mar adentro

Dia desses estava esperando meu pai para ir ao cinema quando vi nosso ponto de encontro de sempre. Ele não existe mais – agora é um banco. Incrível como em tão pouco tempo tudo pode mudar assim: justamente um banco invadiu nosso ponto de encontro (justo contigo, que só andava com dinheiro no bolso porque não tinha cartão de crédito ou de débito). E na volta pra casa refiz o caminho que fizemos um sem-número de vezes, por muitas noites. Você, que arrebatou minha vida sem pedir licença e tomou conta de todos os espaços, e partiu com a mesma velocidade com que chegou, feito um relâmpago. Reencontrei nossos beijos derramados pelas redondezas, abraçados de risos soltos e brincadeiras bobas, feito duas crianças. Tem muitas esquinas marcadas pelos teus olhos verdes, próximas à minha casa. E acho isso bom.

Quando você partiu e me partiu, ambos sabíamos que era o melhor a se fazer. Chorei por uma noite apenas. E depois arranquei esse buraco como se arranca um band-aid, sem dó, para doer menos. Logo emendei um outro romance – esse sim eu achava ser muito ajustado adequado apropriado e bem-vindo. Ledo engano. Tudo que você tratou de construir, ele tratou de destruir. No fim, quem mais contribuiu para que eu me tornasse a mulher que sou hoje não foi quem eu acreditava ser certo – foi você mesmo, todo torto e imprevisível, com humor instável e olhos líquidos. Você diminui a dimensão da sua importância em minha vida, mas eu sei bem tudo de transformação que veio contigo, e como sou grata. E como o carinho que sinto é feito de imensidão.

Quando você foi embora pra valer, para ir atrás de seus sonhos, nós nos falamos brevemente. Nossa despedida foi rápida porém doce – eu estava do outro lado do oceano, morrendo de orgulho de sua coragem, prometendo te visitar nas próximas férias para você finalmente me mostrar suas habilidades de professor de mergulho. Você, que tem olhos de mar limpo e olhar de horizonte sem fim, cheiro de abraço e pele queimada de tarde passada na praia sob o sol de pior horário.

Dia desses, soube que você voltou. Mas não quis te escrever ou procurar. Você voltou, mas a gente não vai voltar. Prefiro te guardar numa daquelas caixinhas dos amores que foram o que tinham de ser, tiveram o tempo certo e a real medida do afeto. E se a gente se trombar por aí, espero te ver com o mesmo sorriso que eu. Porque sim.

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2 Responses to “mar adentro”


  1. 1 li abril 18, 2014 às 4:37 pm

    “Seus olhos ao inves de verdes, deveriam ser vermelhos incandescentes.”

    Simplesmente lindo, Nath!

  2. 2 bianca garcia abril 20, 2014 às 9:08 am

    Gostaria de ter escrito isso… Me trouxe a leveza que eu precisava, mas não sabia :)


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