suburbano coração

O meu grande plano para 2013 é algo que venho acalentando há tempos, mas parece que só agora vai vingar de vez – morar sozinha. Como toda grande mudança, no sentido figurado e no literal, esta também traz muito frio na barriga. Não somente porque representa o grande passo de entrada no mundo adulto, mas porque ela também significa deixar para trás o bairro onde cresci, e que me traz tantas lembranças em cada caminhada. O Tatuapé foi crescendo comigo nesses vinte e um anos que moro ali, e deixou de ser um bairro residencial e provinciano para se tornar um “polo de modernização” na zona leste. Uma bobagem marketeira. A mentalidade dos moradores continua a mesma, eu ainda pago fiado na venda, vivo cruzando com gente que se lembra do meu avô, e consigo encontrar minhas amigas em qualquer horário ou dia da semana porque em cinco minutos a gente chega na casa uma da outra. Mesmo com os preços obscenos praticados por toda cidade, no Tatuapé eles ainda são mais em conta e camaradas, e cada atividade tem o conforto de ser feita “no bairro”. Nossas ruas ainda têm paralelepípedo. 

Ontem, voltando do almoço de domingo com minha madrinha, para visitarmos a nova casa da minha prima no bairro vizinho, ela foi me narrando a história das ruas – ou, melhor dizer, a “nossa” história encontrada nas ruas. “Foi aqui que seu padrinho deixou o carro aquele dia”, “eu e sua mãe adoramos essa casa!”, “foi aqui que eu e o Vi tiramos nosso RG – sabia que temos só um número de diferença, e a gente sabe o número um do outro de cor?”. Essas histórias também são minhas, e elas se confundem com as do bairro – eu que visito minha tia-avó num dia de semana para tomar café da tarde e ganhar galhinhos de arruda de seu jardim; que amo os domingos pela manhã porque vamos à casa da minha madrinha ver meus priminhos e tomar café com bolo antes do almoço; que tento comprar o máximo de coisas perto de casa para “ajudar no comércio local”. E agora, ao visualizar uma mudança não muito distante no horizonte, me dá um aperto no peito de delegar uma parte tão grande de quem sou ao passado, e olhar apenas para o futuro. A rua em que fui atropelada com minha avó, a esquina onde eu e o Bruno demos nosso primeiro beijo, a escola de inglês de muitas tardes no colegial, a igreja da primeira comunhão. Está chegando a hora de escrever novas histórias, e desenhar um novo caminho. Escolher um outro bairro para chamar de lar.

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2 Responses to “suburbano coração”


  1. 1 ca março 5, 2013 às 10:06 am

    Aiii que bom ,vc voltou a escrever:)))


  1. 1 parábola de hoje | drops de anis Trackback em março 28, 2013 às 12:35 pm

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