e não sentia absolutamente nada). Fiquei dois meses de cama, tive que reaprender a andar. E parei o balé, os pliés e piruetas. Mas sempre quis voltar.

***

Depois de “grandinha”, me tornei andarilha de carteirinha. Faço tudo a pé sempre, porque economizo uns trocados e porque é o único exercício na minha agenda pouco aeróbica. Mas não to pra brincadeira: sou a pessoa que conheço capaz de andar por mais tempo sem se cansar. Horas e horas e horas. Acho a melhor meditação, o melhor respiro para colocar a cabeça em ordem.

Porém, ao balé mesmo eu só voltei ano passado, mais de vinte anos depois. Foi quando deu, e parece que meu corpo estava fazendo o que sempre quis fazer. É meu momento mais aguardado da semana.

***

Tudo isso para contar que estava na praia há dez dias e tive um incidente imbecil, de novo com meu pé esquerdo. Um dos meus dedos ficou preso debaixo duma cadeira, vi estrela de tanta dor, feito desenho animado do pica-pau. Este dedo ficou roxo e eu mal conseguia andar. Mas não era em andar que eu pensava – eu olhava pra ele e suplicava, “não quero parar o balé, por favor não me faça parar o balé, por favor por favor por favor.” Eu havia acabado de renovar minha matrícula por um ano.

pé na areia e cabeça nas nuvens

pé na areia e cabeça nas nuvens

Já estou me recuperando, apesar de ainda maneirar nas pontas e meias-pontas. Meu professor pegou leve comigo, mas eu continuo indo às aulas, persistente. Porque, no fundo, uma das minhas maiores habilidades ainda é conseguir levantar depois de um tombo. (E tirar os pés do chão logo em seguida, só para não perder o hábito.)

 

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5 Responses to “pés alados”


  1. 1 Bianca Garcia abril 22, 2014 às 8:10 pm

    é preciso cair para aprender a levantar, dizem. que tenha o peso da leveza… baile.

    :-*

  2. 2 li abril 23, 2014 às 10:47 am

    Uau!!!! Ah, o ballet e uma paixao, que so quem sente sabe!!! Ainda nao me perdoo por nao ter tempo de praticar. Ano que vem, eu volto! Nath, eu sei que nao e a primeira vez que le isso aqui, mas impressionante como me identifico com seus textos!!!! Beijo grande!
    Recentemente li um livro que acho q vai gostar. A descoberta ou o livro dos prazeres, da Clarice. Ja leu? Se nao, leia!!! :-) Quanto aos acidentes…voce nasceu para volar!!! Brave!!!!!

  3. 4 Deborah maio 5, 2014 às 12:48 am

    E maio? O q me diz?


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