home sweet home

O Tatuapé é um bairro bem provinciano. Minha mãe e minha madrinha cresceram aqui, e meu avô é praticamente um dos fundadores do bairro, citado nas revistinhas locais que contam a história da região, lembrado pelos moradores. Mamis contava que, quando criança, não gostava de andar com ele pelas calçadas porque ele parava de metro em metro para papear com alguém. Eu também odiava isso, nela e nele, quando pimpolha. Porque sempre aparecia alguém que eu nunca havia visto na vida para apertar minhas bochechas e salientar como eu havia crescido, ohmeupai. E minha mãe morou praticamente a vida toda aqui. Mudou-se apenas quando se casou com meu pai; compraram um apartamento em Santo Amaro e lá ficaram por nove anos. Mas, como boa filha que é, à sua casa retornou. E eu vivi um terço da minha vida lá, e dois aqui.

Quando me mudei para cá, todos diziam que o Tatuapé tinha espaço para crescer. Claro que tinha: só havia casas! Não havia muitos prédios, nem sequer um supermercado, a oferta de escolas de inglês e lojas era bem escassa e o shopping center mais próximo era a dois bairros de distância. Mas ele foi crescendo, e eu fui junto. Primeiro um shopping pequeno aqui, depois um hipermercado acolá, e por aí vai. Eu morei, de 92 a 2000, numa vilinha bem pequena, onde aprendi a andar de patins e bicicleta na rua, onde fiz um monte de amiguinhos, onde tinha festa junina com fogueira e guloseimas típicas todo mês de junho, onde levei muito tombo e aprendi a me reerguer, onde vivi grande parte da minha infância. E, desde 2000, moro em outra rua pequena, perto de uma pracinha, um buffet e uma antiga fábrica de tapetes.

Com o tempo, meu padrinho faleceu, minha avó se foi, meu avô acompanhou. Mas a gente ficou. E o Anália Franco virou lugar de novo-rico, e hoje tem um je ne sais quoi dizer que se mora no Tatuapé, como se os moradores daqui fizessem questão dessa nova importância adquirida pelo bairro. Pois não fazem, eu não faço. Apesar de achar que há um milhão de coisas a serem melhoradas, e de ter pavor de pegar a Radial Leste no horário de pico, me conforta saber que tenho meus amigos de infância sempre a poucas quadras de distância, que visitarei meu colégio do 1º grau de dois em dois anos porque é nele que eu escolhi votar, que meus casinhos adolescentes estão sempre a um virar de esquina (apesar de raramente cruzar com um deles), que na hora do almoço as ruas têm cheiro de cebola refogando e feijão cozinhando, que tenho sempre tudo na palma da mão e que, para o bem ou para o mal, quem cumprimenta todos aonde vai hoje em dia sou eu. E ontem, quando eu fui comprar uma nova erva para um chá numa casa natural que eu nunca tinha ido, um senhor muito simpático, na falta de troco, disse que eu poderia passar outro dia lá e pagar, simples assim, sem nunca ter me visto na vida. E eu posso não conhecer muitos lugares no mundo, mas sei que isso não aconteceria com facilidade em qualquer outro canto. Porque aqui a gente confia nas pessoas, e recebe de braços abertos novos moradores e visitantes, e porque vendedores passam de carro com alto-falantes na rua, oferecendo frutas e pães, feito cidade do interior. Porque eu posso reclamar sim de um monte de coisas. Mas não há nada como se sentir em casa.

***

escrevi esse texto há quatro anos, quando o drops ficava no outro domínio ainda. mas hoje me deu vontade de publicá-lo de novo, porque eu acordei às 8h com a ana maria braga gravando seu especial de aniversário aqui, na praça sílvio romero, lugar que já cruzei inúmeras vezes e guarda tantas lembranças queridas.

o que mudou desde que eu publiquei esse texto pela primeira vez é que, vá, hoje até que já conheço bem mais lugares no mundo. mas essa sensação de se sentir em casa aqui, isso continua igual.

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5 Responses to “home sweet home”


  1. 1 Scheyla outubro 19, 2010 às 9:44 am

    Ai Nath, que texto lindo! Me deu uma saudade agora da minha city natal, em que morei até 92 (em outro estado).Era tão bom, parecidinho com o que vc falou aí.. o bairro era quase central, tinha de tudo, mas ao mesmo tempo era aconchegante, todos se conheciam, era tranquilo. Hoje quando volto lá já não tenho mais a mesma sensação, infelizmente. Mas as lembranças boas ficam. (Ah, e esse ano eu fui lá dar uma olhadinha como estava a escola que eu estudei da primeira à terceira série.. fui em janeiro, na maior cara de pau, e me deixaram entrar e matar a saudade hehehe)
    bjus

  2. 3 Andréia Brasil outubro 19, 2010 às 10:50 am

    Nossa, para mim, que sou de fora, é tão estranho saber que o Tatuapé é um bairro família assim. Estranho, mas soa bem, como um sopro de esperança. Obrigada por me mostrar esse outro lado da desvairada pauliceia, Nath.
    Um beijo

    • 4 nath outubro 19, 2010 às 12:27 pm

      de nada ;]
      sim, o tatuapé é super assim mesmo, tem até praça central com igreja como ponto de encontro, tipo cidade do interior (!)
      mas são paulo tem outros bairros meio assim também, afinal, são várias cidades dentro de uma, né? :)
      beijocas!


  1. 1 suburbano coração | drops de anis Trackback em março 4, 2013 às 3:01 pm

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