deixar partir

Matheus, meu priminho de quatro anos, estava segurando uma bexiga que lhe dei. Uma daquelas com gás hélio, que escapam com o menor descuido. E foi o domingo inteiro para cima e para baixo com aquilo entre os dedos, no quintal. Ora amarrada no pulso, para poder brincar mais livre e destemido; ora desamarrada e só segurando mesmo, para sentir o frio na barriga de quase-escapar, de um medinho de deixar partir.

Mas então uma hora ele se distraiu, amarrando os sapatos, e ela se foi. A bexiga vermelha, voando livre, chocando-se contra o céu azul lavado a mão, indo indo indo. Uma metáfora tão bonita de tudo o que eu preciso fazer com algumas coisas da minha vida, do que eu preciso me libertar.

E por algum tempo ele ficou se culpando, “por que eu soltei? por que eu deixei ela voar?”. Peguei suas mãos pequeninas entre as minhas e expliquei que é assim mesmo, que às vezes a gente tem que deixar algumas coisas irem para outras entrarem na nossa vida; que agora ele podia brincar e correr mais livre, sem se preocupar em perder a bexiga, que eles já tinham se divertido bastante e que ela tinha ido brincar em outro lugar, com outra criança. Como se, ao dizer tudo isso assim para ele, eu tentasse reforçar para mim mesma que apego só traz atraso de vida, que é preciso soltar o que nos prende e enxergar novos horizontes.

Sorte que, para ele, o caminho ainda é mais fácil, fruto de uma distração corriqueira. Para nós exige um pouco mais de preparo e força de vontade. Mas os frutos valem a pena.

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2 Responses to “deixar partir”


  1. 1 Amiga maio 13, 2011 às 8:06 am

    Nath,

    Eu acompanho o seu blog quase todos os dias, bem quieta, virou mania. Sei que você está nessa de “deixar partir” há um tempão, está se esforçando para isso, mas nunca se esquece que tem que “deixar partir” Sabe por que? Porque no fundo você sabe que não é válido desistir dos próprios sonhos e correr dos próprios sentimentos. Querida, tão mais fácil assumir nossos sentimentos e conviver em paz com isso. Existem duas escolhas que cabe a você. Uma: deixar realmente partir, esquecer, abrir mão dos seus sentimentos porque nesse momento é o que você julga melhor para você, ou viver intensamente até a última gota o que você sente, porque de verdade você acha que vale muito a pena e quando eu digo viver intensamente não é ir atrás mas viver isso dentro de você porque isso de basta. “Não vou pensar mais nada, vou deixar as coisas acentecerem. Enquanto isso, vou fazendo a minha parte.” Aquele lance do Quintana de cuidar do jardim para que as borboletas venham. De repende, a mudança tão procurada poderá ser a maneira de encarar o problema, talvez mais leva, prática e objetiva. Porque quando a gente tem certeza que quer alguma coisa, o universo conspira de verdade ao nosso favor.

    Bem, querida, a internet é um troço muito louco…vc pára de repente no blog de alguém, lê, gosta e começa acompanhar como se fosse um livro. Passa a torcer pelo personagem principal, se envolver em sua trama e lhe ter como uma grande amigo. Eu não sei se deu para pegar o que eu quis dizer e se eu me intrometi demais na sua vida, mas sinceramente, torço para que os próximos capítulos deste livro sejam felizes porque já te tenho como amiga e te desejo bem.

    Beijo grande no seu coração e melhoras. A alegria e a esperança são irmãs inseparáveis. ;-)

  2. 2 Joyce Muller maio 17, 2011 às 11:47 am

    Oiee Nath, td bem ?

    Já trocamos e-mails algumas vezes. Esccrevo no Mundo Joy. Leio seu blog há um tempão e adoro. Hoje eu estav precisando ler um texto como esse.

    Obrigada por me inspirar.

    Beijo


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