les adieux

Parece que foi ontem: eu estava carregando uma mala gigante que tinha surpreendido o moço do raio-x, acostumado com bolsas pequenas de quem faz bate-e-volta. “É que estou de mudança para lá”, eu lhe disse sorrindo. Ele sorriu de volta e me desejou boa sorte. Era uma quarta-feira de sol e hora do almoço, eu tinha levantado antes das 6h para pegar o trem. Cheguei em um lugar aonde não conhecia nada, tinha apenas um mapa na mão, um número de telefone e um senso de direção precário. 

Recebi ajuda de moços gentis no meio do caminho, para levantar a tal mala, sempre tão pesada, carregada de inutilidades para eventualidades – e um tanto de bagagem emocional, também. Mas cheguei. Ela me recebeu com um sorriso acolhedor, os raios de sol refletiam seus cabelos loiros e olhos profundamente azuis. Ela fez tudo para que eu me sentisse em casa.

No meio do caminho tivemos nossas diferenças, nunca é fácil dividir apartamento e intimidades com quem até ontem era um ilustre desconhecido. Mas contornamos com bastante jogo de cintura, generosidade e paciência. Viajamos de carro, ouvimos música alta, choramos nossos corações partidos, demos muita risada, nos divertimos, nos conhecemos. E nisso se passaram quase três meses.

Confesso que em muitas vezes eu não via a hora de ela ir, quando eu ficava realmente chateada com alguma coisa. Mas hoje, quando ela partiu para suas férias e nos despedimos, eu fiquei muito triste pensando em tudo que poderia ter feito melhor e não fiz, por infantilidade, egoísmo ou inexperiência. Ela chorou bastante, disse que adorou me ter aqui, e compartilhamos um abraço bom, de afeto, de promessas de nos vermos de novo, em qualquer lugar do mundo. 

Ela partiu, e eu ainda tenho mais duas semanas. E tudo que sobrou neste grande apartamento foi a sombra da garota que chegou aqui há quase três meses, achando que ia mudar o mundo, agora contando os dias para partir de novo. E um vazio. O vazio deixado por Amandine, e pela ausência que me atormenta. Sempre ela.


“(…) What we can’t do is live our lives always afraid of the next goodbye, because chances are: they’re not going to stop.”

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1 Response to “les adieux”


  1. 1 Lini julho 17, 2010 às 2:19 pm

    A vida é assim Nat, com beijos e chegadas, lágrimas e partidas, sempre.


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