espelhos por toda parte

“(…) Nunca vemos além de nossas certezas e, mais grave ainda, renunciamos ao encontro, apenas nos encontramos a nós mesmos sem nos reconhecer nesses espelhos permanentes.”
(“Pensamento profundo nº 9”, capítulo de “A elegância do ouriço”)

Neste pensamento profundo, Paloma, uma garota de 12 anos superdotada e adoravelmente esperta, chega à conclusão de que as pessoas não se relacionam com todas as outras porque estão sempre a procurar a si mesmas e, quando não encontram reflexo no espelho seguinte e só veem vazio, saem em busca de outro. Ela diz que com ela não, Sebastião; ela quer é conhecer pessoas em que não encontra eco algum de seu mundo.

Já eu devo dizer que minha atividade mais apreciada dos últimos meses tem sido sim encontrar meu eco em quem cruza meu caminho. Tenho a sorte de conhecer pessoas com histórias de vida das mais distintas e, mesmo assim, me reconhecer, mesmo que de leve, em todas elas. Na profissão publicitária e na facilidade em fazer amigos do Seo Carlos, um senhor de 83 anos. Nas músicas que a gente tem vergonha de dizer que ouve e no gosto eclético para filmes do Frank, um dentista americano de 41 anos. Na doçura, curiosidade e mente sonhadora da Mayra, uma antropóloga mineira de 29 anos. No desejo de encontrar um grande amor companheiro, da travesti filipina que tem quase a minha idade e me faz rir até doer a barriga, de tanto falarmos besteira. Em todos os amigos novos, e velhos e de sempre, que têm um quê de mim e me trazem um pedaço de si.

E, por mais egotrip que isso possa soar, se reconhecer em tantos mundos tem me dado um prazer imenso de saber que, por mais que a gente seja forçado a acreditar que é muito único em tudo que faz e sonha, há um montão de gente que, mesmo vindo de origens completamente dissonantes, se reconhece em algum aspecto dessas ações e desejos. Dá uma sensação de pertencimento ao mundo, de aqui e agora, de fazer a ponte entre as pessoas e aprender novas linguagens e histórias de vida, novos caminhos e destinos. Ao contrário de Paloma, que busca o que lhe é completamente estranho, eu quero sim encontrar o estrangeiro, mas no que já é me familiar – o eu que há em cada um do outro, para, desta maneira, ser capaz de formar outra unidade: o nós.

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10 Responses to “espelhos por toda parte”


  1. 1 Ca março 6, 2012 às 4:20 pm

    ai que linda:)…li a arte de viver leve e amei viu!!!adorei a dica!!!

  2. 3 Andreia março 6, 2012 às 5:15 pm

    O teu texto fez-me lembrar o texto de Freud sobre o que ele chama de “unheimlich” e em que ele defende que apenas conseguimos estranhar o que nos é intrinsecamente familiar; que para nos ser estranho, tem que ser familiar ao mesmo tempo…

    Estranha esta ideia ao inicio, mas bem ponderado… até que é nos familiar ;)

    bjo*

  3. 5 nana março 7, 2012 às 1:56 pm

    coisa mais linda da vida!

  4. 6 Ju março 7, 2012 às 5:13 pm

    nossa nath, eu nem sei sabia… muito complexo… vou pensar a respeito
    =)

  5. 7 Camila Kzan março 11, 2012 às 10:11 pm

    Como é bom vir aqui e conversar contigo… Um beijo com carinho e saudade sempre.


  1. 1 there is a light that never goes out « drops de anis Trackback em maio 3, 2012 às 11:05 pm
  2. 2 me and you and everyone we know | drops de anis Trackback em maio 21, 2013 às 12:15 pm

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