pão e circo

Há uns dois anos, acho (não tenho a menor noção de tempo, quantidade e distância), meu irmão estava assistindo ao programa do Luciano Huck e eu parei para acompanhar uma história. Se não me engano, era naquele quadro que reformam um carro, mas parece que a pessoa tem que passar por um “teste final” para conseguir de volta a caranga. Enfim. Nesse episódio, o convidado da vez era um senhor de cinquenta e poucos anos, família muito humilde, que nunca teve uma chance na vida – e tudo o que pode acompanhar um drama para ganhar mais audiência. A tal prova final dele era cantar. Imitar o Elvis, James Brown ou algo assim, se não me falha a memória. Alguém famoso. E ele foi lá, fantasia e tudo, banda pronta. E cantou. Muito. Voz linda, emoção a mil, platéia empolgada, ganhou o carro.

Até aí seria mais uma história qualquer de um programa de auditório, se não fosse o discurso final dele. Quando o apresentador começou a elogiar, pedir para ele cantar mais, aquela reciprocidade e carinho dos espectadores, ele começou a chorar. E contou sua história de vida. Disse que, desde pequeno, pobre, numa família numerosa, ele sempre achou que era especial. Que ele tinha um dom, que o destino dele seria diferente dos pais, dos irmãos. Ele sempre acreditou muito nisso, lutou pelo sonho de uma oportunidade que… nunca apareceu. E só agora, já na meia-idade, que ele teve a chance de mostrar isso ao mundo, pela primeira vez. Todos ficaram muito comovidos. Eu chorei.

Porque então me veio uma epifania, “poxa, então mais gente se sente assim?”. Porque a gente sempre acha que é especial, que é único, que é predestinado a ter um futuro brilhante… e pode ser mesmo que aconteça, lindo. Ou pode ser que não também, pode ser que a gente acabe levando uma vida medíocre como a grande maioria da população; e talvez termine num programa de auditório, aos 50 e poucos anos, vendo um apresentador usar nossas tristezas para ganhar uns pontos a mais na audiência.

Vira-e-mexe essa história volta à minha cabeça. Quando algo dá errado, quando tomo uma rasteira. “E se eu for como o Sr. Fulano de Tal, a única a acreditar que sou assim especial?”

Sabem, um dos últimos textos que deixei aqui foi bem positivo e esperançoso, porque de fato era assim que eu me sentia quando o escrevi. Mas a felicidade não veio para ficar de vez, ainda. E a gente aqui, brigando com unhas e dentes, buscando o que quer que isso seja. 26 anos nas costas e minha maior luta ainda é para dosar expectativas. Descobrir até que ponto meus sonhos funcionam como a tal lei da atração, para chamar coisas boas para a minha vida; e até que ponto eles só criam esses tais castelos de areia que vivem a ser destruídos pelo vento, me fazendo acumular um histórico cada vez maior de frustrações e corações partidos.

Eu quero acreditar. Que tem mais um grande amor à minha espera, que eu posso lutar pelos meus valores, que eu posso amar as pessoas e ser feliz, que eu posso mudar o mundo à minha maneira. Mas ser idealista às vezes cansa. E tudo o que se quer, no fim de um dia exaustivo, é um colo e um cafuné quentinho, dizendo que tudo vai acabar bem. E não num programa de auditório.

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4 Responses to “pão e circo”


  1. 1 Ju maio 10, 2011 às 10:26 am

    ai eu vi esse programa… eu não queria chegar nos 50 e tantos pra me dar conta de que ainda não fiz o q queria, não fui quem eu queria e não tenho o q eu quero…

    putz nath, a vida cansa as vezes viu

    queria te dizer algo de positivo, mas não to conseguindo ultimamente

    =/

  2. 2 Larissa L. maio 10, 2011 às 11:46 am

    Nath, sei como se sente viu? Porque, de alguma forma, também tenho visto meus sonhos como castelos de areia… com medo de não se realizarem, de ficarem perdidos por aí… e eu tb sinto que ainda tenho muito por realizar, embora não saiba se vou conseguir…!
    Essa coisa da expectativa é um tema que aparece em todas as minhas sessões na terapia… será que é um erro ou é plausível sonhar? Vale a pena? Não sei…
    De qualquer forma, cheguei a conclusão de que mesmo que eu sonhe e me frustre ou deixe de sonhar e fique mais frustrada ainda, melhor seguir em frente. Percebi o quanto ficava mais mal se ficasse ruminando, amaldiçoando minha má sorte e afins… Num deu certo? Paciência… não foi por falta de vontade e esforço. É pq nao era pra ser… Espero que uma hora seja, mas até lá, de nada adianta ficar lamentando, pq é aí que não conseguimos nada, mesmo!
    Um abraço bem forte, querida!
    Fique bem!
    =*

  3. 3 Flá maio 10, 2011 às 1:45 pm

    Como é estranho quando outras pessoas escrevem tão bem exatamente aquilo que eu estou sentindo mas não consigo elaborar… É uma coisa tão esquisita perceber que minha vida adulta não é nada como achei que fosse ser! castelos de areia soprados pra longe e o desespero de não saber pra onde ir daqui…

    Enfim… muito lindo o texto,parabéns!

    =*

  4. 4 Henriett Diniz junho 18, 2011 às 3:02 pm

    a tristeza existe porque sem ela não haveria poesia…
    e aquela sensação tão boa de fe-li-ci-da-de, que de vez em quando aparece e às vezes com toda a força, também não.
    podemos ser plenos, sem ser assim tão grandes quanto aquilo que pensamos ou que nos fizeram acreditar que deveríamos ser, até porque a genuinidade, a simplicidade, é sempre mais.


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