bloco do eu sozinho

“Solidão: um lugar bom para visitar, mas ruim para permanecer.”
(Josh Billings)

No último carnaval, decidi ficar em casa sozinha. Meus pais foram para um canto, meu irmão para outro, meus amigos ficaram em São Paulo… e eu fiquei só. Não por falta de opção, mas por ela própria mesmo: não quis ver ninguém por quatro dias, não coloquei o nariz para fora de casa, nem quando a comida começou a rarear na despensa. Chamei esse momento de meu retiro espiritual, e não estaria mentindo se dissesse que foi um dos melhores carnavais que já tive.

Pude experienciar cuidar da casa e da cachorra, dormir acordar comer ver tevê na hora em que desse na telha, curtir o silêncio – este amigo que me é tão caro e tão raro no dia a dia frenético das obrigações cotidianas. Abrir as janelas pela manhã, tocar música favorita em volume animado, meditar, colocar a leitura em dia, arrumar a bagunça. Minha família ficou em choque com a minha decisão, incrédulos de que alguém pudesse escolher ficar só quando tivesse opção contrária, quando no carnaval a obrigação é se jogar na festa e ser feliz. Mas em momento algum senti culpa ou tristeza. Foi um mergulho tão bom dentro de mim mesma.

Desde pequena, sempre fui muito metida a independente, sempre gostei de ficar sozinha. Do alto dos meus impávidos quatro anos de idade, acordava mais cedo que todos e ia para a sala assistir ao gato Félix quietinha, para não acordar ninguém. Brincava de boneca sozinha, inventava histórias e mundos imaginários. E foi assim por um bom tempo, até chegar num ponto em que ficar só já não era mais opção; e em como eu me senti desamparada ao me dar conta disso. E quanto autoconhecimento foi necessário, quanta sola de sapato gasta, quanto estudo, quanta jornada, quantas conversas com amigos, quantas reflexões…! Tudo isso para, num domingo ensolarado de carnaval, eu me sentir abençoada por poder ficar só, com a serenidade merecida de saber que não preciso me afobar não, que nada é pra já.

“… e quando escutar um samba-canção.
assim como: ‘eu preciso aprender a ser só’
reagir e ouvir o coração responder:
‘eu preciso aprender a só ser'”

(gilberto gil)

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11 Responses to “bloco do eu sozinho”


  1. 1 Letícia Luz março 24, 2012 às 1:35 pm

    eu também era assim quando criança. Sempre preferi fazer minhas coisas de madrugada, quando era silêncio e não tinha ninguém pra dizer qualquer coisa. Hoje já não consigo mais olhar pra dentro de mim, ficar sozinha é como se todo mundo tivesse me abandonado. E o pior, é sentir-se assim quando há muita gente ao redor.
    Preciso me encontrar de novo, parar de ser afobada e esperar as coisas acontecerem ao seu tempo.

    • 2 nath março 27, 2012 às 6:26 pm

      também não precisa se afobar viu?
      é algo que leva tempo, esse encontro consigo mesma.
      exige muito autoconhecimento, paciência e disposição.
      mas se há uma vontade, com certeza já é um primeiro (grande) passo ;)
      um beijo!

  2. 3 Ana Paula março 25, 2012 às 3:12 am

    Bom de ler! Bonito!
    Passou bem a sensação do teu carnaval. :)

  3. 5 Ju março 27, 2012 às 10:26 am

    esses momentos são tão necessários quanto raros não?
    =)

  4. 7 Linda março 27, 2012 às 11:34 am

    Me identifiquei muito com esse texto… As vezes, faço o que chamo “meu dia” em uma das minhas melhores companhias, eu! Tão gostoso ir ao shopping; badalar numa livraria; ir ao cinema… no seu ritmo, no seu tempo, no seu silêncio. Já passei vários fins de semanas sozinha, experimentei o sabor de comprar minha flor favorita, lírio, conversar com ela (sem ninguém por perto para criticar, rs!) comprar Cd, experimentar novas receitas, comprar aquele vinho… Engraçado, que não vejo isso como solidão…Para mim solidão é aquele vazio que sentimos, mesmo estando em meio a multidão, e talvez como diz o ditado, essa seja a pior.

    Beijos!!!

    PS: Quando era criança, esperava minha mãe dar aquela durmidinha básica após o almoço, ia para a sala, fechava todas as cortinas, apagava as luzes e colocava o disco de LP e ensaiava os passos de ballet . Uma das minhas melhores lembranças de infância. Achei que era mal de filha única esse, de necessitar di solitudine, mas acho que todo ser humano deveria tentar exercitar isso…um dia para você, ou um momento seu, para fazer as coisas que gosta, se cuidar, se amar! :-)

    • 8 nath março 27, 2012 às 6:29 pm

      eu também faço muito isso de “meu dia”, amore!
      mas é, como você disse, sempre fora – no cinema, na rua, em outro canto.
      ter esses momentos aqui em casa é mais difícil, porque não moro só – e acho que por isso mesmo que foi tão especial.
      e também acho que todo mundo deveria exercitar isso sempre que possível – depois que a gente aprende o caminho, difícil é ficar sem ;)
      um beijo!

  5. 9 Linda março 27, 2012 às 11:35 am

    :-O Meu comentário virou um texto, eu tento, mas não consigo não comentar tanto…rs


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